Café para Dr. Ferraz
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Era um dia monótono, Dr. Ferraz estava no seu escritório, mexendo o café na sua caneca favorita com uma colher de metal enquanto revisava documentos no seu computador. Eram relatórios de análise, de três anos atrás, sobre a funcionalidade dos equipamentos bélicos das FTM do Sítio PT23, que precisavam passar por uma revisão antes do arquivamento. Ele já havia acessado mais de uma dúzia, mas haviam mais algumas dezenas na fila.

O doutor levou sua caneca até a boca e tomou um gole de café, estava frio, quase gelado. De tanto mexer o líquido por tédio o calor se dissipou. Para Ferraz, é incogitável realizar tarefas sem cafeína, muito menos aquelas que são muito entediantes. Ele suspirou, pegou sua caneca, empurrou sua cadeira para trás, se levantou e foi até a porta. A abriu devagar, pôs somente a cabeça para fora e olhou para um lado e para o outro. O ambiente estava praticamente vazio, vários funcionários tiraram folga ou simplesmente se ausentaram, criando uma aura sombria no lugar.

O pesquisador saiu efetivamente de seu escritório e caminhou pelos corredores silenciosos até chegar a uma mesa metálica encostada na parede, que possuía duas garrafas térmicas, uma para café e outra para chá, alguns copinhos de plástico descartáveis, pacotes de açúcar e adoçante e colheres. Ferraz esvaziou sua caneca em uma lixeira própria para líquidos ao lado e pegou a garrafa de café para enchê-la.

Mas não havia nada lá, estava vazia, sem uma única gota para contar a história, aparentemente nenhum estagiário decidiu cumprir sua função hoje. O doutor se debruçou na mesa, deu mais um suspiro e pensou calmamente. Era possível que em outros corredores de escritórios houvesse o néctar dos deuses, mas também era possível que não. Além disso, se algum superior ou zelador dedo-duro percebesse que ele não estava em seu escritório por muito tempo, e justamente no meio do expediente, a situação poderiam ficar ruim para seu lado.

"A cafeteria." Disse Ferraz para si mesmo. Havia uma cafeteira no Sítio e com certeza eles teriam o que ele buscava. Ele olhou o relógio, 9:34, não era perto do almoço, mas perto o suficiente do café da manhã, a presença do café era garantida. O Doutor desceu as escadas e acelerou o passo, era necessário chegar lá rápido, voltar rápido e se alguém perguntar algo, bastava dizer que a mãe natureza chamou. Era um plano perfeito.


Após percorrer dois corredores, o pesquisador se deparou com uma placa, ela era amarela, dobrável e havia escrito "Cuidado, Piso Molhado". Seguindo em frente, mas andando mais cuidadosamente, ele viu outra placa exatamente igual à primeira "Cuidado, Piso Molhado". Mais adiante, achou uma terceira e após ela viu um homem segurando um esfregão e próximo dele havia um carrinho de zelador. Ele e o doutor estavam a aproximadamente 15 metros um do outro.

"Doutor Santos?!" Gritou Ferraz.

"Sim?"

Ferraz olhou para o fundo do corredor e viu mais quatro placas amarelas se estendendo até o final. "O que diabos você está fazendo?" Perguntou.

"Amigo… Eu realmente preciso responder o que eu estou fazendo?" Disse Santos numa voz calma e serena.

"Precisa! Você é um doutor, não um zelador."

"Estou aqui porque o corredor estava todo sujo e não havia ninguém para limpar." Ele repousou o esfregão no carrinho.

"Tá, tá bem… Mas por que sete placas?"

Santos eleva seu tom de voz "Porque o chão está molhado, oras."

Ferraz colocou a mão na testa e deu uma breve pausa. "Só precisa de uma placa!"

"O chão estava molhado de lá…" Santos apontou para o final do corredor "…até lá." Apontando para a primeira placa que Ferraz viu.

Ele olhou para o chão e então olhou as solas dos pés "Você chama isso de molhado?"

"Estava molhado quando eu as coloquei." E deu os ombros enquanto balançava a cabeça de um lado pro outro.

"Mas, eu-" ele interrompeu a própria fala. Não valia a pena continuar essa conversa, ele não podia demorar muito para chegar a seu escritório. Ferraz encheu o peito e marchou para frente, atravessando o corredor sem olhar para os lados. Passou pelo Dr. Santos, que por sua vez disse "Esqueci de falar, a cafeteria está interditada", mas foi ignorado.

O doutor passou por mais um corredor deserto, ele podia ouvir os próprios passos ecoando nas paredes.


Ferraz chegou até a porta dupla de plástico da cafeteria, ele a empurrou com sua mão esquerda enquanto segurava sua caneca na direita. Porém a porta estava emperrada, alguma coisa a impedia de se mover. Ele fez mais força e conseguiu empurrar o objeto pesado que atrapalhava: era o torso do corpo de um homem. Pelo uniforme e identificação dava para notar que não passava de um mero estagiário.

O pesquisador tirou sua atenção do corpo e olhou ao redor, haviam várias manchas e rastros de sangue pelo chão, mesas reviradas e mais alguns cadáveres, tantos de doutores como de funcionários comuns. Ele foi cuidadosamente até o balcão, evitando o sangue derramado e olhou pelo vidro frontal da cozinha. O recinto estava completamente destruído, o vidro estava sujo de vermelho, os aparelhos domésticos no interior estavam quebrados e/ou no chão, a única exceção era um micro-ondas, ou melhor, SCP-045-PT-J. "Bem que o Dr. Santos poderia ter dito para mim que ele estava limpando sangue" pensou Ferraz.

Algum doutor, também muito entediado, substituiu o micro-ondas da cafeteria por SCP-045-PT-J apenas para ver o circo pegar fogo. Deve ter sido o Alencar, ele faria uma coisa dessas, até porque seria necessário alguém com uma credencial alta para acessar e transportar SCP-045-PT-J.

Ferraz deu a volta no balcão e abriu a porta da cozinha, o chão estava ensanguentado, eram visíveis três corpos de funcionários. Eles foram esfaqueados, apunhalados, tiveram um pouco da carne rasgada e um estava com um corte profundo na garganta, mas o pior de tudo é que não havia sinal algum de café ou de uma cafeteira. Nem valia a pena entrar na cozinha e procurar, as condições estavam deploráveis demais.

Decepcionado, ele se afastou e se sentou num dos bancos junto a uma mesa, repousou sua caneca sobre a superfície e olhou para o teto. Talvez isso tenha sido uma viagem à toa, talvez alguém tenha notado sua falta no escritório, talvez até algum familiar tenha ligado, mas ele não estava lá para atender por causa de café.

Doutor Ferraz retornou, encheu sua caneca com chá da garrafa térmica, entrou no seu escritório, sentou na cadeira, levou a caneca até a boca, tomou um gole e disse num tom baixo e calmo: "Esse foi o melhor chá que eu já tomei."

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