Carnívoros
avaliação: 0+x

Depois de tantos aniversários, estava ficando cada vez mais difícil fazer algo novo e emocionante. E John sabia que Bailey não importaria se eles assistissem A Princesa Prometida pela décima quinta vez ou conversassem a noite toda. Mas ele queria tornar este aniversário especial.

"Já deveríamos estar em Vermont à essa altura," disse Bailey. Eles estavam dirigindo há pelo menos duas horas, deixando para trás os arranha-céus e as ruas lotadas de Manhattan. Agora eles entravam na parte do estado sobre a qual ninguém fala — onde havia mais árvores do que pessoas.

"Estamos quase lá. Acho que são apenas mais trinta minutos."

Bailey não parecia convencida. "Sabe, a cada minuto que leva para chegar lá, minhas expectativas para esse lugar só aumentam."

"Você não está animada?"

"Estou curiosa, mas não me importo com hambúrgueres e bifes vegetarianos tanto quanto você." John sabia disso. Este ano ele percebeu que estava sendo mais egoísta do que no passado. Mas o aniversário era para os dois curtirem, não?

"Mas eles são diferentes," respondeu John. "Tipo, eles quase têm o gosto da coisa real, mas… eu não sei. Não é a mesma coisa."

"Tá… tá, você está certo."

"Já fazem trinta anos. Eu só quero me lembrar do sabor da carne."


Introdução: O seguinte é uma transcrição de um vídeo intitulado "EXPOSTO!" postado no YouTube. Este vídeo foi sinalizado por Webcrawlers da Fundação por conter comportamento possivelmente anômalo e colocado para revisão.


<Começo do Registro de Vídeo>

A câmera focaliza uma estrada de terra; nenhum carro está à vista; Ao longe, o contorno de edifícios é visível através de uma neblina cinzenta.

O cinegrafista se aproxima dos edifícios. Os detalhes tornam-se visíveis. Um é uma pequena casa com entrada para carros; atrás dela há uma vasta gama de armazéns.

Uma luz aparece de um dos armazéns. O cinegrafista para de se mover. A luz se move em direção à estrada. O cinegrafista corre para um campo próximo à estrada, deitando-se na grama molhada. Ele começa a respirar pesadamente.

A luz se aproxima.

Ela pertence a um caminhão semi-reboque. Na lateral do caminhão estão as palavras "Fazendas Williamson"; incluindo uma ilustração de um agricultor dirigindo um trator.

O caminhão passa pelo cinegrafista.

Depois de alguns minutos, o cinegrafista se levanta e continua andando em direção aos edifícios.


O único jeito de chegar ao restaurante era por uma estrada de terra solitária cercada por árvores. John realmente tinha entrado no meio do nada, Nova York. Fazia anos desde que eles dirigiram para tão longe da Cidade de Nova York. A cidade tinha praticamente tudo. Aqui fora havia escuridão entre as árvores, o assobio baixo do vento, e uma lua cheia no céu. Aqui fora, era selvagem.

John teve um vislumbre de uma nova forma com o canto do olho. E depois outra. Ele desacelerou, só para poder dar uma olhada melhor. Eram caminhões e SUVs, provavelmente em seus últimos quilômetros. Alguns tinham amassados nas portas, outros completamente sem os para-choques. Faróis quebrados olhavam para o Lexus recentemente reparado de John, lembrando os bons dias. Bailey podia imaginar o barulho dos silenciadores e o guincho das pastilhas de freio gastas. Eles eram zumbis de carros.

À medida que John e Bailey se aproximaram do restaurante, os carros começaram a evoluir. As placas não estavam enferrujadas. As rachaduras das janelas desapareceram. Eles ficaram mais brilhantes. E mais elegantes. A cerca de cem pés de distância, eles passaram por uma Ferrari vermelho-cereja estacionada em uma poça de lama.

"É este o lugar" perguntou Bailey. Ela sabia a resposta, mas queria ouvir John dizer. Ele ficou petrificado. Ele não sabia o que esperava, mas isso não parecia material de aniversário.

"D… Deveria ser."

John saiu da estrada e estacionou ao lado de um Tesla. Eles olharam para um homem que estava na frente do restaurante, assobiando e esperando para abrir a porta para convidados. Os dois ficaram sentados no carros por um momento antes de saírem juntos. Afinal, eles dirigiram a distância toda. Eles deveriam pelo menos experimentar a comida. Bailey ergueu um pouco vestido, só para ter certeza de que não cairia na terra. O casal se aproximou do recepcionista. Ele usava um colete e uma camisa de botão. Suas calças eram grandes para sua cintura, e seu rosto estava apenas meio barbeado. O homem abriu um sorriso com alguns dentes faltando.

"Bem-vindos ao Pete's!" ele anunciou enquanto segurava a porta. John e Bailey acenaram educadamente com a cabeça e evitaram fazer contato visual.


O cinegrafista se aproxima da fazenda. A luz brilha através das janelas da frente. Conversa alta e indiscernível pode ser ouvida vindo da casa.

A câmera é apontada para dentro.

