João Ninguém
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Vestiu seu sobretudo como se fosse a última vez, beijou a mulher e acariciou os cabelos do filho. Saiu pelo portão observando o céu estrelado da grande metrópole. Sua cabeça se encontrava num vácuo de pensamentos, estando focado em um único objetivo. Seguido por seu instinto de honra e dever, de clamor e esperança, de violência e prazer. Seu nome? Isso não importava mais, o que importa é a patente do indivíduo e sua capacidade de transliterar as regras do estado. Só que você não está satisfeito, não é mesmo? Você precisa de um nome, mais uma padronização típica de interlúdios amorfos. Digo apenas que para esse trabalho, ele não precisava de um nome, pois era apenas um fantasma entre as catacumbas urbanas. Continuava andando com seu passo tímido pelas ruas de uma cidade qualquer. Podia-se ouvir pessoas gritarem suas músicas, de forma que se inebriavam pelo doce frescor do prazer individual. Um egoísmo profano! Um festival havia se formado na frente de seus olhos, só que não era para esta poça multicolorida que seu instinto apontava, ele deveria ir mais fundo. Como um peão, o homem percorria de casa em casa esperando um alvo para sua captura naquele grande tabuleiro.

Chegando em um local no qual as festividades não passavam de um ruído abafado, ele esperou, esperou até o coelho sair de sua toca. Espreitando sua vítima como um homicida, ele fora capaz de deslumbrar a aura que a rodeava. Observara por muitas semanas, sabendo todos os seus gestos, sons e peculiaridades. A garota na casa dos vinte anos portava óculos em sua face e um cachecol carmesim, esta se despediu das amigas e continuou sua caminhada até o lar. De forma predatória e silenciosa, ele suavemente a persegue de modo que não seja detectado. O inimigo estava diante de si , algo que estava além de seu domínio, pelo menos por enquanto. O som dos passos dela ecoavam pela escuridão, aparentavam os contínuos "tic tac" do relógio, apenas esperando o último badalar. Era uma noite fria e ausente, seria tolice uma mulher andar sozinha por uma estrada deserta, sem evidentes meios de se defender. Só que aquilo que estava diante dele tão pouco era uma mulher, como sabia se defender. Não podia subestimar sua aparência frágil.

Ele constantemente se perguntava o que sua esposa pensaria sobre quem ele realmente era, as coisas que fazia quando saía para trabalhar. Esse era o exemplo que ele queria dar para o filho? Ele não poderia pensar nisso, sua mente deveria se manter vazia, com o coração em chamas. No quartel ele aprendeu uma exímia lição, de morrer pela pátria, sendo certo ou não. Ele era uma ferramenta para algo maior, isso que o diferenciava dos demais, não precisava de futilidades ou adereços sociais para se sentir parte de algo. Ele já era parte de algo, era a base de uma estrutura complexa que protegia a nação.

A silhueta sombria da mulher era refletida conforme a mesma subia os íngremes degraus de uma construção rudimentar. O predador solitário observa o rodopiar da acrópole de concreto, enquanto a escuridão é desfeita pelo círculo da iluminação pública. A moça para sobre o poste, sua magnificente postura não aparenta medo ou tranquilidade, assim como seu algoz, ela age no automático. Abriu sua bolsa e pegou a chave de casa, entrou mais uma vez no paço sombrio. O luar era a única luz que refletia a coloração neutra de seus cabelos amplamente genéricos. Suando frio ele se aproxima, sem farda, sem nome, sem vida, somente um espectro caminhando sobre os olhos de Jaci.

Ela sente um peso em um de seus ombros, quando vira-se observa a figura intuída pelas sombras, talvez não muito diferente dela. Um grito quebra a monotonia do anoitecer, da mesma forma que ambos, espaço e tempo, são rasgados. O cimento, outrora preso no chão, flutua no vazio. A presa havia se tornado o predador, ela era a criadora deste mundo e esta punição do carrasco começa. O observara por poucos segundos e já sabia todos os seus gestos, sons e peculiaridades. Não se deixou enganar pela aparência amedrontadora, afinal aquilo ainda era humano. A jovem mulher separa o esqueleto de metal do ungido concreto e crava em seu perseguidor, o que não a deixa mais calma, visto que o alvo dos ataques não demostrara reação. O corpo se aproxima de forma lenta a fazendo transbordar de medo. O pavor ao ver aquela criatura, que outrora achara que era humana, era sufocante. Agarrando-a pelo pescoço ele pressiona sua jugular, sua força descomunal faz com que os gritos de horror distorçam cada vez mais o que sobrou de ordenamento em um geoide de puro caos. De forma súbita uma pancada atinge seu estômago, fazendo sua consciência se esvair, assim como todo seu universo.

Algumas horas depois, há algumas horas dali, um general saúda seu imediato e um código de barras é grafado no torso de uma jovem. O quartel aplaude o homem sem nome e o parabeniza pelo seu exímio trabalho. Ele saúda a bandeira e os filhos desta, abraça seus irmãos e retorna à casa. Sua esposa espera no portão enquanto o homem reaparece a visão desta. Ela o beija em paixão, ao mesmo tempo que reclama sobre as atuais convocações de seu emprego. Reclama que não pode te-lo a mesa para o jantar, reclama que ele precisa de férias e reclama de coisas que reclamam toda mulher. Entra devagar sobre o quarto do filho observando que a criança, um rosto tão parecido com o seu, flutua sobre a cama de forma que impede a ação da gravidade nos demais móveis. O homem abre um sorriso e olha para inscrição em seu braço, números confusos e aleatórios seguidos por um código de barras. Ele era mais um entre muitos tipos de códigos.

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