Parada Automática
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O estacionamento do Chipotle Mexican Grill era falso e guardava muitos segredos.

Assim que Vera K. Garcia relatou para a Taco Bell e encontrou um fundo falso em sua sacola de um Burrito Supreme e uma Quesadilla de Frango Crocante, ela sabia que seu plano fora aprovado pelo Departamento de Outfitters da Churrascaria.

Dentro do compartimento secreto, ela encontrou três objetos notáveis.

  1. Uma foto de um jovem com cabelo preto curto, pele bronzeada e um sorriso tenso. Ele estava vestindo uma camisa de botão. Vera supôs que a foto fora provavelmente tirada para algum propósito oficial, talvez um cartão de identidade. Na parte de trás da fotografia, um número de telefone estava escrito em marcador azul. Abaixo dele, um nome: Casey Malik.
  2. Um pequeno objeto em forma de pistola de bolso, mas com um cano largo e plano. Onde o cão normalmente estaria, havia uma luz LED. Uma breve experimentação mostrou que o LED piscava quando a arma era apontada para uma direção específica. Um tipo de bússola.
  3. Uma nota. Ela a informava que suas ações subsequentes seriam de extrema importância e que ela estaria sozinha. Era reconfortante.

Depois de saborear a refeição, ela atravessou a rua apressadamente, passou pelo Chipotle e entrou no estacionamento. A arma em suas mãos fazia um zumbido agradável enquanto ela a balançava no escuro. O pulso de sua luz se intensificava quando ela a fazia encarar a parte de trás do estacionamento — uma fina faixa de árvores e arbustos separando o concreto das fileiras de casas compactas.

Ela se aproximou, olhos alertas para ameaças. Quando ela pisou cuidadosamente sobre o meio-fio e na grama, a arma apitou. Um pequeno botão azul apareceu logo acima de seu polegar, na lateral do cabo. Ela deu mais uma olhada ao redor antes de pressioná-lo e o chão abaixo dela desaparecer.

Ela não teve tempo de pegar nada para se apoiar. Ela estava caindo agora através de um tubo, ou um túnel — cercado por uma substância como vinil que pressionava contra ela desconfortavelmente, mas com atrito suficiente para manter sua velocidade baixa.

Segundos depois, a constrição cedeu. Ela se preparou para o impacto, aterrissando com os pés em uma superfície de tijolo duro.

Para uma queda tão longa, isso não parecia ser o subterrâneo. O céu era um azul escuro e profundo, e seus arredores eram iluminados por cordas de luzes sustentadas pelo próprio ar, ondulando no céu. Ela estava em uma praça, quase vazia, e em cada direção ela podia ver estradas saindo, ladeadas por prédios em estilos ecléticos, um mosaico de cores vibrantes.

Ela mal podia acreditar em seus olhos, mas ela teria tempo para descrença mais tarde. Por agora, ela tinha um trabalho a fazer.


Um necromante ancião em um roupão de banho estava parado na soleira da porta da frente.

Na frente dele estava o namorado de seu filho, vestindo calças surradas e uma camisa de botão amassada com algumas manchas escuras. Ele estava carregando uma pasta de arquivo debaixo do braço.

"Oi, Sr. Rowe!"

Eustace semicerrou os olhos. "Adam não está aqui."

Casey sacudiu a cabeça, "oh, não, eu não estou-" Ele pigarreou. "Posso entrar?"

"Para se esconder da polícia? Ou para limpar o sangue das roupas?"

"Como você sabia que eu—"

"Isso se chama 'noticiário.' E 'a polícia' que apareceu na minha porta perguntando sobre você, Casey."

"O que você disse a eles?"

"Que eu não sabia onde você estava. O que é verdade."

"Oh. Então, eu posso…"

Eustace suspirou. "Sim. Entre."

Casey murmurou agradecimentos repetidos enquanto entrava. Ele podia ver o corredor mal iluminado entrar na casa, ladeado por escadas para a escuridão e levando a uma cozinha sombreada. Atrás dele, Eustace fechou e trancou a porta. "Ande," ele murmurou. Casey se arrastou para fora do caminho e pelo corredor.

A cozinha estava claramente em uso recentemente, decorada com o que era ou um jantar bastante exótico, ou um arranjo assustador de vísceras. Cheirava a formaldeído e o nariz de Casey se enrugou. "Desculpe pela bagunça," Eustace grunhiu, "não tava esperando ser interrompido." Ele apontou para uma cadeira, situada em uma mesa de jantar pequena preparada para quatro.

