SCP-075-PT

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Item nº: SCP-075-PT

Classe de Objeto: Seguro

Nível de Ameaça: Amarelo

Procedimentos Especiais de Contenção: A entrada sul de SCP-075-PT deve ser permanentemente selada, enquanto a entrada norte pode ser acessada pelo uso dos cartões magnéticos que estão sob posse dos líderes do Grupo de Pesquisa 075-QBZ.

Pela indeterminação da área de efeito de SCP-075-PT, apenas funcionários Classe-D são admitidos numa região de 250 m² a partir do centro da estação de pesquisas, a fim de se garantir a segurança dos demais funcionários.

O teleférico que conecta a estrutura à base da montanha onde a instalação está localizada deve ser utilizado exclusivamente para o transporte de funcionários da Fundação e equipamentos, de forma que o acesso de civis deve ser nulo.

Dada a falta de informações acerca do funcionamento da anomalia, cuidados com a instalação estão limitados a reparos externos, enquanto o monitoramento do interior do local deve ser realizado por meio do posto avançado estabelecido na base da Montanha do Pico, que possui acesso ao sistema de segurança interno da estrutura.

Documentos físicos e digitais recuperados da instalação devem ser mantidos em uma seção especial do acervo do Sítio PT4 e em um servidor seguro individual, respectivamente. O acesso a tais documentos está restrito aos integrantes do Grupo de Pesquisa 075-QBZ.

Descrição: SCP-075-PT é um agente de risco cognitivo ligado à uma estação de pesquisa do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, localizada no metro 2100 da região oeste da Montanha do Pico, que encontra-se na Ilha do Pico, em Portugal. A instalação possui uma área total de aproximadamente 100 m², sendo que parte do local se estende pelo subsolo.

Com base nos documentos deixados pelos pesquisadores que habitavam o local e de testes realizados após a contenção da região, acredita-se que a manifestação de SCP-075-PT em indivíduos afetados seja por meio de alucinações visuais, auditivas e táteis.

Resultados distintos foram observados dependendo do número de indivíduos, e do tempo de exposição desses, que estejam sob efeito de SCP-075-PT, porém todas as situações sempre giram em torno de uma alucinação compartilhada por todos que seja capaz de gerar algum conflito.

Manter os indivíduos afetados afastados da estação contendo SCP-075-PT por um período prolongado de tempo se mostrou ser eficiente para anular os efeitos da anomalia, além do uso de amnésticos, dependendo do período de exposição.

Adendo: Trechos de transcrições de áudio e vídeo, além de anotações pessoais produzidas pelo geólogo José Bacelar Bebiano, intercaladas e dispostas em ordem cronológica, a fim de se estabelecer uma linha do tempo coerente dos fatos que ocorreram no local.

Os pesquisadores da instalação eram o geólogo José Bacelar Bebiano, o sismólogo Octávio da Veiga Ferreira, o sismólogo Francisco Luís Pereira de Sousa, a meteorologista Sandra Prada, o meteorologista Leonel Duarte Neves e o vulcanólogo Mário Vale.

REGISTRO DE ÁUDIO ZXII-0013 | COZINHA | 04/02/2020 | 20:28 - 21:45

Bacelar: Isso aqui é o que?

Prada: Oi?

Bacelar: Essa carne aqui, é de que?

Prada: Frango… eu acho.

Bacelar: É horrível. Parece isopor para mim.

Veiga: Para de reclamar, José, esse frango é tudo que temos por aqui. Sugiro que você coma.

Vale: Não seja tão dramático, nós devemos receber um carregamento de frutas e peixes frescos pelo teleférico ainda essa semana, portanto creio que nossas opções não sejam tão limitadas como imagina.

Bacelar: Viu? Eu vou comer, mas não sei se consigo aguentar meses com a mesma coisa…

Duarte: Se é tão ruim quanto você está dizendo, acho que vou passar essa noite.

Veiga: Não vai comer nada?

Duarte: Talvez eu esquente uma salsicha mais tarde, a viagem também mexeu um pouco comigo.

Veiga: Você quem sabe.

Prada: Luís! Finalmente apareceu, a comida ainda deve estar quente nas panelas.

Pereira: Valeu, Sandra. Isso é frango?

Bacelar: Ao que tudo indica, sim, mas eu não confio…

Alguns riem em voz alta

Vale: Mas digam-me, jovens, por que se alistaram para uma tarefa tão árdua aqui?

