Os Caça-Amálgamas
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“Desta vez, o preço será alto.” — Dizia-me lépido o Chefe de Negociações, com semblante impregnado de curiosidade que saltava-lhe da face e fazia-me crer que estava em regozijo por receber proposta daquelas; cutucava repetidamente a mesinha de madeira, fazendo piruetas e acrobacias com os cândidos dedos.

“Pegarás um peixe graúdo?” — Perguntei-o, interessado igualmente pelo serviço que o estava a consumir como chama ardente.

“Heh. Se me ajudares, divido o dinheiro.”

“80% para mim e 20% para ti?” — Perguntei-o em tom de sarcasmo, arregalando as órbitas.

“Nem por cima de meu cadáver virás com estas aldrabices. O dinheiro será igual para nós.”

Folheando os amachucados papelinhos, lendo habilmente as palavras que lhe apareciam, o doentio sorriso de sua boca apenas aumentava. Considerava aquilo desafio árduo, e mesmo armando-se de esperto, não se esqueceu de suspirar quando chegou ao final do corpo de texto. Soltou uma gargalhada que deixou-me incrédulo, porém decidi seguir-lhe na empreitada.

Colocando de volta os clipes, massageou as têmporas e encarou-me com seu olhar enigmático, que escondia segredos mil. Quando tratava-se de negócios, era cauteloso como guindaste para acatá-los; ou seja, nem um poquito.

“Que a sorte esteja de nosso lado.”

Dirigimo-nos sagazes a um dos automóveis mais próximos; possuía tintura escura e assemelhava-se a um jipe antigo.

Carregava meu compadre equipamentos e tecnologias de neutralização, optando por segurar-lhes de modos diferentes quando cansava-se por conta do peso. Reclamava, mexendo impaciente a bagagem, constantemente movendo as órbitas.

Já eu estava a levar maletas com diversos arquivos que ajudariam a captura da anomalia. Propalar o limite do lucro e capturar objetos para clientes com gostos peculiares tornou-se meu preferido passatempo. Os débeis obstáculos presentes no caminho faziam-me liberar ignóbeis, senão impróprias, palavras.

Ao entrarmos no automóvel, acomodei-me no banco do passageiro e preparei-me para a viagem.

Começando a dirigir, perguntei-lhe alguns detalhes que implicavam em minha mente, fazendo ecoarem-se mexericos e dúvidas que matavam-me e corroíam-me como ácido sulfúrico.

“O que pediu-nos o cliente?”

“Ele queria que conseguíssemos uma amálgama.” — Respondeu-me não tirando os olhos das ruas à frente.

“Amalgama? Que é isto?”

“Não fizeste a tua lição de casa. Preciso-te explicar?”

“Eu agradecer-lhe-ia.”

“Amálgamas são seres normalmente resultantes da combinação de criaturas diferentes, se é isto que querias saber.”

Após tempinho, soou-me aquela melodia que quase comemorei:
"Chegámos."

Era local perto de florestas; dentre as densas matas que ocultavam-me o cenário, podia ver os contornos ténues de um casarão abandonado, de janelas permeadas de quebraduras e poeira.

Aluviões cercavam-me as pernas, e faziam-me atentos para andar naquele ambiente. Meu compadre, já agilizado e familiarizado com estas ocasiões, coordenava-se como felino para passar entre as arapucas.

"Está a parecer-me um filme de terror dos anos 80, não achas?"

“Só és tu que achas. Parece-me mais uma telenovela grotesca dos anos 60.” — Respondeu-me não tirando os olhos do diadema escorregadio e esburacado.

“Paremos de discutir, em frente!”

Driblando os arbustos e as copas de árvores derrubadas, apropinquando-se ainda mais daquele casarão que me impunha arrepios na espinha, continuei a desbravar aquele território supostamente abandonado: vitrais quebrados e manchados duma cor vívida e forte, não parecendo-me sangue pelo vermelho trash, porém sim alguma gosma análoga; portas quebradas, com detalhes caídos e desmazelados e pedaços farruscos de tijolos impediam que meu colega chegasse à porta principal.

