Que Comece a Ponte que Nunca Acaba
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"Acorde, meu filho."

Alguém me ajude.

"Onde estou?"

Eu não consigo me mexer.

"Não tenhais medo meu filho, bem tudo está."

Não consigo respirar.

"Não."

Parem! Estamos aqui ainda!

Uma entidade feita de luz era tudo que eu podia ver. O restante, vazio, nada.


Eu olhei ao meu redor. Para a esquerda, nada. Para a direita, nada. Vazio me cercava. Minha visão estava escura. Eu não podia ver nada além de mim mesmo.

Eu tentei respirar, mas a sensação era de como tentar respirar debaixo da água. A sensação era sufocante, mas ao mesmo tempo eu sentia que não precisava respirar.

Eu tentei gritar, mas nada saiu, ou isso ou então meus ouvidos pararam de funcionar. Então eu olhei para baixo. Eu vi milhões de mãos translucidas abaixo de mim.

Se mexendo, contorcendo, tentando alcançar algo fora de vista. De repente, elas começaram a tentar me pegar.

Das mãos saiu um rosto familiar, minha falecida mãe. Eu vi ela com um sorriso saindo do mar de mãos e braços, eu vi ela estendendo seu braço para mim. Abaixo dela, os rostos de dezenas de outras pessoas que conheci que faleceram ao longo de minha vida.

Eu estava com medo, eu tentei nadar para longe, mas não conseguia.

De repente, eu olhei para cima: um ser feito de luz descia. Estendendo sua mão para mim.

Eu peguei.


Socorro.


Trombetas, sussurros.

Sussurros de uma linguagem anciã há muito esquecida, a linguagem dos deuses. Eu olhei ao meu redor, estava cercado de seres feitos de luz, um deles se destacando com asas cegantes de tão radiantes.

Todos se reverenciaram perante aquele de asas sentado com as pernas cruzadas.

O de pernas cruzadas ofereceu a mão.

Eu aceitei.


Visões preencheram minha mente, meus olhos brilhando como faróis de um carro.

Eu vi a verdade.


O tempo já não importava mais, 1920, 2645, não importava. Todas as eras unidas no presente. Espaço e tempo se reverenciaram perante a entidade de luz e pára ela se dobraram.

Então nós vimos: Nossas mortes de nada valeram. Nosso sacrifício? Esquecido, censurado. Nossos corpos? Em concreto enterrados, sem cerimonia.


Eu me sentava em frente à entidade de luz em uma cadeira. Eu olhei para cima, para os lados, para trás, cópias alternativas de mim mesmo se estendiam por um número infinito de vezes. Realidades alternativas conectadas.

Uma oferta foi feita: Vingança sobre aqueles que de nossas mortes fizeram esquecidas e visão absoluta da verdade. Aquilo que precisávamos fazer? Fazer culto à verdadeira divindade: o Iluminado. A moeda com a qual pagaríamos? As almas dos injustos.

Nós aceitamos.


Correntes se prenderam em meus pés e eu fui puxado para as profundezas de um oceano aparentemente infinito cujo fundo eu não conseguia ver. O oceano apresentava uma água cinza, mas ainda assim dava para ver claramente nas profundezas da água, correntes puxavam todas as minhas versões de realidades alternativas para as profundezas do oceano enquanto outras correntes se disparavam do oceano para pegar alguma coisa.

Haviam peixes de diversos tamanhos, peixes que caberiam dentro da palma da mão, peixes maiores que uma pessoa… e então… aquele…

O Leviatã.

Não sei descrever a criatura, mas parecia uma mistura de dragão com enguia. Toda escamosa, com uma boca de dragão que brilhava na escuridão profunda das profundezas que engoliam o meu corpo.

O Leviatã nadava ao redor das correntes, formando um piso com o seu próprio corpo na ausência do fundo do oceano, com um buraco bem no centro.

Eu não conseguia respirar. Eu não conseguia piscar. Eu não sentia meu corpo.

"Estamos no purgatório?", eu tentava dizer, mas eu não sentia minha boca.

A escuridão me devorou, eu sentia meu corpo que deveria ser inexistente sendo consumido pela escuridão. Mas então… a escuridão me cuspiu, minhas correntes se quebraram. Eu desmaiei.


Passado e presente novamente se tornaram um com o presente e eu eme senti omnipresente por um momento. Eu vi tudo.

A verdade foi revelada pelo Iluminado. Nossa promessa deve ser cumprida.


Sobre a nossa realidade o Iluminado não possui jurisdição longe de suas sagradas escrituras, mas no reino dos mortos ele reina supremo! Nossos irmãos reinam supremo!

Nosso próprio purgatório pelo Iluminado criado para as almas dos injustos punir e purificar.

Nossos irmãos reinam supremo sobre as almas dos mortais injustos! Nossos irmãos reinam supremo! Sim! Todos os injustos devem se curvar perante os Santos do Concreto.

O regime se curvará perante os Santos do Concreto!

Uma ponte eles nos mandaram construir e nossos irmãos a construirão! Uma ponte como nunca antes vista! Porém nossos chefes já não são mais eles, mas ele, e nós já não somos por eles pagos pelo nosso trabalho árduo, não meu camarada. Nós pagaremos a ele com a moeda da alma dos injustos. Os injustos militares se curvarão perante a nós, perante a ele.

Que os injustos se curvem perante a ele. Que os deuses caídos se curvem perante a ele. Cada alma que se curva parente ele é mais um soldado na guerra contra aquele que todo o poder possui e por culturas foi e é adorado e glorificado em suas diferentes formas. Você não compreende? Claro que não! As mentes mortais iriam à loucura se compreendessem o significado disso!

A verdade eu devo dizer, e a verdade somente eu digo: as almas são a moeda dos deuses, as almas são a verdadeira força dos deuses… as almas dos adoradores… são o que fazem dos deuses deuses. Sem as almas dos adoradores, os deuses não passam de meras crenças.

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