Estado Mutável
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Cerca de meia libra: essa é a primeira coisa que ela se lembra.

Essa é a diferença entre um pente vazio de quinze balas de nove milímetros e um cheio. Quando equipada com um cartucho totalmente carregado, a pistola Beretta M9 pesa cerca de duas libras e meia. A que ela está segurando no momento mal tem mais de duas. Isso significa que ela está quase vazia. Quase, porque a corrediça da pistola ainda está em posição.

Ela não faz ideia de como ela sabe disso.

Tem pelo menos quatro homens correndo pelo corredor que liga a este apartamento. A julgar pelo som de seus passos, eles estão usando armaduras corporais pesadas. O fraco toque de um rádio diz a ela que eles são organizados — polícia? Talvez. Poderia ser o exército, também.

A pistola está quente em sua palma. a sala tem um cheiro ácrido de ovo. Tem um corpo morto a seus pés, com o calor saindo de uma dúzia ou mais de orifícios ao longo de seu peito. Cada um contribui para a poça carmesim em rápida expansão que mancha a camisa de algodão branca do homem morto. O vermelho escorre para se espalhar pelo piso de madeira. Ela não reconhece o rosto do cadáver,

Os passos param na porta atrás dela. Uma voz abafada murmura ordens.

Ela se vira e abre a porta, andando atrás dela. Quando a espingarda passa pela porta, ela joga todo o seu peso pra frente e a fecha. O cano é pego entre a porta e sua moldura. Ela dá um passo para trás, levanta a pistola em posição e dispara dois tiros diretamente na lateral do cano da espingarda. A corrediça volta e trava; a pistola agora está vazia.

No momento em que a espingarda deformada se retrai, Xiaoshan já está do outro lado da sala.

Xiaoshan. Esse é o nome dela.

A porta irrompe em uma nuvem de madeira destroçada e fumaça.

A cozinha é como o resto do apartamento; paredes de estuque branco-pérola com um piso de madeira de nogueira polido. Há uma ilha pitoresca de mármore no centro, com três banquinhos de veludo cor de vinho posicionados na extremidade de frente para o balcão. Uma grade sobre o forno contém vários temperos, uma garrafa de champanhe e uma lata de azeite. O espaço é limpo e arrumado — 'aconchegante'. Sim, essa é a palavra. Bastante 'aconchegante'.

Xiaoshan pega a garrafa de champanhe e a joga no micro-ondas junto com sua pistola. Ela aperta o botão 'pipoca' um instante antes de ouvir um dos homens gritando. Soa como 'POLÍCIA!'. Ela agarra uma faca de carne e corre pro quarto.

Então, seu nome é Xiaoshan. Ela (aparentemente?) matou um homem; a polícia agora está atrás dela. E a julgar por como ela está trancando a porta do quarto e contando os segundos antes que a bomba improvisada detone — ao mesmo tempo em que examina a varanda externa em busca de sinais de uma rota de fuga? — ela sabe como cuidar de si.

Agora ela só precisa descobrir quem ela é e o que ela está fazendo aqui.

Os homens na cozinha estão gritando alguma coisa. Ela não consegue entender, mas parece inglês. Certo, então — ela está na América do Norte. Ou talvez na Europa? Não, os sotaques são definitivamente norte-ameri —

A sala estremece com a força da explosão. Suas pernas se movem antes que seu corpo tenha tempo para pensar; ela bate com o punho da faca contra a vidraça que separa o interior do quarto da varanda. Seu corpo corre através da teia de rachaduras que aparecem, rompendo-se em um borrifo de bordas denteadas e brilhantes.

Luz solar. Céu limpo. Ar fresco. Sete andares. Cada pico de dados sensoriais atravessa sua psique e depois se derrete para o segundo plano. Essa última parte parecia importante, no entanto.

Ela tenta segurar essa informação, puxá-la para análise — e é então que ela percebe que já pulou sobre o parapeito e agora está caindo com os pés em direção ao que sem dúvida será sua morte violenta e sangrenta.