Casey se sentou, suas pernas silenciosamente agradecendo o alívio, e colocou o arquivo roubado sobre a mesa. "Certo. Desculpe. Obrigado."

O velho continuou de pé, recostado no balcão da cozinha. Ele ficou em silêncio por um momento, examinando a figura esfarrapada de Casey. "Você precisa se limpar. Rápido."

"Oh. Por que?"

"Porque uma criança vestindo uma fantasia de mágico poderia rastrear sua impressão taumica, e Adam ficaria chateado comigo se você morresse em minha casa."

Casey balançou a cabeça lentamente. "Certo. Isso faz sentido."

"E então você vai dar o fora da minha casa."

"O quê? Eles vão me encontrar. Você acabou de dizer que não podia me deixar morrer."

"Na minha casa. Você é quem matou um homem. Pelo que eu posso dizer, estou sendo perfeitamente caridoso por não entregá-lo agora."

"Não, isso- isso não foi assim. Eu não tinha controle sobre minhas ações. Tem um verme memético. Ou algo."

"Ah, a defesa do controle da mente. Isso tornará seu julgamento mais interessante, pelo menos até o Prefeito decidir executá-lo por amputação de alma."

"Pode ser, mas você pode pelo menos me ajudar a contatar Adam?"

Eustace suspirou. E então ele suspirou novamente. "Certo." Ele se virou e saiu da cozinha, desaparecendo na escuridão do corredor além.

Casey ficou inquieto por um momento. Eustace voltou, trazendo um telefone grande com forma de bloco, com o que parecia ser um gravador gigante ligado a ele. Ele suspirou mais uma vez, para garantir, e começou a inserir algum código em um teclado numérico na frente.

"Da última vez que olhei, Adam deveria estar em Backdoor SoHo. Ele arrumou algum show de médium de merda."

"Então, hum, como podemos ligar para ele, entre enclaves?"

"Uma boa pergunta. Isso parece um telefone, mas na verdade é um link psiônico para um pombo-correio criado seletivamente para sobreviver no vazio entre os universos. Ele voa pelo Exterior, o espaço sem forma esmagando-o implacavelmente enquanto carrega mensagens na velocidade da luz."

"Oh. Sério?"

"Não."

Ele terminou seja lá qual calibração ele estava fazendo, e um bipe monótono começou a tocar. Eustace o segurou contra a cabeça e o zumbido parou. "Acorde, Adam. Seu namorado matou um homem."

Os olhos de Casey se arregalaram.

Eustace cobriu o receptor do telefone enquanto protestos confusos saíam do alto-falante. "Não tenho tempo ou a paciência para mimar aqui. Melhor apenas arrancar o band-aid." Nessa metáfora, Casey assumiu, o band-aid era seu relacionamento."

"Só. Dê ele para mim." Casey se levantou e estendeu a mão para pegá-lo, e Eustace o entregou com relutância.

Ele o ergueu ao lado da cabeça e tentou soar o mais calmo possível. "Querido?"

O alto-falante estalou e um fac-símile metálico da voz de Adam saiu. "Casey? O que está acontecendo? Você está bem?"

"Sim, tô bem. Mais ou menos. As coisas ficaram um pouco desengonçadas."

"Eu posso dizer. O que aconteceu?"

"Teve algo que me infectou. Algo memético. Ele tomou controle de mim. Me fez-" A respiração de Casey se encurtou quando o que ele fez o atingiu como um tapa na cara.

"Shh, shh. Eu entendo. Você não precisa falar sobre isso agora. Estarei em Três Portlands assim que eu puder."

"Não, por favor, não acho que seja a melhor ideia. Seja lá o que está acontecendo, ainda está em andamento. E provavelmente não vai melhorar por um tempo."

"Não posso deixar você fazer isso sozinho. Olha, meus clientes são a mesma coisa, e os parentes mortos deles não vão a lugar algum. Eu espero. Eu posso fazer as malas e—"

"Por favor? Só fique seguro por enquanto. Eu tenho mais do que o suficiente para me preocupar agora." Casey sabia que Adam só ficaria sentado de braços cruzados por tanto tempo. Com sorte, as coisas estariam mais seguras no momento em que Adam tolamente entrasse correndo.

"Tudo bem," Adam fez beicinho. "Mas deve ter algo que eu possa fazer aqui."

