Orientação do Departamento de Desinformação
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Bem, acho que está toda a gente. Vamos começar.

Como vocês esperançosamente sabem a esta altura, o 'P' no nosso lema significa 'proteger'. Há dois tipos de proteção que isso implica – proteger o mundo em geral dos efeitos de anomalias, e proteger o mundo em geral do conhecimento dessas anomalias. A Segurança trata do primeiro. Nós tratamos com o segundo tipo.

Deixem-me dar-vos um pouco de contexto.

Agora mesmo, no Sítio-44, um monte de gente num auditório idêntico está a ouvir uma orientação semelhante para a divisão de Segurança, a outra metade de 'proteger'. A Segurança trata com a proteção física da sociedade e da Fundação. Dobrador de realidade a correr por aí numa área metropolitana principal? Segurança. Quebra de contenção de nível Keter? Segurança. GdI hostil a tentar eliminar funcionários vitais ou adquirir um skip valioso? Segurança. Quaisquer guerras que a Fundação lute, eles estão na linha da frente. As ameaças que eles enfrentam são a essência dos pesadelos. Eles têm uma taxa de mortalidade alta, e os únicos obituários frequentemente cobertos de tinta preta.

Mas falem com qualquer um deles, e eles vão jurar por tudo que eles preferem o trabalho deles que o vosso todos os dias da semana.

De volta ao meu – agora vosso – trabalho.

O Departamento de Desinformação abrange a segunda metade de 'proteger' – nós protegemos o público do conhecimento do anómalo. As ameaças que nós enfrentamos são os nossos amigos, vizinhos, familiares, e cada pessoa neste planeta que está a viver a sua vida o mais normalmente possível. Toda a gente que conhecem continua a ser o que é – por favor, mantenham os vossos amigos normais, cuidem dos vossos pais. Melhor para a saúde mental. Mas, daqui para a frente, para além de serem o vosso melhor amigo – eles agora também são uma possível fuga. Isso vale para toda a gente que conhecem, e toda a gente que alguma vez vão conhecer.

Desenvolver paranoia é um requerimento do trabalho.

Vai haver momentos onde vocês vão ter que fazer coisas horríveis e indesculpáveis aos outros. Durante o percurso deste trabalho, vocês talvez – quase certamente irão – ter que mentir, embaraçar, trair, roubar, coagir, extorquir, descreditar, ameaçar, lutar, torturar, mutilar, e possivelmente matar os vossos companheiros em defesa do sigilo do anómalo.

O que quer que tenha que ser feito, vocês farão. Eu usaria o velho cliché 'falhar não é uma opção', mas isso seria uma afirmação incorreta. A outra opção é o pânico em massa e o fim do mundo, se não da própria realidade, porque alguém não podia ser incomodado a partir alguns ovos para prevenir isso de ocorrer.

A Segurança talvez tenha que dar as suas vidas pela causa, mas vocês irão perder pelo menos parte da vossa humanidade.

Muitos, se não vocês todos, vêm de outro lugar dentro da Fundação. Vocês provavelmente estão acostumados a ver e lidar com coisas horríveis. Levantem as mãos. Alguém do Comitê de Ética? Ninguém? Isso não é muito incomum. Mas, eles são os melhores equipados para lidar com este tipo de coisa. Se tiverem a oportunidade, vão à orientação deles. Coisas que verdadeiramente dão que pensar.

A Fundação como um todo faz coisas más porque tem que fazer – alguns talvez pensem nisso como algo a que nós somos forçados, outros como sacrifícios para o bem maior. Mas no final do dia, a Fundação é composta de uma coleção de ações feitas por pessoas individuais. Uma dessas pessoas é você.

Até agora, têm sido um espectador. Tem existido uma camada de separação entre vocês e as coisas horríveis. Vocês observaram durante um estudo. Defenderam outros do anómalo. Talvez até tenham requisitado algo que sabiam que ia acabar mal, mas precisava de ser testado para se ter a certeza. Isso é o suficiente para dar pesadelos a qualquer pessoa normal, talvez algum trauma mental.

