Um Filhote Falecido
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8:00 AM

ei


nic


sim


q foi


não muito


só estive pensando bastante sobre a pinto


ah


sinto muito


se isso te faz sentir melhor, ela era um bom cachorro


ela era


as fotos dela eram bem fofas


se lembra daquela porra de foto de vc e ela no trenó


vc reclamou de como ela caiu na neve


é


foi ruim


ela cheirava a cachorro molhado


e molhou o chao todo


vc nao deixou ela dormir na sua cama naquela noite?


ela teria latido a noite toda se eu nao deixasse


:p


cara, ela era um cachorro barulhento


um *bom cachorro barulhento


obrigada


eu amava ela


queria que ela ainda estivesse aqui


sinto muito


não se desculpe não é sua culpa


foi minha


se eu tivesse esperado uma semana ela ainda estaria aqui comigo


ela latia e corria por aí


eu poderia ter economizado o dinheiro para fazer aquela cirurgia nela


vc fez a coisa certa


vc nao queria que ela sofresse


eles poderiam ter removido as celulas cancerosas


ela ainda poderia estar aqui


ela teria sofrido


o veterinario disse que tínhamos um mas mas deixei ela morrer naquele dia


ela ainda estaria aqui ela nao teria morrido


Ari


ela teria morrido uma morte longa e bem dolorosa


nic


vc nao se lembra disso


ah


sim


ela morreu uma semana antes do arrebatamento


é


todo mundo teve sorte


digo


é melhor do que ela sofrer


ne?


Lido às 8:30

Ari vc ta bem?

9:25



Ari vc ainda ta ai


Sim, desculpe.


Tava fazendo comida.


q q vc ta fazendo


panquecas


parece bom


Elas são.


É uma receita de família.


é uma receita de familia super secreta?


Não, Nic seu idiota.


Posso te ensinar se vc quiser saber


certo tem alguma armadilha nisso?


trazer café?


lol claro


inclusive Ari


Sim


quer q eu traga meu gato?


Gosto dessa ideia


só me prometa que ela nao vai me arranhar de novo


claro Ari


9:49


Diante de Nic havia uma casa, fria e vazia. Uma camada de sujeira e poeira bloqueava a pouco luz que via de dentro das janelas. Detritos espalhados pela varanda e o cheiro de podridão subindo do jardim.

A mão de Nic levantou a aldrava antes de deixá-la bater na porta. Miaus surgiram de dentro da jaqueta de Nic e o gato subiu em seus ombros enquanto ele deixava a aldrava bater novamente. Uma luz se acendeu em uma das salas dos andares inferiores antes que mais começassem a aparecer. Passos se aproximaram da porta e uma série de cliques soaram.

Para fora a porta se abriu e a luz de dentro espalhou pela varanda.

"Nic!" Braços envolvidos ao redor de Nic e apertando com força antes de uma saraivada de miaus saírem de Tiger.

"Ahhhh, pobre Tiger. Seu dono esqueceu de te acariciar?"

"Psh não, ele só é um cuzão,"

"Ahh, seu pobre coitado, seu dono é um merdinha malvado que não te acaricia o suficiente?" Dentro de seus braços, Tiger se enrolou deixando escapar um poderoso ronronar.

"A maldita coisa não ronrona para mim,"

"Provavelmente porque você o chama de palavras maldosas,"

As risadas de Ari encheram o céu antes de guiar Nic para dentro. A casa cheirava a podridão e morte. As tábuas do assoalho rangiam enquanto eles andavam. Livros, que em algum ponto ficavam alinhados na prateleira, agora estavam espalhados pela sala com páginas rasgadas e dobradas.

Por fim eles entraram na cozinha onde as panquecas estavam dispostas em pratos já feitos.

"Não podia esperar cinco minutos?" Questionou Nic.

"Você só foi um tiquinho lento," respondeu ela. Foram apenas dez minutos… talvez ela só precisasse de algo para fazer.

"Ah bem. Acho que você pode me ensinar outra hora,"

"Desde que você não se atrase."


10:06

Nic, no meio do café da manhã, ergueu os olhos e viu os olhos vidrados e o nariz avermelhado de Ari.

"Ari?" Disse ele. Ela ergueu os olhos e parecia como se tivesse sido puxada do espaço, antes de dar um sorriso fraco.