Pereira: O pagamento é bom, para mim isso já é o bastante.

Bacelar: Mesma coisa por mim.

Prada: Acho que eu precisava de um tempo num lugar mais quieto, afastada dos problemas da cidade. E um pouco de frio também é bom, para variar.

Veiga: Isso é sério? Nenhum de vocês veio pela possibilidade de estar em um dos locais mais importantes para estudos de Portugal?

Bacelar: Bem, eu…

Vale: Deixe-os em paz, Veiga, é claro que eles também estão aqui por isso.

Todos permanecem em silêncio por aproximadamente dois minutos

Prada: Acho que eu vou indo… Tenho que organizar minhas coisas.

Duarte: Eu vou dar uma olhada por aí para saber o que temos a disposição. Alguém me acompanha?

Bacelar: Vou contigo, preciso esticar as pernas.

Veiga: Está tarde, eu vou me retirar também. Boa noite.

Pereira e Vale: Noite.

Pereira: Não quer se sentar?

Vale: Prefiro ficar de pé mesmo, é melhor para minhas costas.

Pereira: Tudo bem, tudo bem. É… se me permite, senhor, poderia me contar de como criou a APG?

Vale: É claro, mas não foi tão complicado como imagina. Na época eu e meus colegas estávamos descontentes com a falta de visibilidade que a comunidade de geólogos portugueses tinha no exterior, e decidimos nos organizar. Acabou que a Associação não faz muito além de organizar eventos e promover excursões em colégios, mas para mim isso é mais que o bastante.

Pereira: Entendo. E o senhor possui algum interesse específico aqui na Ilha do Pico?

Vale: Bom, filho, eu venho para essa estação anualmente, sem falta. Atualmente estou tentando entender a relação entre erupções e a constante produção de enxofre nas bases, especialmente em ilhotas. Felizmente tenho o privilégio dessa ilha onde estamos fazer parte de Portugal, o que facilita todo o processo burocrático da pesquisa.

Pereira: Muito interessante. Vou ficar feliz de dar uma olhada nos resultados, se não se importar.

Vale: Claro que não me importo. É melhor irmos andando, filho, já é tarde.

Pereira: Tem razão. Boa noite, senhor.

Vale: O mesmo para ti.


(271)

Dia tranquilo, conheci os meus colegas, alguns eu já conhecia, e fiz a viagem para cá. Primeiro meia hora de carro, algumas de barco e mais algumas de teleférico. Sandra e Luís estão bem animados com a oportunidade, mas não tenho certeza quanto ao Leo. Nós nos falamos por pouco tempo, de vez em quando trabalhando juntos, mas considero ele um bom companheiro. É gente fina, então acho que isso é o que importa, no fim.

Conversamos pelos corredores por um tempo, o Leo e eu. Ele contou que pretende soltar um balão para começar os estudos dele amanhã de manhã, e me chamou para ir junto. Aceitei por dois motivos: porque gosto dele e porque odeio esse lugar. Eu não achei que um monte de ferro e cimento numa montanha seria tão ruim, mas é. Eu não suporto o silêncio, cada gota de água ecoa por todos os corredores, e agora mesmo escrevendo aqui parece que o som da caneta está saindo de alto-falantes. Passear do lado de fora deve me fazer bem.

Falando nos corredores, o lugar é maior do que eu esperava. Cada um tem seu próprio quarto, com computador, cama e tudo, tem uma cozinha até que pequena, uma sala de estar, banheiros, sala de máquinas e um laboratório. Uma despensa minúscula, um quarto de limpeza e uma sala de lixo. Eu acho que isso é tudo, mas devo ter me esquecido de algo.

Agora eu devo confessar que menti. Sim, estou aqui pelo dinheiro, mas a razão maior é o Mário. O fundador da Associação Portuguesa de Geólogos, professor na Universidade de Lisboa e escritor renomado. Qualquer um desses pontos já é mais do que tudo que eu conquistei na vida. Não fui falar disso para ele, claro, mas eu não poderia estar mais feliz de ter uma aula de campo particular com um mestre desses.

Lembro de quando a mãe me deu um livro dele, que eu li e reli mais vezes que posso contar nos dedos. "Sismos em Portugal e Introdução à Vulcanologia". É uma pena que perdi quando me mudei, mas a vida é assim.

