O Bem Maior e Outros Males Necessários
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De Julian Corwin (Diretor, Sítio-246)
Assunto RE: A Contingencia de Rouxinol
Para Cody Westbrook (Comandante, FTM Delta-3 "Mão de Salomão")

Agente Westbrook,

O Comitê de Éticas e o Conselho Overseer estão cientes de suas preocupações. Elas foram anuladas. Suas ordens ainda permanecem.

Por sua própria admissão, as habilidades da Agente Elsinger amadureceram a tal ponto que seria agora difícil ou impossível para os demais membros da Delta-3 adotarem medidas de contenção de contingência contra ela. Isso a torna excepcionalmente perigosa para a Fundação e nossa missão: ela é uma ferramenta útil e uma arma potente, mas se perdermos controle dela, nós nunca iremos recuperar ela. Você sabe o que acontecerá se isso ocorrer.

Estou ciente de que você gosta da Agente Elsinger, então eu te lembrarei de que a Contingência de Rouxinol existe para sua própria proteção. Você a conhece melhor do que ninguém, então você sabe o quão tênue é sua obediência. A Contingência garante sua lealdade, e sua lealdade garante sua vida. Além disso, ela a fez feliz. Se você realmente se importa com ela, você não a roubará disso.

Eu acho isso tão desagradável quanto você, mas é um mal necessário — como você mesmo me disse quando a Contingência foi implementada pela primeira vez.

Julian Corwin
Diretor, Sítio-246


1 de Maio, 1988
Detroit, Michigan

"Firestarter, você está vendo o alvo?"

Florence parou e suspirou. Ela levantou a mão e apertou a escuta. "Salomão Dois, fique fora do canal. Eu preciso me concentrar, e você não está ajudando. A menos que você queira tentar farejar demônios."

"Você não—"

"Devlin!" A voz de Westbrook o interrompeu. "Deixe-a em paz por uma maldita missão."

Devlin começou a discutir, mas foi interrompido por uma explosão de estática. Westbrook havia bloqueado seu transmissor, então.

O rádio ficou em silêncio depois de um momento. Florence continuou andando pelos becos de Detroit, caçando por demônios. Assim como nos velhos tempos. Embora Minneapolis nunca tivesse sido tão decrépita quanto Detroit agora.

Concentrada como estava nos sentidos de Observador, ela sentiu o cheiro de demonarcóticos antes dela ver o traficante. A energia do demônio farmacológico era espessa e pungente, cheia de malícia desumana e raiva inatural. Ela enchia a aura local, dominando os sentidos ocultos com o cheiro de pólvora e o gosto de ácido.

Era intoxicante.

Florence estremeceu quando parou de Observar, bloqueando as energias demoníacas. Ela se deixara aberta demais, se a aura do demônio foi capaz de afetá-la nessa distância. Isso, ou era um demônio inimaginavelmente forte. Não era preciso pensar sobre isso. Se ele era tão poderoso, e se fosse consumido como um demonarcótico, ele destruiria tudo nas proximidades, incluindo seu infeliz usuário.

Ela acelerou o passo, virando a esquina seguinte para encontrar o negociamento de drogas.

O traficante foi instantaneamente reconhecido como tal. Se o frasco em sua mão não fosse incriminante o suficiente, então suas roupas sujas, olhos fundos e rosto barbeado seriam. Ele era magro, branco e usava um casaco que era dois tamanhos grande demais para ele. Ele tinha um olhar selvagem e abatido que sugeria que ele era estúpido o suficiente para usar seu próprio produto.

A mulher que devia ser a compradora parecia fora de lugar. Suas feições do Oriente Médio estavam manchadas de sujeira, mas seus olhos eram claros e brilhantes e sua postura era firme. Ela não parecia um drogado, muito menos um viciado em demonarcóticos — a maioria deles terminava não parecendo com nada, exceto com uma pilha de cinzas molhadas. Talvez ela fosse um moleque da faculdade procurando por umas drogas diferenciadas.

O traficante olhou para Florence. "Cai fora. Isso é assunto particular."

Ela levantou as mãos em um gesto de paz. "Calma, cara, eu só estou de passagem." Ela inclinou a cabeça em direção ao frasco que ele segurava. "Mas se você estiver vendendo, eu posso estar comprando."

Seus olhos se estreitaram e ele sacudiu a cabeça. "Não. Eu não te conheço, e eu já tenho um comprador."

