Infestissumam
avaliação: +8+x
blank.png

Conteret omnia

Ela passava os curativos por sua pele.

— Seus ferimentos estão se curando mais rápido que o esperado.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Maligno, esse é o destino

Com pesar e olhar triste diz:

— Não suporto ver o senhor fazendo isso consigo mesmo. Me dói o coração toda vez que se machuca.

— É necessário, pelo bem de todos, preciso continuar tentando.

Mil anos de mentiras.

— Deixe-me ver isso. Isaac!

— Não se preocupe. Foi só um arranhão.

Mil anos de servidão cega

— Isso poderia tê-lo matado.

— Mas não matou, infelizmente.

Chegou ao seu fim, com o emergir do homem vil, o iníquo, rei que fará segundo a sua vontade, trazendo a perdição de toda a humanidade.

— Como pode dizer uma coisa dessas!

Ela tapeia o paciente, enquanto lágrimas saem de seus olhos.

— Não adianta, não é mesmo? Você é incapaz de entender.

— Por quê? Por que Isaac? Por que Deus permitiria algo assim?

No interior de sua mente ele se lembrava, tentava achar algum motivo para toda essa loucura, para a sua existência.

Isaac não nasceu na Hispânia, tão pouco em um dos reinos góticos. Sua origem nunca foi explicada por seu pai, segundo o próprio, como tantos outros da Ordem, ele havia ouvido o chamado, e isso era o suficiente. Seu Pai, Benedito de Milão, era o Grão-mestre da antiga ordem romana tomada pelos Suevos e posteriormente pelos Visigodos, a Ordem da Torre.

No ano de 997 da era comum, a península ibérica estava dividida entre os reinos cristãos do Norte, representado por Pamplona e Leão, e o Califado de Córdova ao Sul. Por séculos muçulmanos e os seguidores de Cristo lutaram pelo domínio da região.

— Sangue mouro é fétido como esterco fresco.

— Eu não consigo notar a diferença.

Os dois membros da Ordem estavam diante de uma verdadeira carnificina, soldados estavam atirados ao chão em pedaços.

— Óbvio que não consegue Isaac, você não tem olfato para sangue herege. Vamos encontrar os demais ao Norte, esse ato enfraquecerá a influência de Almançor.

Isaac e seu parceiro Ismael, percorriam pelos pastos virgens de Aeminium, o vento oceânico limpava as almas daqueles que passavam, Isaac pensava como aquele lugar mudou desde a última vez que esteve na cidade.

— Já fazem dez anos.

— Dez anos da tomada de solo sagrado pelos ímpios. O território deles está na fronteira de Portucale.

— Não se preocupe frater, nós ainda estamos em defesa da cidade.

— De que adianta se no dia seguinte mais deles virão. Por que vossa alteza permanece passivo diante dessa situação?

— O Rei não quer entrar em conflito direto com os seguidores de Alá, está focando sua atenção para a reconstrução do reino. Por isso estamos aqui, para ajudar a população.

— Estamos aqui para matar hereges. Esse código de respeito para com as mesquitas é um absurdo, como o grão-mestre pode permitir tamanha piedade?

— A violência nem sempre é a solução, irmão.

— Então não reclame quando mais deles vierem nos atacar.

Eles mantiveram o passo firme e as vozes baixas. A discordância entre os dois sempre foi alvo de debate na equipe. Ismael não concordava com a passividade de Isaac com os hereges, segundo Isaac todos eram filhos de Deus. Para Ismael, no entanto, todos aqueles que se recusavam a seguir Cristo deveriam pagar com o próprio sangue.

Eles chegaram a Capela principal ao Norte, lá se encontram com seus quatro aliados, Samir,
Dengizico, Claudio e Eivor. Todos os soldados se diferenciavam em aparência, como se tivessem vindo de cantos distintos do mundo.

Samir dirigiu-se a Isaac e perguntou:

— Como previsto, mais soldados ao Sul. Eliminaram as guarnições?

— Sim, a maioria dos soldados estavam mal preparados e com armas de segunda mão, o Califado deve estar pondo suas forças em Gibraltar.

— Por que eles colocariam tropas ao Sul? O Norte não é ameaça o suficiente?

Perguntou Dengizico.

— Nem todos, oficialmente Leão está em paz com os mouros, além de que nosso reino não tem condições de manter uma guerra a longo prazo. A grande ameaça que tira o sono de Hixame II é a dinastia Fatímida.

Respondeu Claudio, o historiador do grupo, mas logo foi interrompido por Eivor.

— Já chega desse falatório, se deixarmos você continuar, ficaremos aqui a tarde inteira. O padre disse que quer nos ver, temos que reportar para o grão-mestre o que vem ocorrendo na cidade.

— Pensei que gostasse daqui.

— Gostava quando os moradores chamavam nosso lar de Hispânia e não Al-Andalus.

O grupo então entra na capela, era um lugar rústico sem a elegância da iconografia cristã, aparentava que o lugar fora saqueado. Isso só servia pra deixar os forasteiros cada vez mais irritados com a situação.

— Que bom que vieram.

O sacerdote saúda, todos se ajoelham em reverência, na presença do padre.

— Não é necessária tamanha honraria. Vocês foram enviados por Bermudo II?

— Não.

Isaac tomou a frente.

— Nós somos independentes ao reino, fazemos parte da Ordem da Torre.

— Ordem da Torre? Eu ouvi falar que um grupo de guerreiros andava por Al-Andalus destruindo tropas mouras, como se estes fossem feitos de areia, enfraquecendo cada vez mais o domínio de Córdova.

