SCP-130-PT
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SCP-130-PT é um conto relatado por meio de e-mails e pensamentos.











































Um frio de leve
vem pra ficar.
A brisa suave
faz a árvore balançar.


O vento sopra
assobiando.
O céu escuro
vai ficando.


As nuvens passam
de mansinho.
A chuva chega
devagarinho.


As pessoas correm
abrindo guarda-chuvas.
Vi um homem de casaco
e uma mulher de luvas.


É esse o inverno
sorrateiro.
Vem chegando
e nem avisa primeiro.


— Clarice Pacheco























11/06/08

Querida Miranda,

Não sei como a sua vida anda por aí, mas espero que você esteja bem, do fundo meu coração. Como sou sua amiga, desde que você se mudou para outra cidade, tenho me preocupado contigo. Você não me contatou, mas acredito que seja porque estava ocupada com seus próprios problemas. Agora que estou de férias, gostaria de voltar a falar contigo, pois estou tendo bastante tempo livre ultimamente. Como você está? O novo ambiente te agrada ou você já se arrepende da mudança de ares? Estou ansiosa para saber.

Por sinal, como está o clima por aí? Estou interessada em sabe porque, por aqui, ele mudou muito repentinamente. Estava relativamente quente até alguns dias, mas um frio instarou-se bem repentinamente. De qualquer forma, não vou reclamar, porque eu simplesmente amo esse tempo. Espero que você também esteja confortável com as circunstâncias do seu novo ler. Se você se sentir incomodada com alguma coisa nova que esteja te perturbando, saiba que pode desabafar comigo. Estou sempre disposta a ouvir os outros, ainda mais sendo alguém com que eu me importo tanto.
Com amor, Aigis


15/06/08

Querida Miranda,

Tem chovido sem parar desde o primeiro e-mail que enviei a você. A temperatura está bem baixa e eu gosto disso. Embora eu adore a chuva, entretanto, vi em alguns canais de TV que ela já causou alagamentos bem fortes. Inclusive, São Paulo foi muito prejudicada por causa disso. Pelo que vi, ontem foi o dia mais chuvoso por lá desde o ano de 1996. Dá pra acreditar? Aqui no Rio, apesar de ter sido forte, não chegou a esse ponto. 800 árvores caíram em São Paulo. Como você mora aí agora, espero que nada de mau tenha acontecido.

Meu pai e minha mãe saíram em uma viagem por conta do trabalho e deixaram minha irmãzinha aos meus cuidados. Espero ser boa pra ela e cuidar bem de nossa casa enquanto estamos sozinhos aqui. Eles me disseram que voltariam em aproximadamente 1 semana. Como vão ter de viajar de avião, estou preocupada, ainda mais com esse clima. Eu já tenho aerofobia e tudo isso me deixa muito nervosa. Mas acho que eles conseguirão retornar em segurança. Tenho que permanecer positiva sobre isso.

O som de chuva é muito bom. Ele me estimula muito para diversas coisas, inclusive escrever, que é o que estou fazendo agora. Espero que continue. Imagine só se chovesse pra sempre? Seria maravilhoso! Bem, estou só brincando. Sei que o clima precisa variar.

Com amor, Aigis


21/06/08

Querida Miranda,

… Eu não sei se é a hora certa para formalidades como as vistas acima, mas eu preciso desabafar sobre. Estou muito assustada com tudo isto. Por favor, que isto chegue até você e que tudo esteja certo contigo.
Você deve ter percebido que a chuva estava diferente ontem. Quero dizer, já era estranho o fato de estar chovendo tanto e sem sequer um único intervalo, mas… o que aconteceu ontem foi simplesmente surreal. Acho que você deve não só ter visto com seus próprios olhos, como viu em algum canal de televisão.

A chuva simplesmente começou a ficar púrpura. Um púrpura bem mórbido, mais especificamente. Eu achei isso bem estranho e eu me assustei. Eu fui espiar pela janela da sala (que era onde eu estava) para ver o lado de fora. A primeira coisa que eu vi foi uma senhora bem velhinha que, ao entrar em contato com a água da chuva, simplesmente parou no meio do seu caminho para atravessar a rua. Foi então que um carro desgovernado, muito veloz, surgiu repentinamente e a atropelou. Aquilo me deixou tão assustada que eu comecei a chorar. O que mais me deixou em choque foi o fato que a velhinha estava sorrindo antes de morrer. Era um sorriso tão lindo, tão honesto… mas por que? Era como se ela soubesse o que estava por vir e isso de certa forma a confortasse.