Cassey parou para pensar por um momento. Enquanto o fazia, Eustace veio por trás dele com um aparelho tipo um detector de metais portátil e começou a balançá-lo ao longo dos braços de Casey. Ele imaginou que Eustace havia decidido fazer a limpeza taumática ele mesmo.

"Oh, tem algo, talvez. Antes do que aconteceu, eu estava em Bristol me encontrando com um parceiro de negócios. Talvez você pudesse ir lá, ver se há algo mágico que você consegue encontrar?" Casey procurou em seus bolsos o cartão do Sr. Erwan e recitou o endereço no telefone.

"Entendido. Deixe eu ver- eu acho que posso ir pela Biblioteca? Sim, provavelmente." Ele estava vendo a logística em sua cabeça, Casey conseguia ver. Ele era nada senão engenhoso.

"Obrigado. Fique seguro."

"Você precisa mais disso do que eu. Por favor, tome cuidado. Eu te amo;"

"Amo você também." Ele desligou o telefone.

Ele se virou, e Eustace estava olhando para ele. "O que?"

Eustace encolheu os ombros. "Não disse nada." Seu rosto enrugado tinha uma capacidade surpreendente de agressão passiva. "Você está limpo de todas as conexões de identificação. De nada por isso. Mas você deveria ir trocar de roupas. Pegue algumas do Adam, do armário do corredor lá em cima."

"Certo, certo." Casey tentou se alisar inutilmente e subiu as escadas para trocar de roupas com algo que não estava coberto de sujeira e sangue.


Ele desceu vestindo jeans um pouco apertados demais e uma das belas jaquetas bege de Adam. Pela primeira vez desde o que aconteceu, ele se sentiu um pouco revigorado.

Esse sentimento positivo rapidamente se evaporou quando ele chegou ao fim das escadas e viu Eustace apontando uma arma para uma mulher na cozinha,

Eustace acenou para Casey com a mão livre, acenando para que ele se aproximasse. "Demorou o suficiente."

Casey avançou na direção de Eustace, olhos arregalados enquanto ele lutava para entender o que estava vendo. Uma mulher negra, vestindo um terno bege, com o cabelo preso em um coque elegante. Ela estava sentada à mesa da cozinha e parecia não se importar apesar do homem idoso balançando uma pistola em seu rosto.

"Encontrei ela no lote nos fundos. Ela estava tentando bisbilhotar pela janela." Ele sacudiu a pistola para ela. "Agora, por que você não conta a ele o que você me disse?"

"Bem," ela disse. Sua voz estava calma, ensaiada. Ela estava claramente ansiosa pela chance de falar. "A primeira coisa que você precisa saber é que estou do seu lado."

Ela parou por um momento, procurando por uma reação, e então continuou. "Meu nome é Vera K. Garcia. Eu fui enviada por uma organização que sabe o que está acontecendo aqui e quer que eu ajude a evitar que isso piore."

Eustace balançou a cabeça. "Você acredita em algum coisa disso, Casey?"

Ele tinha, de fato, ouvido essa história antes. "Que organização?"

"Estamos devotados a manter o mundo seguro e preservar as coisas que mais importam."

"Casey levantou uma sobrancelha. "Ok, mas como ela se chama?"

"Diretoria K."

Eustace de repente se curvou, rindo com a voz rouca. A arma em sua mão evaporou em fumaça. "Não brinca? Essa noite está ficando cada vez melhor,."

Casey não sabia se deveria se ofender com isso. "Você os conhece?"

Eustace se pôs de pé novamente, ainda sorrindo. "Você poderia dizer isso." Ele se voltou para a mulher. "Qual foi sua última missão, se infiltrar na liderança de um Chuck E. Cheese?"

Ela sorriu sinceramente. "Isso é engraçado. É importante manter alguma leviandade, especialmente em face de ameaças de bomba."

O olhar de Eustace se estreitou. "O que?"

Vera acenou com a cabeça para a pasta de arquivo, roubada da Insurgência do Caos, ainda espalhada na mesa da cozinha. De fato, um papel estava aparecendo — algumas notas sobre locais potenciais para um dispositivo não especificado que poderia ser plantado em uma das muitas ruas laterais de Três Portlands. "Parece que tem uma conspiração real se formando. Com certeza seria conveniente se um infiltrador habilidoso oferecesse a mão."

Casey olhou para baixo. "Entendi."

Eustace semicerrou os olhos por um bom tempo. Como se a visão dele a estivesse perfurando e examinando o interior dela. O que poderia estar literalmente acontecendo.