Ela balançou a cabeça lentamente. "Eu tinha medo que você fosse falar isso."

Antes que ele pudesse responder, ela levantou o braço e apontou um dedo para ele, liberando uma explosão de força que o acertou bem no peito e o derrubou.

A compradora deu um pulo para trás e olhou para ela em surpresa.

"Cai fora daqui", rosnou Florence.

O olhar da mulher endureceu e ela enfiou a mão no casaco.

"Seu erro", disse Florence. Com dois dedos estendidos, ela girou a mão na direção da mulher, redirecionando sua vontade. A lança de força se voltou para a compradora, fazendo-a girar até cair no chão.

Houve um barulho de vidro tilintando, e Florence se virou para ver que o traficante havia quebrado o frasco no chão. Uma nuvem de fumaça negra e espessa subiu no ar. Ela ficou ali por um momento e se posicionou sobre o traficante, antes de descer sobre e para dentro dele. Ela se disparou em sua boca e narinas, forçando seu caminho para seus pulmões.

Ele gritou. E, conforme ele gritava, ele começou a mudar. Seus músculos incharam, e logo ele encheu o casaco que era grande demais para ele. Sua pele ficou azul e seus olhos começaram a brilhar. Seus dentes se afiaram em presas, e sua língua se alongou, se tornando quase serpentina. Conforme o restante da fumaça desaparecia em sua garganta, seu grito se tornava uma risada, maníaca e malévola.

"Fodeu." Ela apertou a escuta novamente. "Salomão Um, eu realmente poderia fazer uso de umas armas grandes por aqui. Agora."

O som da risada do demônio abafou a resposta de Westbrook.

Florence invocou chamas em seus punhos, usando um pouco de energia extra para fazer sua tatuagem brilhar mais do que normalmente teria. Demônios eram grandes e assustadores, e o truque para combatê-los reside em ser maior e mais assustador.

"Você vai ficar ai sentado rindo o dia todo, ou você vai dançar, brincalhão?" Definitivamente não era inteligente antagonizar um demônio, mas ela provavelmente poderia sobreviver ao ataque. O mesmo não se poderia dizer dos arredores daquela vizinhança de Detroit.

O demônio virou-se para encará-la, um sorriso malicioso estampado em seu rosto. Quando ele abriu sua boca para falar, houve um estalo, e então um som de crepitação, e o demônio começou a convulsionar. Ele caiu no chão, inconsciente, para revelar a mulher em pé atrás dele com um taser.

Definitivamente não é um drogado então.

Com o corpo hospedeiro inconsciente, o demônio começou a evacuar do traficante possuído. A fumaça negra flutuava de seus orifícios, mas faltava o motivo maligno que tinha antes. Seja lá qual energia que ligasse o demônio ao universo principal havia sido gasta, e sua forma de fumaça rapidamente evaporava enquanto ele retornava para seja lá qual cova escura da qual ele rastejara.

Florence soltou a chama que ela conjurou e suspirou. "Obrigada pelo salvamento, senhora."

A mulher largou o taser e sacou uma arma. Uma arma de verdade, não uma arma de choque, de grande calibre e semi-automática. Ela apontou diretamente para Florence. "No chão, feiticeira."

A voz de Westbrook soou do beco atrás dela. "Hooverite, por favor não aponte uma arma pra minha maga. Isso não vai acabar bem pra você, e eu não preciso da dor de cabeça que vem desse tipo de papelada."

A agente da UIU lentamente abaixou a arma. Ela se virou para encarar Westbrook, uma carranca no rosto.

"Westbrook."

Ele sorria ironicamente enquanto se aproximava. "Agente Kartal. Que prazer inesperado." Ele parou na frente dela, mãos estendidas em seus lados em um gesto não confrontacional.

Kartal continuou carrancuda para ele. Então ela deu um soco na cara dele. Claramente, ela o conhecia bem.

"Seu filho da puta estúpido", ela disse. "Você faz ideia de quanto tempo eu gastei preparando essa apreensão? Me diga por que eu não deveria prendê-lo agora."

Ele esfregou a mandíbula, estremecendo um pouco. "Me desculpe?"

"Desculpas não recebem indiciações, skipper1."

"Então que tal isso: um presente." Ele enfiou a mão no bolso e extraiu um frasco de líquido transparente. Uma pequena agulha se estendia de uma extremidade, protegida por uma tampa de plástico.