Samir segura o punho da espada e permanece sério, Dengizico responde em tom alegre.

— Existem muitas lendas a nosso respeito, nem todas são verdadeiras.

— Sendo verdade ou não, é importante. Cada vez mais existem Moçárabes se tornando Muladis, o povo tem perdido as esperanças de uma libertação verdadeira. Vocês fazem um bom trabalho, por favor guerreiros, um brinde a libertação de todos os homens de fé. Temos vinho de sobra aqui.

— Nem pensem em pôr a boca nisso.

Arfou Samir.

— É só uma bebida, que mal faz.

Eivor tentou apaziguar.

— Você por acaso já viu algum cristão dizer Al-Andalus?

Os demais guerreiros gelam, o padre retira sua máscara risonha e fica sério de repente.

— Não é à toa que Almançor os considera uma ameaça. Vocês são mais espertos do que pensei. Guardas, ataquem!

Quase três dúzias de Mujahidin surgem das sombras atacando diretamente o pequeno grupo.

Antes mesmo de serem atacados, Isaac e seus companheiros meditaram, de forma que conseguiram evitar as trinta lâminas dos soldados. Uma aura mística toma seus corpos deixando todos os inimigos perplexos. Ismael grita para todos:

Senhores da Torre, vamos mostrar a eles o nosso Valor!

Eles retiram suas armas e começam a batalha. Era um ambiente com pouco espaço, o que dava brecha para uma maior quantidade de ataques combinados. Eivor desmembrava soldados com seu machado, enquanto Dengizico atirava suas flechas de olhos fechados. Samir e Claudio cobriam um e outro, enquanto o cintilar de suas espadas queimava o inimigo ao redor. Porém nenhum deles possui mais ferocidade que Ismael, dentre todos ele era o que mais se divertia separando a cabeça do corpo dos hereges. Já Isaac não portava armas, utilizava apenas seu valor para derreter os guardas em terra ou areia. Sua elegância era tamanha que um brilho podia ser visto saindo de seu interior.

— O que é isso? Que tipo de bruxaria é essa?

Ismael com um sorriso responde.

— Para um herege patético pode ser bruxaria, mas para nós isso é a fé. Isso mostra o valor dado a nós por Deus.

O falso padre cai no chão ao presenciar a completa destruição de seus soldados.

— Não se preocupe, logo terá o mesmo destino que eles.

Ismael se aproxima, a cada passo o horror na face do velho muladi crescia. O valoroso levanta a espada para dar o golpe de misericórdia, quando é interrompido por Isaac.

— Já chega!

— O que? Por quê? Será benevolente com um traidor? Ele usou as vestes de um santo sacerdote e permitiu que saqueassem solo sagrado.

— Eu disse já chega. Sou o capitão deste esquadrão, é apenas um homem velho, incapaz de segurar uma arma. Não demonstra ameaça para nós.

— Enquanto aos seus crimes?

— Apenas Deus pode julgá-lo. Lembre-se das palavras de Cristo:

Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão.

Eles dão as costas para o Padre, quando estavam perto da saída, o sacerdote lança um riso distorcido.

— Infestissumam.

Os cavaleiros param por um instante e viram-se para trás.

— Eu nunca pensei, que um ser de natureza tão vil quanto você poderia ter piedade.

As palavras saindo de sua boca pareciam estar sendo granuladas e expulsas do corpo como verbos sombrios.

— Só que ele não pode te proteger, não mais.

De forma súbita pega uma das espadas jogadas sobre a areia e passa a mutilar-se. Faz diversos cortes em seu peito enquanto se arrasta pelo chão. Todos olham de maneira confusa para a natureza profana da cena. Isaac não aguenta tamanha loucura e tenta parar o velho.

— Pare já com isso, esse é o sacrifício que Alá espera de vocês?

— Esse é o sacrifício em nome de meu mestre Shaitan.

A face de Isaac foi tomado pelo estarrecimento ao ver os olhos negros do ancião, era como se a alma dele tivesse deixado o corpo há muito tempo, e só restasse trevas em seu interior. Continuando a simbologia profana, ele se arrasta mais uma vez até cair morto.

— Isaac, acho melhor você ver isso.

Se afastando da cena e observando o desenho, seus olhos se arregalaram, a Cruz invertida estava diante dele, sendo o sangue a sua tinta.


— Algo te preocupa?

Sofia arruma as vestes de Isaac, enquanto o mesmo olha sem rumo para o horizonte. Já haviam se passado seis meses da missão anterior, ele continuava pensando no ocorrido.

— Eu já vi muitos homens caírem no clamor do combate, mas jamais havia testemunhado tamanha heresia.

— Eu ouvi os garotos comentando.

Ela se aproxima de Isaac.

— Você tem Cristo em seu interior, não tem com o que se preocupar. Rezo todas as noites para que volte em segurança. Uma solicitação do demônio não pode te fazer mal.

— Pode não ter feito mal a mim, mas fez mal a meu próximo.

— Ismael disse que era o inimigo.

— Talvez tenha sido há alguns momentos antes, mas no final restou apenas um velho moribundo, sem nada. Já havia perdido a batalha.

— Isaac, sempre repleto de compaixão, mesmo com os inimigos.

Sofia era uma boa amiga, sempre disposta a ajudar nos momentos difíceis. Atuava como curandeira no castelo, eficiente na cura pela fé.

— Preciso ver o grão-mestre, para outra missão.

Ele se despede da moça e sai rumo ao topo da torre, todos estavam ajoelhados sob a presença de Benedito, este observava as cadeias montanhosas em torno da fortaleza.