Bom, chega disso, espero que o silêncio profundo daqui me ajude a dormir, pelo menos.


REGISTRO DE ÁUDIO ZXIJ-0006 | CORREDOR C | 05/02/2020 | 07:12 - 07:33 / 09:02 - 09:48

Duarte: Sim, e depois disso basta soltar ele que o trabalho é feito sozinho.

Bacelar: E como você faz para pegar os equipamentos de volta?

Duarte: Bom, eu não faço ideia, amigo. Sei que tem um rastreador no balão, mas dependendo do lugar onde ele cair fica muito difícil de recuperar as coisas.

Bacelar: Entendi, entendi. Falando nisso, quando você começou a trabalhar para eles?

Duarte: O Instituto da Atmosfera e do Mar? Faz pouco tempo, um ano e meio eu diria. Eu tive a sorte de ter o meu pai trabalhando lá, o que me garantiu uma vaga.

Bacelar: Ah, isso ajuda mesmo.

Ambos riem

Duarte: E você?

Bacelar: Comecei meu estágio lá esse ano. Um dia eu consigo algo bom, de preferência no próprio Instituto também.

Duarte: Que a sorte esteja ao seu lado, amigo.

O corredor permanece em silêncio por aproximadamente uma hora e trinta minutos após a saída de Bacelar e Duarte, até a chegada de Prada e Pereira

Prada: E ela ficou bem?

Pereira: Sim, sim. Graças a Deus. Mas me conta, quais são os seus planos para esse lugar?

Prada: Ah, não tem nada demais, eu vou só organizar alguns dados e comparar com o ano passado. Massas de ar, pressão, essas coisas.

Pereira: Era por isso que o Duarte estava levando toda aquela tralha para o lado de fora?

Prada: Que tralha?

Pereira: As coisas do… balão? Algo assim.

Prada: A gente tem balões meteorológicos aqui? Eu não fazia ideia… Talvez esse lugar não seja tão rústico quanto eu imaginei.

Pereira: É claro que não é. Você viu os computadores nos quartos? São melhores que os meus!

Ambos riem antes de deixar a área


(272)

Dia nem um pouco produtivo. Digo, não sei, eu anotei muitas coisas que o Leo e o Mário me contaram, mas nem toquei no trabalho que eu preciso fazer. Fora isso só fiquei encarando a neve pela janela do meu quarto por algumas horas. Todo mundo parece focado até demais, eles só descansaram durante as refeições e a conversa que conseguimos ter em conjunto foi, no mínimo, constrangedora.

Lançar o balão com o Leo foi interessante, aquela coisa parece que foi tirada de ficção científica, tinha uma câmera e tudo. Ele tentou me explicar como o aparelho funcionava exatamente, mas aquilo não fez o menor sentido para mim.

O Mário, por outro lado, me ensinou algumas coisas sobre tipos de rochas e, por algum motivo, sobre como consertar o termostato. Nada muito difícil, mas eu acho melhor anotar. Girar a alavanca vermelha, depois colocar para cima as chaves B e E e por último apertar o grande botão vermelho para reiniciar o sistema. Parece que esse negócio falha frequentemente por aqui.

A comida continua horrível, além do maldito frango até o pão e os legumes estão com gosto de isopor. Pelo menos o suco parece normal. Eu sinto falta das coisas pequenas, pizza, hambúrguer, lasanha. O Mário disse que talvez ele consiga pedir algumas coisas lá de baixo para chegarem pelo teleférico, então não vou me desesperar ainda.

Falando nisso, eu não consegui dormir mais do que meia hora de ontem para hoje. O silêncio é horrível. Eu passei a noite toda encarando uma lagartixa escalar a parede, e depois tomei um susto quando ouvi alguém passar pelo corredor. O próprio som do vento lá fora parece alguém sussurrando no meu ouvido. Eu sinto falta do barulho da cidade.

Enfim, chega disso, vou tentar descansar de qualquer jeito pois tenho trabalho a fazer amanhã.


REGISTRO DE ÁUDIO ZXIK-0042 | ÁREA COMUNAL / RECEPÇÃO | 06/02/2020 | 09:05 - 9:54

Bacelar: Você tem certeza?

Duarte: Os dados não mentem, amigo, vem uma nevasca aí, e uma pesada.

