Registro de Incidente 122-PT-Ψ
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QUALQUER TENTATIVA DE ACESSAR ESSE ARQUIVO SEM AUTORIZAÇÃO NÍVEL 3/122-PT SERÁ REGISTRADA E LEVARÁ A AÇÃO DISCIPLINAR IMEDIATA.

Luz. Preocupações. Dor de cabeça pulsante. Ansiedade. Dor no corpo. Segredos.

Ser um pesquisador na Fundação não é fácil. Um homem parou por um momento para olhar-se no espelho do banheiro e viu a si mesmo, talvez pela primeira vez em meses. Encurvado, com as mãos segurando as laterais do lavatório, levemente trêmulas, com os músculos nodosos dos antebraços, visíveis graças às mangas dobradas do jaleco, contraindo e relaxando. Cabelo e barba com mais fios brancos do que se lembrava. Pelo menos suas roupas estavam em ordem, uma vez na vida. Espadaúdo, ainda conseguia preencher suas roupas de um jeito que lhe agradava.

Sorriu consigo mesmo, mesmo que seus olhos se mantivessem pétreos. Perguntou-se novamente se o que estava prestes a fazer era correto. Provavelmente a milionésima vez que fazia isso nas últimas duas horas. Ética e moral realmente são defenestradas quando você tem diante de si escolhas desse calibre. Então olhou para as marcas em seus antebraços e na parte superior do seu peitoral.

Respirou fundo, deixando aquele raro momento se estender. Então, girou nos calcanhares e, com o passo vagaroso, dirigiu-se a saída. Ao abrir a porta, já não era mais um homem, e sim um Doutor da Fundação, interessado apenas no bem da humanidade. Dr. Nascimento, era o nome escrito em seu jaleco. Com a postura ereta, seguiu com o passo altivo e olhos firmes. Dirigiu-se ao laboratório combinado, pois precisava supervisionar um teste relevante a respeito de SCP-122-PT. Ele resolveria esse problema, custasse o que custasse.

Foda-se o Comitê de Ética.


Depois de 6 meses, uma oportunidade.

O agente infiltrado finalmente conseguira uma oportunidade de recuperar o que era de sua organização por direito. A Seringa, catalogada pelos seus mestres como Fator XX, estaria sujeita a seus pedidos de teste naquele dia, após recente promoção para o nível 3 de segurança. Mas, antes, precisava garantir que não seria exposto como um agente externo. Também pensou em seu objetivo secundário. Sorriu consigo mesmo. Finalmente iria matar o desgraçado que expôs tanto da organização que o acolhera.

Olhou para o relógio em seu pulso enquanto inconscientemente batia o calcanhar ritmadamente no chão, como um tique nervoso. Aguardava ansiosamente a chegada de seu "superior" para conduzir seu plano, que já estava sendo pensado há meses. Lembrava como se fosse na noite anterior, o dia que foi acolhido por um dos melhores homens que tivera o prazer de conhecer. Como ele apresentou-o ao mundo do anômalo e como se sentira quando descobriu o que a Fundação fazia. Hipócritas que fingem salvar a humanidade enquanto apropriam-se de forças além de seu controle para seu próprio ganho e apontam seus dedos para outras organizações, como se fossem diferentes.

Dê poder a um homem e descobrirá quem ele é de verdade. Dê poder virtualmente ilimitado a uma organização facínora e observe o mundo ruir. A Organização finalmente decidira atacar seu pior inimigo, aquele que mais a havia prejudicado durante seus anos de operação, e o agente tinha um papel crucial nesses esquemas: o de roubar a mais útil das armas utilizadas pelo Relicário. E a missão que tinha dado a si próprio: tirar de cena o maior guardião de um dos Sítios mais influentes no Brasil.

