ΩK
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2020

12 DE SETEMBRO, 14:02

"Humm… Sra. Michaels?"

"Sim?"

"Creio que o doutor gostaria de, hum, mostrar uma coisa para você."

O pai de Joyce Michaels estava levantado sentado na cama do hospital pela primeira vez em meses. O monitor de batimentos cardíacos ao lado de sua cama emitia um tom constante — ele fora desconectado.

"Quem é você?" perguntou o homem.

Ele finalmente estava acordado, embora talvez não lúcido.

Joyce se voltou para a enfermeira. "O que aconteceu?"

A enfermeira se atrapalhou com suas palavras. "Acabamos de desligar o suporte de vida agorinha — 07:02, isso é, 14:02 GMT. E isso não… nada mudou."

Os pulmões de Joyce queimavam. Seu coração parecia lento. Isso não pode ser real.


07:32, meia hora depois. Joyce estava no saguão do hospital. Os médicos disseram a ela para esperar enquanto eles descobriam o que havia acontecido.

Uma televisão no canto da sala estava sintonizada com o noticiário. Não era só seu pai. Era todo mundo. Na última meia hora, a vida continuava, sem ser interrompida pela morte pela primeira vez desde sempre. Ninguém morrera. Nem mesmo animais.

A câmera estava focada em um garoto que havia esmagado um mosquito no braço. Entre seus restos, o que restava ainda se contorcia, tentando voar para longe.

A apresentadora estava sorrindo. 'Um milagre', ela o chamou. Joyce não conseguia sorrir — a única coisa em sua mente era a quantidade de trabalho que tinha pela frente.


2020 13 DE SETEMBRO

"Ei, Joyce."

Ela rapidamente terminou de digitar sua mensagem e clicou em 'Enviar' antes de erguer os olhos para ver quem havia entrado em seu escritório. Ela sorriu ao ver que era Darryl Lloyd, um pesquisador com quem ela trabalhara anteriormente. "Ei, Darryl. O que traz você aqui?"

"Acabei de ser designado para um novo projeto e queria vir me despedir. O que você está fazendo?"

"Acabei de mandar um e-mail pro Diretor do Sítio pedindo uma transferência, na verdade."

"Posso ver?"

"Claro."

Para: Diretor de Sítio Fletcher

De: Dra. Joyce Michaels

Assunto: Solicitação para pesquisar o Omega-K

Oi Tom,

Gostaria de pedir para fazer parte da equipe pesquisando o Omega-K. Ele não só está na minha área, como também é um assunto muito pessoal para mim.

Trabalhei com as equipes analíticas de SCP-2679 e SCP-3138, ambos exigindo que eu determinasse a causa da morte de cadáveres anômalos. Embora eu esteja mais do que ciente de que o Omega-K não envolverá nenhuma cadáver, sinto que fazer parte da equipe de pesquisa é algo que se encaixa muito bem na minha experiência.

Muito obrigada.

Joyce

"Sem erros de grafia, bacana," Darryl comentou, sua cabeça pairando sobre o ombro de Joyce enquanto ele lia o texto. "Tem certeza de que o conhece bem o suficiente para chamá-lo de 'Tom'? Acho que você deveria ser um pouco mais formal."

Joyce descartou a ideia com um aceno de mão. "Está tudo bem. Nós conversamos… pelo menos três vezes. Eu mandei agora, de qualquer maneira."

Darryl suspirou em exasperação simulada. "Você está atrasada, a propósito. Emily Young já reivindicou o projeto — ele foi numerado SCP-3984."

"Você não poderia ter me dito isso antes?"

"Ei, não é minha culpa que você não pôde esperar para enviar o e-mail."

"Justo. De qualquer maneira, como ela tomou ele tão rápido,?

"Parece que ela reivindicou ele literalmente minutos depois que aconteceu. Não me pergunte como ela conseguiu isso."

Joyce encolheu os ombros. "Acho que ela trabalha rápido. De qualquer forma, como você sabe disso?"