Prada: Bom dia, vocês dois. Algum problema?

Duarte: Estamos dando uma olhada no céu, amanhã ou depois vamos estar cobertos de neve.

Prada: Jura? Eu pensei que isso era muito raro por aqui.

Duarte: E é. Talvez seja azar, ou aquecimento global e tudo mais. Não sei.

Prada: Se você diz… Bem, vou tentar fazer tudo que eu preciso lá fora antes que o pior aconteça. Vejo vocês no almoço.

Bacelar: Até.

Duarte: Me fala, Zé, por que você sente falta dos sons da cidade? Esse lugar é um santuário para quase todo mundo que eu conheço.

Bacelar: O que?

Duarte: O barulho, por que você sente falta dele?

Bacelar: Como você… Bom, costume, eu acho. Eu vejo carros passando pela rua desde que nasci. São coisas que eu nem me importava antes, mas sinto falta quando me vejo preso nesse lugar. Mas eu não lembro de…

Duarte: Sei o que você quer dizer, amigo. Eu sinto falta de um bom café, principalmente. Acho que de toda comida, na verdade. Só de ver as coisas daqui eu já tenho um embrulho no estômago.

Bacelar: É, acho que isso é uma merda mesmo, mas não é o fim do mundo. Eu aguento.

Duarte: Esse é o espírito, amigo, não temos muito o que fazer.

Bacelar: Você viu o Octávio? Eu já tinha estranhado ele não ter aparecido para o jantar ontem, mas faltar o café hoje de manhã me fez ficar preocupado. Ele só fica trancado naquele quarto o dia todo.

Duarte: Você sabe como ele é. Uma hora ele aparece, não tem porque se preocupar. Qualquer coisa eu bato na porta quando passar lá.

Bacelar: Espero que você esteja certo. Bom, vou andando, preciso continuar o meu trabalho e ainda vou ajudar o Mário com algumas coisas depois.

Duarte: Tranquilo, amigo, até mais.


(273)

Dia estranho. O Octávio realmente passou o dia todo no seu quarto, não saiu nem para jantar com a gente. Eu me pergunto o que ele faz lá, não é possível que ele fique encarando o computador por tantas horas. A Sandra parece estar mais preocupada com isso que todos nós, mas o Mário garantiu que ele é assim mesmo e que uma hora vai sair da toca.

Eu dei uma volta na estação com o Mário, também. Nós conversamos sobre um bocado de coisas, especialmente sobre a vida dele. A família foi se dividindo conforme o tempo foi passando, não parece ter mais nada para ele em casa. Nada além da Associação. Ele disse que a coisa que ele mais queria na vida era unir seus colegas para criar algo muito maior que si, e a APG foi a concretização disso. Aparentemente ele deixou sua posição de diretor lá anos atrás e por isso ele vem fazendo esses projetos pessoais aqui na ilha. Eu perguntei se ele se sentia completo, e ele me respondeu que sim, falou até que não tem medo de passar seus últimos minutos aqui nessa estação. Por mais triste que isso soe, eu me senti feliz por ele.

Eu consegui fazer uma boa parte dos relatórios, mas ainda preciso juntar os dados do quanto choveu nos últimos anos. Dos que eu enviei, nada foi recebido, ainda. Tenho que checar a internet amanhã, talvez seja isso ou apenas eu escrevendo o email do Instituto errado.

A nevasca chegou mais cedo, logo depois que eu entrei no quarto eu consegui ver os primeiros flocos caindo do lado de fora. Em pouco tempo eles cobriram todo o chão, e junto do frio veio o barulho alto do vento e dos pedaços de gelo batendo na janela. É engraçado, eu já consigo me sentir mais calmo com isso, é como se Deus tivesse lido minhas reclamações aqui. Acho que essa vai ser uma boa noite.

Enfim, chega disso, hora de finalmente descansar a cabeça.


REGISTRO DE ÁUDIO ZXIL-0103 | COZINHA | 07/02/2020 | 13:22 - 14:03

Bacelar: Boa tarde, Mário. Vai comer algo?

Vale: Ah, não, não. Vim apenas informá-los de um problema, que envolve nossa comida. Acabei de receber a notícia de que essa nevasca causou um pequeno deslizamento de terra, alguns quilômetros abaixo da estação, que infelizmente provocaram danos consideráveis ao sistema teleférico.

