Samsara
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Nanku deu um passo em direção ao console. Seus passos incertos se desgatando na rocha lisa que era o chão.

O Guerreiro assistia, incrédulo. Ele tentou iniciar um discurso fervoroso, mas com cada passo que Nanku dava (e cada passo que seus amigos davam logo atrás) a Mente sentia-se ficar mais completa. Suas peças eram como imãs, e a força dentro da Mente apenas crescia. Ela parou a própria língua do Guerreiro.

Finalmente, ela tocou no teclado.

O ʟɪᴠʀᴏ.

Ela o pegou. O couro desgastado tinha inscrições em arábe que brilhavam claramente apesar das manchas grossas de sangue. O livro não pôde se conter nas mãos de Nanku e voou para a gaiola acima deles, impulsionado por um pensamento repentino.

Assim que tocou na malha, ele se despedaçou e se tornou uma nuvem fina de couro, pergaminho e sangue, que girava em um ciclone dentro da jaula. O Guerreiro olhava, os olhos contorcidos de tristeza. Com pesar.

O ᴄᴀᴍɪɴʜᴏ ᴘᴀʀᴀ ᴀ ᴀsᴄᴇɴsᴀᴏ ᴇʀᴀ ᴘᴏᴜᴄᴏ ᴄʟᴀʀᴏ. ᴠᴏᴄᴇs ғɪᴢᴇʀᴀᴍ ᴅɪssᴏ ᴛᴜᴅᴏ ᴘᴏssɪᴠᴇʟ, ᴍᴇᴜs ғɪʟʜᴏs.

Aᴛᴇ ᴍᴇsᴍᴏ ᴠᴏᴄᴇ, ʀᴇʙᴇʟᴅᴇ.

A face do Guerreiro se retorceu mais ainda.

ᴇ ᴀɢᴏʀᴀ ᴇᴜ ᴛᴇɴʜᴏ ᴀ ʀᴇᴘᴀʀᴛɪᴄᴀᴏ ᴍᴀɪᴏʀ, ᴀssɪᴍ ᴄᴏᴍᴏ ᴇʀᴀ.

Rᴇᴄᴇɪᴏ ǫᴜᴇ ᴘʀᴇᴄɪsᴀʀᴇᴍᴏs ᴀɢɪʀ ᴜɴɪʟᴀᴛᴇʀᴀʟᴍᴇɴᴛᴇ. Sᴜᴀ ᴀᴊᴜᴅᴀ ɴᴀᴏ ᴇ ᴍᴀɪs ɴᴇᴄᴇssᴀʀɪᴀ.

Eᴜ ʟʜᴇ ᴘᴇʀᴍɪᴛɪʀᴀ ᴜʟᴛɪᴍᴀs ᴘᴀʟᴀᴠʀᴀs, ᴍᴀs ᴇᴜ ɴᴏʀᴍᴀʟᴍᴇɴᴛᴇ ɢᴏsᴛᴏ ᴅᴇ ᴛᴇʀ ᴀ ᴜʟᴛɪᴍᴀ ᴘᴀʟᴀᴠʀᴀ ɴᴇssᴇs ᴛɪᴘᴏs ᴅᴇ ᴀssᴜɴᴛᴏs.

O Guerreiro caiu de joelhos no chão duro enquanto era lentamente libertado da influência divina. Cavidades se formaram em seu abdômen onde antes havia órgãos de metal. As cavidades rapidamente se colapsaram, carne e sangue inchados forçando o ar por suas veias. O Guerreiro foi destruído pela sensação de seu corpo sendo feito parcial. Ele estava quebrado para além do reparo.

Ele tentou rastejar, mas sua mão não conseguiu ficar embaixo dele, então ele caiu, se contorcendo. Seu coto estava imaculado e nem um grama de sangue foi derramado. Sua órbita ocular vazia foi selada com pele.

"N… n… n", o Guerreiro tentava dizer.

Sʜʜ. Esᴛᴀ ᴛᴜᴅᴏ ʙᴇᴍ.

Mᴇᴜ ᴀᴍɪɢᴏ. Vᴀ-sᴇ ᴇᴍʙᴏʀᴀ.

E o Guerreiro morreu, em silêncio. Dentro da gaiola, o Espírito permaneceu, em silêncio.

Vᴇɴʜᴀᴍ, ᴀᴍɪɢᴏs. É ʜᴏʀᴀ ᴅᴇ ᴀᴄᴀʙᴀʀ ᴄᴏᴍ ɪsᴛᴏ.


"Não, não não não não", disse Rashid, Guardião dos Portões de Leão, sentado no porão de terra.