"Eu tenho meus próprios amnésticos, obrigada."

Ele sacudiu a cabeça. "Não são amnésticos." Ele foi até o traficante caído e se ajoelhou ao lado dele. Ele abriu a seringa e a enfiou no braço do traficante. Em segundos, o frasco estava vazio.

"O que diabos você está fazendo?"

"Relaxe." Ele retirou a seringa gasta e a tapou novamente. "Quando ele acordar, você o achará um pouco menos esquecido e um pouco mais falador do que seria. Ele pode até te dizer quem é o fornecedor dele, que é o que você estava procurando, tenho certeza."

Ela franziu a testa. "Isso é ilegal."

"O FBI, preocupado com as evidências obtidas ilegalmente? Isso deve ser a primeira vez." Ele se levantou e colocou o frasco vazio de volta no bolso. "Além disso, eu não vi você fazer nada."

Ela sacudiu a cabeça. "Isso não nos deixa quites, Westbrook."

"Tenho certeza." Ele gesticulou para Florence. "Vamos nessa, Firestarter, vamos sair daqui antes que ela decida me socar novamente."

Ele caminhou de volta pelo beco, em direção ao ponto de extração. Florence hesitou antes de segui-lo.

"Desculpe", ela disse para Kartal. "Não sabia que você era um federal."

Kartal balançou uma mão com desdém. "Não é culpa sua." Ela acenou com a cabeça na direção de Westbrook. "Tenha cuidado com ele. Ele é complicado."

Florence sorriu. "É isso que gosto sobre ele."


28 de Outubro, 1988
Heimaey, Islândia

O jovem piromante lançou outra bola de fogo nela. Florence jogou-a de lado descuidadamente. O contra-feitiço mal exigira um esforço de vontade.

"Qualé, garoto!" ela gritou. "Você não vai me pegar com isso. Eu só quero conversar!"

"Vá se foder, bruxa americana!" Seu inglês era claro, se acentuadamente com sotaque e cada vez mais profano.

Ela suspirou, e então balançou a mão em um círculo, conjurando um anel de chamas ao redor do adolescente. Era um truque clássico, o mesmo que a Fundação usara nela, anos atrás. Os clássicos eram clássicos por uma razão, e essa era uma das táticas mais eficazes para lidar com piromantes.

Ela viu a explosão de Radiação de Aspecto que significava que alguém havia acabado de fazer uma grande operação, mas nenhum flash de fogo estava por vir. Claramente, ele conhecia o truque também, e estava adotando uma abordagem diferente.

O chão mudou ligeiramente sob seus pés. O chão que estava acima de um vulcão ativo.

Oh, isso é ruim.

"Salomão Um!" ela gritou no rádio. "Você precisa tirar todo mundo da ilha. Acho que ele está tentando desencadear uma erupção."

"Firestarter, você pode combater isso?"

Talvez. "Sim, mas eu não serei capaz de manter ele contido. Você vai precisar me dar cobertura."

"Entendido." A voz de Westbrook estava calma, apesar da urgência da situação. "Desengate do Alvo Surtr e faça o que puder para manter o vulcão quieto."

Florence tenta impedir que o vulcão de Heimaey entre em erupção.

Ela soltou as chamas e agachou-se. Rapidamente, ela deu uma volta, usando o dedo indicador para desenhar um círculo na terra. No que diz respeito à geometria de foco, era depressivamente malfeito, mas teria que ser suficiente. Ela colocou a mão esquerda no chão e fechou os olhos, desligando o máximo de sentidos possível. Isso era magia sutil, e ela precisaria Observar com o máximo de precisão possível.

Ela enviou poder correndo por entre seus dedos abertos, tentáculos invisíveis de vontade que corriam para interceptar o magma ascendente e redirecioná-lo. Ela podia ver a vontade do piromante guiando a rocha derretida — isso significava que ele não estava tentando matá-la enquanto ela estava distraída, pelo menos.

Um grito de dor e surpresa soou por perto, e o poder do piromante desapareceu. Florence não reagiu, mas manteve sua vontade completamente focada no vulcão agitado.

Só quando ela tinha certeza de que ela havia parado a erupção que ela abriu os olhos e olhou para onde o garoto estava parado.

Seu corpo estava no chão, já esfriando. A parte de trás da cabeça havia sumido, destruída pela bala de um atirador.