Bacelar: Então não vamos ter nenhuma fruta por um tempo?

Vale: Correto. E também não teremos assistência caso haja alguma questão envolvendo os equipamentos de nossa instalação. Assim que possível nossos companheiros da vila de Madalena irão realizar os devidos reparos no local.

Bacelar: Que ótimo. Era tudo que me faltava…

Pereira: Falando em problemas, notei que não estou conseguindo enviar nenhuma mensagem, alguém checou o sinal?

Bacelar: Não achei nada no roteador, pode ser interferência da neve ou uma antena quebrada, não sei. Bom, os dados que eu preciso estão salvos no sistema, e eu consigo escrever sem internet, então acho que não tem muito problema.

Pereira: É, tem razão.

Vale: Bom, era isso que eu gostaria de dizer. Até mais, jovens.

Bacelar, Pereira e Prada: Até.

Prada: Oi Octávio, finalmente apareceu, hein?

Veiga: Vim apenas pegar algo para comer. O sinal caiu de qualquer maneira.

Bacelar: Ei, é… você sabe o que houve com o Mário? Ele me pareceu meio cabisbaixo hoje.

Veiga: Percebi. Mas não, não sei o que houve. Ele é velho, deve apenas estar cansado. Vou voltar para o meu quarto, procurem não ficar batendo na porta a menos que seja importante, eu não vou morrer lá ou algo do tipo. Adeus.

Pereira: Eita, o ar tá esquisito demais hoje…

Prada: É, não sei o que deu no pessoal.

Bacelar: Falando nisso, vocês viram o Leo por aí?

Pereira: Da última vez que falei com ele, pouco tempo atrás, ele estava mexendo na sala das máquinas. Acho que estava tendo algum curto na distribuição de energia, ou alguma coisa assim.

Bacelar: Mais um problema? Só tem desgraça acontecendo. Vou ver se ele quer comer com a gente.

Pereira: Beleza.

Prada: Uh… lembra do que me disse ontem?

Pereira: O que? Ah, sim, dos resultados? Bom, logo antes da internet falhar com a gente hoje de manhã, os sensores pegaram um tremor de 4.9 na costa norte. Não sei se o pessoal lá de baixo sentiu, mas esse parece ter sido o maior da história nessa região.

Prada: Caramba. Você acha que isso pode ter a ver com o deslizamento?

Pereira: Parece possível. É, isso explicaria, mesmo. Bom, vamos só torcer para que consigam consertar essa coisa logo, não aguento mais esse frango.

Prada: Olha, eu realmente estou começando a perceber o gosto de isopor que o José sempre fala, e já estou achando insuportável, também.


REGISTRO DE VÍDEO HHZQ-0082 | CORREDOR C | 08/02/2020 | 23:15 - 00:07

Entre 23:12 e 23:15 a gravação aparenta estar corrompida. Sendo retomada às 23:15, é notável o surgimento do cadáver de Vale na região norte do corredor, ao lado da passagem para a cozinha, com sua face para o chão, apresentando diversos ferimentos em suas costas. Abaixo de seu corpo, se espalhando pelas paredes e na direção sul do cadáver é possível observar grandes quantidades de sangue. A leste do corpo há uma faca de cozinha comum no chão.

Às 23:18, Pereira entra no corredor pela cozinha, rapidamente se ajoelhando ao lado do cadáver e tentando se comunicar com esse. Após três minutos Pereira se levanta e se dirige à porta do quarto de Prada, batendo diversas vezes na porta. Prada sai do cômodo, interage com Pereira e se aproxima lentamente do corpo de Vale. A poucos metros desse, Prada grita, se vira e corre, entrando em seu quarto e fechando a porta. Pereira bate novamente, sem resposta.

Às 23:25, Pereira bate na porta de Bacelar, que logo sai de seu cômodo. Pereira aponta para o cadáver e ambos rapidamente se dirigem para a direção norte do corredor. Bacelar observa o corpo por aproximadamente um minuto, se afasta e se senta no chão, com suas costas apoiadas na parede leste e com seu rosto entre as mãos. Pereira corre para a direção sul do corredor, saindo do campo de visão da câmera de segurança.