O Departamento de Desinformação vai ainda mais além. Vocês vão sujar as vossas mãos, e isso vai afetar-vos.

Se vocês estiverem no campo, vocês estarão a queimar uma casa com uma família lá dentro porque o Sr. Simmons juntou dois com dois sobre o que realmente aconteceu com o seu irmão. Ele acumulou três anos de conhecimento e contatos. Uma execução direta seria suspeita – amnésticos ainda mais. Como uma parte do Departamento de Desinformação sob Relações Exteriores – é o vosso trabalho lidar com isso rapidamente e discretamente. Nem sempre vai ser um incêndio. Talvez seja um deslizamento de terra, um acidente de carro, ou apenas estar no lugar errado no momento errado.

Vocês não estão a observar a casa, ou a dizer a alguém para o fazer. Vocês estão a transportar a querosene e a acender o fósforo. A trancar as portas e a barricar as janelas. A cheirar o fumo e a ouvir os gritos de agonia. A escavar os destroços e a verificar os corpos. A acabar o que o incêndio não acabou, se necessário.

Se estiverem a lidar com controlo de informação, é menos desagradável e muito mais psicológico. Isto é mais uma vez dividido em duas metades.

A primeira metade trata de narrativas de encobrimento. Isso é o que eu faço, na verdade. Peguem numa situação causada por uma anomalia, criem uma história plausível sobre o que realmente aconteceu, disseminem. Vocês vão se tornar muito bons a mentir. No mundo atual, normalmente podem encobrir situações com terroristas solitários, cultos, esse tipo de coisas. "Isso não parece assim tão mau, Jane." Talvez não seja. Tudo o que faço é mentir para viver. Mas de certeza que me afeta.

A segunda metade trata de reforçar essa narrativa e apagar outras. Isso significa limpar a cena e fazer com que combine ao nível forense, e depois lidar com as testemunhas. Criar mentiras é fácil, mas torná-las na verdade é difícil. Limpar a cena é suficientemente autoexplicativo, mas não-trivial e extremamente sensível ao tempo. Quanto mais rapidamente for limpa, menor é a exposição mediática de anomalias genuínas com que nós temos que lidar.

Testemunhas. Normalmente, amnésticos podem ser aplicados. Se o apanharmos rapidamente. Um par de horas é o melhor caso, eles funcionarão razoavelmente no espaço de alguns dias. Depois disso, amnésticos criam mais problemas do que resolvem. Eles provavelmente escreveram sobre, ou contaram a alguém. Mudanças radicais em comportamento ou remoção dessas memórias iria chamar a atenção para a Fundação em vez de a afastar.

Pessoas desse tipo precisam ou de ser descartadas – o que nós tentamos evitar, tem um ar bem suspeito – ou descreditadas. Há diversos métodos diferentes de o fazer. Na era moderna, isso normalmente envolve falsos testemunhos. O primeiro caminho é retração/embaraçamento público. Muitos métodos diferentes aí. Uma palestra inteira, na verdade. O segundo caminho é intervenção do governo – plantem algo para os ligarem a terrorismo, ou espionagem, e qualquer governo que existir vai rapidamente apanhá-los e mandá-los para a prisão por muito tempo.

Para evidências reais, físicas, nós temos que explicar isso como manipulação digital. O problema gera-se quando evidência que é difícil de adulterar aparece. Algumas vezes, documentos genuínos da Fundação são vazados, algumas vezes são gravações ou imagens análogas. Nos piores casos, alguém publica um risco cognitivo. Esses são quase impossíveis de lidar diretamente.

O Departamento também tem uma filial ativamente gerando e disseminando informação falsa dia e noite, mas ocasionalmente o público agarra-se a uma anomalia real no meio das centenas de falsas.