O rádio dela ganhou vida com a voz de Devlin. "Firestarter, você pode verificar o status do alvo?"

Incapaz de desviar o olhar, ela fechou os olhos novamente. "Salomão Dois, o Alvo Surtr está no chão."

"Firestarter, por favor confirmar a terminação."

"Confirmado." Ela deveria estar chocada. Irritada. Ela deveria ter gritado com Devlin. Mas ela estava exausta demais para sentir qualquer coisa.

Florence. Você não pode salvar todo mundo.

Ela sequer tentara.

Os crimes deles não são seus para responder por.

Devlin pode ter puxado o gatilho, mas foi ela quem lhe dera a abertura.

"Firestarter?" A voz de Westbrook estava no rádio agora. "Você parou o vulcão?"

"Sim." Ela salvou a ilha e as vidas de todos nela. Só foi necessário apenas matar um adolescente mal com idade o suficiente para entender as consequências de suas ações.

Uma vida por cinco mil. O cálculo benthamico era tão simples quanto era frio. Foi um mal necessário. Foi o bem maior.

Não parecia tão bom.


25 de Maio, 1989
Marquette, Michigan

Florence olhava para o lobisomen.

Ela esperava um monstro: uma fera voraz e escravosa impulsionada apenas pelo instinto de matar. Em vez disso, a criatura se encolhia no canto da gaiola, olhando para ela cautelosamente com os olhos cheios de medo e inteligência. Ela já fora uma pessoa antes — e, ao estudar sua aura, ela percebeu que, de certa forma, ainda era. Seu corpo havia sido deformado e sua mente quebrada, mas ainda havia humanidade suficiente para conhecer a pessoa que fora. Para saber o que tinha acontecido com ela.

Seu estômago se revirou, e ela se virou para não sentir a dor na aura da criatura.

"Certo, Senhor Drummond, isso será tudo", dizia Westbrook. "Nós apreciamos sua cooperação."

O corretor da MC&D balançava a cabeça fervorosamente. "É negócio simples, senhor. Meus empregadores me instruíram a cooperar totalmente com você nesse assunto. Pelo que entendi, a perda de um único lote de mercadorias é negligenciável em comparação ao dano que seu pessoal poderia causar."

Florence girou sobre o homem, raiva brilhando em seus olhos. "Mercadoria? Isso é tudo que o que eles são para você?"

Westbrook levantou a mão, interpondo-se entre Florence e o infeliz capitalista. "Pare, Firestarter."

Florence apertou os punhos, depois se inclinou para sussurrar para Westbrook. "Você só vai deixar ele ir? Depois do que ele fez?"

"Ele é um mundano, nós não podemos tacá-lo na prisão", ele sussurrou de volta. "E Mickey D tem se tornado bem esperto em relação a amnésticos. Na melhor das hipóteses, ele tem um backup de memória em algum lugar em um cronômetro de homem morto, e então estamos de volta onde começamos. Na pior das hipóteses, ele tem uma alergia induzida que vai matá-lo se tentarmos amnesticizar ele."

Os olhos dela se estreitaram. "Isso soa como problema dele, não nosso."

Westbrook sacudiu a cabeça. "Ele tem sido nada além de cooperativo, não podemos simplesmente matá-lo."

"Você viu o roteiro que ele tinha preparado?" A voz dela mudou para imitar o sotaque dele. "'Tão inteligentes quanto são mortais. Jogo desafiador e perigoso, se você preferir perseguições esportivas.'" Ela sacudiu a cabeça em desgosto, e então continuou falando normalmente, alto o suficiente para o corretor ouvir. "Estes não são animais, eles são pessoas. Pessoas que estão aterrorizadas e em dor. E ele ia leiloá-las para serem caçadas por esporte."

O corretor pigarreou. "O que nossos clientes fazem com os itens que compram é uma preocupação deles. Eu não tenho capacidade nem responsabilidade de controlar o que eles fazem com sua própria propriedade."

"Sim, você é apenas um peão", ela rosnou. "Assim como todo mundo. Nós somos todos apenas peões, cometendos pequenas frações de atrocidade e dizendo a nós mesmos que não temos escolha."

Westbrook parou na frente dela para bloquear sua visão do homem. "Senhor Drummond, saia daqui. Se precisarmos entrar em contato com você, nós podemos encontrá-lo."

O pequeno fedelho saiu correndo da sala, mal registrando a ameaça implícita.

