Lusofonão

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"Eu sei, eu sei. A última não vingou. Mas dessa vez vai."

"Você vai acabar preso por propor essas besteiras."

PREFÁCIO


Ah, o futebol. O único esporte que move uma nação de forma retumbante, seja para fazê-la vibrar com cada rojão de felicidade, seja para derramar-lhe as lágrimas depois de tantos gases lacrimogênios atirados após o jogo. É a mais pura forma de pão e circo da era contemporânea, de combate vivo sem combate real (aparente), legalizada e livre para todos os públicos.

Não há quem desgoste. E se desgosta, não consegue esconder a genialidade desta obra magnânima do entretenimento esportivo e televisivo. Uma simples atividade de chutar objetos redondos. Gera suor, luta, sangue bombeando em lugares indescritíveis. Enfim, é isso que futebol é. Indescritível. Mas assim como é esta atividade célebre, é o anômalo.

É por isso que nós da Fundação decidimos investir nossos maiores fundos no maior campeonato futebolístico do mundo anômalo (e não anômalo) que nosso Véu já conheceu!

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INFORMAÇÕES GERAIS


O famoso Campeonato Lusófono de Futebol Anômalo, ou também o Campeonato Lusófono Série A — mas convenhamos que só será chamado de Lusofonão. Ninguém liga para o nome oficial a esse ponto.

O Lusofonão foi estabelecido em 1992, após o fim da Superintendência Brasileira do Futebol, um órgão governamental criado com o propósito de tentar minar o uso e envolvimento do anômalo no futebol brasileiro. Quando se acabou a SBF, com muita pressão dos times de futebol anômalo brasileiro, permitiu que uma parceria fosse estabelecida entre os diferentes polos futebolísticos abaixo do véu no meio lusófono, indo do Brasil, à Portugal, Moçambique, Macau e a muitos outros.

Desde então, o Campeonato Série A do mundo falante de português tem atraído cada vez mais fãs, torcedores e patrocinadores. Atualmente, conta com 12 equipes (e contando!) que disputam o título de campeão. Entre eles estão o Club de Tecnocratas Frasco da Mana, Club Atlético Boca de Fumos, Sanctorum Societas Pediludii e outros tão notórios quanto que serão apresentadas logo em breve!

REGRAS GERAIS


Mas antes disso, devemos admitir. É uma disputa difícil, cheia de bizarrices, taumaturgia, dobra da realidade e mesmo assim o maior problema que se encontra em campo ainda parece ser o veredito dos árbitros.

No quesito regras, o Lusofonão não é nem um pouco puritano. A regra mais sagrada de todas é que a plateia é intocável. Muita coisa pode acontecer, podem até invocar um horror além da compreensão aqui, uma entidade demoníaca do nono círculo do Inferno ali, mas isso não pode respingar em quem está assistindo. Os telespectadores são sagrados, importantes, e mais do que tudo, lindos e maravilhosos. Nenhuma idiotice que acontece em campo pode causar danos a eles. Até porque são eles que estão pagando pra assistir. Enfim, essa é a regra de ouro.

É importante clarificar também que coisas como homicídio são algo complicado. Não porque o Lusofonão proíbe assassinato, mas porque matar alguém não é exatamente muito legal. Por exemplo: você transformou o goleiro em pedra. Parabéns, campeão. Como fica agora? É uma situação muito chata e que tende a ser melhor de evitar, já que pode facilmente arruinar um ótimo jogo, causar uma revolta da torcida ou simplesmente pesar o clima.

Também é de bom caráter que os jogadores sejam seres humanos. Nada contra alienígenas, esfinges ou ovos graúdos sencientes, mas futebol só pode ser jogado (segundo a comissão competente) entre humanos, mesmo que anômalos. Essa regra ainda está sob revisão devido às acusações de falta de diversidade e inclusão de uma minoria meio repugnante, uns crentes de um deus meio diferente. Mas nada contra. Em breve, espera-se que essa barreira seja quebrada e que todos possam disputar no Lusofonão.