— Irmãos, como bem sabem, nossa ordem foi criada com intuito de proteger os domínios do Império Romano, posteriormente serviu como um dissipador da fé cristã. As torres são um agente determinante no que diz respeito à guerras, nosso credo construiu inúmeras e isso ajudou na defesa do território. Porém diante dos atuais eventos, não podemos deixar que os servos de Maomé façam uso de nossas torres. Quem domina os céus também domina o campo de batalha, se preparando e contra-atacando. Por isso que a missão de vocês é destruir uma torre que eventualmente trará vantagem aos mouros. Vocês precisam ir para Olisipo, na antiga região da Lusitânia.

Apesar do pesar em suas almas de destruir tão importante construção, eles nunca se atreveriam a discordar do grão-mestre.

— Sei que essa não é uma tarefa fácil, mas tenham em mente que faremos isso com um objetivo futuro. Quando derrubarem, guardem algum resquício da construção, usaremos como base na formação da nova torre, ele será um importante símbolo nesta guerra santa de reconquista.


O último soldado cai na presença dos valorosos. Eles estavam diante da Torre de Olisipo, uma importante construção de face para o mar. Sobre o grupo, um lago de cadáveres de armadura, os irmãos tentam chegar a torre quando são parados por um jovem.

— Não permitirei que profanem nossa construção sagrada.

— Nossa?

Perguntou Eivor em tom sarcástico. Uma grande quantidade de civis estavam observando nos arredores, Isaac conseguia sentir o medo vindo destes.

— Vocês são os cavaleiros que andam massacrando os exércitos do califado, atrasando nossa Jihad.

O garoto deveria ter uma década e alguns anos de idade, no entanto sua ferocidade demonstrava alguém que estava disposto a lutar por sua fé.

— Samir, tente falar com ele.

— Saia da frente pirralho, você é muito jovem para morrer.

O rapaz não demonstra reação, se coloca firme e forte.

— Não consegui, Ismael é com você.

Descruzando lentamente os braços, ele avança até com sua espada.

— Você deveria ouvir os conselhos de Samir, ele costuma ser o mais sábio entre os cavaleiros.

— Não deixarei que destruam a torre, ela serve como Mesquita para esta cidade.

— Então é mais um motivo para ser destruída.

O soldado avança tentando ferir Ismael, mas este apenas chuta o rapaz para longe. Isaac tenta apaziguar.

— Pronto, ele já caiu, não há necessidade de continuar a luta.

— Ele avançou contra um membro da Ordem, desafiando nossa autoridade. Sabe que a sentença dele é a morte.

O jovem pega rapidamente a espada e tenta acertar o inimigo, em vão, Ismael esquiva e chuta o rosto do rapaz.

— Agora é um soldado desarmado, seria covardia lutar assim.

O garoto continua a impedir a passagem dos soldados até a torre.

— Não irei ceder.

Uma grande quantidade de pessoas surge, nenhuma delas está portando armas. A multidão faz um círculo envolta da construção, de modo que nenhum deles consiga passar.

— Seremos a defesa de nossa fé, é melhor morrer com honra do que deixar que profanem a mesquita.

Disse um dos homens, os outros aldeões também concordaram. Uma atmosfera tensa tomou conta do espaço, aquelas pessoas não tinham nada, estavam de mão dadas protegendo a torre. Para os cavaleiros seria muito fácil decapitar todos e completar a missão, mas Isaac não poderia permitir, isso era contra sua própria natureza. Ismael rapidamente se irrita, Isaac entra na frente tentando impedir.

— Nós não temos o direito de decidir o destino dessas almas.

— O que você fará? É uma missão! Temos que concluí-la, mesmo que isso signifique derramar algumas gotas de sangue. As almas deles já estão perdidas, não fará diferença.

Isaac olha cabisbaixo pela sua incapacidade de resolver pacificamente o conflito. O Muladi permanece de peito estendido sobre Ismael.

— Já cansei de suas baboseiras irmão, vou fazer valer os dogmas de nossa Ordem. Avancem Senhores da Torre.

Ismael parte com tudo para cima do jovem muçulmano, Isaac vira o rosto, porém ele é incapaz de ver uma alma inocente deixar este mundo sem motivo. A espada lacera a carne, respingando o sangue para todos os lados. Quando os guerreiros se dão por si, é o corpo de seu irmão que fora atingido. Pânico, medo, horror e frustração tomam a mente dos valorosos.

— Por que Isaac? Por quê?


— Eu morri?

Isaac só conseguia pensar nisso. Estava em completa escuridão, um lugar turvo que se desfazia em formas. Passando-se algum tempo, algo responde.

— Não, ainda não.

Ele tenta abrir os olhos e está diante de uma figura alta portando vestes dignas de um papa, porém ao invés de vestir tons brancos, sua roupa é cinza e escura, sua face lembra a do ceifador de almas. Isaac não demonstra medo é como se estivesse à vontade perto dele.

— Onde estou?

— Você está nos limites da existência, um lugar onde a mente e corpo se esvaem. Só que você é diferente Infestissumam.

— De novo esse nome.

— Ele é convocado todas as vezes em que você vai contra sua natureza. Não deixo de pensar o quão curioso você é, até mesmo o mestre está perplexo. Você teve compaixão com um sacerdote que nem acreditava em seu Deus e se sacrificou por um jovem guerreiro herege.

— Como pode saber destas coisas?

— Estivemos te observando, todos nós, desde o dia de seu nascimento. Só agora que seu selo de proteção está fraco que consegui entrar em contato com você.