Depois de outro momento, ele falou. "Tudo bem. Você pode ficar aqui. Mas se você fizer uma única ação hostil, a casa vai comer sua carne e eu não vou tratar seus ossos com dignidade."

Vera sorriu. "Anotado."


O sol nasceu, puxando sombras tensas na paisagem de pedra e tijolo de Três Portlands. Casey o assistia com desconfiança.

Atrás dele, Vera examinava atentamente o conteúdo do dossiê mal obtido. Ela folheou as páginas de equações, números que ela não conseguia entender. Detalhes de pessoas que ela não conhecia, trabalhando para corporações que ela não conhecia, em cidades que ela nem sabia que existiam. Ela puxou duas páginas em particular e as colocou sobre a mesa, na direção de Casey.

"Estas," ela afirmou, "são as únicas pessoas no arquivo que não estão marcadas como falecidas."

Casey se virou da janela, examinando os documentos. Sidney e Timothy Way, dois irmãos. Não havia fotos, nem biografias, nem justificativas para sua inclusão no dossiê. Apenas informações básicas de identificação e um endereço de Três Portlands. "Isso não é muito para continuar."

Ela encolheu os ombros. "Tem um endereço. É tudo que precisamos para fazer uma visita a eles."

O rosto de Casey endureceu. "Essa é uma boa ideia?"

"Se eles são como você, eles são aliados. E mesmo se eles não forem, nós conseguiremos mais informações sobre o que está acontecendo."

Casey franziu os lábios. "E a polícia? Todo mundo acha que eu sou, bem, um assassino."

"Bem, você escapou da primeira vez, não foi? Como você conseguiu isso?"

"Eu fui apanhado por um homem estranho e então perdi a maior parte da minha memória do que aconteceu depois."

"Todos nós já passamos por isso. Mas, por enquanto, você está usando as roupas de outra pessoa, e uma mulher estranha vai te dar instruções. Agora, onde é esse endereço?"

Casey engoliu em seco.


O dia estava fresco e claro. Clima perfeito para passear.

Muitos outros sentiram o mesmo. As ruas estavam saturadas de multidões aglomeradas, enxames de pastel vagando pro trabalho, pra escola, pras compras. Vivendo suas vidas normais, ou tão perto do normal quanto Três Portlands permitia.

Casey observava com inveja até Vera agarrar seu ombro e puxá-lo de volta para o beco.

"Encarar é estranho. Criminosos encaram," ela sussurrou.

"Eu tenho quase certeza de que pessoas normais também encaram."

"Não de becos. Normalmente." Vera lançou um olhar para trás. "Vamos continuar."

Eles tem viajado pelos becos por um tempo — os cortes em zigue-zague na selva urbana, as estrias de uma cidade constantemente abrindo espaço para o novo e arrastando o antigo para a periferia. A maioria desses espaços vazios entre os edifícios estava vazia, embora alguns fossem marcados por sinais de habitação: varais, barracos de madeira compensada ou pacotes de cobertores na pedra enlameada. Algumas pessoas se amontoavam perto das paredes, dormindo para se livrar das ressacas ou buscando por restos de comida.

Ande em um ritmo constante, ela havia dito. Todo dia, você passa por centenas de pessoas, cada uma com muitos pensamentos em sua mente. Tome todas as precauções para não perturbar seus devaneios e se destacar o menos possível. Os mendigos que Casey passou certamente não lhe deram muita atenção. Casey se perguntava se eles se importariam mesmo se o reconhecessem. Ele duvidava que eles sentissem uma divida pessoal para com os golens policiais sem rosto.

Ao se aproximar de um cruzamento no caminho, ele dobrou para uma rua lateral vazia. Os irmãos, ao que parecia, moravam em uma área particularmente densa do bairro residencial, onde cortiços oscilantes se empilhavam uns contra os outros. Ficava bem longe da casa de Eustace na periferia.

Vera espiou as vitrines das lojas que anunciavam moda, arte ou indulgência glutona, limites removidos artificialmente com a ajuda de façanhas regenerativas, anomalias normalmente reservadas para os ultra-ricos. Casey se virou para ela, enquanto ela estava de olho no cardápio de um restaurante especializado em comida que era o oposto de comida italiana. "Qual é o problema? Você nunca esteve em Três Portlands antes?"

Ela sacudiu a cabeça, tirando o olhar da loja e acelerando o passo para acompanhá-lo. "Eu não faço ideia do que é esse lugar ou como ele funciona."

"Oh. Espera ai. Você nunca viu por trás da Máscara antes?"

