Você é um brinquedo, Sr. Sanderson
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149 Scranton Lane
Sítio-92 Não Incorporado, Los Angeles, CA
8:42 PM, 24 de Junho, 2032

"Então, você vai nos contar?"

"Contar o que?"

"Sobre a missão. O que realmente aconteceu?"

"Tudo o que o relatório disse que aconteceu. Perdemos a anomalia, perdemos-"

"Sim, mas tipo- ela falou? Isso era um humanoide, certo?"

"Pfft. Uma humana, sim. E também famosa. Ela é uma das figuras públicas anti-Fundação mais proeminentes por ai. Você provavelmente já viu os anúncios de jornal deles."

"Oh, o escritório de advocacia. Soluções Legais Leeward e Warner, certo? E o skip é a Warner?"

"Sim. Temos tentado recontê-la há anos, mas ela continua encontrando brechas legais para evitá-lo."

"Merda, sim."

Brent Sanderson sente uma pontada na nuca. Como se uma pena estivesse fazendo cócegas em seu cérebro, bem ali no cerebelo. "Olha, eu não quero falar sobre isso."

"Sim, você está cansado. Caso chegando e tudo mais. Estou com você."

Ele balança a cabeça. O tempo parece congelar enquanto ele vê os rostos de seus colegas de trabalho. Rogers, Gale e Kinsey, todos da Resposta Fora de Sítio e vestidos com suas camisetas pólo brancas idiotas. Andrew, de sua equipe, observando o questionamento incessante de Gale com uma carranca sutil.

"Justo, justo," diz Gale. "Então, o que você vai fazer depois que sairmos, Brent?" ela acrescenta, elevando a voz como se estivesse tentando aliviar o clima.

Simples assim, ele sente sua consciência voltar ao lugar, deixando-o com uma terrível dor de cabeça. Deve ser o álcool. Por que eles estão bebendo, de novo? Ou talvez algo realmente esteja errado. Dói pensar nisso. "Bem, amigo," ele responde com um sorriso bêbado em sua melhor representação de âncora de notícias, tentando forçar sua cabeça latejante a um estado de calma com humor e distrações, "Eu vou pro me quarto lá e foder minha linda esposa. E você, Andrew?"

Naquele momento, quando os homens começam a rir e Gale e Kinsey reviram os olhos, é quando ele percebe o cheiro. É a pipoca na mesa, perto das cervejas. Ela tem cheiro de carne. Ela fede a carne. Andrew pergunta algo a ele, mas ele está preocupado com o fedor inconfundível enchendo suas narinas enquanto ele se inclina cada vez mais perto da tigela.

"Você não tem esposa. Você é casado com a Fundação," Andrew diz, rindo.

Porra, ele não tem esposa? Ele abaixa os olhos e tenta não pensar nisso.

"O que você está fazendo?" pergunta Gale, um olhar saindo de sua franja bagunçada. Sua franja geralmente não é tão bagunçada. Sua pele geralmente não é tão pálida.

"Esta pipoca. Estava vencida?"

Kinsey congela por alguns segundos antes de bater na gengiva e responder. "Não."

"Então por que ela cheira a- quer saber, vou vomitar." Brent se levanta, cambaleando, e corre para o banheiro. O espelho está embaçado. Há roupas no chão. Uma camisa branca com manchas de sangue marrom-avermelhadas, colada no chão de ladrilhos de cor creme com água e fluido verde fluorescente. Enxaguante bucal? Seus olhos se movem para cima. O fluido está escorrendo pela porta do armário. Sua dor de cabeça piora até se tornar uma dor lancinante, afastando-se do interior de seu crânio. Continue procurando, continue procurando, continue procurando. Sangue na pia. Pele na pia. Carne rosa, rosa e verde. Fluido verde vazando por toda a carne rosa.

"Mantenha o foco, D-2094."

Sua cabeça se estica para cima e seus olhos estão fechados. "Eu não consigo," diz ele em voz alta com a voz trêmula. "Isso é o mais longe que eu posso chegar." Ele engole, tentando impedir que a bile saia de sua garganta. Tudo fede a carne. "Algo não está certo, eu consigo dizer que disse algo errado e tirei tudo do caminho. Isso não parece certo, é como se- eu consigo ver que não sou ele, e temo que as outras pessoas consigam também-"

"Reconhecido. Fique sentado e prenda a respiração por trinta segundos enquanto cancelamos."

Ele afunda contra a parede, a cabeça entre as mãos.

Laboratório de Pesquisa D43
Departamento de Segurança Interna e Investigações de Mídia
Sítio-92, Los Angeles, CA
3:12 PM, 1 de julho, 2032

"Tudo bem. Tudo bem. Só respire."