A figura faz uma referência e se apresenta.

— Eu sou o Antipapa Erinnurg Quintus, seu guia.

Isaac permanece em silêncio sem entender direito.

— Meu guia? Como um anjo da guarda?

— Me imagine como um sacerdote do pecado. Estou aqui apenas para que cumpra sua função.

— E que função seria essa?

— Destruir o mundo.

Se chocando com a resposta, Isaac tenta argumentar, mas é impedido pela fala do Antipapa.

— Só que para isso, preciso que continue vivo. Peço que tenha mais zelo pela própria existência. Para impedir novas tolices de sua parte lhe darei o toque.

Erinnurg V se aproxima.

— Toque?

— O toque do mal.

Pondo o dedo indicador sobre a testa do guerreiro, transfere a vitalidade necessária para que Isaac nunca mais seja enviado ao mundo exterior. Tudo ao redor começa a misturar-se, levando Isaac de volta ao campo de batalha. Ele consegue sentir o ferimento em suas costas se fechando enquanto escuta os gritos de Ismael. Se levantando, dá ordem a todos.

— Vamos embora.

— Seu idiota! Você entrou na frente para defender um herege!

— Você estava tão cego pela raiva que atacou seu próprio companheiro.

— E você se curou em poucos segundos.

Claudio disse de forma surpresa.

— Vamos embora, já derramamos muito sangue.

— Nós temos uma missão, não podemos desobedecer o grão-mestre.

— Uma torre não é mais valiosa que a vida destas pessoas.


— É sim, as torres representam tudo em nossa Ordem. Você me desobedeceu Isaac, colocou em risco sua própria vida e traiu a vontade de seus irmãos.

Isaac permanece sério diante do sermão de seu pai. Ismael se levanta e começa a criticar as ações do compassivo.

— Não sei o que vem acontecendo grão-mestre, nosso melhor soldado se recusa lutar pela Ordem.

— Me recuso a lutar contra aqueles que não carregam a espada, a única arma que possuem é a vontade em seu coração. Nós temos que lutar através do respeito e tolerância, não é isso que Jesus nos ensinou.

— De novo com essa conversa!

Ismael se irrita.

— As sacras palavras só são válidas para os seguidores de Cristo.

— A palavra deve ser católica, não importando a quem ela se direciona.

— Eu vi o suficiente.

Diz Benedito.

— Você perde seu cargo de capitão e está impedido de participar das novas expedições. Ismael, você será o líder a partir de agora.

O novo capitão se curva e agradece ao grão-mestre.

— Obrigado grão-mestre. Nós levaremos o julgamento de Cristo aos hereges, ninguém poderá nos deter.

Isaac lentamente se levanta e dirige-se até a porta. Antes de sair vira-se para os presentes dizendo:

Pois Deus não enviou seu Filho ao mundo para que ele julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele.


— Tudo tem um lado bom.

— Qual é o lado bom de ter sido chutado de minha principal função na Ordem?

— Nós. Agora podemos passar mais tempo juntos.

Ela sorri de forma doce para o recém exilado. Isaac retribui.

— Ficarei feliz em te ajudar com os cuidados do castelo.

Os dois passaram os próximos meses reforçando seus laços de amizade, para Sofia era como viver um sonho ao lado da pessoa que amava, eles rezavam na capela, faziam o almoço junto aos monges e caminhavam pelos longos pastos de Bracara Augusta. Sofia se sentia feliz ao lado de Isaac, seu coração batia cada vez mais forte por ele, mas este dificilmente conseguia se manter em um estado de felicidade plena, uma mágoa interna o consumia de pouco em pouco. Por certas vezes escutava vozes em sua mente, vozes pedindo coisas horríveis, vozes pedindo que destruísse tudo. Não conseguia mais rezar, era como se o altar queimasse a sua pele e tudo que conseguia escutar era o suspiro agudo da voz do Antipapa.

O ano era 998, Isaac olhava para o horizonte pensando como seus irmãos ficariam sem ele, se seriam respeitosos e compassivos. Pensar o deixava triste.

— Que os preceitos antigos guiem suas almas, irmãos.

— Eles nunca serão guiados por tamanha tolice.

Diante dos virgens pastos verdes Erinnurg V se apresenta.

— Nenhum deles se importa com suas palavras de compaixão. Sua ordem não passa de um credo sustentado por dogmas hipócritas. Você vive em uma teia de mentiras, não me admira que esteja defendendo seus chamados irmãos. Apenas Lúcifer trará a verdade.

Diante de tais palavras ele se mostra sério, não contrariando o sacerdote.

— Interessante, a maioria dos guerreiros que ouviram esse nome, ou demonstraram medo ou completa raiva, mas não você, você é especial.

— Não levo em consideração as palavras do pai da mentira.

— O único pai da mentira é Benedito, que escondeu sua verdadeira natureza desde seu nascimento, Pilatos XII sabia que ele não teria coragem de te matar.

— Meu pai é um homem santo, servo de Deus e da verdade.

— Como pode ser tão ingênuo. Se quer respostas, vá até ele e pergunte sobre o ímpio. Pergunte sobre as visões que anda tendo, pergunte sobre Infestissumam.


— Eu não entendi.

— Perguntei sobre o significado. Todas essas visões, esse clamor pela destruição e principalmente a minha origem.

— Você não precisa saber disto.

— Por que não?