Ela encolheu os ombros. "Pelo que entendi, parece que a maioria das coisas que eu achei que fosse impossíveis são de fato possíveis, e que existe algum tipo de submundo secreto de pessoas que sabem disso e podem utilizar essas impossibilidades livremente."

"Sim, é basicamente isso. Você está levando isso muito melhor do que eu." Casey passara mais do que alguns dias trancado em seu quarto depois que Adam mostrou a ele um pouco de magia alguns anos atrás.

De novo, ela encolheu os ombros. "O que estou aprendendo é que minhas preconcepções estavam me atrapalhando. Não há necessidade de me preocupar com as mentiras que os outros nos contam."

"Essa é a melhor maneira de ver as coisas, eu acho." Ele a conduziu por uma curva à direita em outro beco irregular onde os tijolos davam lugar a estuque jateado. Eles mantiveram um ritmo saudável.

"É o benefício do meu trabalho. Clareza de propósito significa que às vezes você não precisa pensar. Você pode apenas ser e fazer."

Casey balançou a cabeça. "Eu acho que faz sentido. o que 'fazendo' significa, afinal?"

"A meu ver, temos bombeiros e médicos para preservar as coisas de que precisamos para sobreviver. A Diretoria K está preocupada em preservar as razões que temos para continuar vivendo."

"Razões para viver?"

"Coisas que fazem a vida valer a pena. As coisas antes desconhecidas. Os gostos que mudam cada vez que você os prova. A desordem é uma ordem própria, e é em torno disse que a vida humana é construída. É sobre encontrar essa combinação, a repetição de algo que muda a cada vez. A apreciação de uma coisa apenas pelo que ela é e como ela é sentida. É assim que eu o vejo, pelo menos."

"E isso requer coisa de espião?"

"Eu aprecio segredos. Eu tenho habilidade em encontrá-los, catalogá-los, padronizá-los. Para onde vai a informação é irrelevante."

"E você está aqui agora."

"Estou aqui porque é onde sou mais bem aplicada. Meus superiores sabiam que havia segredos que valem a pena compartilhar. Ou talvez eles sentissem que algo estava em jogo, Ou ambos. Não faz diferença pra mim."

"Essa é uma atitude relaxada que você tem em relação aos crimes que você está cometendo atualmente."

Ela lançou um olhar de soslaio para ele. "Eu tenho fé no que faço. Eu sou boa no que faço. Tenho confiança de que é aqui que eu deveria estar. Você poderia ter feito isso também, sabe. Você poderia ter fugido, mas você não o fez. Você está sobrecarregado, mas você ainda está seguindo em frente. Você é mais adaptável do que pensa."

"Quero dizer, eu não podia-"

Vera agarrou a manga de sua jaqueta emprestada e o arrastou até parar na saída do beco. Ela o empurrou contra uma parede áspera de gesso. Algumas pessoas continuaram passando por eles e Casey se virou para esconder o rosto. "O quê? O que foi?" ele sussurrou.

Vera apontou para a rua e do outro lado, para um prédio de apartamento pequeno entre fileiras de outros. "É aquele, não é?"

Casey revirou o endereço em sua cabeça. "Sim, provavelmente é. Por que paramos?"

Ela parou de apontar, mas continuou olhando naquela direção. "Tem um homem na frente."

Ela estava certa. Um homem barbudo vestindo shorts de basquete estava encostado em um lado da entrada do prédio, olhando para uma pequena mochila de malha. Ela continuou, "Eu vi ele antes. Em Portland, alguns dias atrás. Portland, Oregon. Eu vi ele e outro homem e eles estavam falando sobre fazer algo grande e vago."

Casey olhou para ele. "Grande e vago, hein?"

"Ele é o mais alto. Sidney Way, provavelmente," Vera concluiu.

Os dois ficaram parados no beco por mais um momento.

Casey começou. "Então, o que fazemos?"

"O ideal é que nos aproximemos de uma maneira não ameaçadora e iniciemos um diálogo."

"Não foi isso que fez você ficar refém lá na casa?"

"Eu disse idealmente."

Casey se inclinou para fora da passagem que eles estavam bloqueando de forma descortês. "Ele está indo embora."

O homem fechou o zíper da mochila e se virou para caminhar decididamente pela rua.

"Então, deveríamos-" Casey esperava que ela o interrompesse com um plano, mas ela já estava descendo a rua. Casey balançou a cabeça para ninguém em particular e seguiu. Ele engoliu em seco, agarrando-se a um ar de indiferença. Não é grande coisa, apenas perseguir alguém em plena luz do dia enquanto procurado pela polícia. Apenas um hobby.