"Estou na equipe de pesquisa dela."

"Ah, qualé, isso não é justo. Você acha que pode me arranjar um lugar?"

Darryl riu suavemente. "Não tenho certeza se posso. Ela estava interessada em ter uma equipe bem pequena."

"Pena." suspirou Joyce. "Olha, eu realmente tenho que ir pra uma reunião em alguns minutos, então não tenho tempo para conversar."

"Sabe…" Darryl começou, sua voz se perdendo.

Joyce ergueu os olhos para ele. Um longo momento se passou. "O que?"

"…é engraçado como é o Arrebatamento, mas meus vizinhos ainda estão cortando a grama como se fosse qualquer outro domingo."

"Arrebatamento? Quem está chamando isso de Arrebatamento?"

"Uh, acho que alguns hippies no noticiário começaram isso para aumentar a conscientização para a população crescente ou algo assim. Espalharam pela internet."

"Certo. Desculpe, qual era o seu ponto?"

"Só acho engraçado como este é um cenário de classe-K e tudo, mas as coisas mundanas do dia-a-dia simplesmente continuam."

Joyce riu gentilmente, apenas o suficiente para dizer a Darryl que ela reconheceu sua piada, mas não achou engraçado. Ele sorriu, bateu os nós dos dedos duas vezes contra a porta do escritório dela e a fechou atrás dele ao sair.

Ela verificou seu e-mail novamente. Duas novas mensagens — uma para seu endereço de trabalho, uma para seu endereço pessoal.

Para: Dra. Joyce Michaels

De: Diretor de Sítio Fletcher

Assunto: RE: Solicitação para pesquisar o Omega-K

Dra. Michaels,

ΩK é um assunto pessoal de todos na Fundação. Ele é um assunto pessoal para todos no mundo, nada menos.

Dito isso, não posso permitir que você pesquise ΩK porque ele já foi reivindicado. Dra. Emily Young assumiu o projeto e escolheu sua própria equipe para ajudá-la — uma equipe mínima, devo acrescentar. Eu sugiro que você passe seu pedido a ela.

Devo mencionar que ela deixou bem claro que o objetivo de pesquisar sobre o ΩK deve ser descobrir seu limite, não sua origem, e estou inclinado a concordar.

Recomendo que você faça algo mais útil com seu tempo. De momento, os insetos deveriam ser um problema grande, talvez você possa descobrir por que eles não estão sendo.

Espero que você esteja bem,

Diretor de Sítio Thomas Fletcher

Para: joycemichaels79@gmail.com

De: administracao@newstarthospital.org

Assunto: Em relação à alta por vir

Cara Joyce,

Devido às restrições orçamentárias e ao aumento do número de membros do hospital, o New Start Hospital lamenta informar que seu parente, George Michaels, terá alta do hospital no dia 15.

Como Sr. Michaels já não se encontra em estado terminal, confiamos que esta notícia será apenas uma pequena inconveniencia.

Certifique-se de informar um de nossos funcionários se precisar de ajuda para transportar o Sr. Michaels para sua casa.

Respeitosamente,

New Start Hospital



2022 17 DE ABRIL

Um espeleotema longo e fino de saliva escorria suavemente da boca do pai dela. Joyce pegou um pedaço de lenço de papel e o enxugou com cuidado. Os olhos dele, vendo, mas provavelmente não entendendo, estavam fixos na tela da televisão.

A televisão mostrava, em silêncio, a posse de Jonathan Narsimmes como presidente dos Estados Unidos. A eleição fora uma vitória esmagadora. O manifesto de Narsimmes não era nem de esquerda nem de direita — ele simplesmente tinha uma solução, que era o que todos queriam ouvir.