Westbrook olhou para ela em silêncio por um momento. "Eu tenho alguns contatos na UIU, vou dar uma dica pra eles. Talvez a Kartal possa fazer algo a respeito disso. Mas nós não. Não somos policiais, você sabe disso."

Ela suspirou e desviou o olhar. Ela respirou fundo, abriu os punhos e olhou para ele. Não havia traço de emoção em seu rosto.

"Quando terminarmos aqui, vou queimar este lugar ao chão."

Westbrook balançou a cabeça lentamente. "Como eu disse, não somos policiais."


12 de Junho, 1989
Sítio-246

Devlin largou uma cópia do Detroit Free Press na mesa da cafeteria. Ela havia sido aberta e dobrada para mostrar um dos artigos das páginas do meio.

CASA HISTÓRICA DE LEILÃO DE MARQUETTE QUEIMA EM INCÊNDIO MISTERIOSO proclamava a manchete. O artigo abaixo tinha apenas duas ou três polegadas de colunas. Havia uma pequena fotografia da casa de leilões da MC&D ao lado do texto.

"Trabalho seu, eu assumo", disse Devlin.

Florence continuava a mastigar, lenta e deliberadamente. Talvez ele ficaria entediado.

Sem sorte. Ele ficou parado ali, braços cruzados e expressão de pedra, esperando que ela respondesse.

Ela engoliu. "E daí?"

"Você não acha que talvez alguém ache isso um pouco incomum? Um pouco anormal."

"Edifícios queimam misteriosamente o tempo todo", disse ela. "Ninguém vai suspeitar, muito menos acreditar, que este foi um incêndio criminoso de feiticeiro."

"Nós deveríamos parar incêndios criminosos de feiticeiros, não perpetrar eles." Ele sacudiu a cabeça. "Mas eu deveria saber que você não entenderia isso."

Ela largou o garfo e o encarou. "Nathan Devlin" — ele se encolheu um pouco quando ela disse seu nome, para sua satisfação — "qual é o seu maldito problema? Você me odeia, claramente, então por que você está nessa força-tarefa?"

"Alguém tem que estar lá quando você finalmente deslizar."

Ela levantou uma sobrancelha. "Nossa, que cavalheiresco da sua parte."

"Você sabe o que eu quero dizer, bruxa." Ele se inclinou, colocando as mãos na mesa para suporte. "Eu conheço seu tipo. Você tem um pouco de poder, e você acha que isso te tornar melhor do que nós, meros mortais. Que isso lhe dá o direito de fazer o que quiser, sem consequências."

Ela revirou os olhos. "Eu sou melhor do que você, Nathan."

"Você nem mesmo tenta esconder sua arrogância. Você pode ter enganado o resto deles, mas eu sei melhor. Mais cedo ou mais tarde, você vai se tornar má. Assim como o da Islândia." Ele sorriu viciosamente. "E quando você o fizer, eu farei o que precisa ser feito. Assim como na Islândia."

Ela continuou olhando para ele, se recusando a reagir. "Você deveria tomar mais cuidado ao colocar suas mãos em superfícies quentes."

Ele piscou, confuso, e então gritou em dor quando a superfície da mesa repentinamente começou a queimar. Ele recuou instintivamente, salvando as mãos de queimaduras de segundo grau.

Segurando as mãos feridas em seus lados, ele a encarava com uma malícia furiosa. "Sua—"

"Agente Devlin!" A voz de Westbrook ecoava do outro lado da cafeteria enquanto ele se aproximava. Alguém havia chamado a cavalaria. "Afaste-se."

"Senhor", protestou Devlin."Eu estava apenas respondendo a um ataque não provocado à minha pessoa pela Agente Elsinger."

Westbrook parou na frente deles. "Entendo." Seu olhar percorreu a cena, e então ele balançou a cabeça. "Eu vou te dar exatamente uma chance de retratar a besteira que você acabou de me dizer e pedir desculpas à Agente Elsinger por seu comportamento não profissional."

"Claro que você fica do lado dela", disse Devlin. "Você quer falar sobre comportamento não profissional, vamos falar sobre você foden—"

Westbrook socou ele na cara antes que pudesse terminar.

"Nathan Devlin", ele rosnou, empurrando o outro homem contra uma parede. "De acordo com o Código Disciplinar dos Funcionários da Fundação, você está preso por assédio a um colega agente, fazendo declarações falsas sobre uma questão de disciplina pessoal, desprezo a um superior e fingimento."