Não podia deixar de sorrir enquanto pensava na perfeição do que seus mestres haviam planejado. Durante os últimos meses, o agente aproveitou a nova liberdade de sua posição como pesquisador e, com muito cuidado, conseguiu acessar todas as plantas e diagramas de construção do Sítio 033-PT e enviou-os para os especialistas em sua organização, de modo a organizarem o modo perfeito de sabotar todo o local de acordo com seus objetivos.

Elias Machado, era como era conhecido pelos seus colegas pesquisadores e doutores. Era seu novo nome, trabalhando dentro da Fundação que tanto almejava destruir. "Elias, Elias…" ele ouviu, enquanto sentia uma mão grande apoiando-se em seu ombro esquerdo. Virou-se rapidamente para olhar para trás e percebeu que a hora havia chegado. Observou o homem a sua frente. Dr. Nascimento. Era inegável que ele era imponente e provavelmente daria trabalho em um confronto direto. Estendeu a mão em um cumprimento.

"Me desculpe Doutor, eu estava distraído pensando nos testes que vamos conduzir hoje" disse, com um sorriso amistoso. Ele não havia sido escolhido à toa, era um dos melhores atores da Organização, talvez o melhor. Nascimento olhou em seus olhos e sorriu em resposta. O sorriso não chegou em seus olhos. "Não tem problema, Elias. Devemos?" Disse, enquanto gesticulou em direção a porta de entrada do laboratório. O Agente apenas acenou cordialmente e abriu a porta, dando passagem para seu alvo.


Algo estava errado. Trabalhar com anomalias e coisas que desafiam sua própria percepção da realidade diariamente, durante anos sem fim, te dá uma percepção quase sobrenatural de quando algo está prestes a acontecer. É como sentir uma diferença de pressão atmosférica. Assim que deu um passo para dentro da sala de controle do laboratório de testes algo o atingiu que nem um raio. Olhou para Elias, observando-o com mais atenção do que estava no momento anterior. Então olhou em volta. Armários, uma mesa com papéis avessos, computadores, um painel de controle e outras parafernálias. Formulários de testes e controles de câmeras. Era dali que observara vários testes feitos anteriormente, e onde observaria os testes que seriam feitos agora. Tudo normal, aparentemente.

O polegar de sua mão direita moveu-se instantaneamente para o minúsculo botão localizado na parte inferior do anel localizado em seu dedo anelar. Mas conteve-se. Deveria ser sua paranoia, o cansaço deveria estar mexendo com seus nervos. Tentou sufocar a metafórica bola de gelo que formou-se em seu estômago e teve um calafrio. "Frio, Doutor?" a voz aguda de Elias tirou-o de seu transe. Deu um sorriso amarelo. "Não, apenas um calafrio." Sua mente gritava para se afastar daquele lugar, mas ele tinha trabalho a fazer e não era a primeira vez que isso acontecia.

Deu as costas para Elias e dirigiu-se para a mesa de controle, observando os papéis com o modelo de relatório de testes padrão de 122-PT. Ligou um dos computadores, preparou o painel de controle e escreveu no papel a data e a hora, entregando-o para que Elias escrevesse a descrição do teste e assinasse com suas credenciais, enquanto escrevia as condições do teste no computador e assumia o controle das câmeras que vigiavam a caixa padrão que continha 122-PT, transportada até ali mais cedo por outros pesquisadores.

Percebeu o que o incomodava. A ausência do pessoal da segurança que normalmente estava presente em testes como esse. Imediatamente, sentiu-se mais confortável. Sabia que o pessoal de segurança desse setor estava ausente auxiliando a FTM PT24-Γ após uma falha de contenção excepcionalmente difícil de SCP-088-PT. Tinha conversado com o velho mais cedo e as coisas não terminaram bem. Esse tipo de falha de contenção não acontecia há muito tempo e nem deveria acontecer. Fez uma anotação mental para investigar mais profundamente o que tinha acontecido depois.