Às 23:37, Duarte entra no corredor pelo extremo norte, onde há a conexão entre os corredores C e B. Ao ver o cadáver, Duarte retorna ao corredor B, presumidamente para alertar Veiga, que chega ao corredor C com Duarte em menos de um minuto. Duarte inspeciona o corpo, possivelmente buscando sinais vitais, e se afasta em poucos segundos. Ele interage com Veiga, até correr na direção de Bacelar, se abaixando para interagir com esse. Veiga permanece imóvel observando o cadáver. Bacelar lentamente se levanta e anda em direção ao telefone vermelho posicionado no centro da parede oeste do corredor.

Às 23:43, Pereira retorna ao corredor C, e interage com Bacelar. Bacelar acena com sua cabeça em negação enquanto engancha o telefone no apoio. Ele lentamente retorna ao seu cômodo e fecha a porta. Ao ver Pereira, Veiga se vira e retorna ao corredor B, presumidamente voltando a seu quarto. Pereira se encontra com Duarte no meio do corredor e ambos entram na cozinha. Os dois voltam em aproximadamente seis minutos, Duarte carrega uma lona azul enrolada enquanto Pereira traz um saco plástico preto. Duarte posiciona a lona estendida sobre o corpo de Vale enquanto Pereira insere a faca no saco plástico. Ambos interagem por mais um minuto, até Duarte se dirigir ao corredor B enquanto Pereira retorna à cozinha.

De 23:51 até 00:07, Pereira, tendo reingressado o corredor C com um balde e um esfregão, retira o sangue ao redor do cadáver, retorna os objetos para a cozinha e entra em seu quarto, fechando a porta em seguida.


De novo, eu fui inútil. Eu poderia ter impedido, eu poderia ter ajudado, eu poderia ter pelo menos feito o corpo sair daqui, mas eu fui inútil. Por que? Quem faria isso? Ele era tão carismático, ele sabia tanto, ele estava disposto a me ensinar tanto, e ele não é nada agora. Eu só o conheci há poucos dias atrás, mas eu já admirava seu trabalho desde quando era criança. Tinha tanto sangue, tanto, e eu pisei nesse sangue, eu ouvi o som dele, eu vi as marcas do meu sapato, eu senti o cheiro. Era real. Mesmo assim, quando eu coloquei o telefone na minha orelha e disquei o número, nada aconteceu. Só ficou aquele barulho, se repetindo, por muito tempo. Foi ele. Tem que ter sido ele. Mas isso importa? Eu pago terapia e me mandam escrever meus dias. Era isso que vocês queriam ler? Eu só quero ir embora. Eu não aguento mais.


REGISTRO DE ÁUDIO ZXIM-0382 | COZINHA | 08/02/2020 | 09:34 - 10:11

Prada: Sim! E é isso que eu vou fazer, ir embora!

Duarte: Como? Se o teleférico está quebrado? E não sei se percebeu, mas ainda tem meio metro de neve lá fora, com mais caindo.

Prada: Eu dou um…

Pereira: Olha! Chega, chega disso. Todo mundo fica em silêncio, por um minuto. A gente não pode se desesperar e nem podemos sair daqui agora. Alguém vai notar nosso sumiço, e vão chegar aqui quando isso acontecer, pronto. Quem fez isso que assuma a responsabilidade, fique longe do resto, e nós esperamos a polícia dar as caras.

Bacelar: E você acha que alguém vai assumir? Pelo amor de Deus, tem que ter algum jeito de ir embora.

Duarte: Tem um jeito, sim. E esse jeito é esperando. Estamos sem sinal de telefone, sem internet, sem meio de transporte… não temos nada!

Prada: Então que seja! Eu vou ficar no meu quarto até que alguém use o cérebro. Quando quiserem sair daqui, podem bater na minha porta.

Pereira: Sandra, espera…

Todos ficam em silêncio por aproximadamente um minuto

Duarte: Tudo bem. Então vamos fazer assim: todos dizem onde estavam na hora.

Pereira: Não, Leo, só eu estava lá. Eu fiquei na área comunal aquele tempo inteiro, e só quando decidi ir me deitar eu encontrei ele. Não ouvi barulho, não vi ninguém, nada. E outra, isso aconteceu na frente dos quartos, não tem como ninguém ter ouvido alguém ser assassinado na frente de sua porta.

Veiga: Isso é patético. Vocês não vão chegar a lugar nenhum, homicidas não assumem crimes dessa maneira. Minha sugestão é…

Bacelar: Você não tem o que dizer!

