A Garota e a Vitória
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Um conto de SCP-119-PT

Estação Marítima Glória, XX/XX/2022:

Até agora, em toda minha carreira de capitão do porto, posso dizer que aquele foi um dos momentos que mais me marcou. Recebi no início daquela tarde a notificação que uma embarcação não autorizada e de procedência desconhecida estava se aproximando do porto e solicitando atracar. Eles diziam não pertencer a nenhum grupo ou facção específica, afirmavam que suas intenções eram pacíficas e que apenas desejavam mais combustível diesel. Assim que o navio estava quase no porto, eu saí do meu escritório, naquele tempo ensolarado e ventoso, e decidi ir receber a tripulação pessoalmente.

Era uma embarcação militar, eu não reconhecia sua classe de vista, mas pelo formato e aparatos tinha certeza que era uma corveta. A parte inferior do casco estava enferrujada e a lateral estava riscada; na parte frontal havia o que restava do emblema da Fundação SCP, o logo fora raspado do aço e quase não era mais visível. Próximo a esse havia escrito “V82” em letras brancas, mas eu conseguia perceber que o oito era na verdade um três, alguém adicionou mais duas curvas com tinta branca para (tentar) mudar o número. De qualquer forma, o navio não parecia ter entrado em combate.

Após lançarem a âncora ao mar e a embarcação ser devidamente amarrada, uma porta na lateral se abriu e dois homens uniformizados esticaram a prancha de embarque. O uniforme deles era todo na cor cinza-escuro, com exceção dos sapatos negros: uma boina, camiseta com mangas compridas e um par de calças grossas. Nenhuma peça de roupa estava amassada ou minimamente suja, nem respingos de água haviam, parecia que tudo tinha acabado de sair da lavanderia. Depois da prancha ficar devidamente estável, um deles a atravessou até pôr os pés no piso quente de concreto do porto. Fui até ele, mas antes de abrir a boca, ele disse:

— Você tem a autorização para embarcar, senhor. — numa voz monótona e robótica.

— Embarcar? — perguntei eu com uma expressão de confusão — Me desculpe, mas eu gostaria d-

— A comandante gostaria de se encontrar com o senhor dentro da embarcação. — disse o homem antes que eu pudesse completar minha frase.

Era uma grande falta de respeito pedir para algum oficial do porto embarcar assim, logo de cara, mas por dentro eu sentia curiosidade de ver do que se tratava aquele navio. Suspirei, olhei por cima dos ombros para os três oficiais subalternos que me acompanhavam e balancei minha mão, dando um sinal para me seguirem. Entrei andando com dois na minha frente e outro na minha retaguarda. Em caso de emergência, eu estava armado com uma pistola P320, guardada num coldre branco, atado ao cinto. Um membro da tripulação ficou de guarda em frente à prancha enquanto outros dois nos escoltavam escadas a cima, rumo à ponte de comando.

Em menos de um minuto chegamos ao nosso destino, e assim que atravessei aquela porta e olhei para o interior da ponte, pisquei os olhos algumas vezes e analisei direito tudo que estava a minha frente.

O chão era pintado de vermelho, a textura era lisa e nem um pouco áspera, ele também não estava sujo nem molhado. As paredes e o teto eram brancos, numa tonalidade mais próxima do bege, não haviam manchas ou irregularidades. As cadeiras que ficam em frente aos painéis de controle estavam forradas com um pano estampado, como um tapete, porém mais fino, e o timão estava brilhando de tão polido. Cinco tripulantes estavam no recinto, três guardando cada uma das três portas, incluindo a qual entrei, um sentado no final da sala operando alguns aparelhos da embarcação e um dos homens que nos trouxe até aqui, que permanecia na posição de sentido logo ao meu lado.

Mas as paredes e os demais não eram aquilo que realmente importava. No centro da ponte havia uma pequena plataforma com uma cadeira sobre ela, uma grande cadeira de aço levemente curvada, acolchoada com couro vermelho, ornamentada com prata e com sutis detalhes de ouro nos braços e pernas, possuía um arco dourado no topo do encosto e uma pedra de rubi no seu centro. Eu não sabia se a prata e o ouro eram de verdade ou apenas uma imitação, mas eu chutaria a primeira opção.

