Eu abro os meus olhos e olho para a direita para ver o relógio: 02:10 da manhã. Droga, parece que não vou conseguir dormir mais esta noite.
Jogando minhas cobertas para o lado, me levanto e sirvo-me de um copo de bourbon fresco da garrafa ao lado da minha cama. Saio do quarto e me sento num sofá de frente para uma parede branca sem nada escrito, com uma única tela exibindo uma coisa em letras da cor verde-neon: 70,910. Meu número favorito.
Eu dou um gole e espero em silêncio que os pensamentos venham.
Se alguém fizer merda, eu verei as consequências. Algo que eu gostaria de ter sabido quando consegui este emprego é que eu me lembro de cada apocalipse e de cada retcon cósmico, e as drogas que tomo todas as manhãs, tardes e noites tornam impossível esquecer de tudo isso.
Hoje mais cedo, descobrimos o inferno, ou pelo menos algo próximo do que pensávamos que fosse, e no momento em que olhei para dentro para supervisionar as descobertas, fiquei encarando o portal por dez segundos… e bocejei.
A história de terror que me contavam quase todos os domingos até os meus treze anos, sobre o lugar para onde eu iria para a morte e mutilação de um número inimaginável de almas, era um tédio. Acho que não preciso me preocupar se é real ou não, já que não vou para lá de qualquer forma. Talvez eu tenha uma chance de alcançar uma das vidas pós-morte inumanas, considerando a quantidade de "divindades" que já irritei.
Esta é a minha vida, esta é a pessoa que eu escolhi ser. Contemplando atrocidades que, em comparação, fazem um deserto nuclear parecer um resort na praia, e lamento apenas que a imortalidade não venha acompanhada da capacidade de ignorar o sono.
Um deserto nuclear, o próprio inferno da humanidade, criado pelas armas não anômalas mais devastadoras que eles… nós já fizemos. Qual era aquela frase famosa? Dois inimigos jurados com gasolina até a cintura, um com três fósforos e o outro com cinco? Bem, eu não sei se fogo ou explosões de gás podem me matar, mas é garantido que a velhice não vai, então estarei aqui enquanto a Terra existir e eu tiver um trabalho a fazer.
Existem coisas que podem não ser danificadas pelo fogo, por explosões de gás ou talvez até mesmo por qualquer coisa que a humanidade tenha construído nos últimos mil anos, mas se há uma coisa em que eu acredito, e na qual nunca deixarei de acreditar até que cada neurônio do meu cérebro pare de disparar, é que é meu dever, como um O5, como um… ser humano, tentar mesmo assim.
Uma das principais tarefas que devemos realizar aqui é garantir que nada nos mate, e outros humanos parecem estar no topo da lista de preocupações do último século. A Guerra Fria… a Guerra Fria foi um desastre completo. Tantos debates sobre se deveríamos deter todos os lados à força ou deixar a humanidade escolher seu próprio destino. Eles quase iniciaram uma Guerra Fria própria, aqui mesmo na Fundação.
A Guerra Fria acabou e, depois de tantas situações de risco, a humanidade considerou-se digna de continuar a sobreviver sem a nossa interferência. Tantas bombas foram construídas, tantas delas nunca foram usadas.
Três fósforos, cinco fósforos, é mais do que suficiente para inflamar a paranoia apocalíptica de todos, então eles começaram a ser desmontados.
O que poucos sabem é que muito menos ogivas nucleares são desativadas do que se imaginava. Alguém teve a ideia de que uma ogiva nuclear prestes a ser desmontada ou guardada para o esquecimento seria o momento perfeito para roubá-la, então fizemos isso primeiro e prestamos homenagem aos muitos países que infiltramos muito antes da construção da primeira ogiva nuclear.
Cada arma de destruição em massa que nós pegamos, que eu peguei, eu me certifiquei de que teria uma utilidade, mesmo que poucos dos outros doze aprovassem. Não sinto muito medo atualmente, provavelmente por ser constante. Há pouquíssimas coisas neste universo despedaçado que realmente me assustam, e são aquelas sobre as quais os outros acreditam não ter controle. Eu não acredito nisso. Nunca acreditarei.
Se forem algo que não podemos conter, matar ou deter, então eu garanto pessoalmente que se lembrarão de nós. O que não podemos matar, podemos mutilar. O que não podemos mutilar, ao menos deixaremos uma marca permanente.
Cada ogiva nuclear que a humanidade descarta em nome da paz, eu jogo por aquela porta, e a primeira coisa que aquele gordo desgraçado come quando ele escapa é a minha fúria.
Tique.
70,911. Meu novo número favorito.