Vera exalava facilidade. Ela passava por entre os outros pedestres, olhos de águia voltados no alvo. Casey lutava para acompanhá-la, o tráfego de pedestres gradualmente aumentando para uma densa multidão conforme eles se moviam.

Casey se esforçou para ver por cima da comoção na frente dele. Onde a rua conduzia ao redor de uma horta comunitária degradada, os caminhos estavam bloqueados por divisórias de concreto. Fita azul e cavaletes. Eles estavam indo direto para um posto de controle, com meia dúzia de golens da polícia. Oh não.

Sua respiração começou a aumentar. Tudo bem, ele pensou. Ele pode simplesmente se virar e ir embora. Eles podem voltar para buscar Sidney outro dia. Ele puxou a manga de Vera. Ela não se intimidou. Ele parou no lugar, cercado por estranhos.

Foi neste momento que Casey foi derrubado.

Braços voaram ao redor de seu pescoço, o peso de um homem magro derrubando-o. Um bando de civis suspirando saiu do caminho para deixá-lo cair de costas no asfalto. Um homem que ele nunca vira antes estava em cima dele. Ele estava gritando, "Por que você está nos seguindo?" Casey ofegou.

"Oi, Timothy," disse Vera. Ela balançou a perna para o lado do homem, afundando o pé em seu estômago. Ele ofegou, afrouxando o aperto. Casey pressionou o pé contra o esterno dele e Timothy Way caiu de costas.

Uma sirene tocou. A multidão estava se espalhando como bolhas de ar deixando a água. Uma voz mecânica gritou, "Esta é uma cena de crime ativa. Por favor se deitem no chão e coloquem as mãos atrás das costas para processamento."

Vera agarrou os antebraços de Casey e o colocou de pé em um movimento fluido. Timothy estava se colocando de joelhos. Vera olhou para a rua lateral. Sidney estava correndo. Os golens ainda estavam gritando. Um deles olhou diretamente para Casey, olhos sintéticos brilhando com reconhecimento.

Ela começou a correr e puxou Casey com ela.


Depois de irromperem do meio da multidão, as ruas rapidamente ficaram vazias. Um assassino enlouquecido à solta tende a limpar os espaços públicos.

Sidney estava fugindo, sua mochila balançando para frente e para trás a cada um de seus passos. Ele mexia com algo em suas mãos.

As pernas de Casey queimavam. Ele corria no colégio, mas isso foi a melhor parte de uma década atrás. Agora não só Casey foi confrontado com a dor física de seus músculos ardentes, mas a dor emocional simultânea de estar agudamente ciente de quanto ele havia se deixado levar. Para piorar a situação. Vera nem estava começando a suar.

Os golens da polícia devem ter alertado a sede da UIU. Eles vão estabelecer um cordão a qualquer minuto, um anel de homens armados laçando cada saída. Nenhuma escapatória. Casey baniu o pensamento de sua mente. Às vezes, você só precisa soltar os controles e se permitir fazer o que será feito.

Sidney deu um giro, direto para um beco estreito. Ao fazer isso, ele deixou cair o que estava carregando, algo como um tubo azul. Casey deu um tapa no tijolo do beco, saltando sobre o tubo e prestando pouca atenção.

Atrás dele, o tubo explodiu em uma nuvem ciano de asas esvoaçantes, milhares de morcegos azuis espiralando na entrada. Vera não passou por ela. Na melhor das hipóteses ela não arriscou.

Casey estava alcançando ele, esquivando-se de papa espalhada, seus pés espirrando em poças iridescentes de água contaminada. Seus músculos gritavam, mas ele nunca deu ouvidos a si mesmo e não planejava começar agora.

Eles estavam perto agora. Casey esticou os braços para agarrar algo, qualquer coisa de Sidney, mas as pontas dos dedos apenas roçaram a mochila. Sidney se esquivou para o lado e diminuiu a velocidade, chtuando com fluidez a perna de Casey quando ele passou. Casey caiu de ponta-cabeça. Ele prendeu as mãos em uma pilha de lama, esfolando as palmas das mãos e sujando o rosto. O pé de Sidney salpicou a poça em seus olhos enquanto ele corria para fora do beco.

Ele tentou praguejar, mas sua respiração estava muito curta, e só saiu como um guincho. Ele torceu para que ninguém tenha ouvido aquilo. Ficando de pé mais uma vez, ele dobrou a esquina.

