Um Buraco em Marte
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A cratera de Nova Houston é tão grande quanto a cidade que ela existe no lugar de e é mais profunda do que qualquer outra cratera na superfície marciana. É impossível de ver o fundo — mesmo com o meio-dia se aproximando as sombras lá dentro ainda mascaram o interior. Agente Alessio Calabrese está a vários metros da borda, no ponto em que as dunas ocidentais entram em seu gradiente de poeira a arbustos a árvores, terminando em florestas ao leste. Ele olha para dentro. O pouco que ele pode ver das paredes é completamente suave, como se a cidade tivesse sido cortada do planeta e levada embora.

"O dia inteiro pareceu, estranho, sabe," disse Gareth Traves, de pé próximo a Alessio enquanto tentava ignorar a completa falta da cidade. Ele é um homem atarracado com barba desgrenhada que gastou muito de sua vida trabalhando nas minas de ferro, e ele é um dos poucos moradores de Nova Houston que estavam fora da cidade quando ela desapareceu.

"Como assim?" Alessio pergunta, continuando a absorver todo o tamanho da cratera.

"Era como se eu estivesse… Esperando, por algo que eu não sabia sobre."

"Tinha mais algo em sua vida que você poderia estar nervoso sobre?"

"Nada. Não era só eu, também. Todo mundo na mina sentia o mesmo. Nós todos tínhamos aquela cara em nossos rostos, sabe, o pouco de preocupação. Tentamos conversar sobre isso mas ninguém conseguia adivinhar. Como se nós estivéssemos todos esperando por algo que ninguém estava preparado para. Algumas pessoas ignoraram isso mas não, você tem que confiar essas sensações, sabe?"

Alessio acena levemente com a cabeça.

"Então eu fiquei no turno da noite. E então parei de sentir isso na hora… Na hora…"

"Na hora em que a cratera apareceu?"

"Na hora em que a cratera apareceu."

A única razão pela qual consideram isto uma cratera, em vez de algum tipo de buraco demente, é o objeto não identificado que abriu uma trilha ofuscante no céu e explodiu sobre os mercados do centro da cidade à meia-noite. Exatamente um minuto depois todas as comunicações da cidade foram cortadas. Durante este periodo as poucas comunicações de AresNet da população eram todas de choque confuso sobre se aquilo era apenas lixo espacial que atingiu eles ou, no pior cenário, um míssil. O buraco deixado para trás foi encontrado uma hora depois, quando um caminhão transportador quase passou pelo final da estrada e caiu lá. O motorista chamou as equipes de emergência e a Fundação entrou.

Mesmo que se eles assumissem que isso fosse um impacto de "meteoro", o que caralhos ele fez?

Gareth cruza seus braços e bate seu pé. "Sabe, eu não sei sobre você, mas eu tenho a sensação de que foram os Marcianos que fizeram isso."

"Os Marcianos."

"Aqueles trípedes sempre estiveram aprontando algo, estou te falando. Eles querem ter o planeta deles de volta e eles vão— estou te falando, eles vão fazer mais dessas crateras até nós não termos mais nada."

"Você realmente acredita que eles tenham a tecnologia necessária para fazer isso? Acha que armas que poderiam fazer isso sobreviveram a guerra deles? E o reset?"

"Bem, talvez não os Marcianos, mas os cones. Os cones poderiam ter feito isso."

Alessio levanta uma sobrancelha. "Cones?"

"Os cones, aqueles trecos artrópodes com todos os tumores. Eles estão se escondendo o suficiente nas sombras para eles estarem aprontando algo." Os olhos de Gareth continuam rastreando formas invisíveis, como se ele estivesse esperando por uma prova para uma grande conspiração emergir diante dele a qualquer segundo. "Oh! Um dos meus camaradas em Nova Houston disse que ele viu um deles na floresta noite passada, e um cara que ouvi sobre na Luna Coreia jura que algo tipo eles existe na… Na… onde era isso…"

"Posso fazer um pedido, meu amigo?"

A rápida teorização para. "O quê?"

"Pessoas vão falar um monte de coisas para conseguir atenção. Não acredite em toda lenda urbana que ouvir."

Alessio vai embora e espera que a conversa acabe naquilo. É muito cedo para amnesticizar alguém.