Três batidas bruscas na porta da frente acordaram Joyce de seu devaneio mental. Seus olhos vagavam vagamente da televisão — que estava ligada, mas sem som — para a porta. Ela se levantou e foi até a fonte do barulho. Ela deu uma rápida olhada pelo olho mágico e viu alguém que reconhecia vagamente de anos atrás, um rosto que ela mal conseguia se lembrar e certamente não conhecia por nome.

Ela abriu a porta e la estava alguém vestido com o uniforme verde da South Cheyenne Point, uma casa de repouso a algumas horas de carro. Era onde Tony, irmão de Joyce, trabalhava — se você acreditasse no que a Fundação dizia às pessoas que não precisavam saber de mais. Joyce sabia a verdade, é claro, mas o jovem de vinte e poucos anos que estava parado na porta claramente tinha um roteiro para entregar.

"Eu realmente sinto muito, Srta. Michaels." começou ele. "E-eu odeio ter que ser aquele a te dizer, mas Anthony está morto. Ele faleceu pacificamente—"

"Quantos anos tem esse roteiro, garoto?" perguntou Joyce, olhos cansados fixos nele. "Ninguém morre há um ano e meio."

Ele gaguejou, atrapalhando-se em suas palavras. Ele não tinha um plano alternativo. "Não tenho que fazer isso há um bom tempo, desculpe, senhora."

"Você é da Fundação, certo? Não um civil?"

"Sim, senhora."

"Você sabe que eu também sou da Fundação?"

"N-não, senhora. Mas eu sei agora."

"Então você deveria saber que eu sei que meu irmão está morto há um bom tempo."

"Eu realmente sinto muito, senhora," o garoto murmurou. Ele estava dando o melhor de si. "Acho que isso é melhor do que descobrir agora?"

Um rápido olhar furioso o silenciou. "Não é."

"Sinto muito. Qu-quando ele morreu, se você não se importa que eu pergunte?"

"Dez dias antes de tudo ir à merda. Dez malditos dias. Se ele tivesse tirado férias ou algo assim, ele estaria vivo hoje."

"Sinto muito pela sua perda."

"Sabe," continuou Joyce — agora que ela tinha começado a falar, ela não conseguiria parar. "Me foi dito que ele era um bom homem. Um grande agente. Um dos melhores. Me disseram que ele salvou inúmeras vidas, mas nunca me disseram como."

Joyce deu um passo para o lado, deixando o garoto olhar para dentro da sala, deixando-o ver a televisão silenciosa e o homem idoso sentado em frente a ela, assistindo atentamente, provavelmente nem mesmo ciente de que não conseguia ouvir nada.

"Esse é o meu pai," continuava ela. "Eu cuido dele hoje em dia. Ele deveria estar morto. Hospitalizado há meses — ele ia morrer naquele mesmo dia, sabe. Ele manteve sua vida, assim como todo mundo, mas sua memória se foi há muito tempo."

Lágrimas começavam a se formar lentamente em seus olhos. Enquanto ela piscava rapidamente para forçá-las a recuar, ela estava grata por estar de costas para o garoto, por ele não ter visto.

Ela se voltou para ele. "Um sobreviveu, mas perdeu a cabeça. O outro morreu. Deveria ter sido o contrário, mas a vida não funciona do jeito que você quer, hein? Então, como meu irmão morreu de novo?"

O garoto gaguejava. Ele não tinha uma resposta para isso. Era para isso ser uma visita rápida. "Sinto muito, senhora. Deve ter sido um engano. Eu vou… eu vou… cê sabe, talvez possamos fazer algo a respeito do seu pai. Cuidar dele para você. Desse jeito você-você pode até voltar pra Fundação, ter um pouco mais de tempo nas mãos."

"Vou pensar sobre isso," disse Joyce, e então ela gentilmente fechou a porta sobre o rosto do garoto. Ela se sentou ao lado de seu pai. Ele perguntou quem era o menino, mas ela não respondeu. Ele não se lembraria de ter perguntado quando ela terminasse de falar.