Na cadeira havia uma garota sentada com suas pernas cruzadas. Ela parecia ter mais de vinte anos, sua pele era branca, seus cabelos eram pretos e se estendiam até um pouco depois do ombro. Ela usava batom rosado e esmalte branco nas unhas das mãos. Vestia uma blusa branca com babados de mangas compridas, um par de calças cônicas pretas e calçava sapatos pretos mocassim. Sobre sua cabeça havia um quepe de capitão da marinha e em sua mão direita ela segurava uma longa piteira preta com um cigarro aceso na ponta.

A moça deu uma tragada e expeliu fumaça pela boca antes de virar a cabeça para mim. Ela descruzou as pernas, se levantou e desceu da plataforma. Virada com o corpo na minha direção, disse:

— Bem-vindos ao navio Vitória. — abrindo levemente os braços e esticando a ponta dos dedos.

Eu não sabia o que dizer, e meus oficiais ficaram em silêncio. Aquele lugar me dava um estranho sentimento de insegurança. Relutante, eu disse:

— Boa tarde capitã, eu sou o chefe da capitania desse porto.

— Eu sei, por isso pedi para que entrasse. — disse ela sorrindo.

— Como? — perguntei.

— Como? — ela apontou para a janela — Eu te vi em pé na plataforma logo antes de atracarmos. Eu deduzi que você é o capitão pela farda.

— É uma bela ponte de comando que você tem. — falou um dos meus oficiais.

— Obrigada pelo elogio, eu mesma a decorei. — disse ela.

Ela andou calmamente pela sala, foi até as janelas frontais e olhou através delas, em direção ao mar. A garota não era muito alta, mas sua postura era erguida e imponente. Balançando a ponta da piteira próxima de um cinzeiro, ela virou a cabeça na minha direção:

— Podemos marcar nossa reunião? Para discutirmos sobre os suprimentos que quero comprar.

— É claro. — afirmei — Mas qual foi a necessidade de nos trazer até aqui?

— Eu não queria que nosso primeiro contato fosse lá fora, debaixo daquele sol escaldante e do vento de arrancar chapeis. Aqui é mais agradável de se conversar, não acha?

Eu não sabia mais o que pensar, eu estava diante a uma menina que se dizia ser comandante de uma corveta, e ainda tinha esse tipo de atitude. Então olhei para um dos guardas na sala, ele estava com a coluna perfeitamente ereta e com as pernas juntas, peito estufado e cabeça reta, a postura de um bom marinheiro. Porém seus olhos estavam retos, suas pupilas focavam num ponto invisível a sua frente e não desviavam dele, se ele piscou duas vezes em três minutos, foi muito.

Olhei mais atentamente e vi uma cicatriz em seu pescoço, parecia que parte da pele tinha sido arrancada e então regenerada naturalmente; ele também tinha uma cicatriz na sua mão direita, eram quatro rasgos, como se algo ou alguém o tivesse arranhado a ponto de criar uma ferida profunda. Eu não tinha percebido antes por causa do forte sol lá fora, mas agora vejo que todos os tripulantes que conheci, além de agirem feito robô, possuíam algum tipo de ferida ou cicatriz. Esse navio parecia um museu de cera, alguma espécie de atração, e eu era o visitante.

— Eu reservei uma sala de reuniões para nós, e lá poderemos conversar a respeito. — disse eu olhando nos olhos da garota.

Ela aspirou um pouco de fumo, soltou a fumaça e acenou com a cabeça.

— Ótimo! — respondeu com um sorriso largo e estranhamente desconfortante.


Chamei meu adjunto para participar da reunião, ele me auxiliaria na parte mais técnica do acordo. Cerca de uma hora e meia desde o nosso primeiro encontro, nós, eu, meu assistente, a garota e um dos oficias de sua tripulação, nos sentamos em volta de uma larga mesa de madeira. Estávamos em uma sala localizada no quarto andar de um dos prédios administrativos nas dependências do Porto, ligeiramente próximo de onde Vitória estava atracado. Eu estava próximo à janela e ela próxima à porta, cada um com seus respectivos acompanhantes sentados ao seu lado direito. Nenhum de nós estávamos usando quepe ou boina e ela continuava com sua piteira em mãos. Dei início à reunião:

— A mensagem enviada pela sua tripulação através de rádio, antes da atracagem da embarcação, afirmava que vocês não possuem afiliação com grupo algum e que sua presença aqui tem como objetivo reabastecer a embarcação. Correto?

— Hmmmmm… Não. — respondeu ela. — Viemos aqui não somente para reabastecer, mas para comprar suprimentos.