Burburinhos baixos. Mais caminhões da Fundação saem da floresta, carregando suas cargas de scanners, mastros de uplink de satélite, módulos de habitação de funcionários, e, no caso de tudo dar errado, um cilindro massivo de uma Âncora da Realidade Scranton. Ao redor da cratera emergem postos avançados de monitoramento de eletrônicos cúbicos e volumosos, com pesquisadores correndo entre eles e os caminhões para pegar mais equipamentos. Parece que um sítio de contenção está crescendo diante de seus olhos.

Ele anda pela areia para o posto mais próximo dele. Debaixo de uma pequena tenda Pesquisadora Marika Pentti desdobra os painéis solares de um futuro gerador elétrico reserva, mal notando Alessio entrar.

Ela pula ao ouvir seus passos. "Algo dele?" Marika é apenas algumas polegadas mais alta que Alessio é e seu cabelo não foi lavado em uma semana, provavelmente do tanto de trabalho de laboratório que ela tem estado presa em. É improvável que ela terá algum tempo em breve agora que Nova Houston se foi, também.

"Não. Ele não sabe de nada assim como todo mundo que entrevistamos. O único assunto comum é um pavor furtivo antes do evento."

"Droga. Segure isso para mim." Ela joga uma unidade de resfriamento de nitrogênio líquido em suas mãos enquanto ela muda seu foco dos painéis para uma tela de computador de um imageador de ressonância etérica. "O melhor progresso que obtivemos foram as leituras de satélite de quando isso aconteceu. Uma onda massiva de Radiação de Aspecto do ponto quando o meteoro veio. Como se uma arma taumonuclear tivesse explodido. Obrigada." Ela pega a unidade de resfriamento de suas mãos e coloca em um slot no chassi do imageador, fechando a tampa do slot.

"…Você acredita que uma bomba taumonuclear explodiu?"

"Não. Nenhuma precipitação nuclear. Mas tinha força comparável."

"Então era mágica em natureza."

"Pelo menos até certo grau. O problema é que…" Um momento de pausa enquanto ela se concentra em ajustar os números no imageador para as configurações precisas. "O problema é que encontramos mais nada. Nenhuma radiação Eletromagnética, nenhuma esquisitice de Hume, absolutamente nada que possamos detectar. Além do quão mal ajustadas suas roupas são para o maldito interior Marciano."

Alessio franze a testa e puxa as mangas da camisa. "Isso é a roupa padrão. Designada para este terreno, também."

"Aindaaaa estúpido. Ok, feito."

Uma última alavanca é puxada e o imageador se liga. Seu sensor principal, um conjunto de pequenas câmeras de olho de inseto tão grandes quanto Marika é alta, começa a receber todas as partículas taumicas emitidas da área ao redor, demonstrada como um mapa térmico na tela de computador. Nada da cratera é detectado.

"Afim de ajudar empurrar isso e os painéis lá pra fora?"

"Bem, você causou trauma emocional severo insultando minhas roupas…" Ele sorri. "Mas sim, eu posso ajudar."

Ao redor deles a Fundação continua aparecendo.

* * *

Meio-dia chega e a cratera permanece um abismo. As sombras não foram embora quando a luz do sol entrou, elas apenas fluíram por cima para manter o fundo obscurecido. Alessio morde seu sanduíche do almoço assistindo a luz verde refletida de lasers de escaneamento passando pelas paredes da cratera. O momento em que eles encostam nas sombras as luzes desaparecem.

"A melhor aposta é a de que isso é ou uma barreira visual ou de luz visível." O rosto de Marika está praticamente na tela de seu laptop, pegando todos os dados novos no momento em que eles chegam.

"Talvez ambos?" Alessio diz.

"Talvez ambos… Oh. Isso é estranho."

Para facilitar a vida dele, ela projeta o modelo de computador de sua tela em um holograma — uma renderização semelhante a um anel da porção visível da cratera.

"Se os scanners estão dando as informações corretas sobre esta estrutura, talvez ela seja… menos parecida com uma cratera do que o esperado." O teclado clica e a renderização se estende para baixo, paredes se inclinando para um ponto central.

"Um cone?"

"Sim. Aproximadamente 10 quilômetros de profundidade."

Alessio fica parado, tentando entender as implicações. Assumindo que isso não era uma cratera de impacto, o quê ela estava cada vez mais se tornando mais improvável de ser, e ignorando a possibilidade da cidade inteira e seu pedaço de terra desaparecendo da existência, então havia a possibilidade do solo perder sua coesão, fazendo com que a cidade afundasse em uma rampa cada vez mais estreita enquanto era esmagada sobre si mesma. Tentando levar em conta as sombras enigmáticas apenas levava as teorias para caminhos mais obscuros.