2025 31 DE DEZEMBRO

Joyce se sentou em sua mesa, compilando o relatório que haviam pedido que ela fizesse. Uma lista de anomalias, tanto em contenção quanto não, e quaisquer mudanças que ocorreram nelas como resultado de ΩK.

Ela olhava para a lista, seus cinco registros mais recentes — os que ela terminara hoje — olhando de volta.

SCP Comportamento Pós-ΩK Classificação Pós-ΩK
SCP-1440 SCP-1440 entrou em um município próximo e permaneceu lá por uma semana sem causar um desastre anomalamente formado. A Fundação capturou SCP-1440 para contenção em um sítio próximo. Euclídeo, pendente de nova reclassficação como Neutralizado
SCP-2935 A Fundação não é mais capaz de acessar SCP-2935; sua entrada agora leva a um sistema de túneis não anômalo. Neutralizado
SCP-2718 Bug de sistema que tornava registro inacessível desapareceu. Possivelmente não relacionado. Transferido
Anomalia Desconfidencializada A315 A315 não exibe mais propriedades anômalas. Neutralizado
SCP-2339 Número da população continuou a aumentar para milhões. Agora capaz de simular mais de 20 sinfonias simultaneamente. Euclídeo

Três batidas bruscas na porta do escritório desviaram sua atenção de seu trabalho.

"Entre," chamou ela.

A porta se abriu e Darryl Lloyd irrompeu para dentro. Ele parecia um pouco desgrenhado, seu cabelo não estava bem no lugar, um pouco vermelho nas bochechas.

"Joyce," começou ele, um pouco sem fôlego, "Young acabou de tentar se matar. Eu sei que você já trabalhou com ela antes, eu… eu só queria que você soubesse."

"Emily Young?"

"Emily, sim."

Joyce fechou o documento em que estava trabalhando e levantou a mão para coçar preguiçosamente a lateral do pescoço.

"Vocês dois não estavam trabalhando com 3984 diretamente?" perguntou ela.

"Estávamos. Você acharia que ela, de todas as pessoas, saberia as consequências."

"Qual é a condição atual dela?"

"Cheguei aqui assim que pude. Ela está sendo levada para a ala médica agora. Se eu tivesse que dar um prognóstico, eu diria pelo menos dano cerebral."

"Quão ruim?"

"Ruim."

Joyce pressionou as duas mãos no rosto e soltou um gemido longo e silencioso. Se Darryl ouviu, ele não comentou.

"Sinto muito, Joyce," começou ele, "vocês duas eram próximas?"

Joyce baixou as mãos do rosto. Ela respirou fundo e exalou lentamente.

"Não. Mas meu irmão trabalhava com ela."

Darryl balançou a cabeça. Ele entendeu.

"Você pode avisar alguém que vou assumir o 3984?"

"Tem certeza?"

"Sim, tenho certeza. Eu queria originalmente, se lembra? Vou escrever o relatório pós-incidente e tudo, só deixe ele pra mim. Mas quero ver Emily primeiro."

Darryl sacudiu a cabeça com simpatia. "Claro, vou te levar lá agora."



2030 3 DE OUTUBRO

"Oi, esta é a casa de uma Srta. Joyce Michaels?"

A mulher na porta tinha o cabelo tingido de roxo profundo, feito em cachos que saltavam sobre seus ombros. Seu sorriso, pintado de vermelho brilhante, era grande e parecia genuíno.

"Sim, sou eu."

"Prazer em conhecê-la! Meu nome é Emma Preston, estou trabalhando com a Secretaria do Censo Populacional e estou aqui para fazer algumas perguntas. Você teria quinze minutos sobrando?

"Ah, ouvi falar de vocês. Vocês não acharam algo estranho acontecendo na Flórida, ou algo assim?"

A mulher encolheu os ombros, um sorriso irônico no rosto. "Sinto muito, eu não saberia sobre isso. Eu só faço as perguntas. Você se importa se eu entrar?"