Bem, isso foi absolutamente inú —

CRNKT.

Ela bate no chão. O asfalto incha, ondula e se divide abaixo dela. Enquanto ela colapsa, o impacto atinge suas pernas e quadril, atingindo sua coluna.

As placas de cerâmica interligadas que compõem suas vértebras se encaixam como peças de um quebra-cabeça. Camadas de fluido magnetoreológico isolante se comprimem em formas densas e flexíveis, fornecendo suporte estrutural e agindo como amortecedores secundários de energia. O excesso de força cinética é expelido como espirais de vapor superaquecido de sua boca e narinas.

Ela se levanta cambaleando. Ela está à beira de um estacionamento, ocupando a pequena mas notável cratera onde pousou.

Então… aparentemente, ela é algum tipo de robô?

Ok.

Isso é ok. Bom, até. Ela está aprendendo coisas novas sobre si mesma. Isso é uma vantagem, certo? Fique concentrada no positivo.

Por exemplo: Há uma mulher baixa cerca de dez jardas à frente, de pé ao lado de um Toyota Scion azul escuro. Ela está olhando para Xiaoshan com o queixo caído em choque, segurando o que provavelmente são as chaves do carro na mão esquerda.

Vê? Transporte. As coisas estão melhorando.

Xiaoshan dá um passo para frente. A mulher é pequena e morena, com a cabeça raspada lisa como vidro — e o rosto cheio de piercings de ferro. Sua pele escura e queimada de sienna contrasta fortemente com o azul pastel brilhante de seu kurta cortado e as calças paijama. Ela não está se mexendo. em vez disso, ela opta por olhar em silêncio.

"Oi. Eu, uh — preciso de seu carro."

Alguma parte de Xiaoshan automaticamente calcula a distância entre elas e começa a formular planos para adquirir aquelas chaves. Cada plano é classificado por sua probabilidade de sucesso. Todos, exceto um, envolvem a aplicação precisa de violência. O que não envolve tem a menor chance de todos.

Alguém grita algo lá de cima. Sirenes da polícia surgem do outro lado do prédio. Xiaoshan fecha os olhos, respira fundo e força a parte de seu cérebro que grita por uma ação rápida e decisiva a calar a porra da boca.

Ela abre os olhos: "Por favor? É meio importante."

A mulher sai de seu transe. Ela olha para o apartamento acima, e então para onde as sirenes estão uivando. Finalmente, ela olha para Xiaoshan — e destranca todas as portas.

"Entre. Eu vou dirigir."

Espera.

Sério?


O 3º Distrito tem um ditado. É um que todo policial — de policiais de transito até o capitão do distrito — eventualmente aprende: 'Passe isso para os meninos no fim do corredor'.

Detetive Jackson Worth ouviu a frase três semanas depois que ele começou como patrulheiro. Ele ainda estava verde, naquela época — cheio de energia e aquele tipo especial de invulnerabilidade que vem com a primeira vez que você segura um distintivo brilhante e sua própria arma. Ele passou turno após turno andando pelas ruas da Filadélfia, claramente ciente do sutil tap, tap, tap da pistola contra sua coxa. A forma dela; o peso da coisa.

Então, uma noite, ele ouviu aquele grito terrível.

Ele avançou em direção ao som. Sua pulsação rugia em seus ouvidos; cada passo que ele dava era um raio, levando-o para mais perto do destino. Quando ele dobrou aquela esquina, sua pistola já estava sacada. Suas palmas não suavam. Suas mãos não tremiam. Ele estava pronto — pronto para qualquer coisa.

Qualquer coisa exceto pelo sangue de uma mulher congelando em temperatura ambiente.

Delicados cristais de escarlate saiam de seus poros, fundindo-se em uma teia intrincada em expansão. Parecia um lindo floco de neve carmesim colocado sob um microscópio — exceto pelo corpo esfarrapado pendurado no centro. Dez minutos depois, o floco de neve evaporou. Tudo o que restava era aquele cadáver destroçado sem sangue.

