sentindo neurônios dissolver
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Sequência de morte:

A coisa está espetada ao redor de nossa antena auxiliar, escrevendo uma história de desgraças em chicotes de sangue cerúleo. Azuis derramam dos cortes, dobram-se em glifos fractais giratórios, e se movem no nada do zero-g para longe de nossa nave.

A auréola é pequena; tridimensional. Não tão ilimitada ou decorada quanto aquelas dos anjos amadurecidos que vimos mergulhar do Alto. Queima apenas uma fração do calor de uma lâmpada, em vez de arder a ira justa de um supergigante. Não sei dizer se ela flutua sobre a cabeça ou um dos tocos de braço — o baque que a coisa deu contra o nosso casco teria deixado uma mancha em qualquer crânio.

Eu pulso os propulsores do traje um centímetro à frente e ela finalmente percebe. Há um espasmo em um dos órgãos eviscerados, uma daquelas estruturas sensoriais sintonizadas com percepções que nenhum número de livros didáticos de celestiobiologia poderia permitir que você visse. Um olho no sétimo décimo dia de cem restantes, asas não fraturadas passam pela sua orbita rachada. A íris se transforma em uma mancha azul. Veias se desprendem da córnea, e em algum grito de auto-sacrifício jorra torrente após torrente de glifos através da escuridão ao meu redor. Eu estou cercado por um véu de choque, de desespero, selvagem e chocado e com medo do porquê a antena dói tanto.

Ela cai em mentes surdas — Eu nunca aprendi Empíreo Básico.

Agora a coisa se contorce. Asas estão puxando com força as órbitas em ângulos impossíveis e perpendiculares da nave. O espaço-tempo está dobrando contra elas com força suficiente que a fricção entre cada eixo espacial está gritando explosões de radiação violeta abrasadora. Os braços estão fisicamente batendo no casco, empurrando, contraindo cada vez que o arranhar de metal contra as tripas envia uma sacudida de dor chorosa.

A antena parece ainda estar para ser danificada pelo caso. Agora todas as asas são lançadas para trás como lanças de chamas divinas e o corpo é uma torrente de auroras azuis pontiagudas. As lacerações se dilatam à medida que a força do impulso expulsa tripas pelo vácuo. Sangue se cristaliza. Vaporiza. Ioniza. Ela está sangrando tanto para se libertar e os gritos ressoam como martelos psíquicos na minha cabeça mas ela não está se quebrando, ele não está escapando, ela está se regenerando. Vários metros à minha frente a coisa queima.

Eu ligo os alto-falantes do meu traje, acolchoando os soluços fortes que ecoam em minha mente com a manta de ritmos nu-saturnianos, quando todos os gritos psiônicos ficarem quietos.

Cerúleo respinga no meu visor — eu limpo. Enrolado em volta da antena, ossos agarrados a uma ferida aberta em uma parte irreconhecível do corpo, está um cadáver. Sem sangue, sem vida. Uma cabeça embrionária avança em um último giro para me encarar enquanto seu pescoço se desfaz nos tendões.

Minha mente ouve um choramingo — quieto, incerto, desaparecendo. Antes que ela possa entender o que aconteceu consigo mesmo ela está muito fraca para perceber; ela se foi.

Não tem mais luz vindo da coisa. Os olhos são cinzas como um tumulo; parada. A pele se solidifica; acinzenta.

Eu impulsiono um propulsor. Alcançando o kit de ferramentas pelo meu peito, eu abro suas travas, libertando uma serra de dentro.

Levantando-a através do vácuo, eu impulsiono-a para baixo e rasgo uma asa.

Meu interfone toca assim que eu começo a trabalhar serrando o grupo mais próximo de braços cerrados.

« Status? »

"Bem," eu respondo. "A coisa está morta. Acha que precisamos reporta-la?"

« Não, não. Nós já atingimos maiores. Corte-a, faça uma inspeção na antena, e uma vez que pareça ok você pode retornar ao serviço de motor. »

Crunch. Os membros desmoronam, remanescentes passando por mim enquanto a poeira se dispersa.

"Entendido. Estamos quase chegando, certo?"

« Sim estamos. Mais três semanas até chegarmos no porto da Estação de Ashburn, e nosso carregamento de gelo chegará em perfeitas condições. Dessa maneira, fizemos o suficiente para merecermos o pagamento. Começando a pensar agora nós poderíamos até mesmo conseguir novos compartimentos de carga para aquele volume extra. »

Um terceiro olho ressecado lasca-se.

«Valeria celebrar por isso, não? »

"Certamente, certamente."

Crunch, crunch, crunch.

« Avise-me quando voltar para dentro — provavelmente temos alguns tubos de líquido refrigerante a serem soldados novamente. Tome cuidado aí fora. »

"Entendido. Obrigado."

O interfone desliga-se

Eu entalho contra o lado de outra asa, uma das três que não foram mandadas embora na ida final para casa. Os remanescentes são mais densos aqui, mais compactos ao redor das artérias onde luz do dia líquida uma vez fluía, mas esta lâmina é forte o suficiente para fazer o trabalho. Não deve levar mais do que uma hora para limpar tudo.

Atrás de mim, uma trilha de cinzas se forma na escuridão. A poeira se espalha, de aglomerado a fio a pó, até que, no tempo necessário para a serra completar outro movimento, o último grão se vai.

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