Alguns de vocês talvez irão trabalhar com governos totalitários. Eles vão ser gratos por vos ter – muita da pesquisa de armas deles vem de nós. A Fundação faz muita pesquisa em países subdesenvolvidos. Menos olhares intrometidos, mídia suprimida, corrupção facilmente manipulável, menor preocupação com direitos humanos. O vosso trabalho é controlo de informação nesse país em particular. Alguns países gostam de vos pôr no governo, alguns gostam de vos manter nas sombras. De qualquer maneira, vocês vão estar a ajudar a aplicar a vontade de um ditador chanfrado. Funcionários da Fundação também têm um hábito irritante de serem colocados na lista de alvos da CIA e outras agências de inteligência. Não se preocupem, há treinos para isso.

Alguns de vocês vão contactar com o Departamento de Segurança Interna ou o Comitê de Ética. Vocês vão ter outra orientação com eles, mas vocês vão estar a fazer basicamente a mesma coisa que estariam a fazer caso contrário, exceto internamente em vez de externamente. Esse é um dos lugares onde até mesmo eu não tenho todas as peças, então não posso dizer muito sobre isso.

E há centenas de outras posições, todas com descrições de trabalho vastamente diferentes. A única coisa que elas têm em comum é que todas elas, mais ou menos diretamente, fodem com a vida das pessoas e a maneira como elas vivem.

É muita coisa para assimilar. Vocês foram todos selecionados para estas posições devido a vossa aptitude para as tarefas, resiliência mental, e uma disponibilidade anterior para fazer o que quer que seja necessário. Os cursos de treinamento decorrem tanto com formas de lidar com seu trabalho e com o que lhe cabe que isso é quase mais relevante do que a parte da habilitação. Esta apresentação é um tipo de visão geral mais detalhada do que vocês vão aprender nos próximos meses, e o que vão estar a fazer depois disso. Vocês vão começar a aprender detalhes mais tarde.

Agora eu irei responder a questões.

Você, com a gravata roxa. Quem sou eu e porque é que eu estou aqui? O meu nome é Jane Mossbury, eu sou a chefe do departamento para encobrir desaparecimentos em massa. Eu estou aqui porque eu tirei o palito mais pequeno.

Fato azul-marinho. É tão mau como eu faço parecer? Isso é para você determinar por si mesmo. As horas são afortunadamente bem piedosas, e os benefícios são bem bons, mas o stress vai-se acumular ao longo do tempo. Eu não tenho a certeza se o chamaria de 'satisfação do trabalho', mas há um pequeno formigueiro de ser uma parte integral de uma conspiração que os teoristas dificilmente poderiam imaginar. Isso é também descontando quão bem lida com as tarefas exigidas de você. E a papelada.

Polo preto. Acompanhamento psiquiátrico? Está disponível. Fortemente recomendado. Grupos de suporte reúnem-se nas terças, informação está no quadro de anúncios. Próxima questão.

Gabardina preta. Perdoe-me, as minhas desculpas, outra gabardina preta. Deslocação? Varia, dependendo na sua posição. Assim de repente, limpadores de campo – agentes que vão e limpam incidentes anómalos antes de alguém conseguir chegar até eles – deslocam-se frequentemente. Planeadores de contingência requerem menos. Muito do pessoal digital nunca chega a se deslocar.

Gabardina preta original. As minhas ações pessoais? Infelizmente, eu não posso mesmo discuti-las. Nós temos um arquivo extenso de ações e reações passadas, mas muitas são classificadas, algumas expurgadas. Eu não me consigo lembrar qual é qual de momento, mas se quiser mesmo saber, pode me procurar no arquivo.

É tudo? Bem, se tiverem mais alguma, sintam-se à vontade de me encontrarem no meu escritório ou na cantina.

Quase esqueci. Uma das poucas vantagens de estar no Departamento de Desinformação, é que a nossa cantina é um bar completo, [REFORMULADO]. Na tradição de sessões de orientação acabarem com algum tipo de refrescos, eu organizei um bar aberto. Quer bebam uma bebida devagar ou de um gole, é a vossa decisão.

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