Veiga: Perdão?

Bacelar: Eu sei. Eu sei que é você. Só pode ter sido! Você… você tinha inveja! Tem que ser isso, não tem como explicar de outra forma.

Veiga: Olha, meu amigo, eu não sei quem você pensa…

Duarte: Ei! Chega disso, okay? Tem… Nós podemos tentar uma coisa.

Pereira: O que?

Duarte: As câmeras. Na sala dos servidores deve ter como acessar a gravação, não é, Nicolas?

Desconhecido: Isso poderia dar certo, se o único que conhecesse as senhas para esse tipo de coisa não estivesse com um monte de buracos nas costas.

Bacelar: Calma, quem é… É sério isso?

Desconhecido: Infelizmente, sim. Olha, eu acho que é melhor aceitar as coisas como elas estão e seguir em frente. Como o Luís disse, alguma hora alguém vai aparecer aqui.

Veiga: Que seja. Façam o que quiserem, eu ainda tenho trabalho a fazer.

Todos permanecem em silêncio por aproximadamente três minutos

Bacelar: Ei, Leo, pode pegar esse copo aí para mim, por favor?

Duarte: Eu…

Desconhecido: Ah, Zé, levanta e pega. Você tá sentado desde madrugada nessa cadeira, tem que mexer as pernas.

Bacelar: Tem… tem razão. Eu vou me deitar depois.

Duarte: Tudo bem, amigo. Não tive a chance de dizer ainda, mas… sinto muito. Eu sei de como você gostava dele e…

Bacelar: Só… Eu só preciso descansar, eu vou ficar bem.

Duarte: Tranquilo.


Se não fosse pelo relógio na parede, eu estaria perdendo a noção do tempo. Tudo parece estar mais devagar. Não consigo mais comer nada. Não sem pensar naquilo. Eu estou começando a sentir mais frio que o normal, também. Vou checar os aquecedores amanhã. Todo mundo está se matando aos poucos, inclusive eu. Mesmo assim, não posso fazer muito. Vou tentar descansar a cabeça, mas sinto que não vou conseguir.


REGISTRO DE ÁUDIO ZXIN-0091 | SALA DE MÁQUINAS | 09/02/2020 | 07:20 - 07:43

Bacelar: Desde ontem. Talvez ele tenha quebrado por dentro, um cano estourado, não sei. Ou quem sabe um fio tenha queimado. Merda! Isso não está dando certo.

Duarte: Você tem certeza de que anotou certo? Talvez você só…

Bacelar: Três vezes! Ele me disse o que fazer três vezes! Por que não está funcionando? Eu… Você não sabe mexer nisso? Tem certeza? Você consertou a luz, lembra?

Duarte: Olha, amigo, eu sei brincar com a fiação mas eu não sei detectar o problema do aquecedor. Eu realmente não faço ideia. Talvez o Nicolas saiba de algo, posso checar com ele.

Bacelar: De quem você… Bom, tudo bem. Mas antes, me ajuda aqui a abrir essa placa, eu tenho que pelo menos ter certeza de que não é algo pequeno.

Duarte: Eu não… Hm… Ah! Olha! É de parafuso, basta tirar eles, tem a chave do seu lado.

Bacelar: Tem razão… Nossa, eu nem percebi.

Duarte: Eu vou lá falar com ele.

Bacelar: Tranquilo.

O local permanece em silêncio por aproximadamente quatro minutos, até uma série de golpes em metal serem ouvidos no cômodo

Bacelar: Merda. Merda. Eu não consigo, eu não aguento mais. Chega.


Eu não consegui. De novo. Está começando a ficar bem frio, mesmo com dois pares de meias nos pés e um casaco imenso no corpo. A Sandra não sai do quarto, o Octávio também não, e o Luís está me fazendo muitas perguntas que eu não sei responder. Parece que o Leo tirou o corpo do corredor hoje, mas não quis me dizer onde colocou. Eu tinha anotado, sabe? Eu estou olhando para o papel agora mesmo. "Girar a alavanca vermelha, depois colocar para cima as chaves A e D e por último apertar o grande botão vermelho para reiniciar o sistema." Mas isso não funcionou, nas cinco vezes em que eu tentei. Abri o painel e não tinha nada de errado com os fios. Eu estou cansado. Muito. Eu preciso tentar comer algo, também.