Sem nenhuma desculpa disponível, Joyce acenou para que ela entrasse. Preston fez uma reverência e entrou na sala. As duas se sentaram em cada extremidade do sofá longo.

"Você é Joyce Michaels?"

"Sou."

"Posso saber sua idade e sexo?"

"Tenho cinquenta e um. Sou mulher, mas espero que você já saiba disso."

Preston riu suavemente. "Ei, eu não sou de julgar."

Ela passou outro momento escrevendo em seu bloco de notas antes de voltar a olhar para Joyce.

"Posso perguntar se você tem algum parente vivo?"

"Uh, sim." Joyce tomou um momento para pensar e viu que Preston já estava escrevendo, embora ela não tivesse dito nada ainda. "Meu pai, George, tem oitenta e três anos, ele mora em uma instalação de moradia assistida. Meu irmão, Eric, tem quarenta e oito, embora eu não saiba onde ele esteja morando no momento."

"Você visitou seu pai recentemente?"

"Eu— uh, isso é um pouco pessoal? Não, recentemente não."

Preston ergueu os olhos de seu bloco de notas. "Sinto muito. São todos?"

"É todo mundo."

"Obrigada, Joyce. Posso perguntar se você está esperando um filho, ou se conhece alguém que esteja?"

"Não estou, e não conheço. Tenho certeza de que não temos permissão para isso, hoje em dia?"

Preston balançou a cabeça. "Você tem, mas apenas se a gravidez for registrada, o que você tem que declarar com algumas semanas de antecedência. E então eles podem negá-la — pessoalmente, acho que isso é horrível, mas é a lei. Desculpe por perguntar — afinal, é para isso que é o Censo."

Claro que é. "Sem problema. Culpe Narsimmes."

"Claro. Posso perguntar se houve alguma mudança no estilo de vida que você teve desde o Arrebatamento?"

"O Arrebatamento? Ah, você quer dizer o omega-ka."

Preston inclinou a cabeça para o lado levemente, seu cabelo balançando para combinar. "Quero dizer, desde que as pessoas pararam de morrer."

"Sim, isso. Uh… Acho que não muito, na verdade. Que tipo de informação você está procurando?"

Preston sorriu. "Tanto quanto você quiser compartilhar. Por exemplo, seus arranjos de vida mudaram?"

"Sim, claro. Larguei meu emprego alguns anos atrás para cuidar do meu pai, que teria, de outra forma, você sabe. Eventualmente ele foi transferido para moradia assistida e recebi meu antigo emprego de volta. Ainda trabalho lá. Huh, acho que meus arranjos não mudaram em nada."

"Onde você trabalha, por interesse?"

"No momento, apenas administração geral da Fundação. Costumava ter uma função mais prática, mas se tornou demais. Deixei o posto alguns meses atrás."

"Fundação?"

"Você sabe, a, uh…"

Ocorreu a Joyce que Emma Preston talvez não soubesse o que era a Fundação, apesar de ser empregada por uma de suas fachadas. Joyce estava conversando com um civil o tempo todo.

"…a, uh, Fundação Caridosa Manna. Nós somos… uma caridade."

"Claro, minhas desculpas! Você diria que o trabalho de sua organização mudou muito desde o Arrebatamento?"

"Ele…"

Joyce nunca havia trabalhado com a Fundação Caridosa Manna e não fazia ideia do que eles realmente faziam. Ela decidiu improvisar.

"…ele ficou bem mais difícil. Cuidar dos sem-teto já é difícil o suficiente e, nos últimos anos, muito mais pessoas tem sido forçadas a viver essa vida. Temos feito o nosso melhor para cuidar de tantos quanto podemos, e vamos continuar fazendo isso, mas… é difícil, sabe? Todos os dias quando eu vou para o trabalho sinto o peso dessas pessoas que dependem de mim, que dependem de nós. E eu sinto que este é o meu lugar no mundo, é aqui onde pertenço. Só estou grata que tantas pessoas ainda estejam felizes em doar seu dinheiro para nós, para nos ajudar no que puderem."