Instantes depois, ouvi um grande estrondo vindo do outro lado da rua, provavelmente sendo de uma batida do mesmo carro que atropelou a pobre idosa. Muitos outros carros começaram a passar pela rua, todos muito rápidos. Eles começaram a bater nas casas que estavam próximas, além de colidirem entre si. Eu rapidamente me afastei da janela, assustada. Coloquei num canal de notícias e a reportagem era justamente sobre a chuva. O repórter estava no meio dela e simplesmente começou a bater sua cabeça fortemente contra a câmera enquanto alegremente sorria, rapidamente ocasionando um sangramento em sua testa. Muitos corpos caídos e ensanguentados podiam ser vistos ao fundo, além de gritos altíssimos.

Eu me desesperei na hora, estava trêmula. O que diabos estava acontecendo? Eu corri para o quarto de minha irmãzinha, que estara dormindo há algumas horas, e me tranquei por lá. Eu ouvia gritos lá fora, mas o medo impediu-me de sequer cogitar dar uma checada de como as coisas estavam lá fora. De vez em quando, ouvia coisas que soavam como intensas batidas em minha janela que findavam em aproximadamente 30 segundos. Eu não quero nem imaginar o motivo por trás dessas batidas.

Estou muito, muito preocupada. Como será que você está, Miranda? Quero tanto que esteja bem e veja isso. Não saia de casa. Fique com seus pais até essa chuva passar. Tudo vai dar certo. Tranquei todas as vias de acesso a minha casa e fechei todas as cortinas. Ainda posso ouvir o barulho de chuva, gritos e acidentes acontecendo. Estou muito preocupada com meu pai e minha mãe. Será que eles vão voltar? A chuva está tão forte e, pelo que eu vi, mudando tanto as pessoas. Tenho muito medo de eles se machucarem. Com a graça do senhor, você deve estar bem mais tranquila, Miranda.

Com muito amor, Aigis


25/06/08

Querida Miranda,

Estou muito abalada por tudo que vem acontecendo. Já se passou mais de 1 semana e meus pais ainda não retornaram. Estou tão procurada. Como cuidarei de minha irmãzinha e de mim mesma? Você sabe mais do que qualquer um que eu não sou o tipo de pessoa pessimista, mas eu não consigo desviar desses pensamentos numa hora destas. E se algo aconteceu com eles? E se estiverem mortos? Odeio isso, mas sinto que posso morrer a qualquer momento.

Não sei se temos água e comida o suficiente para sobrevivermos até essa chuva roxa acabar. Eu irei economizar o máximo possível e priorizar a alimentação da minha irmãzinha. Ela está bem por enquanto, apesar de eu ter receio de que eventualmente teria de abrir o jogo sobre nossos pais a ela. Eu ainda tenho uma fagulha de esperança que me faz acreditar que eles estão vivos, na verdade. No fundo do meu coração, eu ainda estou aguardando-os. Espero que esteja tudo bem com eles e que só estejam esperando a chuva passar, ou ao menos voltar ao normal.

Ainda vejo e ouço pessoas encerrando suas vidas de formas tão cruas, mas que causam nelas sentimentos tão positivos. Recentemente, quando eu espiei pela janela numa ocasião, vi uma pessoa abrindo seu próprio corpo com uma enorme tesoura enquanto ria descontroladamente. Eu me lembrei daquela primeira velhinha que vi morrendo logo após a chuva mudar. Eu me sinto tão mal vendo isso. Essa chuva com certeza é o que está fazendo essas pessoas cometerem esses atos, mas será que ela não é só um estopim? Céus, o que estou dizendo?

Eu realmente só queria entender o que está acontecendo. Primeiro começou a chover sem sequer uma única pausa. Algumas pessoas já se acidentaram com uma chuva normal, mas… Deus, eu nem quero imaginar quantos já se foram por causa dessa chuva anômala. Só de pensar no que pode ter acontecido com meus pais e no que pode acontecer conosco, eu já sofro com náuseas. Eu espero que você esteja bem, de verdade. Do fundo do meu coração, fique viva.