— Que espécie de suprimentos? — perguntei.

O oficial ao lado da moça pôs uma pequena pilha de papéis grampeados no centro da mesa. Meu adjunto a pegou e começamos a ler. Era uma lista, o primeiro item era combustível diesel, porém a quantidade requerida era quase o dobro da suportada pelo tanque de uma corveta como aquela. Os outros itens subsequentes eram coisas como alimentos, produtos de higiene pessoal, produtos de limpeza, roupas, curativos, tinta, entre outros, todos em grandes quantidades.

Meu ajudante tirou um tablet da sua mochila e começou a verificar se tínhamos todos aqueles itens disponíveis. Enquanto isso, disse:

— Isso é uma lista muito grande para uma embarcação desse tamanho, parece até que desejam revender isso em outro lugar.

— É apenas para nos precaver, não queremos ficar à deriva sem os recursos necessários para continuar viagem. — respondeu ela, me encarando com aqueles olhos azuis.

Eu não sabia de nenhuma tripulação que sucumbiu por falta de sabão em pó ou por falta de chá.

— Senhora, mesmo que tivéssemos tal quantidade de suprimentos, eu não poderia fornecê-los a uma embarcação na qual eu não sei nem a procedência, nem o objetivo, principalmente a uma embarcação militar. — disse gesticulando a mão direita — antes de realizarmos qualquer acordo eu preciso saber quem são vocês.

Ela colocou a mão esquerda no queixo e olhou para a parede em silêncio, seu assistente permaneceu calado e imóvel, como todo mundo daquela tripulação. Decidi abrir a boca novamente:

— Vocês são da Fundação SCP? São parte da marinha de algum país específico? — disse enquanto olhava para os dois a minha frente. — Piratas Laurencianos?

Aquele silêncio era agoniante, porém ele foi quebrado da pior maneira possível. Um alto estrondo veio da porta, quebrando a tranca e fazendo-a abrir com força. Um homem vestindo casaco preto e usando chapéu coco entrou na sala segurando uma pistola reluzente na mão.

— Ninguém se mexe! — disse ele apontando a arma para nós.

Ninguém arriscou se mover ou responder, todos permaneceram imóveis, com a cabeça virada para o sujeito. O homem de preto olhou para a garota e um sorriso macabro se estampou em seu rosto.

— Finalmente te achamos, sua aberração. — disse ele andando lentamente na direção dela, segurando a pistola firmemente, com o cano alinhado e com o dedo encostando no gatilho.

O oficial ao lado da moça se levantou bruscamente, botou a mão direita no coldre atado a seu cinto e puxou uma Glock. Mas o homem de preto foi mais rápido e puxou o gatilho, dando-lhe um tiro no peito. Fechei o punho e serrei os dentes, dava vontade de levantar e atirar também.

Mesmo baleado, com um furo no pulmão, ele esticou seu braço direito para frente, mirou e atirou. O projetil perfurou a testa do sujeito com chapéu, e ambos caíram no chão. A garota levantou abruptamente, deixando sua piteira cair, e andou para trás, se afastando dos dois corpos. Eu e meu adjunto também nos levantamos, puxei minha pistola do coldre e dei a volta na mesa.

— Mas que merda… — resmunguei enquanto sentia o pulso dos dois, ambos estavam mortos — esse tipo de gente não trabalha sozinha, devem ter mais de onde esse veio.

Eu já ia andar até a porta quando ouvi vários estalos vindo de fora. Eu me virei e fui correndo até a janela. Me encostei no vidro, e lá embaixo vi mais de meia dúzia de homens vestindo preto entrando no prédio. Olhei para a direita e, no fundo, vi três indivíduos, também de preto, abrindo fogo contra dois tripulantes que estavam no interior da corveta, tentando recolher a prancha de embarque às pressas. No topo do mesmo navio, havia um marinheiro portando um fuzil, revidando fogo. Vários funcionários no porto corriam para arrumar abrigo em meio ao tiroteio.

— Eles devem ter ouvido os dois disparos e pensaram que a ação já havia começado. — disse o adjunto olhando através da janela junto a mim — Nós precisamos nos esconder.

— Não. — falei num tom rígido — Há muitos homens entrando no edifício, ficar nessa sala nos sentenciará a morte.

Retirei o rádio da minha cintura, liguei o aparelho e disse através dele:

— Aqui é o capitão, há um grupo terrorista invadindo o edifício administrativo da ala leste. Requisito reforço imediatamente, câmbio final.

