Dedicatórias

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A mensagem abaixo foi redigida como uma dedicatória final pela própria Dra. Canmore, pouco antes de sua morte por overdose de substâncias entorpecentes em sua residência. Embora a toxicologia aponte concentrações letais de psicotrópicos na corrente sanguínea, não foram encontrados indícios de violência externa ou intervenção de terceiros. A carta foi salva em um arquivo nomeado "adeus_catarina_final.doc". O texto configura um manuscrito particular. A pressão gerada por este documento entre seus colegas foi o catalisador direto para a reforma psiquiátrica institucional da Lusófona.


I. A Culpa

O primeiro erro de qualquer intelecto pretensioso é acreditar que a observação de um fenômeno não altera o observador.

Eu presumi, com uma arrogância tipicamente acadêmica, que poderia catalogar o impossível e continuar sendo a mesma pessoa, mas a realidade é um ácido. Para estudar essas anomalias, para olhar nos olhos de coisas que desafiam leis da natureza e os axiomas do que é o real, eu tive que me fechar. Eu executei uma espécie de lobotomia voluntária, uma assepsia emocional que virou minha única regra de sobrevivência. Eu parei de sentir para poder analisar. O problema é que o cérebro não é um interruptor que você desliga no fim do expediente. Eu levei essa neutralidade clínica para o jantar, para as minhas amizades, para a cama com as poucas pessoas que ainda tentavam me alcançar. Eu me tornei um cadáver burocrático muito antes de decidir morrer de fato. Meus vínculos não apenas se romperam; eles apodreceram porque eu não conseguia mais olhar para um amigo sem procurar uma falha lógica, um padrão de comportamento ou um risco de segurança. Eu tratei o afeto como se fosse um erro estatístico.

O que me apavora agora, neste silêncio que nem o etanol consegue preencher, é a dúvida sobre a minha própria natureza. Eu me olho no espelho e não reconheço a substância do que vejo. É possível alguém ser tão fria, tão cirúrgica e desprovida de empatia, e ainda assim ser considerada humana? Eu me pergunto, com um desespero que a lógica não alcança, se eu mesma não me tornei uma anomalia. Talvez o meu efeito anômalo seja exatamente este: a anulação total de qualquer vestígio de calor humano. Eu me tornei um objeto de estudo para mim mesma. Eu me vigio, eu me contenho, eu me puno com a mesma eficiência com que lidamos com uma anormalidade. A cada novo protocolo de contenção que eu assinava, a cada vida que eu sacrificava em nome do "bem maior", eu colocava mais um cadeado na minha própria capacidade de sentir. Eu matei a Catarina que amava música, que se perdia em conversas fúteis, que tinha medo do escuro. Agora eu não tenho medo de nada, e isso é a coisa mais aterrorizante do mundo.

Eu estou exausta de ser eficiente. Eu estou exausta de ser a mulher que resolve dilemas éticos matando a própria ética com uma canetada. Existe uma náusea constante em saber que minha mente foi confiscada pela Fundação e transformada em um disco rígido de atrocidades justificadas. Eu não sou mais um sujeito de direito; eu sou um ativo estragado, um resíduo de gente que não lembra mais como é ter uma conversa que não seja vigiada ou pautada por um interesse institucional. Se a missão da Fundação é proteger a humanidade, ela falhou comigo da pior forma possível: ela protegeu a minha vida biológica enquanto permitia que a minha essência fosse consumida pela máquina. Eu sou uma casca vazia, um simulacro de doutora que só sabe operar na base da frieza. E se a frieza é tudo o que resta, então eu já sou o monstro que eu deveria estar combatendo.

II. A Fundação

Esqueçam os eufemismos das atas de reunião. Vamos tratar a realidade com a honestidade brutal que vocês, sentados nessas cadeiras de couro, não têm coragem de registrar. A doutrina de "Segurar, Conter e Proteger" deixou de ser um protocolo de segurança para se tornar um dogma imbecil, uma desculpa semântica desenhada para manter um ecossistema de ameaças que já deveriam ter sido incineradas. Do ponto de vista logístico, a existência contínua de anomalias de alto risco é uma anomalia em si. A Lusófona detém um orçamento militar e um aparato científico que fariam qualquer superpotência parecer um bando de amadores com paus e pedras. Com o poder de fogo e a tecnologia que acumulamos, a sobrevivência dessas aberrações é uma decisão política. Se gastássemos metade da energia que desperdiçamos tentando entender ou preservar esses objetos na execução sistemática e definitiva deles, a ameaça ao tecido social seria erradicada em meses. Mas a erradicação não é o objetivo de vocês. Vocês precisam do risco para justificar o financiamento. Vocês precisam do monstro para validar o cargo de carcereiro.