Benedito olha com tristeza para o altar e a sagrada cruz. Banhados sobre os raios lunares que ultrapassam a mistura de vitrais góticos. No fundo ele sabia que este dia chegaria, tudo que ele fez foi para redimir não só seus pecados, mas o pecado de seu filho. Rezava todas as noites para que nunca houvesse o dia de revelar a verdade. De nada adiantou, a pequena criança havia crescido e de nada ele poderia fazer para adiar o inevitável.

— Por três décadas pude te proteger deles, só que o momento parece ter chegado. Isaac você é o Anticristo, filho de Satánas, o Infestissumam.

Aquelas palavras o pegaram de surpresa, sempre achou que as visões poderiam significar uma tentação demoníaca, mas nunca pensou que ele seria o verbo do renegado, o ímpio, o destruidor do mundo.

— Como isso pode ser possível, fruto do caluniador.

Olhando irritado pergunta.

— Por que não me matou quando teve chance?

— Como poderia matar uma criança de berço? Eu simplesmente não consegui. Eu te criei para que fosse uma boa pessoa, moldado pelos preceitos de cristo. Olha pra você, se recusa a atacar até aqueles que não seguem sua fé. Sua origem pode ter sido maligna, mas isso não determina quem você é nesse momento. Você é um bom homem meu filho.

Benedito o abraça, mas este se sente triste e com medo. Uma raiva interna o consome por ter sido traído pelo homem em que mais confiava.

— Você mentiu para mim! Me colocou sobre preceitos que nem mesmo o senhor segue. Quanto sangue inocente derramamos em prol dele.

Isaac aponta para a Cruz.

— Diz que me criou sobre Cristo, mas nem mesmo segue as palavras este ensina.

Isaac faz uma pausa.

— O que estou falando.

Ele sai da igreja e corre para longe.

— Isaac, espere!


— Não, não posso virar as costas para a fé. Eu posso ensiná-los a ter compaixão.

— Não existe compaixão para a humanidade.

— Aqueles que perdem a fé nos planos de Deus, perdem a fé em si mesmos.

— Nesse caso vamos ver o quão grandiosos são os planos de Deus.

O Antipapa abre a visão de Isaac entre a fumaça e mostra figuras sofrendo e chorando.

— Você os reconhece?

— São almas em tormento, então esse é o inferno.

— Continua tão ingênuo, esse é o tribunal inquisitório da Santa Igreja Católica.

Seus olhos se dilatam, tamanha tortura. O guerreiro pode sentir a dor de cada um deles perfurar o seu coração.

— A palavra de Jesus pode não chegar a todos, mas a punição com certeza chega.

Isaac é jogado em um espiral de pânico, qualquer homem são escolheria fechar os olhos diante de tamanha carnificina, mas não Isaac. Ele decidiu testemunhar cada tortura, um por um, sentir a dor, o medo, a tristeza. No vórtex da inquisição eclesiástica, ele vê que ninguém fora poupado. Ao fim do pesadelo, Isaac cai de joelhos.

— Qual é seu plano agora? Entende porquê a humanidade não tem salvação?

— Eu entendo.

Lágrimas escorrem de seu rosto.

— Só que eu não serei responsável por mais mortes.

Isaac forja uma lâmina a partir de seu valor e aponta para si mesmo. Seu ato surpreende até o antipapa.

— Você prefere tirar sua própria vida a machucar os inocentes. Curioso que o ser mais compassivo do mundo seja o próprio Anticristo.

Erinnurg Quintus ri.

— Sabe que ao fazer isso, você profanará o Espírito Santo. Não esqueça que o quinto mandamento vale para todos, inclusive para você.

Isaac é incapaz de desrespeitar Deus.

— O que você fará? Quanto mais o tempo passa, mais seu espírito se enfraquece. No fim seu propósito dará resultados, Infestissumam.

Por anos ele acreditou na Igreja, na sagrada família e em Deus. Era seu porto seguro, sua salvação. Talvez ele não tivesse muito tempo nessa terra, e não poderia se matar, mas ele acharia alguém que o fizesse. Olhando determinado, com espírito tenaz, ele se levanta.


Isaac estava saindo dos domínios da Ordem quando foi parado por Sofia.

— Por favor, não se vá. O grão-mestre me contou, mas eu não acredito.

— Preciso sair pelo bem de todos. Quanto mais tempo fico aqui, mais eu fico suscetível à influência do inominável. Prometo que vou voltar.

— Onde você irá?

— Estou partindo para Córdova.

— Está louco? Eles irão matá-lo.

— Essa é minha única opção.

Sofia o abraça impedindo este de ir embora.

— Por favor não me deixe.

Sua face fica séria.

— Você me amaria, mesmo sabendo que sou o assolador?

— Sim! Vamos embora daqui Isaac, encontrar um lugar longe desta loucura.

— Você é tão egoísta que põe a humanidade em perigo em detrimento de seus sentimentos.

Ela para de repente.

— Essa vida é feita de sacrifícios. Estou pensando em um bem maior, espero do fundo de meu coração que faça o mesmo.

Vestindo sua armadura e capa vermelha. Isaac deixa Sofia para trás, esta se derrama em lágrimas. Em sua mente o Antipapa clama:

— Você é covarde demais para se matar.

— Isso eu preciso concordar com você, se vou morrer, que eu morra fazendo algo pela Ordem.

— Derramando mais sangue?

— Expandindo o valor no coração dos seguidores dos justos.