"Eu não consigo ir além disso. Juro por Deus." D-2094 senta-se ereto na mesa, a visão girando. "Você tirou aquela coisa da minha cabeça?" ele ofega.

"Sim, está fora." Dra. Ruby Licata gesticula para a assistente que carrega o implante de Identificação de Funcionário de Brent Sanderson até o balcão, mantido no alto com uma pinça. "Você não precisa fazer isso duas vezes, não se preocupe."

"Só me tire daqui," D-2094 murmura, cobrindo as orelhas com as mãos, dedos trêmulos.

"Leve-o para a Ala Médica," Licata diz à assistente. Ela balança a cabeça e começa a ajudá-lo a sair da mesa. Licata leva sua prancheta e laptop de volta ao escritório, fechando a porta atrás dela. Ele se senta e olha a lista de verificação. De quatro indivíduos e dez tentativas no total, esse um elemento-chave está começando a parecer genuinamente irrecuperável. E o Diretor de Relações com a Mídia e o Diretor de Sítio não vão ficar felizes com isso.

Um toque soa atrás de seu tímpano, silenciosamente. Ela pressiona um dedo na têmpora. "Se você está ligando sobre os resultados, não tenho nada além de mais do mesmo."

"Oh? Bem, isso não é nada bom. O que exatamente é tão difícil de decifrar nesse chip, hein? O nosso parece estar funcionando bem."

"O problema não são os chips, Diretor. É o Sanderson."

"O que tem o Sanderson?"

"É ele- bem, é o chip dele especificamente. Está realmente começando a parecer que alguém anda mexendo com os arquivos, o que é improvável visto seu registro limpo e bom comportamento, mas eu não acho que devamos desconsiderar qualquer coisa. Obviamente, estamos agora no ponto de tentar o procedimento da Iniciativa A, mas está parecendo o mesmo que com os outros indivíduos.

"Bem, se inseri-lo em leitores de chip no computador e transplantá-lo fisicamente para um cérebro pós-amnesticização não produzir resultados, o que você acha que irá?"

Ela quase suspira, mas lembra que o Diretor vai ouvir. "Estou tentando te dizer que acho que os dados naquele chip são genuinamente irrecuperáveis, senhor. Eu acho que ele apagou a memória inteira, pelo menos do implante."

"Você não pode amnesticizar seu PII, Licata. Apenas seu cérebro. Você e eu sabemos disso."

"Sim, mas se de alguma forma alguém fosse capaz de limpar uma seção do chip depois da memória em questão, o cérebro não estaria ciente. Você se lembra dos desenvolvimentos do ano passado que o Conselho O5 enviou para todos lerem."

"Ok, bem, o que dizemos á mídia, hmm? Que é inconclusivo? A Fundação está tentando fazer com que os PIIs pareçam confiáveis, doutora, não facilmente corrompíveis e incontroláveis. Temos o sistema mais avançado de monitoramento de funcionários do mundo e ainda assim não podemos provar à mídia que um de nossos funcionários não era um criminoso, mesmo quando enfiamos um pequeno computador em seu crânio que registra tudo o que ele faz enquanto está trabalhando. Você tem ideia do que poderia acontecer ao financiamento do chip PII se descobrirmos que o chip do Sanderson falhou em descobrir evidências criminais? Ah, e sem mencionar o quão sob-fogo as ações da filial de P&D estão-"

"Senhor, eu-"

"Esse chip é a última chance desta organização de uma boa publicidade. Se você conseguir essa evidência, vamos perder dois funcionários e aumentar os lucros de maneira imensurável nas vendas de tecnologia. É uma troca que vale a pena. Neste clima político e econômico, é hora da Fundação ter dinheiro em mente, Licata. Você sabe disso e eu sei disso."

"Eu concordo, senhor."

"Você tem mais 24 horas. Essa é toda a cobertura de imprensa que podemos lidar aqui. Tire alguma coisa desse chip, mesmo se demorar uma ou cem tentativas. Entendido?"

Ela engole em seco. "Entendido."

"Ótimo."

Um bipe soa e ela relaxa os músculos. Com um suspiro, ela olha de volta para a mesa, torcendo para que o recorte de jornal que ela manteve ali por dois dias pudesse ter algo novo a oferecer a ela.

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Licata suspira e coloca o papel de volta na mesa. Ela chama o nome de sua assistente. Quando ela chega à porta, Licata coloca a cabeça entre as mãos. "Aquele Classe-D ainda está por aí?"