Seu walkie-talkie vibra.

« Aqui é Agente Lovell. Volte para a base agora, a mídia percebeu e nós precisamos do máximo de pessoas lidando com a situação o possível. »

"Eles descobriram?" As conversas sobrepostas de uma multidão próxima entra em foco.

« Sim. E eu recomendaria que você começasse a pensar em histórias de acobertamento agora. »

"Certo, entendido."

Jogando sua refeição meio comida em sua bolsa, ele diz um adeus breve a Marika antes de sair — dependendo do quão absorvida ela estiver ela talvez nem tenha percebido. Enquanto ele corre para o perímetro da Fundação ao redor da área, ele fica perturbado com como seus pensamentos únicos sobre Nova Houston são de como ele está feliz de que não foi um lugar importante que foi perdido.

* * *

O sol já percorreu metade de seu caminho para baixo e o horizonte é de chamas alaranjadas. O sítio de contenção provisório desacelera seu crescimento pelo dia, tendo formado com sucesso um anel de estações de pesquisa e de postos de segurança ao redor da cratera. Os Agentes conduzem os moradores de Nova Houston apesar de seus protestos, providenciando a eles promessas vazias de como eles serão informados sobre quaisquer atualizações na anomalia para acalmar seus nervos — a situação está além deles agora. Alessio sai do escritório provisório, tendo despedido-se dos civis, e respira profundamente o ar frio de Marte.

É nesse momento em que ele e todo mundo ouve as sirenes.

Elas são gritos discordantes, como uma orquestra desafinada de trombetas e zumbidos. De inicio ela soa de todos os lugares ao redor deles, apagando qualquer outro som, mas após vários segundos de seu barulho ela estreita sua origem, primeiro da cratera e então de algum lugar no fundo dela. Tremores sacodem o chão.

Alessio procura pelo walkie-talkie. "O quê caralhos está acontecendo?" Ele vê Marika correndo de seu posto para o escritório provisório.

« Nós não sabemos, » diz Lovell. « Eu recomendaria sair de perto do… » A voz se transforma em ruído branco.

Medindo a distância entre ele e todos os abrigos próximos, Alessio se vira, correndo para a porta do escritório, passando seu cartão-chave pelo scanner e entrando. A porta se fecha. Nenhum funcionário está nesse andar, cada cubículo desocupado. Do topo das escadas vem fala silenciosa. Ele rapidamente sobe as escadas para o Andar 2, onde pesquisadores dão olhadas nervosas pela janela enquanto se escondendo sob elas, ele então sobe as escadas novamente até uma escada para o topo da Torre de Observação 3. Marika e vários outros se aglomeram ao redor do mesmo terminal de computador. Agente Vivian Lovell continua assistindo a cratera através das janelas amplas da torre.

« Eles estão todos em silêncio. Todos eles, » diz um rádio. « Até Traves parou de falar »

"Olá, Lovell?"

"Eles estão fazendo mais algo?" ele disse, ainda focando na cratera.

« Apenas… Olhando para… Espera. Um deles está zumbindo agora. »

"Zumbindo?"

"Lovell?"

« Soa exatamente como… » Ruído branco e então silêncio de rádio.

"Lovell."

"Oh, sim Calabrese." Eles olham para Alessio, acenam com a cabeça, e então se viram de volta para a janela. "Bom saber que você conseguiu entrar."

"Por acaso alguém sabe o que está acontecendo lá fora?"

"Não. Mas pareceu seguro mandar todo… mundo… entrar, no entanto…" Seus olhos são atraídos por algo.

Inclinando-se para frente, Alessio olha para a paisagem, o perímetro da Fundação, a cratera, procurando por qualquer coisa que chamaria a atenção de Lovell. Atrás deles, a multidão de pesquisadores ao redor do terminal fica em silêncio.

"O que é?"

"…"

Ele vê. As areias com cor de ferrugem. Linhas emergem nelas, como se os dedos de uma mão invisível estivessem se arrastando por elas. E como se a mão empurrasse sua palma para baixo, três impressões de uma mão de seis dedos emergem. As impressões se movem e deixam trilhas fractais, expandindo em tamanho para preencher o espaço completo entre as construções da Fundação e a borda da cratera, dedos torcendo para individualmente "alcançar" cada posto antes de moverem para o próximo e para os depois deles. A poeira vira vidro e pisca os olhos de cristal para os espectadores na torre.