​A verdade é que a Lusófona transformou o perigo em patrimônio. Vocês mantêm criaturas que dobram a realidade em salas climatizadas sob a justificativa cínica de "contenção", ignorando o fato de que cada segundo de contenção é apenas um acréscimo na probabilidade de uma falha catastrófica.

Conter não é proteger. Conter é apenas adiar o massacre por conveniência administrativa. Eu estou farta de ser a peça técnica que assina os laudos de danos depois que o sangue dos funcionários já secou no chão dos Sítios. A estatística é obscena: civis morrem, pesquisadores são desintegrados e famílias são apagadas porque o protocolo imundo de vocês nos proíbe de fazer o que é óbvio. Vocês chamam isso de "preservação do conhecimento", mas o termo correto é negligência criminosa. A proteção que essa sigla promete é uma fraude. Nós não protegemos a humanidade; nós protegemos as anomalias da extinção que elas merecem. Tratamos ameaças ontológicas como se fossem espécimes raros em um zoológico particular, e cada vez que uma delas mata alguém e continua viva sob nossa custódia, a Fundação se torna cúmplice do assassinato.

E não me venham falar da GOC. Se o Conselho é um bando de burocratas viciados em colecionar o apocalipse, a GOC é um bando de açougueiros com complexo de Deus. Eles acham que destruir é o mesmo que salvar, mas são tão cegos quanto nós. Enquanto a Lusófona estoca o veneno, a GOC incendeia o laboratório com todo mundo dentro. São duas faces da mesma moeda podre: uma quer ser a dona das armas anômalas, a outra quer ser o carrasco da realidade, e nenhum de vocês se importa com o "real" que dizem defender. A ganância pela posse do impossível simplesmente soterrou qualquer senso de dever.

E a melhor parte? Vocês me caçam. Eu sou vigiada 24 horas por dia por homens armados, não porque eu seja uma ameaça ao mundo, mas porque sou uma ameaça à narrativa de vocês. Eu sou o ativo que sabe demais, a diretora que descobriu que o rei está nu e prefere morrer a continuar costurando a roupa dele. Podem vir. A única coisa que vocês vão conter hoje é um corpo vazio e uma verdade que vocês não têm capacidade para apagar.

III. O Agradecimento final

Agora que o veneno contra a instituição foi despejado, resta-me o que é humano.

Agradeço ao Doutor Cezar; sua insistência em piadas inoportunas e sem graça era, muitas vezes, a única coisa que impedia o silêncio de se tornar absoluto nos momentos em que a tensão no escritório beirava o insuportável. Havia uma humanidade teimosa naquele humor forçado que agora reconheço como um mecanismo de defesa necessário. Ao Doutor Ferraz, estendo meu respeito pelas horas gastas ouvindo suas digressões sobre o passado brasileiro; suas histórias eram o meu único vínculo com um mundo que existia antes desta organização e que continuará existindo depois que as luzes destes corredores se apagarem. E à Doutora Baccarin, minha gratidão pela raridade de uma conversa que não fosse pautada por protocolos ou resultados. Nossas trocas de amizade foram os últimos vestígios de normalidade em uma vida que se tornou completamente anômala. Vocês foram as âncoras que me impediram de flutuar para longe muito antes deste dia.

Ironicamente, agradeço também à Fundação. Não pela sua moralidade questionável ou pela sua gestão covarde, mas pelas portas que ela abriu e pelos caminhos que me permitiu trilhar. Ela me ofereceu o universo em uma placa de Petri e me deu as ferramentas para dissecar a realidade. O fato de que essa mesma realidade tenha se revelado insuportável não anula a magnitude da jornada. Eu vi o que nenhum outro ser humano verá e compreendi mecanismos que a maioria sequer ousa sonhar. Foi uma vida de privilégios intelectuais pagos com o preço da alma, e eu aceito essa conta agora, no final. Não há arrependimento no sentido vulgar da palavra; há apenas a conclusão de que o ciclo se fechou. Saio de cena sem ódio, apesar da raiva que despejei anteriormente. A raiva era contra a máquina; o silêncio agora é por mim.


Nota: Em resposta ao trágico desfecho da trajetória da Dra. Canmore, a Fundação deliberou pela reformulação integral de sua política institucional de saúde mental, reconhecendo a urgência de medidas que transcendam o mero protocolo. A partir de então, tornou-se mandatória, e não mais apenas recomendada, a submissão de todo e qualquer indivíduo ao rigoroso crivo de avaliações psiquiátricas e psicológicas antes de sua admissão, inclusive para funcionários transferidos internamente. Ademais, foi instituída a presença permanente de equipes clínicas especializadas em saúde mental em todos os sítios de contenção, com poder autônomo para recomendar afastamentos compulsórios em casos críticos.

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