Respirando aliviado, olhou para Elias, que já havia terminado de anotar as informações necessárias na folha de relatório e estava dentro do laboratório, retirando SCP-122-PT de sua caixa de contenção. Nascimento nem havia percebido que ele já tinha entrado no laboratório, provavelmente devido a distração com suas paranoias pessoais.

Levantou-se e pegou a folha que Elias tinha preenchido, para finalizar o registro de testes. Nascimento debruçou-se sobre a mesa e percebeu que Elias havia esquecido de colocar suas credenciais atualizadas na folha, então chamou-o pelo microfone do painel de controle para que o fizesse antes de continuar com os testes. Elias sinalizou entendimento e retornou para a sala de controle.

A ansiedade retornou, amplificada em dez vezes. Nascimento sentiu-se como se estivesse prestes a ter um ataque de pânico, enquanto debruçava-se sobre o painel de controle para anotar as informações finais no computador. Apertou o mouse com tanta força em suas mãozorras que quebrou o plástico, gerando um som alto no ambiente silencioso. Então sua visão flutuou para a tela de um dos monitores desligados e ele viu Elias silenciosamente aproximando-se por trás de si com algo em suas mãos. Só teve tempo de apertar o botão em seu anel.


Elias quase riu ao ver aquele homem enorme próximo de ter um colapso perto de si. Ele não sabia o que estava acontecendo, mas o Doutor com certeza estava tremendo. O plano era perfeito, entretanto Elias mais uma vez superestimou as próprias habilidades. O desgraçado era rápido. Rápido demais pro tamanho que tinha.

Aproximou-se lentamente de Nascimento. Talvez lentamente demais. Quando estava há centímetros de injetar o Fator XX, que havia acabado de tirar da câmara de contenção, no pescoço do Doutor, ele virou-se muito rápido, atingindo Elias com o cotovelo direito em sua mandíbula.

A dor foi grande e a força do homem foi suficiente para jogá-lo no chão, mas o que o feria mais era seu orgulho ao ter sido pego e não a pancada que recebeu. Ele sabia que Nascimento era proficiente em combate corpo a corpo, mas jamais o suficiente para lutar contra ele. "O que você quer, Elias?" O homem disse, com seus olhos fixos em Elias e a guarda alta. O agente não podia deixar de sorrir. Não disse nada, apenas investiu.

Nascimento era rápido. Mas não o suficiente. Tentou dar um direto com o braço esquerdo, Elias desviou apenas a distância suficiente pra passar a alguns centímetros de seu braço e rapidamente engatou um mata-leão no homem enquanto chutava a parte posterior de seus joelhos. Nascimento era pesado e tentou usar seu peso em sua vantagem, mas não funcionou. Após alguns segundos, o homem começou a desfalecer em sua pegada. Não podia evitar o sorriso que aparecia em seu rosto. Afrouxou um pouco a pegada e sentiu o homem respirar fundo.

Mostrou SCP-122-PT para Nascimento em sua mão direita. E então penetrou a agulha em seu pescoço. "Você vai responder tudo o que eu perguntar ou então eu vou apertar o êmbolo. Sem gracinhas. Entendido?" Nascimento respirou fundo e não respondeu. Elias deu um peteleco com o dedo indicador na altura do osso zigomático do tão renomado Doutor. "Responda, Doutor. Não tenho tempo para joguinhos, se você começar com joguinhos, pode ter certeza que não sairá vivo daqui. Você já viu o que o Fator XX faz, não é?"

"Você nunca vai sair daqui vivo." Nascimento disse, com a voz firme. "Eu não sou nada, apenas um homem. Tem câmeras aqui dentro, 'Elias', se é que esse é o seu verdadeiro nome, eles conhecem o seu rosto e você sabe como a Fundação funciona. Pare agora e talvez consigamos fazer um acordo sem precisar derramar sangue." Elias gargalhou.

