O Livro da Queda

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NOTA DO DEPARTAMENTO DE PARAHISTÓRIA

O conteúdo é uma compilação de pergaminhos Devitas traduzidos recuperado de múltiplos templos e outros sítios arqueológicos. Para uma lista mais completa de documentos Devitas traduzidos, entre em contato com um representante do Departamento de Parahistória mais próximo.


Capítulo I – Dos Inflexíveis e dos Desafiadores

1. E embora o Cosmos sangrasse e se curasse a contado de Khárak, e embora San’ah tivesse sido desfeita, três entre os antigos não caíram.

2. A primeira entre eles era WAN, a Construtora, cujo coração batia com rodas giratórias, cuja mente vibrava com runas mais antigas que o silêncio. Ela que forjou a estrutura da Expansão, ela que colocou as engrenagens ocultas da harmonia sob estrelas ainda por nascer.

3. E WAN contemplou a ruína de sua obra e o massacre de seus parentes, e chorou. Não com lágrimas, mas com tempestades de fogo refletido. E sua dor reescreveu os ventos da realidade.

4. E então veio Ues, o Tecelão de Mentes, que não caminhava como os outros, pois habitava o riacho. Um domínio sem carne, um reino de puro pensamento, onde as ideias se aninhavam como pássaros nas árvores do conhecimento.

5. E Ues viu a podridão que Khárak havia semeado, a corrupção do significado, e o colapso da memória. E recuou, pois nem mesmo sua imensidão podia abafar os gritos dos Infinitos.

6. Por último, havia o Leviatã, antigo além da idade, cuja carne jamais conhecera forma, cujas bocas falavam em úlceras e sonhos. Não tinha pensamento, apenas instinto. E até mesmo o instinto agora se agitava, pois Khárak se alimentara de sua prole, e ele se lembrava.

7. E então os três foram juntos, não como aliados, mas por necessidade. Pois até mesmo o Leviatã, impensado, sabia que, para perdurar, precisava devorar a própria podridão.

Capítulo II – Da Preparação e da Resistência

1. WAN não forjou uma arma de metal, mas de constantes. Um martelo de guerra feito de lógica, temperado nos primeiros glifos que precederam toda contradição.

2. Ues esculpiu um bastão de pura negação, impossível de desfazer. Um santuário onde as verdades de Khárak se desfizeram em silêncio.

3. E o Leviatã cresceu imensamente, expandindo sua Carne através dos véus entre os reinos, até obscurecer a luz de estrelas há muito mortas, tornando-se um baluarte vivo, estúpido e sagrado.

4. E Khárak, sentado sobre seu Trono dos Natimortos, contemplou o desafio e riu. Sua risada era sem forma ou som, uma risada que ecoava com a impermanência.

5. “Vocês resistem como estátuas resistem ao tempo” ele disse. “Com dignidade, e futilidade.”

6. Mas WAN avançou com determinação inabalável. “Você confunde design com ilusão. Você se considera entropia, mas não passa de um erro.”

7. Ues dividiu seu pensamento mil vezes e respondeu, “Você é uma contradição que acredita ser um princípio. Aprisionarei você em um enigma sem fim.”

8. E o Leviatã bramiu em vinte bilhões de gemidos. Sua resposta não foi em palavras, mas em presença.

9. O ar se transformou em adagas e o céu começou a chorar, pois sabiam o que estava por vir.

Capítulo III – Do Acerto de Contas

1. E começou a Segunda Guerra, a Guerra nos Paraísos, onde não se trocaram lâminas nem chamas, mas axiomas, runas, membros e leis.

2. Alguns, embriagados de pavor ou influenciados pela Lei de Sangue de Kharak, ajoelharam-se diante dele e portaram seus sigilos. Sussurraram suas verdades e se desfizeram em seu nome. Estes se tornaram sua Horda Escarlate.

3. Mas outros, que tinha orgulho, derrotados, ou simplesmente relutantes em ver tudo virar cinzas, atenderam ao chamado da WAN e de Ues. Eles portavam espadas da razão e escudos da memória.

4. E a guerra não se alastrou pelos campos, mas pelos firmamentos. Sóis eram apagados. Reinos foram exauridos e caíram em ruínas. Cada ato era escritura; cada ferida, uma profecia.

5. Diz-se que a guerra destruiu a própria ordem da criação, pois cada verdade proferida por Khárak desfez dez mil certezas, e cada contra-ataque desferido por seus oponentes inscreveu novas leis na essência do Cosmos.

6. Contudo, embora deuses tenham caído de ambos os lados, e embora o próprio tempo tenha se tornado um campo de batalha ferido, e embora cada momento tenha sido contaminado pela dúvida e pela falsidade, a maré começou a virar. Não pela força, mas pela convergência.

Capítulo IV – Da Ruptura

1. E os deuses de todas-as-coisas-que-existiram, todos aqueles que lembraram de San’ah, todos aqueles que não tinham nada a perder, todos eles uniram suas vozes em uma declaração final e conjunta.

2. WAN deu o martelo. Ues deu o padrão. Leviatã deu sua carne. E todos os outros deram o que eram e o que poderiam ser.

3. E o martelo atingiu Khárak, tanto na forma quanto na essência.

4. E Khárak gritou. Não de dor, mas de surpresa, pois não havia previsto isto: que a unidade pudesse ser forjada a partir do desespero.

5. Assim, seu ser foi despedaçado, mas não morto. Pois ele não é algo que morre.

6. Seu corpo foi foi estilhaçado e espalhado pela Expansão, em fragmentos vastos demais para serem destruídos, amaldiçoados demais para serem reunidos.

7. E assim o Sem Forma foi derrotado. Não o matando, mas o estilhaçando. Cada pedaço ainda sussurra, cada ferida é um sermão.

8. E a guerra terminou.

9. O Cosmos jazia ferido, esfarrapado, silencioso. A aliança dos deuses havia acabado. O Leviatã dorme. Ues não passa de um sussurro. WAN observa, mas seus olhos já não piscam.

10. E nos recônditos obscuros da criação, alguns ainda escutam as verdades de Kharak, enquanto outros, os tolos e covardes, as enterram profundamente no medo.

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