Pena de Si
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Sempre era tão fácil com outros Palhaços. Você dizia a eles que você gostava deles, vocês se beijavam, e então brincadeiras aconteciam. Seja isso ou então você tomava um jato de água e se ia embora derrotado com sapatos molhados e frouxos. Comezinhos sempre tinham que deixar tudo desnecessariamente complicado e chato.

"Ei, Crash!" ela ouviu um Palhaço menor gritar para ela. Ele tinha um certo gingado em seu andar se aproximando dela. Ela saiu de seu torpor e o olhou nos olhos.

"Ah, ei, o que foi?" perguntou Crash, com o queixo caído e sem saber.

"Você é a próxima!" exclamou ele. "Torre dos Palhaços, se lembra?"

Crash olhou diretamente para frente dela para a entrada lateral da Grande Tenda sob as arquibancadas, onde os talentos se reuniam antes de uma apresentação. "Ah. Certo. Sou eu agora?"

"SIM, é você agora! Vai lá!"

Ela sacudiu a cara em uma tentativa de voltar a si e correu em direção ao ringue onde quase uma dúzia de Palhaços estavam empilhados um sobre o outro enquanto o Palhaço de baixo andava em círculos equilibrados sobre uma bola. Ela saltou na pilha assim que ela passou perto dela e escalou até o topo, seus pés e mãos pisando e segurando em outros Palhaços ao longo do caminho, entretendo a plateia.

Quando ela chegou no topo, ela agarrou as mãos do Palhaço no topo e se levantou plantando bananeira. Aquela com quem ela se viu segurando mãos era ninguém menos que Zoozoo, que ela reconheceu. "Zoozoo."

"Crash," respondeu a Palhaça demoníaca.

"Ei, que tal não tentar espantar nossa equipe."

Zoozoo deu a ela um rosnado indignado enquanto dizia: "Eu não sei do que você está falando."

"A Tootsie vai ficar, queira você goste ou não."

A torre balançou de forma extrema, as duas se dobrando junto com ela. "Ela é uma Comezinha com um risco ligado ao cérebro dela. Como se já não corrêssemos riscos o bastante com nós Palhaços! Comezinhos deveriam ser pelo menos confiáveis!"

"Então você quer encher o Circo com o máximo de Comezinhos chatos possível? Isso soa exatamente como algo que um Comezinho diria!" Elas se endireitaram e outro Palhaço veio escalando a torre.

"Então talvez eles estejam aprontando algo afinal."

O último Palhaço estava finalmente no topo da torre, seus pés pisando sobre as solas dos sapatos enormes de Crash. "Ei Lolly," disse ela, esticando a cabeça para olhar para ela.

"Oi Crash!" disse ela de volta, sorrindo docemente para a plateia enquanto ela aplaudia. "Interrompi uma discussão? Pareceu que eu tinha interrompido uma discussão. Algum drama suculento?"

"A Zoozoo está tentando se livrar da Tootsie."

"O Manny está tentando se livrar da Tootsie," corrigiu Zoozoo. "Não ponha a culpa só em mim."

Lolly franziu o rosto enquanto olhava para Zoozoo, dizendo: "Mas ela é família! Zoozoo, pare de tentar espantar família!"

"Era isso que eu estava dizendo!" acrescentou Crash.

Rosnando, Zoozoo simplesmente disse: "Podemos conversar sobre isso depois?"

"E quase nos beijamos na noite passada!" disse Crash diretamente para Lolly.

Lolly fez um ahh em encanto. "Escandaloso!"

"Foi na roda gigante! Negócio super romântico." Zoozoo devia ter percebido que isso não era mais de interesse dela, visto que ela tinha ficado quieta. "Ei, você quer beber uma depois da apresentação?"

"Ai se quero!" respondeu Lolly enquanto saltava para trás, caindo em um trampolim em miniatura que tinha magicamente aparecido atrás da torre.

"Você não está convidada," disse Crash para Zoozoo enquanto fazia o mesmo depois de mostrar a língua para ela, caindo em outro trampolim que tinha magicamente aparecido.