149 Scranton Lane
Sítio-92 Não Incorporado, Los Angeles, CA
8:42 PM, 24 de junho, 2032

"Permaneça no assunto. Pergunte a eles sobre a anomalia. Não vá pro banheiro de novo. E de novo, se lembre de não olhar no espelho."

"Você tá bem, Brent?"

D-2094 levanta a memória dos olhos de Brent até encontrar os de Andrew. "Porra. Sim, sim. O que você estava dizendo?"

"Então, você vai nos contar?"

"Contar o que?"

"Sobre a missão. O que realmente aconteceu?"

"Tudo o que o relatório disse que aconteceu. Perdemos a anomalia, perdemos-"

"Sim, mas tipo- ela falou? Isso era um humanoide, certo?"

"Pfft. Uma humana, sim. E também famosa. Ela é uma das figuras públicas anti-Fundação mais proeminentes por ai. Você provavelmente já viu os anúncios de jornal deles."

"Oh, o escritório de advocacia. Soluções Legais Leeward e Warner, certo? E o skip é a Warner?"

"Sim. Temos tentado recontê-la há anos, mas ela continua encontrando brechas legais para evitá-lo."

"Merda, sim."

Andrew congela, sua mão segurando o copo de cerveja revestido de condensação em sua mão, "Calma, é seguro falar sobre isso, certo?" ele diz, a voz baixa.

"S-sim," D-2094 diz. Sim, claro. É… tudo bem recente, afinal." Ele se encolhe enquanto dá um tiro no escuro, mas depois de alguns segundos de silêncio, ele consegue dizer que levou o fluxo de eventos na direção certa.

"Você está certo," diz Andrew. Enquanto ele se levanta, as outras três pessoas desaparecem no tecido do sofá. D-2094 tenta não deixar seus olhos se concentrarem nisso.

"Sobre o que?"

Andrew se levanta totalmente e o espaço perto do sofá se estende, zumbe e se encaixa de volta no lugar.

"Você ainda consegue nos ouvir? Era isso. Fique com isso."

D-2094 sente uma pontada na parte de trás do crânio. Como se uma pena tivesse fazendo cócegas em seu cérebro, bem ali no cerebelo. "Tudo bem," ele sussurra.

"Tudo bem o quê?" Andrew diz.

"Uh, tudo bem, tipo, vamos continuar. A conversa." Ele ri secamente. Ele ainda não tem certeza de como vai reagir normalmente à voz ambiente da pesquisadora ecoando em seu crânio sem uma fonte lógica, e ele espera que as memórias salvas dos colegas de trabalho de Brent não percebam que ele está agindo de forma estranha.

"Oh, certo. Certo." Ele congela, sem piscar.

O ouvido direito de D-2094 chia e range antes da imitação distorcida de uma voz voltar à sua cabeça. "Não é bem isso. Mude de assunto. Fale sobre luta, fale sobre combate, ou anomalias, qualquer coisa para acionar a conexão de memórias."

Ele balança a cabeça involuntariamente. "Andrew. Você foi ao treinamento na semana passada? Quando eles trouxeram os sacos de pancadas?"

A sala pisca em tons mais quentes na iluminação por uma fração de segundo antes de se acomodar com Andrew fazendo uma carranca. "Sim. E você?"

"Sim. Senti como se eu pudesse enfrentar o lagarto de frente, você sabe o que quero dizer?"

"Sim, e falando de pegar skips-"

O sofá em que eles estão sentados convulsiona como uma criatura viva embaixo deles, jogando D-2094 no ar por uma fração de segundo. Quando ele pousa, ele esta virado para baixo em poeira e escombros do teto.

"Sanderson! Se levante!"

Ele se vira. As luzes estão apagadas. Uma lanterna está em seu rosto. "O que?"

"Se levante, ela está fugindo!"

A voz distorcida de Licata sussurra em sua cabeça, estalando. "Vai! Vai! É isso! Se levante!"

Ele pula de pé. Sua camisa pólo e shorts cáqui manchados de cerveja foram substituidos por calças pretas e um cinto de utilidades. Um dispositivo com brilho azulado está preso a um cordão em volta de sua mão direita. Ele o pega e fica de pé.

"No seu seis!" Andrew chama.

Ele se abaixa quando uma rajada de ar e luz vermelha o joga no chão novamente. Ele olha por cima do ombro para ver uma figura passando pelas portas da varanda e por cima do parapeito. "Aqui," ele grita, alcançando o botão deslizante do dispositivo sem pensar duas vezes. Ele o empurra todo o caminho para a frente, encolhendo-se com o recuo inexplicável contra a palma da mão que dispara uma dor pelo antebraço até o peito.