Ele perguntou ao seu comandante como descrever isso. O velho o puxou de lado, deu-lhe um tapinha nas costas e o disse para 'passar isso para os garotos no fim do corredor'.

Isso significa que às vezes um crime não pode ser resolvido com um distintivo brilhante e uma arma. Às vezes, você só precisa ir embora. Às vezes, você simplesmente deixa isso para os meninos no fim do corredor.

Hoje em dia, Jackson muitas vezes se esquece que ele até carrega uma arma.

Ele não está nem há vinte minutos no caso e ele já percebeu que vai passá-lo adiante. De acordo com a SWAT, o suspeito usou algum tipo de IED na cozinha. Ela então fez um mergulho de cisne para fora da janela do sétimo andar do apartamento. Um dos policiais já havia mandado uma mensagem para ele com uma amostra da marca que ela deixou.

Então ela se levantou, espanou a poeira e entrou em um carro com outra pessoa.

Então, tem a vítima: Travis Wilhelm. 23 anos; um engenheiro branco de classa alta e autoproclamado 'provocateur político'. Cerca de oito ou nove toques com o polegar em suas inúmeras contas de mídia social deram a Jackson uma impressão mais precisa: um saco de merda profissional. Duas horas antes de sua morte, ele estava postando comentários instando seus seguidores a 'exercerem seus direitos da segunda emenda' contra algum jornalista de quem ele não gostava.

Mas essa não é a razão pela qual Jackson pretende deixar isso para os meninos no fim do corredor. A razão para isso é o fato de o Sr. Travis Wilhelm estar — para simplificar — 'ainda vivo'.

É fácil não ver se você não sabe o que procurar. E quem vai olhar? Tem mais de uma dúzia de buracos em seu peito e quase um galão de sangue no chão. O que você vai fazer, verificar o pulso dele? Mas quando um dos policiais tira uma foto, Jackson a pega — assim que a câmera dispara.

As pupilas se contraem.

Jackson pega seu telefone e finge que acabou de receber uma mensagem. "Calma ai, rapazes." Os outros três policiais param o que estão fazendo e se viram para olha-lo.

"Bem, merda. Galera, me dêem um minuto a sós aqui, certo?" Não é protocolo, mas eles o fazem de qualquer maneira. Um por um, os policiais vão para o corredor. Eles podem sentir isso, também. Isso está fora de sua jurisdição. Jackson está apenas dando a eles negação — uma desculpa para sair para que todos possam ir para casa e continuar fingindo que este universo faz algum maldito sentido.

Assim que eles se vão, Jackson se acomoda em uma cadeira e começa a percorrer sua lista de contatos. Ele está caçando o número especial. É aquele para o qual ele deve ligar quando coisas assim acontecem; quando cadáveres se movem e sangue se transforma em gelo.

Ela ainda está passando o dedo quando ele percebe movimento no canto do olho.

Finja que você não vê isso, ele diz a si mesmo. Seu pulso está batendo forte. Puta que pariu. Por que ele tem tantos números nesta coisa? E por que ele não pode passar o dedo mais rápido?

Ele está no meio da lista quando seus olhos disparam para cima. Ele imediatamente se arrepende. De todas as coisas fodidas que ele se preparou para ver, é a ausência de um cadáver que o faz largar o telefone.

"Que pena."

O Detetive Jackson Worth congela. A voz está bem atrás dele. Ele pode sentir sua respiração; fétida e fria, como ondas de gelo rolando pela costa de sua nuca e clavícula. Sua mão se abaixa para pegar a pistola enfiada sob o casaco.

"Parece que eu quebrei este hospedeiro."

Ele se vira, sua pistola já para fora. Suas palmas não suam. Suas mãos não tremem. Ele está pronto — pronto para qualquer coisa.

Qualquer coisa, exceto a medula espinhal de um cadáver se libertando de carne fria e morta, rastejando em direção a ele sobre centenas de pernas finas, delicadas e afiadas.

"Eu suponho que o seu terá que servir."

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