Quando a torre tinha se reduzido a apenas o Palhaço da bola, ele saltou dela, mas nenhum trampolim apareceu magicamente, fazendo ele colidir com o chão enquanto a plateia ria às suas custas. O resto dos Palhaços saltou de seus respectivos trampolins e deu uma grande reverência ao público, que aplaudiu o ato.

Icky saiu depois para dispensa-los e introduzir o ato que vinha depois deles, ponto em que Crash tinha deixado o palco. Lolly permaneceu na Grande Tenda, ao lado de Icky, um sorriso gigante em seu rosto como sempre. A Palhaça de cabelo laranja deu uma última carranca na direção de Zoozoo, com ela recebendo o mesmo em troca.

Para sua surpresa, quando ela se virou, ela conseguiu distinguir a cara de Cassie entre a multidão enquanto ela pegava lixo com uma vara pontuda. Ela não parecia exatamente muito feliz fazendo o que estava fazendo, apesar se estar em um dos melhores lugares no mundo conhecido. "Tootsie! Ei! Você me viu daí?"

"Ah, desculpe, não vi," respondeu Cassie, dando a ela um sorriso sem entusiasmo. "Com o tanto de latas de lixo que vocês têm espalhadas, você imaginaria que as pessoas estariam mais dispostas a gastar alguns neurônios a mais para usá-las em vez de largar essas bostas no chão."

"Crianças, não é? Quando você fizer a grande mudança você não vai mais se incomodar tanto com elas. Afinal, Palhaços são só criançonas estranhas e esquisitas. Além disso, você ganha acesso ao espaço martelo!" Ela enfiou a mão em seu bolso de Palhaço e tirou um buquê de flores para dar à Cassie. "Desculpe novamente pelo seu gorro. Se você precisar de algo, me avise."

Cassie sacudiu a cabeça, dizendo: "Está tudo bem. Ainda estou bem cansada da última noite, então provavelmente só vou dormir depois do meu turno."

Crash franziu a testa, mas deu a ela um tapinha reconfortante no ombro, dizendo adeus antes de seguir para uma das tendas de bar. Ela se sentou em um dos bancos e se inclinou sobre o balcão, soltando um suspiro enquanto o barman vinha ver como ela estava.

"Dia duro?" perguntou o Comezinho.

"Algo assim," respondeu ela desanimada. "Você já se apaixonou, Homem Barman?"

O barman olhou de um lado para o outro e disse: "Olha, foi uma coisa que só aconteceu uma vez, se ela disse alguma coisa sobre mim, provavelmente não é verdade."

"Porque eu sinto que sou péssima nisso."

"Ah." O barman recuperou a compostura e continuou: "Bem, cê não pode ganhar sempre, hein? Só resta torcer pra que a próxima seja melhor. Sempre tem uma próxima vez."

"Puxa, obrigada," remarcou Crash com um olhar rápido, sem perceber que ela havia largado a conversa para atender um convidado. "Às vezes você só quer usar um moletom com capuz e calças, bagunçar o cabelo e deitar no chão."

"O que isso deveria significar?" perguntou Lolly enquanto se sentava ao lado dela, pedindo duas jarras de Leite de Palhaço.

Crash suspirou, dizendo: "Isso quer dizer que estou sem amor esses dias."

"Beba um pouco de Leite e veremos isso!" exclamou Lolly, levando a jarra aos lábios e bebendo um quarto dela imediatamente. Ela rapidamente saltou para cima e para baixo em seu assento, seus olhos girando em sua cabeça até pararem em uma imagem de corações. "Quanto mais você bebe esse Leite, mas você adora ele!"

Crash tomou alguns goles de seu próprio jarro, depois mais alguns goles, seguidos por ainda mais goles até ela bater o jarro no balcão enquanto respirava em êxtase. "Ótimo para sua pele e mantém o açúcar no sangue alto!" concordou ela. "Eu queria que a Tootsie pudesse vivenciar isso. Os Comezinhos não entendem o que estão perdendo."

Lolly deu uma risadinha para ela. "Você está realmente vidrada nela, hein?"