REGISTRO DE VÍDEO HHZR-0770 | ÁREA COMUNAL / RECEPÇÃO | 10/02/2020 | 01:22 - 01:36

Entre 01:19 e 01:22 a gravação aparenta estar corrompida. Sendo retomada às 01:22, é possível notar que a porta principal da instalação se encontra aberta, com uma figura desconhecida podendo ser vista do lado de fora, se afastando do local, em meio a nevasca. Às 01:23, Pereira é visto chegando na cozinha pelo corredor C. Ao ver a porta aberta, ele se aproxima da passagem e grita o nome "Nicolas" três vezes, enquanto o indivíduo do lado de fora deixa de ser visível.

Às 01:25, Pereira fecha a porta principal e anda em círculos pela área comunal por aproximadamente cinco minutos, frequentemente olhando para as janelas. Após isso ele corre em direção ao corredor C, e em três minutos retorna acompanhado de Duarte. Ambos param em frente a porta e interagem por aproximadamente dois minutos, até Duarte sair do local, voltando ao corredor C.

Às 01:28, Pereira se senta em um dos sofás da área comunal, observando as janelas constantemente. Às 01:31, Bacelar entra no local pelo corredor C. Ele se aproxima de Pereira e ambos interagem por aproximadamente um minuto. Pereira se levanta e exclama o nome "Nicolas" enquanto Bacelar aparenta estar confuso. Pereira se senta novamente, com o rosto entre as mãos. Bacelar coloca sua mão no ombro de Pereira, e retorna ao corredor C.

Às 01:36, Pereira se levanta. Ele caminha em direção a uma das janelas da área comunal, a observa por poucos segundos, se vira e retorna ao corredor C.


Dói escrever. As pontas dos meus dedos estão começando a ficar meio vermelhas, meu nariz também, e eu não sinto mais meus pés. A Sandra nem responde mais quando batemos na porta dela. Achei o quarto do Octávio aberto hoje de manhã, mas não vi ele em lugar nenhum. O Pereira estava gritando sozinho no quarto de novo. Eu vou tentar reiniciar o aquecedor mais uma vez. É culpa minha? É culpa minha.


REGISTRO DE VÍDEO HHZW-0281 | CORREDOR C | 13/02/2020 | 17:55 - 18:12

A gravação se inicia apresentando Bacelar deixando seu quarto, ingressando o corredor C. Ele se apoia na parede leste e permanece no mesmo ponto por aproximadamente três minutos, olhando para as regiões norte e sul do corredor. Bacelar exclama o nome "Leo" e permanece imóvel por aproximadamente um minuto, até lentamente caminhar na direção da porta de Prada

Bacelar se encosta na porta e bate nela por aproximadamente dez segundos, sem resposta. Ele se vira e caminha na direção da porta do quarto de Pereira. Novamente, Bacelar bate na porta por poucos segundos, até deixar o ponto e ir em direção à cozinha

Antes de entrar no cômodo, Bacelar se apoia na parede leste e observa o extremo norte do corredor por aproximadamente um minuto, gritando o nome "Leo" mais uma vez, novamente sem resposta. Bacelar logo deixa o corredor e entra na cozinha


REGISTRO DE VÍDEO HHZX-0422 | ÁREA COMUNAL / RECEPÇÃO | 13/02/2020 | 18:14 - 18:27

Bacelar chega no local pela cozinha, caminhando lentamente e se apoiando na mobília ao seu redor. A poucos metros da porta principal, Bacelar se vira rapidamente para a cozinha, contudo nenhum som foi registrado vindo da região. Após cerca de dez segundos Bacelar observa a porta principal novamente e anda em direção a essa até se apoiar na parede

Bacelar se aproxima de uma das janelas da área, a observa por poucos segundos, e se apoia na porta, girando a maçaneta e a abrindo. Bacelar cai, ficando de bruços, lentamente se arrastando para o exterior. É possível observar que não há grandes quantidades de neve no chão e nem precipitação de neve. Ele permanece observando a área externa por aproximadamente três minutos, até começar a se movimentar pela área externa na direção norte da porta

Após três minutos, a aproximadamente seis metros da passagem, Bacelar exclama algo, antes de continuar a se arrastar pela área externa por mais cinco minutos até sair do campo de visão da câmera de segurança

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