"Senhor, acredito que você esteja emocionalmente comprometido nesse assunto." Para seu crédito, Devlin conseguiu manter a compostura e sua voz era firme. "Portanto, eu não levarei sua conduta atual a um conselho disciplinar." Seus olhos se estreitaram. "Se você recuar."

"Ousado de sua parte assumir que o conselho ficaria do seu lado." Ele se inclinou para mais perto, para que Florence não pudesse ouvir o que ele sussurrou em seguida. Outros membros da força-tarefa começaram a se reunir para assistir ao confronto, mas de longe ela era quem estava mais próxima dos dois homens. Se ele estava falando tão baixo, era porque ele não queria que ela ouvisse.

Ela pode não ter sido capaz de ouvir o que Westbrook disse, mas ela viu o efeito que isso teve sobre Devlin. Ele sacudiu a cabeça e começou a sussurrar de volta. Aparentemente, ele também não queria que ela ouvisse.

Enquanto eles continuavam sua conversa silenciosa, Florence fechou os olhos para Observar, tentando entender a conversa a partir de suas auras. O que quer que eles estejam discutindo, isso fizera os dois homens ficarem agitados — a aura de Westbrook, em particular, estava cheia de energia nervosa. Não, esquece, ela estava cheia de medo.

Ela estremeceu involuntariamente e abriu os olhos, interrompendo a Observação — bem a tempo de ver Westbrook liberar Devlin e empurrar o outro agente em direção à porta mais próxima. Ela não podia nem começar a adivinhar do que ele estava com medo, mas claramente isso o dissuadira de tomar outras medidas contra Devlin.

"Suma da porra da minha vista", disse Westbrook. "Você está no status de reserva até novo aviso."

Devlin hesitou. "Então eu não estou preso?"

"Não, e você não será." Westbrook se aproximou dele e sussurrou, alto o suficiente para Florence ouvir, "Se eu te ver provocando ela novamente, vou tacar você por uma escotilha e ver por quanto tempo você consegue segurar a respiração. Vá em frente e diga isso ao conselho disciplinar."

Devlin viu o olhar em seus olhos e decidiu não tentar falar nada. Ele saiu apressado da cafeteria com a maior dignidade possível, o que não era muito.

Westbrook se virou para encarar os membros da força-tarefa que se reuniram para assistir. "O show acabou, pessoal, voltem a almoçar. É uma ordem."

Enquanto os outros agentes lentamente se dispersavam, Florence continuou a olhar fixamente para Westbrook. Ele estava escondendo segredos, e ela tinha certeza de que ele os escondia dela — talvez não dela especificamente, mas definitivamente em geral. Além disso, ele os mantinha com Devlin de todas as pessoas.

Ela sacudiu a cabeça. Westbrook tinha sido a primeira pessoa na Fundação a mostrar-lhe alguma gentileza, e ele sempre cuidava dela. Além disso, ela tinha certeza de que ele a amava. Se ele estava escondendo algo dela, não era por causa dele.

Ela confiava nele. Como não poderia?


29 de Setembro, 1989
Ponte Internacional Sault Ste. Marie, Michigan/Ontário

Pontes são espaços liminares. Limiares, limites, margens. Lugares entre lugares. Esse tipo de autocontradição conceitual tem um peso enorme na psique humana — isso chama a atenção e domina os pensamentos. Como resultado, pontes são canais para grandes quantidades de energia psiônica, geradas pelo lugar desproporcional que ocupam no espaço onírico.

Poucas pontes são tão liminares quanto a que fica entre Sault Ste. Marie e Sault Ste. Marie. Como sendo sendo a única passagem de fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá por mais de 700 milhas, sua marca onírica é uma ordem de magnitude maior do que seria de outra forma, tornando-a um dos maiores capacitores psiônico da América do Norte.

A Insurgência do Caos iria usá-la para abrir uma fenda para o infoespaço, que iria ou projetar conhecimento da Máscara nas mentes de 33 milhões de pessoas, ou matar todos os seres humanos em um raio de três estados. Ninguém tinha certeza de qual seria.

A solução mais fácil teria sido simplesmente bombardear a ponte, mas eles não queriam destruir o Soo Locks, exceto como último recurso absoluto. Então a Delta-3 foi enviada. Ninguém tinha certeza se isso era melhor.

