Crianças e Professoras
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Hoje é um novo dia e o clima, mais uma vez, se recusa a aceitar que a passagem do tempo o afete. Pela janela de vidro arranhada e embaçada você vê cinza e branco. Estradas de cascalho, casas de madeira velha, raros carros de modelo padronizado e árvores cobertas de neve, assim como todo o resto. Neve, neve e mais neve, cobrindo qualquer traço de cor que pudesse ser encontrado, na terra e no céu, com as nuvens eternamente ofuscando o sorriso do Sol e se mantendo, rigidamente, em uma expressão de indiferença, banal, incolor.

Mas aqui dentro o Sol raiava, seu brilho mais intenso.

“Tia Adelaide, olha o que eu fiz!”

Você vê montanhas verdes, árvores tropicais, animais campestres sorrindo, lagoas com um azul nítido e girassóis que se estendem até o céu, com um sol alegre e radiante. Próxima a lagoa você vê uma casa grande e colorida, com quatro janelas e oito pessoas de palito em sua frente, com duas, de vestido, maiores que todas, e uma usando uma tiara maior que sua cabeça.

“Que bonito, Alice! Quem são essas pessoas nessa casa?”

“Sou eu, e as outras meninas, e você aqui, Tia, morando com a gente e com a outra Tia, em uma casa beeem grande, que também é um castelo! E -eu- sou a princesa!”

Você sorri. Desenhar era a atividade favorita das crianças, que felizmente não se cansavam dessas e outras poucas tarefas que praticavam desde que foram deixadas aos cuidados do abrigo. Você mal consegue se recordar de quando a fiação era estável o suficiente para ligar a TV anciã e mostrar um filme animado para elas, onde viam leões, ursos, florestas. Vida, cor, algum escape da realidade.

Você sabe que um dia essa inocência irá acabar, mas faz o melhor para valorizar todo dia perto do Sol.

“Você quer colar seu desenho no mural, Alice? Assim as crianças vão ver todo dia.”

“Sim! Bem em cima, pra Heidi não rasgar de novo! Eu fiquei de paz com ela como você pediu, mas aquilo foi muito— muito ‘muro e eu ‘tô muito, muito chateada!”

“’Imaturo’ é a palavra, Alice.”

“Isso, muito imaturo. Eu demorei o dia inteirinho, inteirinho, pra terminar!”

“E eu sei disso, e ficou lindo. Agora você fez este aqui, que vamos pendurar, e posso te contar um segredinho?”

Você vê a postura dela ficar mais animada, balançando a cabeça em antecipação. Você se agacha, e sussurra:

“Esse é o desenho mais lindo que já vi.”


Você termina de botar seu pijama e prender seu cabelo, e vira para suas amigas, as que conhece desde que conhece a si mesma, e exclama com animação:

“Hoje a Tia Adelaide disse que o -meu- desenho era o mais lindo que ela já viu em todo mundo”.

“Mas a Tia já disse isso do meu também. E da Heidi também. Ela fala isso pra todo mundo”.

“Mas ela botou beeem em cima, quase no teto pra todo mundo ver.”

“É onde ainda tem espaço.”

“Duvido!”

“Duvida não!”

“Duvido sim!”

Você estava prestes a pegar um travesseiro e jogar em cima dessa “amiga” que adorava ser do contra sempre que tinha oportunidade, quando a Tia Ada entra no quarto, segurando um livro que você não via faz muito tempo.

“O que está acontecendo, meninas?”

Você tenta esconder o travesseiro atrás das costas.

“A Alice ia me bater com o travesseiro!”

“Puxa Alice, é assim que se resolvem seus conflitos? E a Tia Adelaide falou para eu narrar a história que você mais gosta.”

Você se desculpa. Não queria que as outras te culpassem por impedir o momento mais divertido da noite, e especialmente não queria perder a melhor das melhores histórias.

“Muito bem, agora Alyson, diz que está desculpada.”

Você e suas amigas se deitam, duas em cada cama de beliche, enquanto Tia Ada apaga a vela na janela e liga o abajur na tomada. A lâmpada pisca, uma, duas vezes, até brilhar um brilho dourado intenso, como um Sol em miniatura.

Essa era a melhor parte da noite.

“Era uma vez duas meninas e dois meninos: Susana, Lúcia, Pedro e Edmundo. Esta história nos conta algo que aconteceu durante a guerra, quando tiveram de sair de Londres…”


Você sentia solidão.

As tempestades de neve estavam piorando, as estradas ficando muito perigosas para dirigir. O rádio anunciava risco de avalanche na vila. Grupos comunitários se ofereciam para cuidar das crianças em um lugar mais seguro, como eles diziam. “Mais alegre”. Suas Tias iriam com elas, afinal eram uma família, só lhes restavam uma às outras.

Você sabia que essas coisas eram boas, melhor que perder sua família para as montanhas desmoronando, mas o abandono ainda era doloroso. Mais doloroso que a tempestade que ameaçava te afogar em neve, sem ninguém para te desenterrar e desbarrar suas grandes portas de carvalho maciço, antes tão imponentes, agora desbotadas e cansadas. Você sabia que elas também sentiam falta. Sem ninguém para limpar sua chaminé e aquecer seu corpo. Sem ninguém para proteger nos dias mais frios, nas noites mais escuras.

Você olhava suas paredes, suas camas, e lembrava. Você sentia a energia que foi criada lá e se esforçaria para não deixar essas memórias serem apagadas, assimiladas no branco e cinza desse mundo.

Você pega um giz pela metade e começa a desenhar borboletas na parede, e elas voam.

Você as deseja boa sorte em existir e diz adeus.


Você olha para a folha de papel branca, na câmara cinza, com seus lápis vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo, violeta.

“Você poderia se desenhar?”

Você faz, mas não conseguem ver.

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