Sidney Way estava lá, parado no meio da rua. Eles estavam no distrito turístico de Três Portlands, flanqueados em ambos os lados por hotéis pastel, casas de varaneio desocupadas, lugares luxuosos para gente rica que, tendo conquistado o mundo material, buscava um local mais desafiador para enobrecer.

Sidney estava segurando uma arma. Casey derrapou até parar.

Sua voz era uniforme e precisa. "Vai me dizer por que você está nos seguindo?"

Casey suspirou por outro momento. O corpo parecia que ainda estava se movendo, pulsando ao mesmo tempo com o latejar em seus ouvidos. "Eu acho," ele ofegou, "que estamos ambos em risco. Coisas estranhas estão acontecendo. Eu acho que vocês podem ser um alvo."

Ele semicerrou os olhos para Casey. "É isso?"

"Eu não sei o que vocês estão planejando, mas você não precisam fazer. Isso não é vocês, é algo em suas cabeças! Ele está fazendo vocês fazerem coisas."

Ele inclinou a cabeça para um lado. "Eu posso estar errado, mas não acho que você tenha a menor ideia do que está falando."

Casey não podia realmente discutir com isso. Ele pigarreou. "Então acho que estamos em um impasse mexicano."

"O quê? Você está desarmado. Só seria um impasse mexicano se você tivesse uma arma."

"Por acaso eu poderia-"

"Sem chance."

Bem, Casey estava sem ideias. Não havia nada que ele pudesse fazer. Ele ergueu as mãos atrás da cabeça-

Foi nesse momento que Sidney foi derrubado.

Vera jogou seu peso sobre ele, envolvendo os braços em volta dos ombros dele. Ele perdeu o equilíbrio e caiu para trás, em cima de Vera. Ele bateu cegamente no rosto dela. Um cotovelo acertou o nariz dela com uma paulada feia.

Casey correu na direção da dupla enredada. Ele agarrou o braço da arma de Sidney, levanto ele para o céu. Sidney disparou uma vez, então duas, rajadas de som ecoando no crânio de Casey enquanto ele perdia o controle. Vera cravou o joelho nas costas de Sidney e os dedos dele se afrouxaram, deixando a arma cair com barulho no chão.

Atrás deles, outra voz soou. "Sidney! Está feito!" Casey girou a cabeça por cima do ombro. O outro irmão estava lá, acenando com algum pequeno objeto no ar.

Sidney mal conseguia respirar embaixo da dupla, mas balbuciou, "Faça isso! Agora!"

Três palavras passaram pela mente de Casey. Ameaças de bomba.

"PRO CHÃO," ele gritou, caindo de joelhos e cobrindo os ouvidos, apertando os olhos o mais forte que podia antes-


-do mundo entrar em erupção, um punho de ar e terra deslocada batendo Casey no peito com tal força que o ar em seu corpo foi expelido à força e ele foi levantado do chão.

Instintivamente, seu corpo se curvou, e Casey brevemente se tornou uma bola de canhão humana, caindo até que seus ombros bateram no meio-fio.

Ele desesperadamente suspirou por ar, mas seus pulmões se encheram de pedra obliterada, e ele teve uma tosse intermitente. Ele se virou, sobre suas costas. Ele estava sufocando.

Com as mãos trêmulas, ele agarrou a gola da camisa e a puxou sobre o nariz, tentando filtrar o ar. Ele inalou lentamente. Isso era melhor.

Ele recuperou algum controle. O ar feria seus olhos semicerrados. Tudo o que ele podia ver eram destroços fulvos no ar e pedaços de metal flutuando para baixo.

"Vera," ele suspirou, o mais fortemente que conseguia. "Vera!" Sem resposta.

Seus olhos voltaram a se concentrar, gradualmente separando os tons de marrom. Uma forma escura apareceu à sua esquerda, uma pessoa se levantando.

Do outro lado da rua, ele viu o que havia sido um prédio momentos antes. Uma exibição verde e azul-petróleo de extravagância reunida na forma de uma casa de férias. A fachada estava totalmente destruída agora, estilhaços espalhados pela rua.

A silhueta começou a caminhar em direção aos destroços, segurando algo na frente com ambas as mãos. A arma.

Casey se apoio nos cotovelos, então nas palmas doloridas, e então se empurrou para ficar de pé, as juntas estalando de desconforto. Ele seguiu a figura. Ela não pareceu ter notado.