Enquanto ela falava, sua besteira era pontuada pelas expressões perfeitamente sincronizadas de simpatia e aprovação de Preston. Joyce suspirou. Ela teria que fazer um telefonema para que seu registro no censo fosse expurgado.

"Você mencionou que costumava ter um papel mais prático?"

"Na cozinha pública. Queimei as mãos, então não trabalho mais lá."

Preston balançou a cabeça solenemente e começou a se levantar. "Bem, obrigada pelo seu tempo, Srta. Michaels, eu tenho mais do que o suficiente para trabalhar, e muitas outras pessoas para ver hoje!"

"Sem problema. Tenha uma boa tarde, Sra. Preston."

"Você também, Srta. Michaels. Certifique-se de visitar seu pai logo."



2033 1º DE JANEIRO

"Ei, pai."

"Olá, nós nos conhecemos?"

Era a mesma conversa sempre que eles se viam. Todas as vezes, era uma tortura. De certa forma, porém, isso era uma bênção — se passara mais de um ano desde que Joyce havia visitado seu pai, e sua culpa era suprimida por saber que ele nem mesmo se lembrava de quem ela era.

"Eu tenho um presente de Ano Novo pra você."

Ela estendeu uma pequena caixa — uma que já conteve uma aliança de casamento. A mesma caixa que ele deu à mãe de Joyce tantos anos atrás. Ela a encontrara, por puro acaso, alguns meses atrás. Ela estava torcendo para que ele se lembrasse dela, que sentir sua capa de veludo azul traria algo de volta. O melhor que ela podia esperar era uma lágrima afetuosa em seus olhos.

Seu pai pode nem se lembrar do que é Ano Novo, mas ele sabia o que era um presente. Ele pegou a caixa lentamente. Suas mãos, fracas e cobertas de veias escuras, tremiam suavemente enquanto ele lutava para abri-la.

Joyce estendeu a mão e abriu para ele. A caixa lentamente foi aberta, sua mola interna tentando se manter fechada, até que se abriu com um clique abafado.

Dentro havia uma única pílula.

"O que é isso?" ele latiu, sua voz rouca e áspera.

"É… um remédio," disse ela, "ele vai fazer a dor passar."

"Não estou com dor."

Eu estou. "Ela vai te fazer parar de esquecer as coisas."

"Eu não me esqueci de nada."

"Pai, você nem sabe quem eu sou."

"Claro que sei," disse ele, e pela primeira vez desde que Joyce chegara, ele ergueu os olhos e fez contato visual com ela.

Joyce havia se esquecido de como era isso. O olhar de seu pai, forte e inteligente, penetrando nela. Ele sorriu, não com a boca, mas com as rugas amigáveis ao redor dos olhos. Tudo veio à tona, todas as memórias preciosas que ela escondera e trancara; como ele a ensinou a cozinhar, todas aquelas longas viagens de bicicleta, as conversas que eles tiveram juntos. Parecia que seu pai estava de volta e, por um momento, ela se atreveu a ter a esperança de que ele finalmente se lembrasse de sua filha.

"Você é minha enfermeira," terminou ele.

É claro. Seu pai havia morrido há muito tempo.

Joyce olhou para a pílula na caixa do anel. Ela estava colocando seu trabalho em risco para trazer um pouco de paz ao pai dela.

Talvez se ele entendesse exatamente o que era isso, como tinha sido difícil para Joyce obtê-la.

"Sabe, Pai," começou ela, "essa pílula foi muito difícil de encontrar. Ela é feita por uma companhia chamada Marshall, Carter e Dark, e eles chamam essa pequena pílula de 'Hipnotralina'. Ela é bem cara." Muito, muito mais caro do que eu jamais poderia esperar pagar.

Ela se aproximou um pouco mais, os olhos de seu pai observando atentamente, "Na verdade eu roubei ela. Nós — a Fundação, é onde eu trabalho — interceptamos um carregamento de centenas dessas pílulas e, por pura sorte, consegui roubar uma só para você."