Ademais, a taumaturgia é permitida: psionismo, dobra de realidade e até afetadores meméticos estão liberados. Muita coisa é liberada, mas o jogador deve estar devidamente cadastrado. As suas propriedades anômalas e demais capacidades devem estar todas na papelada. Caso contrário, isso irá causar severas sanções ao time. Falando neles…

TIMES DE INTERESSE DA FUNDAÇÃO LUSÓFONA


CORTE DO URUBU RUBRO


Muitos o reconhecem como o maior mal que existe no Brasil. Se trata de uma organização em duas camadas. Para o público geral e a maioria de seus membros, é apenas um time de futebol, mas na realidade também opera como uma organização religiosa. Não se sabe se a Corte começou como um time de futebol ou uma seita.

A Corte cultua uma divindade de nome “Rei Escarlate”, que segundo as escrituras recuperadas se trata de uma baleia. É crença da organização que sua divindade é capaz de influenciar o resultado de jogos, prejudicando outros times dentro e fora de campo. Cerimônias dedicadas ao Rei são comuns antes e depois das partidas.

Segundo informações vazadas de insiders, a Corte do Urubu Rubro está tentando realizar pressão para alterar certas regulações em relação ao Futebol. Segundo estas mesmas fontes, o objetivo seria permitir a contratação de filhos do Rei Escarlate como jogadores titulares, o que é atualmente impossível, dado o regulamento vigente.


SÃO CIPRIANO FUTEBOL CLUBE


São Cipriano de Antioquia é o famoso autor do Livro de São Cipriano. Mas, ao contrário do que se acredita popularmente, não é um manual de feitiços. Na realidade, se trata de um grande livro de estratégias futebolísticas, talvez o primeiro do mundo. Pautado na filosofia de futebol taumatúrgico do autor, o São Cipriano Futebol Club nasceu.

O time possui taumaturgos em todas as posições. Isso já foi alvo de muitas polêmicas, como em episódios notáveis onde membros do São Cipriano dispararam feitiços contra o time rival, fora do tempo do jogo, durante brigas generalizadas. Houve também o caso do paradoxo que foi causado por um dos jogadores tentando reverter um pênalti.


SOCIAL CLUB CORTINAS PAULISTA


Por volta da década de 1920, o Fundo Socialista para Revolução se instalava em solo brasileiro, com grande interesse nos centros urbanos, ainda em desenvolvimento. De modo a melhor difundir seus ideais entre toda a massa paulista, desde a população jovem da capital até os operários e sindicalistas da região metropolitana. Tornou-se evidente que apenas divulgar panfletos com propaganda política ou se organizarem em guerrilhas não seria eficaz a longo prazo. Assim surge o Social Club Cortinas Paulista no futebol de várzea, como principal método de disseminação de uma ideologia revolucionária por meio do esporte mais praticado em São Paulo, com exceção do beach tennis.

Ainda que façam história no campo, tendo conquistado diversas vitórias em campeonatos anômalos paulistas, são mais conhecidos por sua torcida organizada, a Grifos da Civil, sendo a maior e mais hostil dentro da comunidade futebolística anômala brasileira. Curiosamente, as intenções do Fundo Socialista não envolviam uso de violência ou qualquer tipo de hostilidade dentro do recém-formado clube, por ora. No entanto, tornou-se evidente a força e energia da comunidade torcedora, ainda mais durante o período da Ditadura Militar Brasileira, não apenas unida contra a repressão e autoritarismo, mas solidária para com outras torcidas rivais. Passou, então, a ser financiada pelo Fundo, aumentando drasticamente o número de membros, mesmo que muitos nem torçam de fato para o clube.