Florence entrou na ponte, os cabelos atrás dela na brisa noturna. O Soo Locks se estendia pelo Rio de St. Mary abaixo dela, silencioso e vazio a essa hora da noite. O resto da Mão de Salomão havia interrompido o tráfego na área, dando a ela uma visão clara de sua contraparte. É claro, a psyker da Insurgência saberia que ela estava vindo agora, mas isso só tornava as coisas interessantes.

Ela caminhou pelo pavimento por minutos, ouvindo o som das corredeiras mais abaixo no rio. Quando ela viu uma figura à distância, ela nem hesitou antes de lançar uma bola de fogo nela. O arco era amplo, mas ela já estava conjurando seu próximo míssil.

Ela começou a correr, invocando furiosamente enquanto andava. As explosões continuavam a errar, e, conforme ela se aproximava, elas ficavam na verdade menos precisas. Ela continuou invocando independentemente disso, mantendo a barragem de fogo e força. Quando ela estava a vinte pés de distância, ela parou e jogou as duas mãos para frente, liberando um pilar de fogo que se estendia direto em direção à figura. Sua mira era direta.

Isso não importava. Logo antes que ele pudesse incinerar a telepata, as chamas se curvaram, passando ao redor dela como água fluindo em torno de uma rocha.

A telepata se virou para olhar para Florence. Ela sorriu docemente.

Você não quer realmente atingir ela, não é? Parecia sua própria voz interna, mas havia algo de errado nela. Algo alienígena.

Florence rangeu os dentes e tentou iniciar um exercício meditativo feito para clarear seus pensamentos. A bandana telekill que ela usava deveria ter mantido a telepata fora, mas claramente algo—

Telekill? Que peculiar. Desta vez, ela nem se deu ao trabalho de disfarçar o pensamento como um dos de Florence. Me faça um favor, querida, e se livre disso.

Florence levantou a mão e puxou a bandana da cabeça, e então a jogou para o lado da ponte. Ela nem teve a chance de pensar sobre isso.

Seu rosto se contorceu em um rosnado silencioso. Saia da minha cabeça, vadia.

A telepata riu em voz alta. E te deixar em paz? Acho que não.

Uma onda de desespero tomou conta dela quando ela percebeu que ela estava sozinha. Seus amigos entre os Fantasmas do Lago há muito a esqueceram, seus colegas da força-tarefa a odiavam e Cody — onde está ele? Ele deveria estar lá. Ele sempre estava lá. Ele a abandonou?

Sem pensar, ela se aproximou da beira da ponte.

Ninguém vai vir te salvar.

E assim, ela tinha 15 anos novamente, orfã e congelando nas ruas. Ela lembrou da dor — não do frio, que havia parado de doer horas atrás, mas da fome. Ela não conseguia se lembrar da última vez que teve uma refeição adequada. Com um arrepio violento, ela caiu no chão. Ela tinha energia suficiente para se encolher em uma bola e tremer.

Ninguém ia vir salvar ela.

Você não precisa deles. A voz dela, mas não a voz dela. Era mais velha, mais confiante. Você pode se salvar.

Ela olhou para cima. Isso não estava certo. Não foi assim que isso aconteceu. Ela havia se salvado. Ela havia incendiado um edifício para se aquecer. Foi a primeira vez que ela usou magia. Ela se lembrava daquele momento agora, se lembrando da sensação de poder que experimentara.

Ela se levantou, ignorando a fome e o frio ilusórios.

Sozinha sozinha sozinha totalmente sozinha, a telepata sussurrava.

"E daí", disse ela. "Estou acostumada a ficar sozinha."

Ela abriu os olhos e ela estava de volta à ponte. A telepata olhou para ela com espanto. Florence podia sentir a invasora tentando reafirmar controle sobre sua mente, mas sua vontade estava inquebrável agora. A telepata não podia tocá-la.

Ei vadia, ela pensou. Você sabe o que é a Lei do Contágio?

A parte afeta o todo… ela não tinha certeza se o pensamento veio de sua mente ou da da telepata. Não importava.

Você já parou para pensar que quando você invadiu minha mente, você colocou um pedaço de si em mim?

A telepata teve tempo suficiente para arregalar os olhos horrorizada antes de Florence enviar uma onda de poder pela conexão que ela havia inadvertidamente criado.

E então sua cabeça explodiu.

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