"Câmeras? Ah, Doutor, é incrível como vocês da Fundação sempre acham que estão um passo a frente de todos, quando na verdade estão dois passos atrás. Você acha que a segurança estar ocupada agora com aquele sargento maníaco é coincidência? Não tem uma câmera funcionando em todo esse setor. Eu garanti isso. Essas falhas elétricas que aconteceram nas últimas semanas são todas obras minhas. Vocês são tão bons em conter objetos, mas não conseguem sequer perceber uma sabotagem bem feita. Patético. Não sei como conseguiram tomar isso do Relicário."

O Agente sentiu Nascimento engolir em seco. Finalmente alguma coisa que o fez descer do salto. Riu novamente. "O que foi Doutor? Não se sente mais tão intocável, não é mesmo? Achou que o Relicário ia deixar vocês manterem a nossa arma mais importante presa aqui? Foi muito fácil me infiltrar nesse lugarzinho de merda. Vocês não são páreo para Um Agente Classe 5 como eu."

O agente gastou os quinze minutos seguintes interrogando o Doutor a respeito de informações da Fundação que poderiam ser úteis para seus mestres. Era um homem quebrado, descobrir que a organização que seguia tão fielmente era tão fraca e mesquinha fazia isso com uma pessoa. O Agente já tinha visto isso acontecer antes. Entretanto, isso não gerou qualquer espécie de empatia por aquele verme.

Ao terminar, apertou o êmbolo da seringa, inundando a carótida do Dr. com o Fator XX, efetivamente matando-o.


"Ok Mirtes, é o suficiente." disse o Doutor, enquanto terminava de anotar as falas balbuciadas do Agente do Relicário. Agora as coisas faziam mais sentido. Não era qualquer um que tinha invadido um dos Sítios mais seguros do país e causado o caos que causou de forma quase que indetectável. Era um Agente Classe 5 do Relicário, um dos escolhidos diretamente pelos Líderes da organização.

Nascimento respirou fundo. Simular a própria morte era com certeza algo estranho, até para ele. Olhou para o homem que conhecera como Elias, preso a uma maca e entubado com o novo soro que ele e Mirtes haviam desenvolvido as costas do Comitê de Ética. Era um negócio realmente poderoso, que ia mudar o cenário dos interrogatórios modernos. Conseguir simular um cenário na mente de um ser senciente e ainda fazer ele ficar suscetível a manipulação psicológica? Isso com certeza era algo revolucionário. Revolucionário e assustador. Olhou para a última amostra do Soro V23, como havia sido batizado por ele. Pegou o frasco e enfiou-o no bolso do jaleco.

"Tá bom Nascimento, mas me conta, como você conseguiu se livrar de um Classe 5 e ainda capturar ele? Esses caras não eram pra ser fantasmas?" Indagou Mirtes, com seus olhos fixos no Agente. Nascimento olhou para o seu anel no dedo anelar direito e rodou ele no próprio dedo usando a mão esquerda. O anel tinha uma agulha escondida com uma dose cavalar dos tranquilizantes mais potentes conhecidos pela Fundação. Era o que ele tinha usado quando Elias o agarrou por trás, em sua mão.

"Um homem como eu depende de segredos pra sobreviver, Mirtes." Sorriu e olhou para ela. "Se eu te contasse, teria que te matar." Mirtes não sorriu. Por algum motivo, ela sabia que isso talvez tivesse um fundo de verdade. "Bom, hora de finalizar isso. Termine isso e manda ele pra fazer os exames padrão, sim? Vai ser bom para observarmos os efeitos colaterais do V23." Nascimento, então, virou as costas para a Doutora e pegou o gravador digital em cima da bancada do laboratório, apertando o botão para iniciar a gravação.

"Entrevistador: Dr. Vinicius Nascimento
Entrevistado: PdI-223PT, "Elias Machado". Agente do Relicário Classe 5.

Prefácio: PdI-223PT infiltrou-se com sucesso no Sítio 033-PT e só foi capturado ao tentar assassinar um Dr. de Nível 4 e roubar SCP-122-PT. A entrevista a seguir foi feita em ██/██/20██…"

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