Como qualquer associação de viés socialista, isso acabou gerando dissidência dentro da torcida organizada, levando à criação de outras torcidas menores e aparentemente menos radicais. Entre elas estão: Bando de Ursos, Martelão da Massa, Estrela Leal, Pavilhão de Ferro, Partido Comunista Cortiniano em prol da Revolução dos Trabalhadores do Brasil, República Popular Democrática do Cortinas, entre várias outras.

De acordo com documentos e mensagens adquiridas ao longo das décadas, é sugerido que haja um projeto para a criação de um novo Clube Esportivo independente baseado no Social Club Cortinas Paulista, ainda que esteja em plano teórico desde a queda do muro de Berlim.

UNIVERSITÁRIA


Falando em teoria, a Universitária é uma agremiação poliesportiva fundada oficialmente em 1880 pel'Academia, ou Academia Científica do Anômalo por extenso, quando esta ainda era a Real Academia de Ciências Paranormais, formalmente nomeada de Associação Universitária Desportiva do Campus Hermes da Real Academia, posteriormente alterada para Novíssima Associação Universitária Intercampi de Desportos da Academia. Independente das suas designações, é considerada o primeiro clube de futebol de Portugal, apesar de não haver seu devido reconhecimento fora do Véu.

Apesar da sua criação oficial apenas no século XVIII, a Academia já possuía espaços multidesportivos em seus Campi desde o século XI, conhecidos como Nobilíssimos Centros Académicos de Ginástica. A partir daí, desenvolveram uma tese que buscava relacionar práticas peripatéticas com o desenvolvimento do apreço pelo Esporte, e séculos depois, pelo jogo de bola; algo como jogar futebol para desenvolver a mente.

Devido à influência britânica, tanto nos estudos acadêmicos quanto nas práticas esportivas, perpassou por mudanças, principalmente pela longa lista de treinamentos e táticas importadas do mundo anglófono. Este paradigma se manteve por muito tempo com a proximidade entre Portugal e Inglaterra, vindo a ruir com o passar das eras.

A Academia veio a valorizar cada vez mais os esforços futebolísticos paranormais da Universitária. A associação, que por muito tempo dependeu de bolsas e programas sanduíche com o exterior para treinar jogadores de peso, agora recebia investimento adequado, na forma de espaços de treino e oportunidades.


SPORT CLUBE PARANORMAL


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Para fechar com chave de ouro, é necessário falar do gigante e o mais famoso de todos.

É o resultado da fusão entre três times distintos. O Clube de Regatas Sport Clube Paranormal Brasileiro, Clube de Sargentos do Exército Sport Clube e a Liga Esportiva dos Professores Universitários Ainda Não Aposentados. Em meados de 1993, o CRSCPB e o LEPUANA se fundiram, e por meio (talvez violento) conseguiram se somar também ao CSESC. Assim, se formou o apenas conhecido como Sport Clube Paranormal, que possui jogadores advindos tanto do anômalo no geral, quanto das Forças Armadas e também do meio acadêmico da taumatologia.

Conhecido pelo seu notório nível de burocracia, quase kafkaesco, possui comissões que devem aprovar pedidos, que devem ser feitos pelo funcionário certo, que devem estar designados no setor certo. Existem boatos sobre a existência de um “OrganoGrama” ou uma “Estrutura Sintética” extremamente sofisticada que regula a vida e ações de todos os membros, do reserva até o técnico. Se esse sistema burocrático de fato existe, não se sabe, o que é de conhecimento geral é que o Clube é muito bem organizado.

O time do Paranormal é extremamente eclético. Existem especialistas em afetadores cognitivos e meméticos, taumaturgos, dobradores de realidade, portugueses e até mesmo indivíduos com treinamento tático e militar. Na filosofia do time, o estilo de jogo do futebol abaixo do véu é um “puxa tudo”, usando todos os fatores anômalos possíveis. Uma crítica frequente ao Sport Clube Paranormal, entretanto, é que sua falta de especialização enfraquece cada área individualmente.


"Já deu. Dr. Vinagre será mantido na Ala de Psiquiatria até segunda ordem."

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