"Vire essa coisa para cima e vá pra lá antes que ela fuja!"

Ele balança a cabeça, voltando a ficar de pé. Ele dispara em direção à porta, a puxa para o lado e se joga sobre o parapeito da varanda. Ele cai em alguém e rola, torcendo o tornozelo. Ele sente que perdeu o foco com a dor e, por uma fração de segundo, o quintal escuro e úmido pisca para um dia ensolaro e então para uma cena dos colegas de trabalho de Brent sentados no sofá. D-2094 sacode a cabeça e se levanta, apontando o dispositivo em sua mão para a mulher à sua frente.

"É melhor você colocar essa merda no chão," ela cospe, os braços envolvidos protetoramente em torno de si mesma. "Estou falando sério. Você não conhece as leis de Los Angeles?"

A voz de Licata grita no fundo de seu canal auditivo. "É isso. Não perca essa linha."

Andrew desce correndo as escadas, rifle na mão. "Aww, adoro quando eles revidam," ele diz com um sorriso de escárnio. Ele aponta o rifle para ela. "Pro chão."

"A polícia estará aqui a qualquer minuto."

Andrew gargalha. "A polícia. Certo. Boa sorte com isso, skip."

Ela olha furiosa e cai de joelhos, as mãos atrás da cabeça. "A qualquer minuto."

"Precioso. Brent, nocauteie ela."

D-2094 congela, rezando para que Licata diga a ele o que ele deve fazer. Brent teria feito isso? Ele nem sabe quem é Brent, ou que tipo de pessoa ele era. Tudo o que ele tem é um chip de computador cheio de memórias corrompidas do local de trabalho, livre de ética e morais e sentimentos ligados à pessoa que as possuíra.

O rosto de Andrew está congelado e pequenos pedaços dele estão borrando e tremendo no ar quando D-2094 percebe que escolheu a opção errada ao hesitar. Com o rosto contorcido de desconforto, ele começa à andar em direção à mulher ajoelhada na frente dele e levanta o dispositivo desconhecido, mas familiar, até o nível de seus olhos. Ela não pisca. Uma sirene soa de fora da cerca, pegando-o desprevenido e fazendo-o girar antes de poder atacá-la.

"Pronto! Pronto! Ok, olhe ao redor, olhe para cima, olhe para baixo, olhe nos arbustos, olhe em qualquer lugar que puder por qualquer tipo de câmera ou microfone ou-"

"Entendi, entendi," ele diz em voz alta, jogando o dispositivo no chão. A mulher não reage, porque Brent não tinha uma memória dela reagindo; D-2094 corre freneticamente pelo quintal e pátio enquanto a polícia corre para a mulher e Andrew, suas botas se misturando à grama escura em pequenas manchas pixeladas. D-2094 ergue os olhos enquanto os tijolos da casa derretem em goteiras fumegantes e desaparecem em si mesmos. Em sua visão periférica, ocupando um último ponto do espaço compreensível, ele avista uma lente brilhante. E um pequeno dispositivo preto. Uma câmera e um microfone.

"Ai! Ai! Congele esse quadro, não pisque porra, não- ok, ok, conseguimos! Conseguimos! Está pronto!"

"Qu- como eu saio, me tire daqui!" ele grita sobre um gemido inexplicável e zumbido eletrônico enquanto o mundo se desintegra ao seu redor. Sua súplica se mistura com o barulho enquanto sua visão gira e desvanece.

Laboratório de Pesquisa D43
Departamento de Segurança Interna e Investigações de Mídia
Sítio-92, Los Angeles, CA
3:38 PM, 1 de Julho, 2032

D-2094 abre os olhos lentamente desta vez, como se duvidasse que ele tivesse olhos para abrir. Ele olha para Licata. "Você conseguiu dessa vez, certo?" ele geme.

"Nós conseguimos." Ela pega uma pilha de papéis de uma impressora e os guarda em sua pasta. "E agora estou levando isso para onde precisa ir. Obrigada por sua cooperação, Sr. Sanderson."

Sua boca se abre. Certamente ele ouviu errado. "Você acabou de me chamar-"

"Sim, parabéns, Sr. Sanderson," diz um homem perto da porta, tirando os óculos e encostando-se no batente. "Você é a primeira cobaia de sucesso da Iniciativa A do PII."

D-2094 sente que vai desmaiar. Ele se convence de que tudo o que está ouvindo é algum efeito colateral de ter aquela coisa em sua cabeça, e se deixar cair de volta na mesa conforme a luzes acima dele se misturam em um branco ofuscante.