Atei o aparelho novamente ao cinto enquanto andava até a porta escancarada. Coloquei a cabeça para fora e olhei pro final do corredor, não havia ninguém.

— O corredor está vazio, pelo menos por enquanto. Vocês, me sigam, — disse olhando para dentro da sala — iremos descer as escadas dos fundos do prédio.

A garota se abaixou e pegou a Glock ali caída e meu adjunto sacou sua própria arma. Ambos começaram a andar até mim. Quando fui dar o primeiro passo para fora da sala, avistei algo no fundo do corredor, na direção das escadas que ligavam à frente do prédio. Recuei o mais rápido que pude.

— Façam silêncio — sussurrei para os dois.

Encostei a orelha na parede próxima à porta e escutei com atenção: eram passos. Alguém tinha chegado ao andar e estava caminhando para cá. Meu corpo ficou gelado, eu estava nervoso, dois corpos estavam caídos no chão a menos de três metros de mim e eu segurava uma pistola que só usei num estande de tiro. Olhei de canto de olho para a garota e para meu assistente, eles também estavam imobilizados, também amedrontados.

Respirei bem fundo e soltei o ar pela boca, deslizei o corpo pela parede e botei o mínimo possível do meu olho para fora. Visualizei o que era, um homem vestindo casaco preto, felizmente ele não estava olhando nessa direção. “É agora”, pensei. Dei um passo para frente, sem me importar se eu estava sendo silencioso ou não, botei metade do meu corpo para fora da sala, estiquei o braço que segurava a pistola e mirei. O homem virou para mim, consegui visualizar sua expressão de surpresa.

Atirei com minha P320 nova em folha, o tiro atingiu o ombro, eu ouvi perfeitamente o berro de dor. Puxei o gatilho de novo, dessa vez atingiu o peito, logo abaixo do pescoço. O corpo do homem amoleceu e ele caiu no chão. Meu coração parecia que ia sair pela boca, eu engoli seco e pensei no que fiz, acabei de matar alguém. Olhei para o chão e vi uma arma de mão que ele deixou cair, definitivamente era um dos caras maus, mas isso não mudava o fato que tirei uma vida.

Botei os dois pés no corredor e comecei a andar para a direção oposta, a escada dos fundos ficava para lá. Não falei uma única palavra, não foi necessário, os dois já sabiam o que fazer. Andamos juntos, o adjunto ao meu lado e a moça atrás de mim. Meus passos estavam pesados e minha mão segurava a arma com força o suficiente para fazer doer a musculatura. Viramos a esquina, nosso objetivo estava na nossa frente.

Eu abri aquela porta enferrujada, toda suja e empoeirada. As escadas eram em formato de U, não eram ao ar livre, a iluminação era horrível, as lâmpadas eram fracas e algumas estavam apagadas, e os corrimões estavam depredados. Mas era o que tínhamos agora.

Olhei para trás para ver se ambos estavam comigo, e atravessei a porta junto com eles. Descemos o primeiro lance de escadas, nossos passos altos ecoavam nas paredes, era agoniante, descemos o segundo e ao chegar no terceiro notei, com o canto do meu olho, uma breve silhueta surgindo da esquina. Observei direito e ali estava um homem de chapéu, segurando uma arma, apontada para frente.

Meu corpo congelou, minha mão estava abaixada, não daria tempo de levantar o braço. Eu senti que o tempo parou, parecia que eu estava olhando para o rosto daquele indivíduo por minutos, um rosto branco, com barba feita e cabelos castanhos, até que ele me olhou nos olhos, mordeu os lábios e apontou sua pistola.

No segundo seguinte, ouvi um alto estalo vindo da minha esquerda, botei a mão na orelha por reflexo, meu ouvido zumbia. Olhei naquela direção e vi meu colega, com os braços retos para frente e as mãos segurando uma P9. Apoiei todo meu peso no corrimão e virei a cabeça para a direita, o homem já estava no chão. Fechei os olhos com força, puxei bastante ar pela boca, e os abri novamente. Sangue escuro escorria lentamente escada abaixo e o indivíduo permaneceu com os olhos abertos e olhando reto, mais um cadáver à minha frente.