As sirenes tocam novamente. O vidro e as impressões são soprados em torrentes de ventos do centro da cratera, espalhando equipamentos dos postos e mergulhando os edifícios em pó de ferro vermelho. O quê Alessio vê como a ausência de um corpo retrai para o poço, desaparecendo.

Eles estão ambos em silêncio. Marika toca no ombro de Alessio e o chama para o terminal. Empurrando a multidão pro lado, ele vê o mapa térmico etérico da cratera no monitor do computador. Algo estava na cratera. Algo com uma cabeça com o formato de uma pirâmide, um corpo cegante branco com intensidade incomparável a qualquer outra fonte de energia taumica detectada pelos imageadores, arrastando um emaranhado de três braços para as profundezas do poço. Algo que entra nas sombras da cratera e cai do mapa térmico.

As sirenes se silenciam. Alessio jurava que ele ouviu uma voz dizendo "Não é nada, apenas espectadores." enquanto a última trombeta vai do sussurro ao silêncio.


Anoitecer. Por quilômetros ao redor o sítio de contenção provisório é a única fonte de luz nesta parte do interior Marciano, ainda assim mais fraca do que as movimentadas cidades distantes. A cratera permanece um breu.

Drones se levantam das bordas e se organizam em formações de triangulo sobre o poço, circulando em círculos como um teste para se certificar de que seus rotores ainda estão funcionais. Cada um dispara um laser — com a intenção de detectar quaisquer distorções espaciais em potencial — um no outro, as lentes de câmera se focam, e os rádios emitem uma mensagem confirmando que todo o equipamento está operacional. Unidades de rastreamento STALKER completam a inicialização da triangulação psiônica enquanto gravações de dados laranja fluem pelos terminais de computadores diante dos olhos dos pesquisadores. Eles estão prontos para descer.

Em sincronia, os drones descem, passando da borda e ligando suas luzes para iluminar a parede da cratera. De inicio o interior parece idêntico às imagens dele dos postos nas bordas, até lasers de escaneamento perceberem uma irregularidade. As paredes não têm a inclinação progressiva para dentro observada anteriormente. Os postos iniciam seus scanners novamente. Mesmo resultado: cônico quando visto de fora, queda cilíndrica reta quando vista de dentro. As alterações espaciais são anotadas e os drones continuam.

Na marca de dois quilômetros, entram as sombras que continuavam obscurecendo o fundo. A escuridão forma um oceano escuro abaixo dos drones, que oscila e se sopra ao redor do rotores conforme eles se aproximam. Um braço mecânico se estende do Drone 3, passando da superfície das sombras, descobrindo que abaixo só há mais espaço vazio. Eles vão mais fundo. A estática inunda o rádio e depois diminui. Abaixo das sombras há mais do mesmo, com nenhum fundo em vista.

Eles vão mais fundo, e fundo, e fundo, percebendo nenhuma mudança em estrutura, visualizando nenhum sinal de Nova Houston ou qualquer remanescente dela. Os drones saem de formação. Nenhuma ordem foi enviada para mudar de posição e mesmo assim isto aconteceu em segundos. Os lasers que eles dispararam em cada um ainda estão sendo detectados exatamente como antes, apesar das gravações das câmeras mostrarem metros de deslocamento entre eles. As paredes perdem a textura áspera da terra marciana e suavizam. Luzes como pixeis quebrados piscam no escuro.

A realidade falha. Zig-zags de espasmos de luz fluorescente saem dos pixeis quebrados e os drones mudam instantaneamente para formação linear horizontal. Fragmentos de energia chovem de cima e eles mudam para formação linear vertical, então de volta para horizontal, então para formação quadrada, com um quarto drone surgindo do nada e então desaparecendo do nada. As paredes da cratera mudam o tom da ferrugem para vermelho brilhante. Elas sacodem como braços invisíveis, puxando-os em direções opostas.

CRUNCH. As paredes batem nos rotores do Drone 1. O drone é lançado por um buraco de azul para outro túnel, e outro, e mais conforme os túneis ramificam-se em um fractal luminoso que leva a lugar nenhum. Uma mão de seis dedos desce e corta a máquina em pedaços microscópicos com a simples força de sua presença.