Localização Desconhecida
Santa Monica, CA
7:45 PM, 1 de Julho, 2032

"Você está acordado, Sr. Sanderson?"

Brent abre os olhos. Há um jovem de camisa branca de colarinho ao lado da cama. "S-sim-"

"Você esteve apagado por quatro horas. Sinto muito por não ter me apresentado da última vez." O homem estende a mão. Brent a pega com dedos trêmulos e balança a cabeça. "Eu sou o Diretor de Relações com a Mídia do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento do Sítio-92. Na verdade eu não dou meu nome."

"Eu sou- uh…"

"Você é Brent Sanderson," diz o homem, juntando as mãos. "Sei que é difícil de acreditar. Você acha que é D-2094, certo?"

"V-você realmente quer que eu responda?"

"Não. É uma pergunta retórica. Você tem alguma lembrança de sua identidade, ações… alguma coisa?"

"O que tá acontecendo aqui? Eu não- o que-"

O Diretor levanta as mãos. "Está tudo bem, você pode relaxar. Vou tomar isso como um não."

Brent olha ao redor da sala. Ela é muito acolhedora. Há cortinas cor de vinho e a cama em que ele está tem uma moldura de madeira. "Onde estou?"

"Um esconderijo da Fundação."

"Não posso simplesmente voltar pra minha cela-"

"Você não é um Classe-D. Você é o agente Brent Sanderson. Você trabalhava, até recentemente, no Departamento de Contenção e Recuperação do Sítio-92."

"Eu-"

"Você originalmente se recusou a revelar a localização de qualquer câmera doméstica durante este caso, presumivelmente por seus próprios motivos legais, mas parece que ainda conseguimos obter algumas informações de você. Você nos causou muitos problemas, sabe." O Diretor sorri. "Mas aqui estamos nós. Se você acha que esta organização protege criminosos em sua hierarquia, você está completamente errado, Brent."

Brent range os dentes. "Você pode simplesmente explicar o que está acontecendo comigo? Quem sou eu?"

O Diretor suspira e se levanta de sua cadeira. "Parece que não está funcionando," diz ele quando ele está no corredor. "Vá em frente e coloque aquilo de volta lá, eu acho. Não deve causar nenhum problema neste ponto do caso, com o backup copiado e tudo mais."

Ele franze a testa e agarra os lençóis. "Calma, o que-"

"Apenas fique parado. Isso vai levar apenas um segundo." A pessoa que se aproxima dele é estranhamente familiar. Como um dos guardas do bloco de celas em que ele aparentemente nunca residiu. Ele empurra sua cabeça pra frente e pressiona um dispositivo volumoso contra ela. Ele não tem tempo para resistir antes de ouvir um clique silencioso e uma perturbadora sensação de deslizamento na parte de trás de seu crânio. Como se uma pena estivesse fazendo cócegas em seu cérebro, bem ali no cerebelo.

"Esse é o certo, né? Não a duplicata de teste?" o Diretor pergunta.

"Licata e os outros pesquisadores mantiveram a duplicata, senhor."

"Entendi, entendi. Certo, Sr. Sanderson. É seguro assumir que você tem seus pensamentos em ordem algora?"

"Você acabou- O que você acabou de fazer?"

"Seu implante tinha sido removido, então nós só o colocamos de volta. Você foi amnesticizado como parte de um procedimento aprovado, mas parece que o PII foi bem-sucedido neste caso, registrando com precisão a identidade pessoal e as memórias."

"Eu- O quê? Por que estou no esconderijo? O que aconteceu?"

O Diretor ri. "Você vai sair da cama?"

Brent abaixa os olhos. Ele está de pijama. Ele franze a testa. "Sim. Calma, eu não acabei de acordar?"

"Você… tecnicamente acabou de acordar, sim. Você estava inconsciente."

"Por quanto tempo?"

"Apenas quatro horas."

"Sobre o que estávamos conversando antes daquela pessoa mexer no meu chip? O que quer que tenha acontecido com ele deve ter dado erro, porque não consigo me lembrar-"

"Acredito que estava dizendo a você como não empregamos criminosos em nossa hierarquia," o Diretor suspira, retirando um laptop de sua pasta. "E graças a você, nós temos as imagens de segurança de sua casa agora. Você se lembra daquela caso, não é?"

Uma dor de cabeça lateja em sua têmpora. "Claro que me lembro desse caso. Como você me tirou da prisão?"

"Você sabe que temos nossos métodos. Ouça, Sr. Sanderson, tenho um cronograma e não lhe devo uma visão geral do que você já sabe que fez. Mais importante, no entanto, você se lembra de quando assinou seus formulario de consentimento para o seu Implante de Identificação de Funcionário cerca de seis meses atrás?"