“Estás molhado ou chegaste até aqui sem nenhum pingo nas calças?” — Perguntou-me aproveitando-se de minha exímia cautela com locais daquele tipo.

“Pela minha extensa filmografia consumida, não posso deixar-me levar por este cenário que pode ser repleto de vorazes poltergeists. E não sou medroso como ti.”

“És um babaca, isto sim. Para tudo há explicação. Se desejas dar uma de parapsicólogo, teu local não é aqui.”

Ao entrar, deparei-me com ambiente surpreendentemente intacto; pisos lustrosos e vivos emergiam-se do chão e iam às minhas vistas. As paredes tingiam-se num papel de parede madeirado, cuja fidelidade era tão alta que pensei ser a parede feita de bétula.

Meu colega despejou os equipamentos e retirou um deles: era canhão de plasma, daqueles bastante utilizados pela organização; diversos maquinários e tubos espalhavam-se pela estrutura, além de componentes dos quais nada entendia. Aquilo sequer era missão comum — e sim divertida experiência na qual arriscaríamos nossas vidas por notas galhofeiras de papel.

“O local até está em bom estado. Por que saíram daqui?” — Perguntava-se meu compadre, com desejo veemente de descobrir o que se ocorre. Examinava como Sherlock Holmes as paredes e o chão, não mirando apenas a riqueza com o sucesso da missão, da mesma forma que estava a resolver peculiar caso de mudança improvisada.

“Acabei de lembrar-me: o que queríamos capturar está no porão. Tens de parar de fazer-se detetive e ir ao que interessa.” — disse-o em palavras bruscas.

“Isto é clichê demais para meu gosto. Inserimo-nos em doentio filme de terror.”
Locomovemos-nos às escadarias daquele cómodo miúdo e estranho que alcunhou-se de porão não só em virtude das bizarrices, mas também por sua localização subterrânea e embrenhada nos mais profundos cantos da moradia.

A mesma gosma que visualizei nas janelas fazia-se presente por entre as portas; contudo, não era mais de vermelho excêntrico, e sim dum verde alucinante que chamuscou-me os olhos apenas de observar. Passei-lhe um de meus dedos, — e mesmo coberto por luvas — senti queimar-lhe a derme, assim jogando-a de volta nos vitrais.

“Deixe tuas escalafobéticas premonições de lado, pois agora é hora de acção.”

“Estou preparado mais do que nunca para isto.”

A porta trancada, em nossa frente, logo se fez por derrubada com um pontapé que atirou-a longe. Para nossa surpresa, havia apenas máquina de lavar que estava a fazer os mais diversos sons.

“Não deixa-te enganar. É ali que a amálgama está.” — Disse-me novamente meu compadre. — Pega uma destas armas e vamos lá. Ela é só para captura. — completou.

Ao perceber-nos, aquela mesma singela máquina começou a levitar, atirar-se nas paredes, e a esguichar jatos de água aos quatro cantos da sala. Atirei-lhe com aquela arma de plasma, que quase mandou-me como flecha na porta por conta do impacto. A amálgama, enfurecida, ampliou os movimentos e fazia cabriolas no ar, rodopiando e caindo novamente; voou em minha direcção, e se não fosse pela esquiva repentina, teria-me esmagado.

“Hey! Camarada! Começa a atirar também!” — Gritei-o, que imediatamente activou o utensílio.

Dois raios de direcções opostas acertaram a máquina de lavar roupa; dela expelia-se criatura curiosa: era gosma comum, porém com propriedades fantasmagóricas, de onde expelia-se líquido verde e vermelho. Despedaçou-se aquele objeto, e saiu de lá a amálgama que tanto esperava-se.

“É hora de capturar esta coisa.” — Falou, a obter um grande balde transparente.
Ao voltarmos, entregaremos aquilo ao cliente.

“Aqui o pagamento. Gostei dos vossos serviços.” — Comunicou o cliente, a quem demos a criatura, ávidos pela recompensa.

“Definitivamente, somos caça-amálgamas” — Falei, a soltar risos.

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