Drone 3 fica cego; muitas íris bloqueiam as visões de suas câmeras. Plasma de temperatura planck dispara das córneas e a gravação termina.

Drone 2 sobrevive, por um momento. As paredes se desprendem do resto da cratera em um cilindro oco, diminuindo para um anel e diminuindo para faíscas em um abismo estrelado que se torna a existência. As estrelas se reorganizam em um eixo infinitesimalmente amplo com fios espectrais girando em torno dele e lançando-o no cosmos. O drone é puxado para dentro. O drone queima.

Na superfície Marciana, computadores registram as unidades de rastreamento STALKER emergindo como um único ponto no espaço-tempo, a 9,999 km quilômetros da superfície. Uma a uma as unidades caem em silêncio.


Murmúrios preenchem a câmara de Comando Central. Os pesquisadores recostam-se em suas cadeiras, ainda olhando para as três telas largas de computador na frente da sala e o texto vermelho marcando-as.

[CONEXÃO PERDIDA]

Por mais que alguns desejassem, as mensagens não mudavam. O que as especificidades da descoberta dos drones significam está longe de ser claro, mas as ramificações certamente são. Todo mundo chegou à mesma realização. Ninguém está confortável o suficiente para dizer isso.

Dois dos pesquisadores chefes começam a sussurrar para si mesmos sobre registrar uma designação SCP, tornando o sítio provisório de contenção permanente. Cadeiras rangem. A sala fica abafada. Alessio puxa seu casaco de seu assento e sai da sala.

Um corredor depois e ele voltou pro lado de fora, descendo algumas escadas para as escadas. Sua respiração é visível no frio intenso que vem com a noite Marciana. Phobos é uma mancha brilhante no céu, e se ele olhasse com força o suficiente ele poderia ser capaz de ver o pequenino ponto da Terra, mas ele não se importa. O mundo parece mais calmo do que foi em qualquer outro ponto daquele dia, a maioria dos funcionários da Fundação estavam ou no processo de cair no sono ou silenciosamente seguindo a rotina de seus turnos da noite. Foi um longo dia.

« Calabrese, você está no lado de fora agora? »

Ele levanta seu walkie-talkie e se vira para a Torre de Observação 3. "Sim. Você ainda está acordada?"

«Eu tenho negócios com os diretores regionais de sítio em algumas horas, então eu preciso me deixar ocupada. »

"Nenhum descanso hoje."

« De fato, mas não é por isso que estou entrando em contato com você. »

Arranhões leves ecoam de algum lugar distante. Provavelmente só o movimento de quaisquer máquinas que ainda precisam ser montadas.

« Eu queria te dizer que, agora, você é a única pessoa no lado de fora perto da cratera. »

"…A única pessoa?"

« A única pessoa. Os postos estão funcionando autonomamente por agora e os guardas estão em reunião. Eu duvido que você encontrará algum problema mas depois do incidente com as sirenes nós precisamos assegurar a segurança de todo mundo. Uma pessoa sozinha não é a coisa mais segura. »

Ainda mais arranhões leves, em algum lugar próximo.

"Não se preocupe, eu só estou aqui para tomar um ar. Eu vou entrar de volta…"

Arranhões.

"…em alguns…"

Arranhões.

"…minutos."

Arranhões. A dez metros do perímetro do sítio, entre o Comando Central e um bloco de escritórios vazios, está a cerca elétrica de onde o som provavelmente se origina. Ele não pode ver a origem, no entanto. Uma parede de caixas não abertas a bloqueia dele.

"Estou ouvindo um estranho barulho de arranhões vindo da cerca de perímetro mais próxima de mim. Você consegue ver algo?"

« Negativo. Essa torra só tem vista para o topo dela. Repassando essa informação para as outras torres. »

Indo em frente e lentamente avançando até a borda da cratera para manter uma distância segura, Alessio espia além das caixas. A cerca está intacta. Os arranhões continuam.

« Torres 1 e 2 não estão vendo nada. »

"Devo prosseguir?"

« Faça-o com cautela, estamos enviando guardas para te acompanhar. »

"Entendido. Estou me aproximando agora."

Ele coloca o walkie-talkie em seu cinto. Com cada passo que ele dá para frente os arranhões se intensificam, atingindo um ponto em que eles não se parecem mais com arranhões, mas com sussurros agudos. Luzes vermelhas piscam em uma caixa elétrica perto da cerca. Ela está sem energia. Nenhuma outra luz está acesa.