"S-sim-"

"Você se lembra da seção sobre a Iniciativa A, então?"

"Eu- eu não acho que li tudo, para ser honesto."

"Ahhh. Ninguém nunca lê os termos e condições, estou certo? Assine e siga em frente. Consigo me relacionar. Bem, quando você se inscreveu na Iniciativa A, você se inscreveu em uma de nossas pesquisas mais inovadoras. Poderia fazer maravilhas pras ações dos Departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento, não importa de que sítio estamos falando. Sabe, o PII é uma grande notícia. Uma notícia realmente grande. E nossa equipe aqui em Los Angeles é que aperfeiçoou ele. Claro, o 42 o colocou no mundo, mas nós estamos fazendo dele o que ele deveria ser. Nenhuma origem anômala de merda. É o que toda empresa deseja. Não é invasivo. Não grava seus pensamentos e os envia. Apenas captura o que você está vendo e ouvindo e sentindo quando você está trabalhando, e apenas quando você está trabalhando. Você estava trabalhando naquela noite com Aline Warner e seu membro de equipe Andrew Collins, Sr. Sanderson?"

Ele coloca a cabeça entre as mãos. Quanto mais o Diretor fala, mais memórias conflitantes voltam a seus pensamentos. "Sim."

"E vocês estavam em propriedade da Fundação, ou em propriedade da cidade quando ameaçaram aquela bixby com seu ARS?"

"Eu não- Já falei sobre isso um milhão de vezes com os policiais, pelo amor de Deus. Eu estava nas casas do Sítio. Tudo aconteceu lá."

"Bem, quem o instruiu a levá-la de volta à propriedade da Fundação e realizar a captura lá?"

"N-ninguém? Quero dizer, eu que instrui. Eu, eu sou o líder da equipe."

"Você é, está certo. Certo, ok. Então a decisão foi realmente sua."

"Sim. Olha, esta é uma entrevista legal agora? Eu preciso ficar de olho no que eu digo-"

"Você está com a Fundação, Sr. Sanderson. Certamente seu emprego o ensinou que você está seguro conosco."

Ele lambe os lábios. Eles estão secos e rachados. Sua pele parece papel. "Eu a coloquei na propriedade da Fundação porque Los Angeles vai lutar com você no tribunal se você tirar uma anomalia sapiente das ruas em propriedade do condado. Especialmente ela, com sua publicidade."

"Exceto que as ruas residenciais não são propriedade da Fundação. Aquela área não é incorporada e tecnicamente ainda pertence ao condado."

Sua cabeça está girando. "Mas- isso foi no meu quintal. Isso aconteceu no meu próprio quintal. Minha casa, na vizinhança do Sítio."

"Certo, mas sua casa está em propriedade não incorporada, e sua casa também tem câmeras de segurança, das quais você… convenientemente esqueceu de nos contar durante o caso, ao que parece. Recusou ativamente, mais precisamente."

Seus olhos se arregalam quando a realização o atinge como um trem de carga. Seu coração bate forte no peito. "Calma, eu- isso não é possível, eu-"

"Considere isso sorte, Sr. Sanderson. Você pode ser merecedor de suas acusações, mas graças à sua adesão à Inciaitiva A, o futuro do PII nas vendas com cada departamento de segurança do Google ao Wells Fargo está cada vez melhor. Acho que seu caso aqui pode ter determinado sozinho o futuro das ações do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento, crimes à parte."

"Você pode, por favor, ir mais devagar," Brent cospe, tremendo. Ele engole seco. "Por favor. Eu não entendo o que está acontecendo."

O Diretor olha para o relógio com um gemido audível. "Eu realmente não tenho tempo para isso. Certo, semana passada, condenado por tentativa de sequestro e agressão. Se lembra do que aconteceu?"

"Sim. Recebi um relatório de uma famosa bixby visitando a cidade, alvo óbvio com capacidades de disrupção conhecidas. Tentei tirá-la da cidade por razões legais e tudo mais, você sabe."

"Certo, e essa pessoa era Aline Warner, que antes era um objeto SCP contido, mas foi libertada do Sítio pelo seu especialista em contenção, Adam Leeward, e anos depois os dois agora possuem um escritório de advocacia explicitamente anti-Fundação conhecido como Soluções Legais Leeward e Warner. E você tentou recontê-la em propriedade do condado. Onde a lei está do lado dela."