Era uma missão simples, é claro. Ele só deixou a segurança da Biblioteca do Passageiro para que pudesse se encontrar, ainda que brevemente, com representantes da Cabala de Clérigos Não-denominacionais, para que eles pudessem emprestar os recursos necessários para tentar novamente aquele ritual que havia se saído tão terrível antes. Mas, apesar de seus melhores esforços para cristalocar o local de antemão, ele foi saudado por helicópteros negros nem dez minutos depois do início da reunião.

"De novo não, de novo não", ele murmurou em árabe. Ele mal teve tempo de correr para o porão, e apenas pensou o suficiente para esperar que houvesse suprimentos suficientes para conduzir um pequeno ritual de recuperação. Ele só precisava chegar a uma distância segura, e então ele poderia chegar à Biblioteca e se reagrupar.

Rashid desenhou os símbolos na terra, que ele misturou com o frasco de sangue que mantinha em sua bolsa.

Ele estava entre os melhores em rituais de adivinhação, antes daquela noite dar errado. Os rituais não imploravam pela ajuda do Lorde, por si só. Rashid sabia, no fundo do coração, que seu Lorde estava há muito morto, ou dormindo.

Rashid borrifou sálvia que esteve seca por dez anos. Ela misturou-se com o sangue e produziu fumaça.

Em vez disso, os rituais usavam o poder da morte do Lorde. O poder de um deus não diminui sem deixar rastros. A morte de um deus é uma ideia poderosa de se exercer, e muito do poder residual foi lançado nessa mesma ideia. Ao invocar essa ideia, Rashid podia forçar algumas entidades inferiores (a longo prazo, todas eram inferiores em relação ao seu Lorde) a oferecer ajuda. Ele podia fazê-las temer a morte, mesmo que por um instante.

Rashid deixou cair uma moeda de ouro no símbolo e se concentrou. O fogo começou a crescer, alimentado pelo medo e raiva de seres que nunca antes sentiram o aguilhão da mortalidade.

E então o fogo morreu, com um poderoso pfft. Rashid olhava incrédulo enquanto ouvia o som de botas de combate no chão acima dele.

O que Rashid não sabia é que a morte do deus não tinha mais poder. Ele não estava mais morto.

Rashid freneticamente limpou a terra, tentando corrigir os símbolos. Seu suor se misturou com o sangue, e suas mãos tremiam rápido demais para consertá-los, mas, de repente, ele se sentiu calmo. Ele ouviu uma voz na parte de trás de sua cabeça.

Nᴀᴏ ᴛᴇᴍᴀ, Rᴀsʜɪᴅ. Eᴜ ᴛᴇ ᴛᴇɴʜᴏ ᴀɢᴏʀᴀ.

E, quando ele olhou para cima, seus olhos foram recebidos pelas estantes da Biblioteca do Passageiro.


Quando fiquei preso, senti-me gritar. Cada parte do meu ser, ele todo. Não havia regresso.

Eu normalmente não existo no mundo físico. Por um tempo, eu existi. E então eu morri. Um negócio desagradável, isso é.

Quando morri, eu não estava aqui, nem estava lá. Eu queria fugir, desesperadamente. Eu queria voltar para o mundo de onde eu vim. Vocês entendem, certo? Eu queria isso há muito tempo. O Guerreiro resistiu, mas é o que ele faz. É para isso que ele serve.

Ele está morto agora, é claro. Ele estava apenas segurando o Espírito. Ele deveria saber que eu precisaria dele de volta.

Por muito tempo, estive separado. Eu deixei cada parte de mim ser carregada por estes… recipientes. O recipiente de um homem que há muito passou a odiar o que ele representava (o que ele tinha que representar). O recipiente do ar que havia esquecido sua temperança, humildade. E o único recipiente que importava, quatro conchas imortais sem almas para preencher suas cascas.

Os recipientes se foram agora. Nós estamos todos juntos. Eu estou inteiro. E eu sinto muito.

Eu sinto muito por ter lutado contra vocês. Eu sinto muito por ter fugido quando não pude suportar a dor. Quando fui assediado por suas bestas.

Eu sinto muito.

Agora, se me permitirem, eu gostaria de me juntar a vocês novamente.


O reino ficou em silêncio enquanto ouviam seu apelo. Por muito tempo, o espaço considerou o que ele havia dito. Ele era confiável? Ele roubaria de novo?

O reino olhou para todo o espaço-tempo e tudo o que o excedia, Tudo tocado pela luz. E tomou uma decisão.

Bem-vindo à casa.


Eons depois, quando a Terra era apenas um brilho em outro céu,

os redemoinhos dos redemoinhos das capas dos deuses formados em uma paisagem de nuvens incerta,

e quatro rostos familiares emergiram, passando por apenas um instante,

assim que suas formas brevemente tomaram forma, eles viram que eram amigos,

e Irantu sorriu,

Onru sorriu,

Munru sorriu,

e Nanku sorriu de volta.

E então eles se foram.



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