Alessio liga sua lanterna. Ele olha para as sombras enquanto ele lentamente se aproxima, afastando-as e não encontrando nada anormal. O acelerar de um carro inexistente interrompe os sussurros. Atrás da cerca está nada. Nada além de marcas de pneu se estendendo até as dunas. Elas param bem na borda da cerca.

Os sussurros parecem se acalmar quando ele pega seu walkie-talkie novamente. "Eu apenas encontrei marcas de pneu levando até a cerca. Os arranhões estão—"

« ▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒ »

Ruído branco grita e ele pula para trás, instintivamente jogando o walkie-talkie. Ele ricocheteia da cerca. Ondulações se espalham pela superfície da barreira, fios gotejando como se fossem fluidos, as marcas de pneu balançando em ondas invisíveis. Quando Alessio levantou sua arma a cerca inteira estourou para fora em uma explosão em câmera lenta enquanto o espaço atrás dela se transformava nos destroços de um caminhão da Mineração Marte Unido Co. Destroços sofrem falhas e a ilusão taumica colapsa. Tudo que tem agora são fios quebrados e o caminhão que foi jogado diretamente contra a cerca.

"Calabrese? O que está acontecendo?" grita um guarda se aproximando.

Mas Calabrese não pode responde. Ele percebeu os corpos dentro da cabine do caminhão, Eles estão esmagados sob metal e vidro quebrado. Eles ainda se mexem. Seus olhos brilham.

"Calabr—"

A cabine explode. Ele é lançado para trás pela explosão e sua arma sai de sua mão, testemunhando os corpos lá dentro se jogando para fora e se levantnado. Um deles cambaleia para fora da nuvem de poeira.

"Desculpe pelos danos mas nós precisamos entrar," disse Gareth Traves, voz oscilando entre alturas sob uma camada de estática. "Nós precisamos estar lá dentro." Glifos dispostos em um terceiro olho encaram Alessio em sincronia com o par normal de olhos de Gareth, os três piscando erraticamente.

"Gareth? O quê aconteceu com você?" Alessio alcança seu coldre e pega ar vazio.

Alarmes pelo sítio de contenção soam. Os outros, o resto dos cidadãos de Nova Houston que evitaram o desaparecimento da cidade, se embaralham e lentamente começam a correr loucamente. Os guardas disparam mas suas balas vaporizam a centímetros do impacto. O espaço distorce em trilhas atrás de suas formas.

"As sirenes nos fizeram perceber o que estava dentro de nós. Nós nunca tivemos ideia até que ouvimos o céu."

"Eu não sei o que você acha que está no fundo daquela cratera mas confie em mim, você não quer estar lá." Suas mãos se mexem pelo seu cinto. Ele ainda tem suas hiperalgemas.

"E confie em mim, Nova Houston precisa de nós lá embaixo. Nós deveríamos estar lá quando a cratera a levou. A humanidade precisa de nós lá embaixo."

Um posto de monitoramento e seu imageador etérico se quebram, um morador de Nova Houston passando por ele como água. Eles todos chegam na borda simultaneamente, pulam para cima, e mergulham. Gareth está andando mais lentamente que seus companheiros, muito focado em Alessio.

"Sendo assim eu não acho que tem muito que eu possa fazer para parar você…" Ele procura pelo botão de ativação da algema. "…mas posso te perguntar uma pergunta?"

"O quê?"

Ele joga as algemas. Runas em seus lados brilham rosa neon e elas se magnetizam na assinatura taumica irradiada por Gareth, travando em suas mãos e pulsando correntes elétricas pelos seus nervos. O terceiro olho acende, brilhando. Ele avança em frente enquanto levando o espaço-tempo consigo, levando areia e Alessio em um borrão de luz distorcida. Eles passam pela borda rápido o suficiente para que Alessio não tivesse tempo de reagir. Quando ele finalmente podê compreender o que estava acontecendo o mundo estava rapidamente caindo de vista e a escuridão da cratera se aproximava.