"Mm."

"Você está bem?"

"Digo, estou indo." As palavras foram seguidas por uma série de risos sem entusiasmo.

"Ari, sinto muito."

"Tudo bem Nic, não há razão para se desculpar."

"Eu só quero que você fique bem. Digo, olhe ao seu redor, Ari. Você não está indo, você está quebrando, há livros pra todo lado, sua casa está uma bagunça do caralho, e seu jardim parece uma zona de guerra. Sei que ela era importante para você, mas você não pode deixar que a morte dela destrua sua vida."

Ari parou e pensou antes de sacudir a cabeça e tomar um gole de chá.

"Eu estava limpando o jardim e bem, não consegui terminar ontem. E estava organizando os livros. Se isso te faz se sentir melhor, eu termino logo."

"Você precisa de alguma ajuda?"

"Não, eu consigo. Você tem coisas importantes a fazer de qualquer modo."

"Certeza?"

"Claro, Nic."

Nic encolheu os ombros, ela levaria algum tempo para se recuperar da morte de seu cachorro. Mais tarde, enquanto se banqueteava das panquecas, ele pediu licença para ir ao banho. Ele caminhou pelo corredor que nunca acabava quando parou, percebendo a pequena figura inconfundível que era Tigar. Dentro de sua boca havia uma coisinha estranha balançando e pingando lodo. Aproximando-se, Nic podia ver melhor os contornos do pelo elaborado preso em uma bola. Dobrando os joelhos, ele estendeu a mão para seu gato, estendendo a mão e fazendo cliques rápidos com a língua.

Lentamente Tiger se aproximou dele, observando Nic com olhos ferozes. Nic se levantou horrorizado com o que estava pendurado em sua boca. Nic encostou-se na parede, olhando para seu gato.

"Que porra é essa?" As palavras saíram de sua boca quando ele notou uma pequena figura atrás de seu gato, empoleirada, observando-o com olhos apodrecidos. Sua mandíbula caiu de cima da cama, batendo no chão com um barulho molhado. Seus pés cambalearam para trás e o fedor de podridão e morte encheu seu corpo e mente. A figura ficou olhando para ele com uma órbita sem vida e um poço cheio de alcatrão.


8:33


A porta se abriu lentamente, zombando da pouca força que Ari tinha restante. Vazio fluía dentro de seu corpo e nas pontas de seus dedos deixando tudo frio. Ela cambaleou adiante dos degraus e para a grama. Uma respiração profunda, para dentro e para fora, enquanto seu corpo se movia em direção ao galpão como uma marionete. A porta se abriu com pouca resistência e a pá caiu do gancho com um tinido. Ela se acomodou em seu ombro com quase nenhum peso.

Passo a passo. Ela saiu do galpão.

Passo a passo. Ela atravessou o quintal.

Passo a passo. Ela se aproximou de um canto com grama jovem.

Uma Pausa.

A pá balançou de seu ombro e caiu no chão, empalando-o com um único golpe. A terra voou para o canteiro de flores. Logo o quintal estava coberto de marrom e cinza. A pá caiu de suas mãos e ela se ajoelhou antes de estender as mãos e acariciar o pelo ainda macio de Pinto. A cabeça de Pinto se ergueu e sua órbita encontrou o olho de sua dona. Ela queria estar com Ari… e Ari desejava estar com ela. Mãos se estenderam e pegaram Pinto. A lama preta derramava da sepultura enquanto Ari a trazia para dentro. Estalos e barulhos molhados encheram seus ouvidos e o corpo lentamente se afastou do rostinho peludo. Os cantos da boca de Ari se esticaram para cima e arrulhos deixaram seus lábios.

"Você é um bom cachorro. Sim você é." A cabeça de Pinto se inclinou para trás e os olhos de diamante observavam Ari com alegria.

Líquido preto espirrou no buraco e um corpo sem cabeça caiu imóvel. Ari observou seu cachorro com orgulho e alegria antes de levá-la para dentro. Lá ela colocou o cachorro em sua cama, no local preferido de dormir de Pinto para que ela pudesse descansar um pouco depois de brincar ao ar livre todo esse tempo.

Ari observou seu cachorro com olhos de adoração quando seu estômago começou a roncar. Hora do café da manhã.

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