Ela moveu a mão de seu pai sobre a pílula, fazendo questão de não tocá-la ela mesma, só para garantir. "É muito importante que você… eu quero que você tome isso, Pai. É para o seu próprio bem."

Ela não disse a ele que a pílula era o resultado de uma colaboração entre a MC&D e os Laboratórios Prometheus, pelo que a Fundação sabia, e as duas corporações haviam trocado como e quando fosse lucrativo para ambas. Não havia como saber o que os Laboratórios Prometheus tinham obtido com o negócio, já que apenas a MC&D tinha um produto para mostrar.

Talvez se seu pai soubesse de tudo isso, ele tomasse a pílula. Talvez, se ele soubesse que era uma pílula para dormir que te coloca em um sono tão profundo que você jamais acordaria, então ele a tomasse.

Ele não tomou, e Joyce não era um monstro.



2044 21 DE FEVEREIRO

Você está velho. Você está doente. Talvez você esteja simplesmente cansado.

Cansado da vida. Mas todos nós sabemos que não há fim à vista.

Mas quem precisa de um fim, quando podemos ter um novo começo?

Por que ser você, quando você pode ser novo?

Laboratórios Prometheus. Faça a mudança, hoje.

O anúncio terminara dez minutos atrás, mas sua mensagem ainda ecoava na mente de Joyce. Os Laboratórios Prometheus estavam literalmente oferecendo a capacidade de trocar todo o seu corpo por outro — e, de alguma forma, nem uma única pessoa na Fundação ficou sabendo disso antes do anúncio oficial. 110-Montauk provara ser uma bela distração.

Joyce foi encarregada de escrever o relatório sobre o que a Prometheus estava fazendo e como eles conseguiram escapar do radar por tanto tempo. Seu trabalho era lento, no entanto — não só haviam informações muito limitadas para pesquisar (a maioria das quais vinha diretamente do anúncio da Prometheus), como também ela estava preocupada que fosse tarde demais — que, até que eles tivessem qualquer coisa parecida com um plano para se opor à empresa, pessoas já estariam se aglomerando para fazer a cirurgia.

Em pouco tempo, os noticiários podem até mesmo revelar que a cirurgia realmente funcionou e, a essa altura, já estaria fora das mãos da Fundação.

Três batidas bruscas na porta do escritório desviaram sua atenção.

"Entre," chamou ela.

A porta se abriu e Ardal Rogers, capitão de uma das equipes de segurança do Sítio — Joyce não conseguia se lembrar qual exatamente — entrou parcialmente na sala.

"Dra. Michaels. Desculpe incomodá-la, mas um interrogado está solicitando sua presença."

"Um interrogado?"

"Sim, senhora. Encontramos ela tentando acessar um documento confidencial — o arquivo de 3984, na verdade."

"Não toco nele há anos. Ninguém toca. Por que ela iria querer ele?"

"Não sabemos, senhora. Esperamos que ela seja um pouco mais aberta se puder falar com você."

Joyce balançou a cabeça. "Muito bem. Leve-me até ela."


Ela não estava sendo mantida na imundice, com cada pulso amarrado a uma parede e sangue escorrendo de sua boca por ter sido espancada por guardas. Em vez disso, ela estava sentada em uma cadeira de madeira, algemada a um anel de metal no lado esquerdo de uma mesa. Ela parecia bastante saudável, se você ignorasse as cicatrizes ao redor de seu pescoço e a mancha vermelha em sua camisa.

Sua cabeça estava ligeiramente inclinada, mas ela mantinha estrito contato visual enquanto Joyce entrava na câmara de interrogatório. Ela se sentou no lado oposto da mesa. Nenhuma das duas disse uma palavra por um longo momento.

Ela sorriu, seus olhos bem abertos e vazios. "Você está parecendo velha."