"Todas as desgraças do mundo me pertencem!" gritou ela sob um holofote que havia criado do nada em uma exibição de melodrama teatral, seus braços e pernas balançando como se não tivessem ossos enquanto seus olhos expeliam lágrimas a uma taxa desumana. "Tudo por um gorro! Por favor, diga, bela dama, que poder esta cobertura de cabeça tecida tem sobre você! Que feitiço foi lançado! Que males traem teus fios coloridos!" Ela abaixou a cabeça e se curvou exatamente como fizera para a plateia mais cedo naquela noite. "Cena!"

Lolly aplaudiu com suas luvas brancas com suas mãos separadas delas, usando-as para engolir mais Leite. Quando ela colocou o jarro de volta no balcão, ela enfiou as mãos de volta nas luvas e disse: "Ela perdeu seu chapéu fofo em algum lugar?"

"Em algum lugar na Rússia," respondeu Crash, os holofotes desaparecendo enquanto seu corpo tomava sua forma normal mais uma vez, com ossos e tudo. "E durante o mês de nascimento dela também. É uma situação triste."

"Comezinhos não se importam tanto com os meses em que nascem, lembra?" apontou Lolly. "Só o dia. Que desperdício de um mês!"

"A única coisa que eles fazem certo é o Natal," Crash suspirou. "Faz um tempo desde que eu tive esse tipo de conexão com alguém. Pensei que estava chegando a esse ponto ontem à noite, mas no último segundo… Ai! Parece que faz tanto tempo desde que eu realmente beijei alguém."

Lolly se virou para ela, um líquido preto praticamente vazando de seus lábios. "Ok, ok, eu te beijo, manda brasa logo."

"Ah, não é a mesma coisa," disse Crash, descansando o rosto na palma da mão. "Preciso do romance! Da paixão! Da luxúria! Eu preciso daquela sensação que você tem quando sabe que está prestes a beijar alguém pela primeira vez… e então você beija! E então arco-íris! Fogos de artifício! Bum! Cabum!" Suas mãos representavam cada palavra que ela dizia. "Eu tive uma queda no ensino médio. Seu nome era Maurício. Ótimo rapaz. A primeira vez que nos beijamos foi no refeitório depois que a hora do almoço acabou. Foi como uma… lagarta subindo em um galho para comer uma folha. Sabe? Como quando duas mãos pegam no mesmo balde de pipoca e então se tocam e ambas as pessoas têm que tomar uma decisão ali mesmo. É como química, não é?"

"Química?" perguntou Lolly.

"Sim, química. Como uma bebida mista."

O barman, que estava prestando mais ou menos atenção na conversa, se aproximou e olhou para Lolly, perguntando: "Ela é sempre assim?"

"Aham!" respondeu Lolly enquanto Crash continuava com suas tangentes sem sentido. "Você é novo aqui, mas vai se acostumar."

"Ei!" Crash interrompeu. "Não falem sobre a narradora da história quando ela está ocupada narrando!"

Lolly deu de ombros. "É óbvio que você está com um caso de amor jovem, mas nós duas sabemos como corrigir um erro. Posso te emprestar uma chave de uma certa variedade, se você sabe do que estou falando. Será só uma viagem rápida de ida e volta."

Crash engasgou com a compreensão de uma maneira que era dramática demais para o que a situação exigia. "O foguete! Você tem razão!" Ela segurou Lolly pelas bochecha e deu um grande beijo a ela, completo com barulhos de beijo desnecessários antes de soltá-la e sair correndo do bar.

"Eu quis dizer a chave do caleidoscópio!" gritou Lolly enquanto a perseguia, mas era tarde demais. Seus óculos estavam colocados sobre os olhos e seu foguete já estava rugindo.

"Ei, diga à Icky que vou precisar de um dia de folga!" gritou ela enquanto ficava cada vez mais distante no céu noturno.

Do lado de fora da tenda, Lolly deu um tapa no rosto com a palma da mão e sacudiu a cabeça. "Se aquela garota só ouvisse por cinco segundos."

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