Ela passou pela soleira e Casey seguiu atrás, mancando para dentro da casa.

O edifício estava em ruínas. Uma sala de estar estava coberta de fragmentos do que era ou arte moderna destruída ou arte moderna totalmente intacta parecendo como planejado. Um grito veio de uma porta, e Casey e a figura se viraram para olhar. A silhueta entrou.

Era um quarto ornamentado, ou costumava ser. Metade da parede, junto com os restos de uma cômoda antiga, estavam desabados na rua, e o teto havia desabado. Na cama, um velho estava preso, preso sob as vigas.

A silhueta se virou, revelando o perfil do rosto de Sidney enquanto ele levantava a arma.

Esta revelação foi muito conveniente para Casey, que sabia exatamente para onde mirar.

Seu soco acertou o ouvido de Sidney, jogando o homem já vacilante contra a parede, a arma deixando sua mão mais uma vez.

Casey se inclinou sobre a cama. Ele mal podia distinguir as feições do homem. Ele parecia familiar.

Cillian Erwan. O homem que ele tinha visto poucos dias atrás. O homem que colocou uma arma na mochila de Casey sem que ele percebesse.

Evidentemente, ele reconheceu Casey da mesma maneira. Ele tossiu e engasgou, mas conseguiu soar indignado de qualquer maneira. "O que você está fazendo aqui? o que está acontecendo?"

Casey ouviu gritos do lado de fora. Uma voz explosiva, "FBI, todos pro chão!" Ele não se mexeu.

Casey tentou manter a voz baixa. "O que você fez comigo? Você me fez matá-lo. Por quê? O que você tinha a ganhar?"

O rosto de Erwan mudou. Ele recuou. "Do que você está falando?"

Sua respiração acelerou. "Seu androide. Ela me deu um presente para o Regent. Ele virou uma arma na minha mochila, e eu- e eu-"

Erwan o interrompeu com uma risada doentia. "O robô?" Sua risada se transformou em tosse quando ele inalou poeira. "Garoto, você está perguntando ao cara errado. Eles estão me pegando também, não é?"

Casey franziu a testa. "Não, olha, vamos- vamos tirar você daqui. Eu só preciso encontrar-"

Alguém estava na porta. Alguém que qualquer encrenqueiro em Três Portlands conhecia muito bem. Agente Especial Kenneth Spencer. Ele estava segurando uma arma, também.

Casey se arrastou para longe, em direção ao buraco na parede.

Erwan tossiu novamente. "Já era hora de você chegar aqui. Eu fui-"

A bala de Spencer encerrou seu pensamento. Os olhos de Casey se arregalaram. Lá fora, ele ouviu outra voz idêntica. "FBI, todos pro chão!"

A coisa que se parecia com Spencer se virou para Sidney, o homem ainda segurando a cabeça contra a parede. Outro tiro.

Casey saltou sobre os destroços, seu pé ficando preso enquanto ele caia de cara na rua. Ele ficou de joelhos e sobre suas mãos e então se levantou de novo. Ele mancou por alguns passos, mas a tontura em sua cabeça era insuportável. Ele caiu de joelhos mais uma vez. No canto do olho havia outro Spencer, flanqueado por agentes uniformizados e visivelmente confuso.

"Identifique-se," disse Spencer.

"Agente Especial Kenneth Spencer," disse Spencer.

"Não," disse Spencer. "Você não é. Largue sua arma e saia do edifício com as mãos para cima."

"Não," disse Spencer. Ele estava na parede desmoronada do quarto agora. "Você não é." Ele apontou sua arma para Casey.

Casey fechou os olhos com força. Um tiro encheu seus ouvidos. E depois outro. E outro tiro.

Mas nenhuma dor veio. Ele abriu os olhos de novo, e viu apenas vermelho. Ele piscou.

Não havia nada de errado com seus olhos. Em pé acima dele estava um homem louro, os braços estendidos a sua frente. Uma mão puxou uma faca fina direto para baixo para o antebraço da outra, e do ferimento faíscas cor de vinho espirraram, fluindo ao redor de ambos em uma concha oca. As balas ricochetearam inofensivamente no amortecedor.

Casey olhou para ele.

Adam Rowe olhou de volta.

"Nós vamos ficar bem," disse ele, com um sorriso fraco.

Adam se ajoelhou. Com a mão que não estava disparando energia, ele agarrou a mão trêmula de Casey com força.

E então o mundo ao redor deles se tornou um borrão.


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