Houve alguns segundos de silêncio e o barulho da arma continuava ecoando no meu ouvido. Ofegante devido ao nervosismo, dirigi meu olhar à garota. Seu corpo estava curvado e seus braços ligeiramente encolhidos, ela tentava disfarçar, mas eu conseguia ver suas mãos tremendo enquanto seguravam aquela pistola da maneira errada.

— Eles estão vindo por aqui também. — disse meu adjunto — O prédio está cercado.

Ele estava certo, não havia como sair daqui vivo, tínhamos que esperar por ajuda. Cinco disparos já haviam sido efetuados, era óbvio que mais alguém viria atrás de nós. Não era o que eu queria desde o início, porém eu não pensei em mais nada naquele momento.

— Nós subiremos até o último andar e nos esconderemos lá. — falei enquanto me desapoiava do corrimão — eu já notifiquei os outros através do rádio, devem chegar aqui em menos de quinze minutos.

Eles acenaram com a cabeça e então abandonamos o corpo para trás. Parecia que eu carregava uma mochila de trinta quilos comigo, eu já fui mais treinado, mas depois de tudo que aconteceu nos últimos anos, depois de me mudar para cá, a vida não foi mais a mesma que era em terra firme.

Perdi a conta de quantos lances de escada subimos, ninguém se importava mais. Quando eu abri a porta de metal, eu vi todas as luzes apagadas e a única iluminação vinha das janelas no interior das salas. Ninguém havia chegado aqui, ainda. Andei pelos corredores escuros e abri uma porta aleatória, longe das escadas. A sala não possuía uma mesa grande de madeira, como a nossa no outro andar, mas várias pequenas mesas enfileiradas, que se esticavam até o fundo, cada uma com uma cadeira.

— Adjunto, feche as cortinas, eu vou travar a porta. — disse após pegar uma cadeira — Garota, se esconda atrás de uma das mesas do fundo.

Ambos seguiram minhas ordens imediatamente. Encaixei o encosto da cadeira abaixo da maçaneta e empurrei as pernas dela para que ficasse presa, o atrito com o chão seria o suficiente para impedir a porta de abrir. Meu colega já havia fechado as cortinas, assim que acabei minha tarefa, a garota já estava escondida. Decidimos fazer o mesmo, fomos até o fundo da sala e cada um grudou as costas na base de uma mesa. Estávamos separados, mas conseguíamos nos ver.

Olhei para a garota, sua arma estava no chão e ela abraçava as pernas com força enquanto repousava seu rosto nos joelhos. Reparei que a maquiagem embaixo de um de seus olhos estava borrada e que sua respiração estava pesada. As memórias com a P320 voltaram a minha mente, os dois tiros que acertaram um homem que eu nem sabia o nome ou de onde tinha vindo. Eu rezava para aquele dia acabar o mais rápido possível.

Minutos se passaram, não me lembro quantos, minha cabeça estava girando até um pequeno som chamar minha atenção, era uma porta se fechando, e no mesmo andar que estávamos. Prendi a respiração por instinto e me concentrei, eu ouvia passos, parecia que a pessoa estava usando botas de tão alto que o som era. O barulho se distanciou e sumiu momentaneamente, até se aproximar de novo e outra porta se fechar.

Eu estava quase no meu limite, eu não aguentava mais toda aquela pressão. Peguei minha arma e a segurei bem firme, eu iria atirar assim que alguém entrasse, não importava quem fosse. Os passos chegaram até a porta; eu sentia meu coração no meu peito, parecia um tambor.

Foi então que uma luz acendeu no meu cinto e alguém do lado de fora da sala disse:

— Capitão, o prédio está limpo, onde você está? Câmbio.

A mesma voz veio do meu rádio:

Capitão, o prédio está limpo, onde você está? Câmbio.

Meu corpo amoleceu e soltei todo o ar dos pulmões, peguei meu aparelho de rádio, apertei o botão, me levantei e enquanto caminhava para a saída eu disse:

— Vá até à porta da sala que você está próximo, câmbio.

Agarrei a cadeira com minha mão esquerda e a desencostei da porta, girei a maçaneta e olhei para fora. Lá estava um jovem fardado, segurando um fuzil e usando um capacete.

— Você chegou tarde, garoto, câmbio final.


Depois de sermos escoltados para fora do prédio, passei na enfermaria para analisarem meu ouvido esquerdo, que continuava dolorido. Além de darem alguns calmantes e pílulas para pressão alta, me receitaram descansar o resto do dia, porém eu ainda tinha algumas coisas para fazer.

