O Memorando Perdido

Estive relutante em escrever sobre este acontecido. Não tenho muito tempo como pesquisador na Fundação, não sei como vão reagir a isso. É difícil até mesmo de saber pra onde mandar essas coisas, tudo é restrito e confidencial até mesmo pra quem faz parte. Mas manterei alguma formalidade e deixarei isto em algum lugar, espero que alguém competente veja este arquivo e tome alguma providência.

Relatório destinado a conselho superior.
Assunto: Quebra de segurança no Sítio PT7, encaminhando em anexo formulário para abertura de investigação do setor de inteligência.

Ao competente designado,
Conforme registro em SCP-043-PT, uma quebra no protocolo de segurança ocorreu e a filha de um pesquisador esteve em contato com o objeto durante 22 minutos. Durante o acontecimento, eu estava na cafeteria me preparando para ser transferido para outro setor de pesquisa. Na verdade, boatos internos me alertaram que nenhum cientista é simpatizante com o Sítio PT7. Alegam que há muitos funcionários portando armas de fogo, fazendo treinamento aos gritos, todo tipo de atividade que prejudica o funcionamento do raciocínio derivado do silêncio absoluto. Não tenho nada a reclamar, porém admito que o pessoal armado possui uma aura muito intimidadora, falhei diversas vezes em me comunicar com eles.
Passando pelo corredor “H”, indo para a área de transporte, eu me deparei com uma mulher muito bonita, com um longo vestido roxo. Ela me pareceu um pouco surpresa, por que apesar de não ter conseguido ver seu rosto devido a um véu, seus passos denunciaram uma breve hesitação súbita.
Assim como uma brisa fria e silenciosa, a estranha senhorita passou ao meu lado, e após sua breve relutância, continuou o seu caminho. Segui então conforme o plano original, para a área de transporte.
De acordo com a escala, SCP-043-PT seria transportado junto com seus objetos anexados em seu protocolo de contenção, do Sítio PT7 para o lugar pelo qual estava designado. O objeto teria dado entrada na Fundação apenas a uma semana, e ainda não havia sido catalogado no banco de dados da Fundação, pois pouco se sabia sobre o mesmo. Talvez soubessem mas a informação ainda não estava no banco de dados de meu acesso, não sei ao certo. Ser ignorante parece fazer parte de se trabalhar na Fundação.
Foi então que um grupo armado de seguranças e agentes da inteligência e reconhecimento passaram correndo em marcha veloz. A princípio pensei que era apenas um exercício rotineiro, essa cena é comum por aqui, mas os breves momentos subsequentes me espantaram. Fui impedido de entrar na sala do transporte por um oficial, que pediu minha colaboração pois teria ocorrido um risco de contenção. Muitas vezes vemos filmes de terror, com experiências de laboratório escapando e damos risada de toda aquela ficção. Mas viver sobre o risco de estar participando de uma, não é nada engraçado.
Logo dois soldados apareceram segurando os braços de uma pequena garotinha. Para meu espanto, um cara de traje a rigor veio em minha direção perguntar se eu conhecia a tal garotinha. Nunca a tinha visto antes, assim como aquela mulher de vestido roxo.
Quando me lembrei da mulher de vestido roxo, deixei meu rosto denunciar o segredo. Estes caras que trabalham na Fundação são profissionais de elite, pois meu sinal foi facilmente detectado pelo homem que dialogava comigo apesar do meu silêncio. Este fez um sinal com as mãos e logo dois gigantes de colete vieram a minha direção.
Rapidamente, me livrei da possível ameaça, contando tudo que tinha me acontecido da cafeteria para o encontro com a pequena garotinha em custódia da segurança, então fui convidado a me dirigir a sala de vigilância, junto com uma escolta de dar inveja a um presidente.
Lá dentro, passaram por diversas fitas, pedindo para que eu reconhecesse a “mulher de roxo”. Eu estava desesperado. Estaria eles tentando confirmar a minha história para saber se era mentira ou verdade? O que me aguardava nestes corredores escuros da Fundação? Torcia muito para que eles descobrissem algo que desse credibilidade a minha história.
Foi então que alguém la em cima gosta de mim e durante as análises, no registro das nove da manhâ, horário em que ainda estava na cafeteria, um pesquisador aparece com sua filha no saguão de acesso aos civis e pede educadamente que a mesma permaneça sentada em um banco, enquanto o pai se dirigia aos setores privados e restritos da corporação. Na gravação, o áudio estava ruim, mas deu pra entender que ele havia esquecido alguma coisa importante e teria voltado pra buscar. Sua filha estava com uma bolsa escolar, talvez ele tivesse buscado ela na escola, mas voltado a Fundação para pegar algo, não da pra dizer com precisão.
Após 13 minutos, seu pai não retornara. A menina estava impaciente e então alguém chegou próximo a ela quando ela começou a andar em direção a uma porta trancada. A câmera não conseguiu registrar nada além de um grande par de botas, que eu tinha certeza de tê-las vistas em algum lugar, mas no momento lembrara onde. Mas desta vez, consegui ocultar minha expressão facial ante a descoberta. Aprendizado de minutos atrás.
O áudio gravado segue em anexo:

Par de Botas: Ora, ora… o que temos aqui… uma princesinha fora do castelo…
A pessoa do par de botas se abaixa para fazer algum tipo de gracinhas com a criança, e a câmera dá um bom foco no restante de seu corpo. Era a minha senhorita de vestido roxo. Estava curioso com toda aquela situação, então decidi apenas responder se me fosse perguntado. Ninguém parecia se importar em confirmar comigo a identidade da suspeita, então fiquei calado observando com os demais.
Mulher de roxo: Onde está seu pai docinho?
Garotinha: Papai foi buscar as chaves. Papai trabalha junto com esses homens com cara feia.
Mulher de roxo: hihihi Eu estou encantada! E certamente essa chave é importante não é?
Garotinha: Sim!
Mulher de roxo: Escute, eu acho que seu pai deve estar com muita pressa, senão ele teria te levado junto e deixado você brincando junto com as outras crianças…
Garotinha: Tem outras crianças la dentro?
Mulher em roxo: Claro que sim! E muitos computadores para se usar e jogar os melhores joguinhos! Trouxe até um comigo, mas não tem computadores aqui pra usar, então eu fiquei tipo supeeeer triste!
A garotinha olhou para a porta trancada pela qual caminhou momentos antes, com uma expressão mesclada entre desapontada e preocupada. Talvez estivesse ansiosa em saber quando o pai retornaria, ou se teria tempo pra fazer alguma arte de criança.
Mulher em roxo: Escute, eu tive uma ideia! Eu trabalho aqui e posso te levar em um lugar que tem um computador beeeeem legal, mas infelizmente ainda não tenho acesso as “crianças”. Você quer ir lá?
Garotinha: Mas o meu pai…
Mulher de roxo: hihihi, eu aviso ele pra te pegar lá. Daí não tem problema.
Garotinha: Ah, então está bem.
A mulher e a garotinha se dirigiram até a porta, então a senhorita puxa algo dentro do lado interno de sua bota e passa o objeto quadrilátero no leitor de cartões na parede e a porta se abre. Seguem por um corredor enquanto a mulher divide sua atenção em responder alguém e se comunicar com a garotinha. Em alguns momentos ela tocava sua própria orelha com o dedo indicador, como se tivesse alguma espécie de comunicador e estivesse recebendo instruções. Incrivelmente, elas tomaram um caminho por onde evitaram praticamente toda guarda que estava em ronda, o que me espantou. Imaginar que até mesmo a Fundação tenha algum ponto cego nas rondas de sua segurança. Mas evitar os sistemas de segurança como câmeras e detectores é impossível. A não ser que você não seja sólido, invisível e frio o suficiente para não ser detectado pelos sensores de temperatura. Mas nem a mulher e nem a garotinha pareciam se importar em serem alvos dos sistemas automáticos.

Quando chegaram até uma grande sala com um televisor coberto por um pano. Ao lado dele estava uma caixa com o símbolo da fundação aberta e vazia, provavelmente estava sendo preparado para transporte. A mulher empurrou a televisão para longe da parede onde estava, e deu a menina uma mídia em DVD para que ela pudesse instalar em um terminal próximo de onde o televisor estava e desfrutar de seu joguinho. Então a mulher se despede da menina, dizendo que iria trabalhar, e seguiu para a área ████████, onde nem mesmo eu tenho acesso livre, mas já estive no local algumas vezes.
La onde estava observando as gravações da segurança, os agentes que testemunharam estes acontecimentos estavam em profunda concentração. Tanto que nem me notaram copiar os dados dos registros em meu pendrive básico que a fundação me fornecera para registrar pequenas coisas. Qualquer coisa de ruim que poderia me acontecer, teria provas prontas para dar base as minhas alegações de não-envolvimento com nada do que aconteceu.
Considero-me sortudo. Apesar dos pesares, passei por 12 horas de interrogatório e fui liberado. Mas infelizmente não posso dizer o mesmo do pesquisador e sua filha, que ficaram por lá depois que sai.
Alguns dias depois, solicitei acesso as gravações das câmeras da instalação, em busca de mais informações sobre o ocorrido. Curiosamente, meu acesso foi concedido sem nenhuma dificuldade, mas superando a peculiaridade deste fato, não encontrei nenhum registro ou gravação da mulher de roxo. Nem mesmo as gravações que tinha salvo no meu pendrive, nada constava gravado no banco de dados da Fundação. Apenas o registro da garotinha chegando sozinha a sala com o computador, onde instalou seu software e passou o que pode ter sido seus últimos 22 minutos de felicidade da vida, jogando seu The Sims.
Tomei a liberdade de puxar o log de movimento de dados, e mais uma vez o improvável e espantoso entrou em cena; Não havia registros da minha gravação no pendrive. È como se eu nunca tivesse feito tal operação.
Com o que estamos lidando aqui? O fato de alguém ter “coberto” meus rastros foi pura sorte ou coincidência?
Os registros de meu pendrive estão intactos, e a mulher de roxo está lá, junto a garotinha…

Adendo adicionado: Enviei este relatório para a central da Fundação, com meu pendrive embalado, sem destinatário por não ter a certeza de quem deveria ler. Fiz porque acabei cedendo a pressão psicológica de ter em mãos um material que talvez não deveria ter.
Acabei de perceber que deram entrada na ficha de SCP-043-PT no arquivo da Fundação. O acontecido foi citado mas sem muitos detalhes.
De acordo com minhas anotações, enviei o pacote faz 72 horas, mas nenhuma reação ou resposta foi fornecida a mim. Me pergunto se tudo chegou em segurança a sede da Fundação.

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