Por um ano inteiro Isaac peregrinou pelo Califado de Córdova, pregando mensagens de compaixão e respeito. Durante a jornada ele por muitas vezes foi tentado, mas manteve-se tenaz no objetivo. Isaac não precisou queimar mesquitas ou matar civis para expandir os domínios da fé cristã, ele usava a palavra de Cristo a seu favor. Obviamente que todos que o atacavam acabavam perecendo em combate. Multidões se formavam ao redor dos discursos do peregrino, milhares estavam atentos aos seus discursos de paz. Aqueles que tentavam segui-lo eram rapidamente repreendidos pelo mesmo, segundo Isaac o povo deveria seguir o Filho do Pai, e não ele. “Sou apenas um homem, sejam fiéis a Deus, não a mim.” Logo a fama do peregrino que espalhava versículos bíblicos chegou aos ouvidos de Almançor, o caudilho de Al-Andalus. O governador mandou rapidamente tropas com o intuito de parar o avanço de Isaac, porém estas foram derrubadas uma a uma. Isaac lutava com todo seu valor, muitas vezes esteve perto da morte, mas algo o impedia de perecer. Soldado após soldado, batalha após batalha, ferimentos abertos e armas perfurando seu corpo, mas nada abalava o guerreiro inabalável. Por vezes pensava se em algum momento ele pereceria em combate, se em algum momento esse pesadelo teria fim.


Ele conseguia ver os altos muros da cidade, a prisão na qual se encontravam os moçarabes. Córdova, o coração do Califado, o lugar em que os chefes mouros se escondiam. A poucos passos de adentrar a cidade, uma figura que a muito tempo não via se apresentou. Quando este apareceu, os pássaros congelaram no ar, as folhas foram impedidas de se mover, o tempo por completo parou.

— Já faz muito tempo.

Arfou Isaac irritado.

— Estou aqui apenas para levar a mensagem.

O peregrino observa com atenção e nota que não é o mesmo sacerdote das últimas vezes. Além de possuir uma face mais jovem, este tinha uma pintura facial profana advinda dos mais profundos círculos infernais. Suas vestes iam do verde ao preto, com a cruz invertida decorando ás vestes.

— O que aconteceu com Erinnurg V?

— Meu antecessor faleceu junto ao Papa Gregório V, a vida dos Antipapas depende da vida da autoridade papal.

O Áugure faz um gesto de referência.

— Sou o Antipapa Silāicifitra Secundus, pontífice do Anticlerical do mestre Lúcifer.

— Poupe-me suas palavras blasfemas, qual a mensagem?

— Benedito de Milão acaba de falecer.

Apenas o silêncio partiu de Isaac.

— Você não parece desacreditar em minha palavra.

— Eu não duvido de vocês. Preciso voltar para a Ordem.

— Sim, mas antes, preciso refazer o toque.

— Seu antecessor já me deu o dom da vitalidade, não posso morrer.

— O toque do mal só funciona com a presença do pontífice. Você possui a marca Erinnurg V, não a minha.

Silāicifitra II se aproxima, mas é afastado por Isaac.

— Não quero e nem preciso de seu toque, pela glória do Eleito por Deus.

O corpo do peregrino enche-se de valor.

— Você sumirá!

Um feixe de luz é disparado contra o sacerdote, Isaac sente-se cansado com a ação e escuta a voz do Antipapa em sua mente.

— Você só adiará, o inevitável.


— É verdade que você destruiu uma horda de 100 mujahidin?

Dengizico perguntou

— Eu não parei para contar.

Respondeu Isaac ao retornar para a Ordem, apesar de ainda estarem abatidos com a recém morte do grão-mestre, todos estavam felizes em ver o rosto do peregrino que colocou inúmeras baixas ao exército do califado. Perguntas e mais perguntas chegavam, lendas foram entoadas sobre sua jornada, alguns diziam que a igreja católica queria canoniza-lo como profeta.

— No momento que ouvimos os primeiros boatos, sabíamos que era você. Ismael foi o que ficou mais feliz. Ele até recusou o possível cargo de grão-mestre, dizendo que apenas você era digno de fazer jus à liderança de nossa Ordem.

— Falando nisso, onde ele está?

— Possivelmente nos estábulos, os monges estão elaborando sua cerimônia para a tomada de posse, daqui a algumas horas você será oficialmente o grão-mestre.

Isaac anda até a antiga sala de seu pai, lá observa os diversos documentos, esculturas de torres e adornos religiosos. Reflete o quão bondoso seu pai foi com ele, mesmo sendo o pastor inútil, seu pai deu escolha a aquele que nunca teve. O triste de tudo isso é que talvez os esforços de seu progenitor tenham sido em vão. Os pensamentos tinham se tornado mais frequentes, embora tenha voltado para Ordem por honra, ele não sabia o que fazer. Retirou sua pesada armadura, deixando suas feridas expostas ao ar. Sua pele havia se tornado uma mistura de cicatrizes, hematomas e sangue seco.

— Isaac, seu corpo. O que você fez com seu corpo!


Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Maligno, esse é o destino

Com pesar e olhar triste diz:

— Não suporto ver o senhor fazendo isso consigo mesmo. Me dói o coração toda vez que se machuca.

— É necessário, pelo bem de todos, preciso continuar tentando.

Mil anos de mentiras.

— Deixe-me ver isso. Isaac!

— Não se preocupe. Foi só um arranhão.

Mil anos de servidão cega

— Isso poderia tê-lo matado.

— Mas não matou, infelizmente.

Chegou ao seu fim, com o emergir do homem vil, o iníquo, rei que fará segundo a sua vontade, trazendo a perdição de toda a humanidade.

— Como pode dizer uma coisa dessas!

Ela tapeia o paciente, enquanto lágrimas saem de seus olhos.

— Não adianta, não é mesmo? Você é incapaz de entender.

