Culpado Pela Luz
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Eu acordei na minha cela com um bom rosto, graças a uma boa noite de sono na noite passada. Dois guardas e um doutor se aproximam da minha cela e a porta se abre.

Os guardas me tiram da minha cela e o doutor se aproxima de mim.

"Este servirá para a experiência."

O doutor parecia velho, com algumas olheiras sobre os olhos, cabelos grisalhos como as nuvens no céu que eu não via há muito tempo, olhos negros como a escuridão da minha cela durante a noite. Era grande o suficiente, eu diria, visivelmente em torno de um e oitenta de altura. E um crachá em seu casaco branco dando seu nome: Doutor Alberto.

Os guardas me tiraram da minha cela e me fizeram seguir o doutor. Havia um guarda na minha frente e outro atrás, com o doutor à frente da fila.

Eu ando com eles pelos corredores brancos que nunca mudam e entramos numa sala com uma janela que mostra uma sala mobiliada com uma mesa simples e com uma luminária preta pendurada no teto.

"Bom D-6820, aqui está o que você vai fazer…"

A voz do homem é séria e azeda.

"Você vai entrar na sala e você vai olhar a lâmpada no teto, simples não é?"

"…Si-Sim?"

Os guardas monitoram constantemente meus movimentos.

"E você vai nos dizer o que está acontecendo, é tudo."

"…tá bem."

Eu coço a cabeça, "Por que isso está caindo sobre mim?", digo para mim mesmo.

"Vamos lá, peguem o Classe-D. Boa sorte para você, garoto." O doutor Alberto me disse, me dando um tapinha no ombro.

O doutor Alberto foi em direção a janela enquanto os guardas me levavam até a porta da sala.

Eu entro na sala, mas … "Como é possível que ela esteja iluminada enquanto a lâmpada é preta ?"

"Hmmm.."

"Teste, teste… um-dois um-dois." Uma voz é ouvida na sala.

"Estamos ouvindo Doutor Alberto."

"Então perfeito. D-6820, olhe para a lâmpada e me diga o que você pensa."

"Tá bem."

Eu olho para a lâmpada preta e me concentro nela.

Um som fraco me fez olhar ao redor.

"D-6820 o que está acontecendo ?"

"Eu ouvi alguma coisa, mas é muito baixa e eu não sei de onde vem."

"Foque novamente na lâmpada, então, D-6820."

"Certo, doutor Alberto."

Volto a olhar para a lâmpada.

Minha visão ficou turva por um tempo e eu decidi esfregar os olhos pensando na fadiga perturbando minha vista.

"Está tudo bem, D-6820?"

"Minha visão ficou turva por alguns momentos."

"Bem recebido."

As palavras do médico ecoam na minha cabeça.

As linhas marcadas no chão da sala tornam-se enrugadas, formando ondas.

"Doutor eu vejo ondas…"

"Ainda cansado, D-6820?"


Olho ao meu redor e as paredes parecem estar caindo, tenho a sensação de que o chão está tremendo. Quando percebo, noto que me encontro numa sala maior, como um tribunal.

Diante de mim uma pessoa sem rosto está sentada no lugar do juiz.

"Marco Rodrigues ou D-6820, hoje você vai ser julgado. Por favor, sente-se agora."

Eu olho em volta de mim enquanto eu estava sentado no assento. As pessoas ao meu redor são todas mal formadas, como horrores da natureza.Todas essas pessoas têm coisas esbranquiçadas em todo o corpo, como crescimentos ósseos.

Não havia defesa nem acusação própriamente ditas, apenas entidades deformadas nas arquibancadas cobertas de poeia; apenas olhar dava-me a vontade de espirrar a cada momento.

Minha visão mudou pouco a pouco, como a estática de uma velha televisão em preto e branco.


"D-6820 tudo bem? Nós não lhe ouvimos mais por 10 minutos."

D-6820 deita-se em posição fetal num dos cantos da sala.

Choros são ouvidos vindo de D-6820, e ele coloca as mãos na cabeça.

"D-6820? Enviem um guarda à sala para removê-lo."


Memórias da minha infância estão voltando lentamente para mim… a primeira vez que andei de bicicleta, minha primeira luta, minha primeira detenção na escola, a primeira vez que me apaixonei… e bebês chorando ao fundo…

Apenas imagens estáticas do meu passado…

Mas o que está acontecendo comigo?


Um guarda entra na sala equipado com óculos de sol e se aproxima de D-6820.

"D-6820 alguém vai tocar seu ombro, não se preocupe."

O guarda toca o ombro de D-6820.

"Imagens estáticas da infância… crianças chorando…"

Os olhos de D-6820 ficam totalmente brancos.

"Retire-se, por favor. Veremos o resto dos eventos."

O guarda sai da sala deixando D-6820 sozinho.

D-6820 se levanta e se aproxima da mesa e depois ataca-a violentamente.

"D-6820 por favor, pare."

D-6820 continua a quebrar a mesa em pedaços.


"Bem, então Sr. Marco vamos começar este julgamento."

"Sim… senhor juiz."

"Marco Rodrigues, 38, uma mulher chamada Agnes, duas crianças Leo e Helena."

"Sim, sou eu… eu acho.""

"Você acha?"

"Bem… é difícil explicar, mas… alguns detalhes da minha vida me escapam e voltam da minha memória… mas agora que você diz…"

"Compreendo. Bem, vamos passar por todos esses detalhes."

"Sim senhor juiz."

O juiz parece estar folheando um arquivo.

"Você conhece essa frase, Sr. Marco?"

O juiz me mostrou um papel com a escrita sobre ela: “A Luz mostra o caminho, manda-me ao tribunal para que eu possa ser jugado."

“Não, senhor juiz.”


"Anote tudo o que você vê."

"Sim Doutor Alberto"

D-6820 começa a repetir a frase : “A Luz mostra o caminho, manda-me ao tribunal para que eu possa ser jugado.”

As extremidades dos dedos da D-6820 começam emitir luz.


"Você cometeu crimes em sua vida?"

"Não é do meu conhecimento."

"Aqui está escrito: roubou um banco, matou duas pessoas em auto-defesa."

"Eu…"

"Você não se lembra disso também?"

"O- …sim, de fato."

"Bem, eu entendo."

"…"

"Bem, meu julgamento está pronto para ser deferido."

"Estou ouvindo, juiz."

Eu sinto um imenso medo desse julgamento que pode potencialmente me matar.

"Em vista de suas ações passadas, Marco Rodrigues, eu declaro vocé culpado."

"Eu…"

"Você será executado imediatamente."

Eu tento mover meu corpo, mas minhas pernas não se movem e eu olho para minhas mãos que estão gradualmente descorando.

"Sua execução será a morte por calcificação."

"Com isso, Marco Rodrigues, desejo-lhe uma boa estadia no inferno."

"Eu…"

meu cérebro está em pânico, o que fazer? Devo apenas morrer assim? Então esse é o meu fim? meu corpo está paralisado só posso sofrer os eventos que são impostas.


O corpo de D-6820 se calcifica mais e mais e as peças já calcificadas caem gradualmente tornando-se poeira.

Então eles revelam a carne e os músculos do corpo de D-6820.

"Mande um guarda, veja se ele consegue uma amostra de poeira para ver sua composição."

"Sim Doutor Alberto"

Um guarda entra na sala e extrai amostras da poeira e sai. O corpo de D-6820 calcifica-se completamente e depois desaparece em pó, deixando apenas o seu esqueleto na sala.

Era um homem culpado de frente para a luz.

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