Ele suspira. "Ok, ok. Eu entendo do que se trata. Olha, eu cometi um erro, certo? Eu não li as legalidades com cuidado o suficiente, eu entendi. E agora o Andrew está com problemas também, e ele não fez merda alguma. E entre a Fundação e eu, nós não fizemos nada para conseguir aquela acusação de tentativa de agressão."

"Não é isso que as filmagens de retorno do PII sugeririam," o Diretor diz quietamente, virando a tela do laptop para encarar Brent. "Você pode ter esquecido de contar à polícia nas entrevistas, mas seu histórico do PII mostrou exatamente o oposto, uma vez que você teve um pouco de amnésticos e recondicionamento para ajudá-lo."

Brent observa com a testa franzida e a boca em uma carranca enquanto o Diretor reproduz a imagem distorcida e bulbosa dos registros de áudio e vídeo digital de seu implante.

"Ah- ai," diz o Diretor, apertando a barra de espaço e pausando a filmagem. "Você vê isso? Você ouviu essa parte? Depois que Andrew manda você bater na cabeça dela, você começa a andar pra frente."

Ele franze a testa. "Como você conseguiu isso?"

"Você nos deu isso. Quando você assinou a papelada do implante e participou da Iniciativa A. Quando conseguimos fazer com que você se lembrasse disso para que pudesse ser registrado."

"Calma, calma. Eu me lembro disso. Eu me lembro de voltar aqui. Mas não me lembro de andar pra frente, ali. Eu na verdade me lembro de não querer andar pra frente."

"Na revisita? Acredito que a Dra. Licata percebeu que você hesitou, sim."

"Porque eu não queria fazer isso! Só fiz isso porque a memória que ela estava acessando através de mim começou a desmoronar quando pensei em não fazer isso, o que significa que era obviamente a opção errada, que não estava de acordo com o que ele- com o que eu originalmente fiz, mas eu não queria fazer isso! Era apenas Andrew brincando e sendo um merda porque todo mundo odeia a Warner e ele queria irritá-la, não era nada- real."

"O que seu eu pós-procedimento queria ou não queria fazer não tem relação com o que você fez originalmente e com o que está comprovado na história do implante, Sr. Sanderson. E você pode ter dificultado muito a recuperação dos arquivos do PII, mas graças à sua cooperação com a Iniciativa A, nós os recebemos de volta. Você está começando a entender onde você está aqui?"

As palavras do Diretor estavam começando a se confundir em um zumbido incrompeensível em seus pensamentos. "Não." Ele engole em seco. "Ainda estou confuso sobre o que está acontecendo comigo. O que aconteceu com o caso? O que aquele maldito implante tem a ver com isso, além da filmagem?"

"O caso está quase encerrado e você ainda será condenado. Acho que sua confusão pode estar em sua opinião equivocada de que a Fundação defenderá seus funcionários independentemente das circunstâncias, Sr. Sanderson, e isso não é exato. Não na era de hoje."

"A semana passada parece um sonho. Não tive a intenção de fazer nada ilegal."

"Você pode acreditar nisso tudo que você precisa, mas isso não muda o que aconteceu." O Diretor se inclina para frente e, pela primeira vez na conversa, sua voz soa genuína e preocupada. "Escute, você não é um agente ruim. Você é dedicado à causa, um verdadeiro exemplo. Eu entendo o seu tipo, eu realmente entendo. A Fundação de vinte anos atrás teria te amado, mas não somos eles agora. Estamos um pouco pra baixo agora, por assim dizer. Eu tenho certeza que você percebeu. A publicidade nos matou, Sr. Sanderson." Seus lábios estão bem ao lado da orelha de Brent. "Essa é a verdade. Você não pode nem dirigir entre a cidade e o sítio sem manifestantes atacando seu carro. Você sabe que muito disso está acontecendo por causa do seu caso e, para ser franco, por sua causa. Eu não tenho um problema com esse esforço contínuo de recontenção que estamos fazendo para a Warner, mas tem que ser feito com muito, muito cuidado. Isso vai nos fazer parecer maus, não importa o que aconteça, mas não há como negar que uma dobradora da realidade com valor publicitário é perigosa."

Brent balança a cabeça, dedos cerrados.