— Por quê? Por que Isaac? Por que Deus permitiria algo assim?

No interior de sua mente ele se lembrava, tentava achar algum motivo para toda essa loucura, para a sua existência. Ele não tinha resposta.

— Não sei Sofia, não sei mais o que posso fazer.

— Eu sei que se matar não é o caminho.

Ela olha para cruz.

— Antes de partir você tinha dito que essa vida é feita de sacrifícios. Não tinha entendido. Em meio a desilusão comecei a rezar, pedi a Deus que clareasse minha mente, que me mostrasse uma resposta. E eu recebi. Não quero que morra, mas também não quero que as trevas corrompam seu coração. Posso não ter a resposta que procura, mas conheço alguém que tem.


Estava sobre o mesmo altar onde fora revelado a identidade do Anticristo. Isaac se recusa a olhar para cruz, tem vergonha de quem é, de seu sangue impuro. Ele cai de joelhos sobre as escadarias do monastério. Lágrimas descem pelo seu rosto, pensando em todas as pessoas que seriam afetadas por seu poder destrutivo.

— Deus Todo Poderoso, sei que não tenho o direito de me dirigir a ti, sou apenas um homem vil em busca de respostas, mas por quê? Senhor, por quê? Por quê?

Solta um grito que reverbera por todo salão.

— Por que eu continuo vivo?

— Porque nenhuma alma boa merece deixar este mundo de forma tão cruel.

Uma voz tão calma e doce responde aos lamentos de Isaac, o ser que a entoava era brilhante, tão brilhante que o peregrino tinha medo de abrir os olhos diante de sua presença.

— Você é o Filho do Pai, Fiel e Verdadeiro, o Redentor. Não! Eu não sou digno!

Isaac se desespera, ele tinha vergonha de sua própria existência. Um ser tão vil estar diante do Verbo de Deus, era uma afronta.

— Não sou digno de sua presença. Você sabe quem eu sou!

Isaac chora e soluça.

— Eu sou o pequeno chifre, o filho da perdição, vossa antítese, o Anticristo. O senhor pode terminar com isso. Possui o poder tal.

Apenas o silêncio permanece em tamanha calmaria.

— Por que o senhor não me mata?

— Porque tenho compaixão.
Aquelas palavras o atingiram em cheio, se lembrou de todas as almas que poupou, todas as vezes se recusou a lutar.

— Então foi o senhor, o senhor me protegeu durante toda a jornada. Me impediu de morrer.

— Se fez necessário, você poupou muitas pessoas, porém falta poupar mais uma.

— Eu mesmo.

— Você passará por uma grande provação, meu filho. Sei que fará a escolha certa.

Após alguns instantes Isaac acorda sobre o altar. Sente uma paz imensa em seu espírito, como se toda a dor e sofrimento que testemunhou houvesse sumido. Samir entra pela porta da frente chamando por Isaac.

— Isaac, Ismael deixou a Ordem.

— Por quê?

— Ele disse que iria completar a última missão do grão-mestre.

Ele olha assustado.

— A torre. Reúna os guerreiros, vamos partir para Olisipo.


Entrando na cidade uma trilha de cadáveres e sangue podia ser vista, inúmeros homens, mulheres e crianças estavam empalados ou enforcados. Isaac tentava se concentrar nas palavras do Salvador, mas aquele banho de sangue o fazia perder o controle. Chegando perto da torre, mais e mais corpos estavam amontoados e Ismael se encontrava ao fundo.

— Quando destruir essa torre, a missão do grão-mestre será bem sucedida.

— Qual o sentido desta carnificina Ismael?

— O sentido? Eles eram seguidores do Anticristo! Quando entrei na cidade, ouvi todos louvarem o seu nome Isaac, todos elevarem a alto o nome do falso profeta.

— Pare de palhaçada Ismael, que bobagem é essa de Anticristo?

Gritou Eivor.

— Ele está certo. Eu sou o Anticristo.

Os guerreiros ficam boquiabertos diante daquela situação.

— Também desconfiei no início, mas o Papa me fez perceber o quão perigoso Isaac era. Um prodígio desde a infância, aquele que é um líder entre os homens, aquele que quer resolver tudo pacificamente.

— Por isso você matou essas pessoas?

— Os seguidores do profanador não são pessoas, são enviados do inferno.

No momento que essas palavras foram ditas a raiva no corpo de Isaac começou a ferver. Em sua cabeça uma voz pedia para ele enfim ceder à tentação e punir Ismael por todos os seus crimes. Aquilo não era apenas um caso isolado, mas sim a representação pura do que os humanos vinham fazendo desde o sacrifício de Cristo. Tentando se segurar ele pede pra Ismael ir embora.

— Você era um uma inspiração para mim Isaac, alguém que deveria trazer paz para o mundo. O que você vê aqui é consequência de seus próprios atos, todos eles pagaram por sua disseminação demoníaca.

— Matou todas essas pessoas por conta disso? Está louco!

Gritou Samir.

— Não importa o que você esteja falando de Isaac, ele é nosso irmão, não deixaremos que profane seu santo nome.

— Estão cegos pelas mentiras do Anticristo!

Ismael retira sua espada inundada em valor e avança para cima de seus antigos aliados. Isaac entra na frente e é perfurado em seu coração. Todos gritam em uníssono o nome de Isaac.

Infestissumam nunc, dimittis potentiam tuam

— Não há escapatória, nem mesmo um ser das trevas poderia resistir a este golpe.