Um grupo de homens de cerca de trinta a cinquenta anos está sentado ao redor de uma mesa de jantar. Eles aparentam estar bebendo cerveja e jogando cartas. Eles berram e gritam quando um dos homens, usando um chapéu de vaqueiro, recolher um pote de aproximadamente duzentos dólares.

BANG

A câmera é rapidamente trazida de volta para trás da esquina. A casa fica em silêncio.

Voz Desconhecida 1: Puta merda, Paul, no que cê tá atirando?

Voz Desconhecida 2: Vi algo na janela.

Voz Desconhecida 1: Não tem bosta lá fora.

Voz Desconhecida 2: Eu disse que vi algo. Eu sei o que vi.

Voz Desconhecida 1: E eu sei que cê tá bêbado. Agora guarde essa desgraça antes que você estoure seus próprios miolos!

O cinegrafista começa a se afastar da casa. No breve silêncio antes de os homens voltarem ao seu jogo de apostas novamente, há um gemido baixo vindo dos armazéns.


Lá dentro, o restaurante cheirava lavanda. A iluminação era romanticamente fraca, e s mesas tinham toalhas de mesa e taças de vinho. Homens e mulheres vestindo ternos e vestidos extravagantes falavam com aquela voz calma que enche estabelecimentos de luxo. A voz usada para falar sobre segredos guardados pelos absurdamente ricos. Afinal, esse era o povo que tentaria manter confidenciais suas passagens de fim de semana para Hamilton. John conseguia ver por que seu chefe recomendou o lugar.

John se aproximou da anfitriã, que parecia mais preocupada em coçar as costas sujas do que em lidar com novos clientes.

"Humm… mesa para dois, por favor?" Perguntou John. A anfitriã piscou.

"Só cês dois?"

"Sim, para dois."

Ela estudou seu pódio por trinta segundos completos antes de pegar dois menus, "Sigam-me."

John e Bailey foram sentados em uma mesa bem no meio do restaurante. O casal se entreolhou por um momento. Cada um procurando por sinais de que tudo estava bem. Bailey estava acostumava a receber esse olhar de John. Normalmente era ela quem o arrastava para fora do condomínio em algum tipo de aventura. É por isso que ela apreciava suas tentativas a cada ano de trazer uma nova experiência para ela. Bailey o trouxe para o mundo multicolorido dos clubes da Cidade de Nova York, para a vista pacífica no topo de Pike's Peak. Ele a daria aquele olhar de "você tem certeza?". E normalmente, ela tinha.

John não estava acostumado a receber o mesmo olhar de Bailey.

John desdobrou o guardanapo e colocou o prato de pão de lado. Bailey engoliu em seco e seguiu o exemplo.


O cinegrafista caminha em direção a um dos armazéns.

Os gemidos ficam mais altos, com berros baixos periodicamente perfurando o barulho.

A cerca de cinco metros da porta, a câmera treme e um som de engasgo é ouvido.

Depois de um momento, o cinegrafista volta a se aproximar do armazém.

A porta do armazém está fechada e trancada com um cadeado.

Os gemidos ficam ainda mais altos.

O cinegrafista coloca a câmera no chão. Tudo o que pode ser visto são as botas de couro do cinegrafista.


A conversa não foi fácil para John e Bailey enquanto esperavam pela comida. Eles ficaram menos nervosos depois da segunda taça de vinho, mas passaram mais tempo olhando por cima dos ombros e de olho nos funcionários.

Eventualmente, um homem cuja barriga vasava entre os botões inferiores de uma camisa suada chegou com dois pratos. Seu rosto não estava barbeado e seu sorriso estava cheio de dentes amarelos e pretos. Ele colocou os dois pratos diante de Bailey e John.

Imediatamente, eles se esqueceram do garçom. Eles se esqueceram do restaurante. Eles se esqueceram das duas horas de viagem. Havia apenas o cheiro. O cheiro de gordura e banha e sangue. O cheiro de vísceras cozidas. O cheiro de carne.


O cadeado cai perto no chão. O cinegrafista pega a câmera e abre a porta lentamente. Ela faz um rangido, que mal se ouve sobre os gemidos de dentro.//

Ele entra no armazém e acende uma lanterna.

À esquerda está um rebanho de gado, cercado em um curral, ombro a ombro. Não há espaço para os animais se mexerem. Eles estão todos de costas para o outro lado do armazém, e suas narinas estão tapadas.

No lado direito do armazém há uma pilha de vacas colhidas. Toda a sua gordura, músculos e tendões foram removidos de seus corpos, deixando apenas pele, osso e cabeça. Há movimentos na pilha. As cabeças das vacas colhidas choram e gemem. As vocalizações mais altas parecem emanar debaixo da pilha.

Depois de apontar para as vacas colhidas por trinta segundos, a tela fica preta. Um título aparece com as palavras "Sem Mais Carne de Vaca. Dissolvam as Fazendas Williamson."

<Fim do Registro de Vídeo>


"Dois filés de costela, assados, feitos de carne bovina cem por cento real. Bone-app-a-tite," anunciou o garçom.

John e Bailey devoraram suas refeições.

Salvo indicação em contrário, o conteúdo desta página é licenciado sob Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License