1 - Mofo
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Talvez eu não deva espalhar essas informações, uma vez que não fui devidamente autorizada a integrá-la na minha pesquisa… Mas como conseguir a assinatura de uma pessoa morta? Mesmo que eu vá atrás da família… Bem, seria correr em círculos, não há mais ninguém próximo.

A Sra. Lu não era um ser extraordinário por si. Ela tinha gostos simples, maneiras simples, nunca poderia ser introduzida em uma sociedade de alto escalão. De fato, algumas vezes ela era um motivo de pena para mim, uma vez que nunca conseguia entender a graça em música clássica ou aproveitar uma daquelas refeições extravagantes que tentei lhe oferecer. Ela era uma viúva desinteressante.

Dito tudo isso, não há como negar a surpresa após seu falecimento. A causa de sua morte, assim como seu primeiro nome, não importa. Não importaria nem reluzentes em ouro, não após encontrar seus arquivos.

Quem observasse por trás dos óculos grossos, nunca veria a repente brilhante que morava sob a pele que começava a enrugar. Uma pesquisadora independente. Uma pessoa com tantas experiências não compartilhadas que moveu meu espírito para essa atual ação — provavelmente contra os procedimentos padrões — e, sem ao menos uma hesitação, para assumir qualquer risco necessário.

Nas próximas linhas, deixo redigido a primeira criatura que Sra. Lu encontrou assim que se mudou para a cidade ██████. Ela não é profissional de início e cogitei editar os primeiros capítulos para que dessem o tom certo, mas não considero apropriado mudar as palavras de ninguém, muito menos da Sra. Lu.


A minha animação talvez escape, não se importe, por favor. É apenas que… Eu não achava que os encontraria aqui!

Roberto não os notou. É claro que não notou! Ele não nota nem o gato no meio do caminho, como os notaria? Porém não vou deixar isso me perturbar, vamos falar sobre o que encontrei hoje!

Acho que explicar o contexto faz sentido aqui. A vizinha finalmente havia notado minha presença! Até mesmo me convidou para visitá-la e tomar um café. É o que as pessoas fazem nessa cidade: tomar café. Não existe chá e se existe é uma versão esquisita industrializada. Mas… ainda que essa bebida amarga me dê um bom desgosto, aceitei. Confesso, estava curiosa para saber como eram as pessoas que moravam ao lado.

Seu apartamento poderia ilustrar uma daquelas revistas de novela. Seu marido seria encontrado no carpete com uma faca nas costas e ela seria a mocinha (embora seria mais sua cara se fosse uma vilã secreta, com uma língua afiada e envolvimento com pessoas no poder. Sim, Pamela seria essa personagem). Sentar em seu sofá de couro me transportava para uma cena dentro da trama e por alguns momentos relaxei enquanto esperava o café, imaginando onde poderia me encaixar.

Não posso deixar meu arrependimento calado. Talvez devesse ter permanecido sentada, esperando o líquido amargo e qualquer coisa para comer… Mas é um reflexo. Deixo meu olhar escorregar para o canto, apenas observando, sem querer que aquilo notasse. Notei sua presença enquanto olhava as fotografias e tentei esquecer. Porém isso está longe de qualquer habilidade que tenho.

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Folha retirada do diário 3. Fala sobre os efeitos psicológicos e a forma de contenção, embora Sra. Lu não citasse isso diretamente.

Não havia levado nada para recolher aquilo (quem levaria?). Espero que Pamela não sinta falta da xícara ou de dois de seus talheres (acho que são de prata).


Sra. Lu chegou a escrever em seu diário pessoal (separado de qualquer material de valor para a pesquisa, acabou descartado), porém como ela manejou sua relação com sua vizinha não é de fato interessante para exposição.

Ela, assim como a maioria dos alheios ao mundo que vivemos, não notou o que fazia ou com o que lidava. E talvez esse fosse o modo mais adequado de viver em sua época e momento. É claro, não faria sentido colocar isso aqui se esse não fosse apenas o começo para Sra. Lu.

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