"Você quer saber qual é a melhor esperança para esta organização agora? É aquele chip em nossas cabeças. O valor que essa coisa apresenta para o mundo da tecnologia corporativa é incomparável. Eu sei que contenção é nossa coisa, Sr. Sanderson, mas há tempos desafiadores pela frente. Tem uma ameaça pra Terra que não podemos ignorar, e se a Fundação vai sobreviver lá fora, nós precisamos fazer alguns… ajustes operacionais. É hora de olhar para inovação e negócios. Nós podemos fazer ciência. Nós podemos fazer dinheiro. E o PII significa ambos." Ele exala pelo nariz e olha para a porta. Eles compartilham vários segundos desconfortáveis de silêncio antes dele falar novamente. "Em conclusão, suponho que gostaria de agradecer pessoalmente pelo seu lugar no caso. Graças a você, nós podemos ganhar a confiança do público novamente, ou pelo menos começar a trabalhar nisso. Agente rebelde? Não se preocupe, tudo está registrado. A Fundação pode lutar com unhas e dentes para realizar sua causa apesar da adversidade política, mas uma coisa que não somos é desonestos. Este caso provará o valor do PII como tecnologia de negócios e você acabou de dar a esse processo um empurrão."

Brent sente que vai vomitar e não tem certeza se é por causa da dor na cabeça, das palavras do Diretor, ou de ambos. "O-o que-"

"Eu sei que você ouviu o que eu disse," disse o Diretor, seu tom e volume ainda os mesmos apesar do alarme na voz de Brent. "Agora, vista roupas de verdade. Acredito que o chefe do Departamento de Polícia de Los Angeles queria falar com você."

Brent observa o Diretor sair da sala com a boca aberta.

Escritório de Comando do Sítio
Sítio-92, Los Angeles, CA
11:30 AM, 4 de julho, 2032

O Diretor de Relações com a Mídia tem os lábios em uma linha reta enquanto empurra uma impressão sobre a mesa em direção à palma da mão aberta do Diretor do Sítio. "É isso. O mesmo que você aprovou ontem à noite, é claro."

"Excelente, excelente. Obrigado por tudo o que você fez," diz ele, pegando-a.

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"Tudo parece igual à noite passada, certo? Eu verifiquei isso eu mesmo por erros provavelmente cinco vezes."

"É perfeito, é perfeito. Sucinto como sempre. É uma mídia verossímil, vou te dizer isso. Tiro o chapéu para você e seu departamento, Diretor."

"Eu também. E é ao P-e-D que você deveria estar agradecendo, não eu." Ele ri, quase imperceptivelmente. Suas bochechas estão pálidas. "Bem, você pode agradecer à equipe que dirige o Coastal Sun Reporter, é claro. Whew. Mas sim, o público parece estar levando isso decentemente até agora. Foi lançado esta manhã."

"Enviado por e-mail aos funcionários, nos jornais matutinos, apresentado em alguns canais e sites locais… é isso, certo?"

"Correto. Eu garanto a você que começar pequeno é o caminho a seguir. Diabos, todos os grandes nomes já assinaram sem os holofotes, de qualquer maneira."

"Certo." Ele coloca o papel na mesa com um suspiro. "Aquele agente, entretanto. Sanderson. Que pena sobre ele."

"Como assim?"

O Diretor de Sítio encolhe os ombros, as mãos postas com os cotovelos na mesa e a cabeça para o lado. "Eu só acho que ele estava no caminho certo, e é uma pena ver que ele escorregou na legalidade."

"Bem, o caso dele… nos fez parecer bem ruins, senhor, para ser honesto."

"Oh, não o estou desculpando. Não há dúvida de que ele cometeu erros. Só é uma pena ver um bom agente ir pro lixo só porque- porque as coisas estão tão difíceis hoje em dia."

"Oh. Concordo."

Ele balança a cabeça. "Mas o PII está melhorando. Isso é o que temos adiante, isso é o que importa." Ele olha de volta para o documento na mesa. "Vejo você amanhã, Diretor. Nós temos algumas semanas agitadas pela frente."

"Realmente." Não há camaradagem em seu tom, embora ele esteja se esforçando para tentar transmitir isso mesmo assim.

"Nossas ações estão em ótimas condições. O lado dos negócios das coisas está melhorando. Tudo nesse reino de operações está melhorando. A Fundação ainda tem um futuro forte pela frente. Um futuro diferente, sim, mas ainda forte. Não se esqueça disso."

"Claro, senhor." Ele se levanta para sair, olhando para a porta.

O Diretor de Sítio pega a impressão da mesa e abaixa os óculos. "Ah, e feliz Dia da Independência," ele acrescenta. "Fácil de esquecer que às vezes há um país esperando do lado de fora dessas cercas. Não é?"

Ele engole em seco e balança a cabeça. Ele não pensa assim. "Feliz Dia da Independência, senhor," ele murmura.

Quando a porta se fecha, o Diretor de Sítio suspira e lê o artigo novamente, sua mente fixa no futuro enquanto um sorriso calmo surge em seu rosto.

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