O corpo do ímpio começa a queimar em brasas infernais de forma que este retira a espada, mostrando que de nada fez efeito a ele. Nos arredores mais sujos do plano exterior os lúgubres entoavam cantos alegres que podiam ser ouvidos por todos no reino inferior. A hora finalmente havia chegado, o Anticristo finalmente havia se libertado.

Isaac avança de forma violenta contra Ismael, o guerreiro tenta desesperadamente cortar o profano, porém de nada adianta. A pele do homem havia se convertido em um metal duro e mágico, era impossível cometer danos. Isaac arranca um pedaço para honrar cada vítima que fora feita durante a chacina. Seus aliados uivaram em clamor ao lado de Isaac, enquanto ele arrancava dedo por dedo, mão por mão, braço por braço. Diante dele só restava um homem ensanguentado, tendo perdido uma perna, um braço e um olho. Por algum motivo Isaac não deu o último golpe para enfim destruir seu inimigo. Uma voz entoava de forma cada vez mais forte em sua cabeça.

— Destrua meu filho! Destrua tudo! Existem muitos como esse para você se deliciar com o sangue, este é apenas o início de sua libertação. A humanidade está cheia de criminosos para serem julgados, logo todos perecerão diante de sua espada.

Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão.

Isaac grita espalhando um brilho digno da própria estrela da manhã. O brilho foi tão intenso que supostamente superou as barreiras do mundo físico, iluminando até a fenda em que Lúcifer se escondia. Ismael olha perplexo para o carrasco.

— Por quê? Por que você não me mata.

Ofegante, Isaac responde.

— Por que tenho compaixão.

Todos arregalam os olhos.

— Você está acabado, e não fará mal a mais ninguém. Talvez algum dia compreenda a gravidade de seus pecados.

— Típico, você poupa até seu pior inimigo.

— Aí que você se engana irmão. Te poupei porque em algum momento, você foi meu melhor amigo.
Me dói o coração ver o homem que se tornou.

Isaac vira-se de costas e sai em retirada.

— Valorosos, vamos embora. Se for a vontade de Deus, ele há de sobreviver.


Na fortaleza da Ordem todos festejavam para os preparativos da posse do novo grão-mestre. Apesar dos pensamentos ainda estarem presentes na cabeça de Isaac, isso não o incomodava tanto. Entretanto a fala de Ismael ainda o atormentava. “Aquele que quer resolver tudo pacificamente”. Olhando para o salão ele observava todos entoando seu nome como se fosse um salvador da fé cristã, um herói, um messias. Samir,
Dengizico, Claudio, Eivor e Sofia estavam sorrindo, comentando como era bom estarem seguros e dizendo o quão melhor será a Ordem sobre a liderança de Isaac. Ver seus amigos, as pessoas que ama, bem, o fez entender que a morte dele, não era a solução, esse fato só traria sofrimento a eles. Só que não poderia ficar parado vendo as profecias bíblicas se concretizando, ele deveria tomar uma atitude.


Todos os seus amigos se reuniram em um lugar secreto e sagrado, longe da visão dos curiosos. Seu pai havia lhe contado desse lugar quando era pequeno e Isaac só decidiu revelar a localização naquele instante.

— Irmãos, e os reuni aqui hoje para pedir um favor a vocês. Sei que confiam em mim e sabem que eu nunca os trairia.

Eles se mantêm calados ouvindo claramente as ordens de Isaac.

— Durante meu tempo de peregrinação, vi o quão importante é o poder da compaixão. Vi que esse simples sentimento pode mudar o mundo, e gostaria que a ordem tivesse em seu cerne, este sentimento. Vocês prometem que serão compassivos?

Todos sem exceção gritam afirmativamente.

— Como o Anticristo é um perigo para humanidade, como líder, é necessário que vocês guiem a Ordem, se mantendo fortes, assim como eu me mantive diante da tentação. Eu só me mantive forte porque confiei na palavra de Deus, e não nas palavras dos homens. Por isso que peço para que não criem imagens, histórias ou poemas ao meu respeito. Para as massas eu preciso ser esquecido. Vocês prometem que este segredo será passado somente aos altos cargos de nossa Ordem e que a minha existência deve ser guardada com extremo cuidado?

Todos sem exceção gritam afirmativamente.

— A vida é um dom dado por Deus, tira-la seria uma blasfêmia ao Espírito Santo. O valor que corre em nossos corações foi adquirido através da Cruz de Cristo, esse item foi capaz de nos dar habilidades inimagináveis, quebrando as leis da natureza e nos aproximando da guarda de Deus. Eu penso que em algum lugar do mundo exista uma forma de expurgar o mal presente em mim, com certeza existe alguma arma ou objeto criado tanto pelo céu quanto pelo inferno capaz disso. Por isso, como forma de salvar o mundo da perdição é necessário que achem essas relíquias do mundo antigo, e achem alguma forma de mudar o destino. Vocês prometem que tentarão ao máximo salvar este plano?

Todos sem exceção gritam afirmativamente.

Cada um deles tinham pensamentos dentro de si, cada um deles queria ajudar o amigo de alguma forma, cada um deles queria levar compaixão ao mundo.

— Neste dia, primeiro de janeiro do ano 1000 da era comum, eu Isaac, o grão-mestre da Ordem da Torre, ficarei inerte pelos próximos 1000 anos como forma de dar esperança ao mundo dos homens. Conto com aqueles que têm valor em vossos corações. Sei que vocês serão capazes de levar compaixão ao mundo, sei que serão capazes de proteger este segredo pelo próximo milênio, sei que vocês conseguirão.

Salvo indicação em contrário, o conteúdo desta página é licenciado sob Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License