"Me disseram que você tentou acessar a documentação de SCP-3984."

"Eu tentei."

"E que você especificamente solicitou minha presença."

"Eu solicitei."

"Por que?"

A mulher se inclinou um pouco para a frente. "Você se lembra de mim?"

"Não."

"Já faz bastante tempo. Dezesseis anos?"

"Você tem mais de dezesseis anos. Poderia acreditar que você tem cinquenta."

"Dezesseis anos desde que vocês costuraram minha cabeça de volta em meu corpo."

Tudo voltou. 3984, cada Classe-D que Young pôs as mãos, os destinos que cairam sobre eles. Eles ainda estavam vivos. Uma havia voltado.

"Ela te decapitou."

Seu sorriso ficou mais amplo. "Você lembra de mim."

"Sinto muito." Começou Joyce. As palavras voltaram para ela, palavras que ela estava planejando dizer a ela, mas nunca teve a chance. "Sinto muito que você teve que passar por aquilo. Oito anos em um freezer—Eu, eu—"

Ela balançava a cabeça, mas rápido demais — era mais como um tique nervoso. "Isso muda você. Mas você sobrevive."

"D-11424. Essa era a sua designação. Qual era o seu nome?"

Um olhar de confusão passou pelo rosto dela, como se ela não soubesse a palavra, ou talvez a resposta, mas ele sumiu em um instante. "Não importa."

"Por quer você queria falar comigo em específico?"

"Young estava tentando esconder algo. Eu sabia, eu sei, eu encontrei a evidência."

Claro que ela estava tentando esconder algo. Ela matou punhados de Classes-D, pessoas vivas de verdade que tiveram que aguentar a tortura que ela infligiu e carregá-la com eles para sempre. "Se você leu o arquivo, você sabe tão bem quanto eu que ela tentou—"

"Você sabe o que é o Projeto Dammerung, doutora?"

"O que?"

"Projeto Dammerung. Isso te lembra de algo?"

Joyce pensou por um momento. A palavra a lembrava de algo, embora ela não conseguisse de lembrar de onde. "Não reconheço o nome."

"Ele existiu. Eu sei disso. Havia um link, um link para ele em SCP-3984. Uma referência. Mas não consegui vê-lo."

"Eu fui a pesquisadora-chefe do 3984 por anos, eu saberia se houvesse algo assim lá."

"É claro que você não seria capaz de vê-lo. Ele estava enterrado! Escondido, bem abaixo. Acesso de nível 5 apenas. Young, Young o colocou lá."

Ela falava muito rápido, cuspe se formando ao redor de sua boca. Ela estendeu a mão direita livre para enxugá-lo.

Joyce sabia que ela poderia estar certa. Se existisse esse link, era muito possível que pudesse ter sido escondido dela.

Joyce se voltou para a porta. "Acho que terminamos aqui."

"Não, não!" gritou ela, esticando-se para frente com a mão livre, olhos em pânico olhando para Joyce. "Me diga então, doutora, diga-me por que a pesquisa sobre o omega-ka foi proibida."

"Por que não adianta." Mas não havia sentido em nenhum dos testes que fizemos pelo 3984. A voz de um guarda ecoou pela porta, latindo alguma ordem.

"Me prometa que você vai dar uma olhada nisso."

"Não." Eu vou.

A porta se abriu e Joyce foi empurrada para o lado. Um guarda pegou a velha D-11424 e a forçou a se sentar. Outro agarrou Joyce, com mais cuidado, e a conduziu para fora da câmara. A porta se fechou atrás dela com um estrondo metálico.

Ardal Rogers colocou a mão no ombro de Joyce. "Lamento que você tenha passado por isso, senhora. Esqueça o que ela disse. Cuidaremos dela."

"Sem problema," respondeu Joyce, mas sua voz estava distante. D-11424 pode estar certa.

Antes que ela pudesse investigar isso, no entanto, ela tinha um relatório sobre os Laboratórios Prometheus para terminar.

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