Gareth se torna um cometa de energias arcanas, seus olhos sendo o ponto focal de onde ela brilha para fora. Ele se junta aos moradores de Nova Houston em se tornar lanças de luz que se disparam para baixo a velocidades mais rápidas do que Alessio pode compreender. Estilhaços do que costumavam ser as hiperalgemas desaparecem. As paredes se tornam borrões com a realidade falhante que os drones testemunharam entrando e entrando em transição direta para o campo de estrelas, o eixo entrando em vista. Nebulosas se transformam em visões de Nova Houston, uma cidade em uma espiral cônica de rocha. Cada terceiro olho traça novos cursos e os moradores de Nova Houston voam para sua casa. Alessio não. Ele voa adiante, apenas capaz de assistir enquanto a cidade se contorce em apêndices que ele só pode racionalizar como mãos que esmagam os moradores de Nova Houston entre suas pinças.

E ele continua voando. Voando através de constelações cujas estrelas se conectam por correntes de luz de maior dimensão. Voando através de planetas que se estendem para fora da escuridão do espaço em espaço branco e espaço verde e um arco-íris sem fim de espaços. Voando através de megaestruturas de pura informação cristalina, soando relâmpagos de consciência que dançam através de uma matriz de mentes de colmeia cintilantes, Planos Existenciais de 1 a 2 através de $\aleph_{0}$ e adiante e isso ignorando quantos outros eixos de mundos estão estendidos como adagas de luz, tudo orbitando o fuso em um tsunami de cores e conceitos que ele jamais poderia imaginar.

Uma mão o afasta das ondas. Espaço-tempo se transforma em uma jaula que faz looping em si mesma não importando em que direção você corra, anelada por um nada fluorescente que espeta pensamentos não importa o quanto você tente não pensar neles. Ela o pega e olha para suas estruturas sub-sub-subatômicas com uma cabeça de olhos de obsidiana, trazendo à mente imagens de mundos em chamas e divindades destruídas por seus crimes, lançando seu Julgamento: Alessio Calabrese não pertence aqui.

Pinças o esmagam—

—e ele está de volta na borda da cratera. Barris de armas apontados em sua cabeça. Marika está de pé perto de um dos dois Lasers da Realidade Scranton parecidos com canhões de artilharia que miram nele. Ela diz algo sobre leituras de Radiação de Aspecto para os agentes próximos, olhando para Alessio nervosamente. Ele não consegue ouvir. O zumbido das âncoras é muito alto. Ele treme, experimentando a gravidade como se ele fosse uma criança recém-nascida que nunca sentiu sua presença até agora. Ao leste o sol nasce.

"Me coloquem em contenção. Agora." ele disse.

Ele desmaia.

* * *

Cela de Contenção Humanoide A21 é tão aconchegante quanto uma caixa de metal sem acesso ao mundo externo consegue ser. Alessio descansa na cama da câmara, terminando um jogo mental de teste da integridade metal pela décima sexta vez desde que ele acordou, girando o tablet em que ele era exibido entre seus dedos.

« Calabrese? » Lovell diz pelo interfone.

"Você não está quebrando a quarentena de risco memético por falar comigo?" Colocando o tablet pro lado, ele se levanta.

« "Nós estaríamos, se nós tivéssemos encontrado algum risco em você. Seja lá o que você encontrou lá embaixo te poupou, visto que a gravação de vídeo de seus implantes é um dos riscos informativos mais potentes que já encontramos. »

"Riscos informativos? Realmente?"

« Sim mas eles já foram lidados com, dizem os memeticistas. Por agora nós precisamos temporariamente te deixar sair. »

Um painel de parede se desliza para abrir, mostrando roupas mais adequadas para viagens ao ar livre e no deserto do que o traje estilo-Classe-D que ele está vestindo atualmente.

"Eu assumo que algo tenha acontecido."

Lovell não responde. Ao invés disso, outro painel de parede se abre e se dobra em um monitor de computador. Uma imagem aparece nele.

« Isso é uma gravação ao vivo. »

"Ela— Como que ela—"

« Além de Gareth e sua turma de semi-taumaturgos agora em coma, você é a única pessoa que esteve lá em baixo. Nós esperamos que você possa entender isso. »

Ele corre para as roupas e imediatamente começa a se trocar.

* * *

A gravação ao vivo não mentiu.

Nova Houston estava de volta.

Ela toda.

Os quatro arranha-céus no centro da cidade, os blocos de apartamentos acumulados e deteriorados, os grupos de casas construídas desorganizadamente dos kits de casas instantâneas da era colonialista da década de 2030 misturadas com qualquer sucata disponível, a fazenda solar. As árvores, a grama, os cidadãos — nenhum deles sequer percebeu que algo aconteceu até que, de seu ponto de vista, o mundo instantaneamente mudou de meia-noite para meio-dia — os animais, os poucos Marcianos vagando por aí.