Enviei a embarcação Vitória para a área de ancoragem para reparos, o casco tinha uma dúzia de buracos de bala. Também disponibilizei um dormitório nas dependências do porto para sua tripulação, e reservei um aposento para a capitã. Garanti de deixar pelo menos um guarda próximo à porta a todos os momentos, apenas por precaução. Notifiquei pessoalmente a meu adjunto que ele receberia um aumento salarial, era o mínimo que ele merecia depois do que fez.

No dia seguinte eu me encontrei novamente com a moça, dessa vez sozinho, para discutir sobre os suprimentos requisitados. A reunião foi no próprio aposento dela, com dois guardas no lado de fora, porém antes de assinarmos o contrato, eu precisei retomar o assunto:

— Por favor, me diga, quem realmente são vocês? Qual é seu nome?

— Eu não tenho nome, — disse ela — perdi ele faz anos, logo depois que fui presa.

— Presa? — disse com uma expressão de dúvida.

Ela não respondeu e houveram alguns segundos de silêncio.

— Fundação SCP, correto? — perguntei enquanto me inclinava um pouco para trás.

— Me capturaram faz quase dez anos… me submeteram a vários testes, e de diversos tipos. Desde testes de QI até a testes para "manifestar minha anomalia". Eu sempre os odiei e sabotava a Fundação sempre que tinha chance. Organizei alguns planos de quebra de contenção, todos falharam, mas foi o suficiente para me classificarem como algo perigoso.

Ela fez uma pequena pausa, como se não estivesse gostando muito da conversa, como se estivesse sendo obrigada a falar. Continuou:

— Se não fossem aquelas plantas eu ainda estaria lá, bebendo chá preto artificial e sentando em móveis de plástico que imitavam madeira. Eles pensavam que me enganavam mas eu sou mais inteligente que isso. — ela respirou fundo — A vida no mar me trouxe esperanças de viver de verdade. Tudo que eu tinha antes foi destruído, então comecei o zero.

Eu nunca tinha visto com meus próprios olhos alguém, ou algo, que escapou da Fundação SCP; eles são uma organização bem rígida quanto a contenção. Eu nem consigo imaginar como essa jovem chegou até aqui.

— Quem eram aqueles homens atrás de você? O primeiro que nós encontramos claramente te conhecia.

— Algum grupo minoritário querendo minha cabeça. Devem ter identificado meu navio antes de eu chegar aqui. Não tenho certeza quem eram.

— E para onde você e sua tripulação estão indo? Se estão comprando tanto diesel, deve ser um lugar bem distante.

Ela hesitou por um momento, mas voltou à conversa.

— Capitão, já ouviu falar do Puerto de Plata? Ou Porto da Prata, caso prefira o nome em português.

Eu revirei os olhos, pensei ter ouvido esse nome em algum lugar, mas nada me veio à mente.

— Creio que não. — respondi.

— O Porto da Prata é uma grande cidade flutuante clandestina, foi criado contra ordens do governo e da ONU. Fica em águas internacionais, porém muito próximo da Argentina, daí o nome. O porto tem um apelido, ou um nome secundário: A Cidade da Liberdade.

A moça parou de falar, olhou para a parede do aposento por alguns segundos, então voltou a olhar para mim e continuou:

— O Porto da Prata é controlado por um grupo local, nenhum governo encosta lá, nenhuma facção possui poder lá, as pessoas vivem a vida por elas. Não se importam quem você seja ou por que você mora lá, se seu passado é negro ou se você é um santo, desde que você não quebre as flexíveis leis, nada o trancafiará.

Eu fechei os olhos, as peças que faltavam do quebra-cabeça finalmente se encaixaram na minha mente.

— Porém eu me sinto obrigada a responder sua pergunta anterior. — disse a garota — Eu recebi um apelido no passado, não é um nome, mas desse jeito você poderá se referir a mim quando precisar.

Assinamos o contrato e no fim da tarde do mesmo dia, Vitória estava partindo, com o tanque cheio e todos os suprimentos em seu interior. A moça estava no convés do navio, observando a mim, a meu adjunto e aos marinheiros que desamarravam a embarcação. Os motores deram partida, ela me olhou e balançou o braço esquerdo no ar, me dando um adeus, com um sorriso honesto e amigável no rosto. Eu retribuí o aceno e também dei um sorriso.

E foi assim que eu conheci a Garota Pomposa.

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