Tudo de volta e em perfeita condição. Como se a cidade nunca tivesse saído.

Guardas flanqueiam Alessio, que tem um focinho mecânico amarrado sobre sua boca que analisa cada palavra sua por riscos meméticos e suas mãos presas atrás de suas costas com hiperalgemas, e o levam pelos mercados de Nova Houston. Eles passam por filas de lojas que vendem paratecnologia ilícita até chegar em uma rotatória onde várias ruas convergem. Em seu centro, onde um pedaço simples de concreto desgastado uma vez residia, estava um obelisco preto de oito metros de altura. O único remanescente do anômalo.

Os guardas o levam através das multidões de espectadores, empurrados para trás por guardas adicionais, e levantam uma barreira de fita de risco para que ele possa entrar na rotatória.

"Era isso que vocês queriam que eu visse?"

« Afirmativo. Você consegue ver os símbolos em seus lados? »

Ele olha mais de perto. O sol brilhante atrapalha sua inspeção, e com suas mãos algemadas não há chance dele bloquear a luz. Apesar disso ele ainda vê os glifos, se movendo pelos lados do obelisco como ondas. Nenhum tem uma forma definida mas ainda assim sua cabeça sabe que eles são uma língua. Esta é a unica conclusão que seu cérebro consegue racionalizar. Todas as alternativas são recusadas.

"Eu— Eu posso. Eu posso." Sua respiração acelera.

« Certo, bom. Você poderia traduzir o que você vê? Memeticistas não tiveram sorte e, considerando sua exposição ao— »

"Pare."

« Tem algo de errado? »

"P-p-pare. Pare."

A face do obelisco estava pulsando. Os glifos dispostos em bolhas sequenciais que ele interpretou como "abrir arquivo."

« Nós não estamos vendo nenhum comportamento fora do normal. O que você está vendo? »

Os glifos se separam, se organizam, se separam, se organizam. Pensando sobre a melhor resposta possível, ele escolhe "abrir."

"Eu estou vendo os glifos—"

O lado mais próximo do obelisco se torce em um saca-rolhas que se estende e perfura diretamente sua cabeça. Conceitos alienígenas invadem seu espaço mental, invadindo seu processo de pensamento em um caos de luz azul brilhante. Os irreconhecíveis para humanos desaparecem, deixando para trás uma mensagem gravada em seu pensamento e visão.

Nós lamentamos informar a vocês que, durante a análise de uma amostra de sua civilização, os seguintes problemas e erros foram encontrados:

  • Quantidades insuficientes de órgãos metafísicos dentro de estruturas cerebrais.
  • Deficiências em terceiros olhos e falta de conhecimento para os possuidores de terceiro olho começarem a despertar
  • Excesso de dependência no Corpo Taumatico e seus vitais para alterações da realidade ao Plano Existencial 0.
  • A completa falta de conhecimento sobre devoradores informativos…

O equivalente mental de um arranhão de registro ocorre e sua mente passa por paredes monolíticas de texto que se estendem por quilômetros em seu subconsciente.

  • Tentativas de possuidores de terceiro olho de alterar a amostra.
  • Tentativas de possuidores de terceiro olho de combater Mentes de Colmeia de Inspeção.
  • Inabilidades de identificar ▓▓▓▓▓

Por tanto, a HUMANIDADE não foi selecionada como candidata para ascensão. Nós lhes desejamos boa sorte na próxima vez.

"…"

« Calabrese, você está me ouvindo? »

"Eu estou aqui. Eu estou aqui. Eu estava— Eu vi…"

Um suspiro de alivio passa pelo rádio. Alessio olha para os guardas, e então para as multidões. Ninguém reagiu. Tudo que aconteceu foi em sua cabeça.

« O quê você viu? »

"…Desde que eu me juntei à Fundação eu… eu nunca tive certeza sobre deus, ou os deuses, ou seja lá o que esteja acima de nós, então eu não… entendo, tudo que aconteceu. Tudo que sei é que nós—"

Meio quilômetro acima tem uma explosão. Os agentes e a multidão se viram para ver uma bola de luz cortar uma trilha cegante de um ponto acima dos mercados para o ar, se transformando em um grão de poeira brilhante no horizonte. Tão rápido quanto ela veio ela despareceu.

"…Nós falhamos em um teste e eu não sei se deveríamos estar felizes por isso."

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