Com muito amor, Aigis


01/07/08

Querida Miranda,

Estou começando a ter muitos pesadelos por causa de toda esta situação, ainda mais com o sumiço de meus pais. Essa chuva púrpura está presente até quando não estou consciente. Pessoas continuem a gritar pelas ruas. Elas simplesmente se perdem quando entram em contato com a água da chuva. Como uma chuva pode mudar tanto a psique de alguém ao ponto da pessoa perder todo o significado da sua vida e tirá-la de uma forma tão brutal, mas "natural" ao mesmo tempo? Isso é genuinamente a coisa mais assustadora que eu já vi.

Todos os canais de notícia estão fora do ar por conta desta situação. Não sabemos de nada sobre o que está nos atacando. Não sabemos nem como nos proteger. O que faremos? Ninguém pode sair de casa. Daqui a um tempo, será até mesmo impossível de fazer contato pessoal com os outros. Você não se sente aprisionada sabendo disso, Miranda? Porque eu me sinto. Estou muito preocupada sobre como irei conseguir reabastecer a comida quando ela acabar. É inviável sair lá fora e tentar ir a um mercado, mesmo que seja o mais próximo.

Minha irmãzinha está gradualmente desenvolvendo insônia, assim como eu após isto começar. Isso se deve muito por conta de seus pesadelos, que são estrondosamente terríveis e pesados para uma criancinha. Ela constantemente vem me dizer pra eu ficar com ela para que os monstros de seus pesadelos não a peguem. Ela me disse que em seu último pesadelo estava com nossos pais no meio desta chuva e começou a repentinamente enfiar e remover uma faca de seu peito. Ela também me disse que pai e mãe estavam com suas cabeças de cabeça pra baixo, esboçando um sorriso gigantesco quando ela começou a se esfaquear. Ela veio me perguntar se eu ficaria feliz em vê-la fazendo isso. Eu senti enjôo e pavor naquela hora. Como uma criança pode pensar nessas coisas? Eu simplesmente não sou capaz de conceber isso. Abracei-a e não a tirei de perto de mim desde então.

Eu me pergunto se você está bem, Miranda. Eu realmente espero que esteja tudo certo por aí em meio a estes tempos difíceis. Quero muito poder te ver de novo depois desta maldita chuva passar. Não consigo sequer cogitar a possibilidade de você ter sido pega por causa da chuva.
Com amor, Aigis


07/07/08

Querida Miranda,

Embora eu esteja me esforçando para manter o controle da situação, sinto que o perderei em breve. Minha irmãzinha está começando a ver coisas. Se lembra dos pesadelos dela? Ela diz estar vendo nossos pais com cabeças viradas para baixo em seu quarto toda vez que vai dormir. Desde que ela me disse isso, passei a permanecer acordada ao seu lado em todas as ocasiões, dando conforto caso ela comece a ver coisas terríveis como essa.

Estou começando a desabar por causa disto tudo. Não como absolutamente nada a aproximadamente 2 semanas, já que as coisas estão acabando e eu preciso priorizar a saúde de minha irmã. Meu estômago está doendo e roncando muito. Por quanto tempo irei aguentar? Essa chuva não dá quaisquer sinais de que irá passar. Eu preciso comer algo, preciso descansar, mas eu simplesmente não tenho tempo pra isso. Meu cansaço está me debilitando muito. Não estou conseguindo nem mais ficar em pé. Estou muito fraca tanto física quanto psicologicamente.

Nenhum sinal de nossos pais. Acredito que eles… não, não. Eu não posso dizer uma coisa dessas. No que estou pensando? Desculpe. É por causa do cansaço. Apenas isso. Eles devem estar bem, né? … Eu só queria poder vê-los de novo. Eles sequer ligaram pra mim, mas eu não quero aceitar o motivo disso. Eu simplesmente não consigo.

Com amor, Aigis


16/07/08

Querida Miranda,

Embora eu tenha conseguido comer, estou simplesmente desesperada pois a comida está acabando. Só temos suprimentos o suficiente por apenas mais duas semanas. O que faremos depois disso? Não podemos sequer cogitar botar um pé para fora de casa. Morreríamos instantaneamente. Céus, desculpe pelo vocabulário grosso, mas eu estou simplesmente acabada.

Minha irmãzinha continua sofrendo com aqueles terríveis pesadelos envolvendo nossos pais. Eles simplesmente não param e ela se recusa a dormir para não ter de experienciá-los. Mesmo quando consigo convencê-la a pelo menos tentar descansar, ela não consegue repousar. O pior é que já vasculhei em todos os cantos e não encontrei sequer um remédio que consiga fazê-la descansar mesmo que só um tiquinho.

Outra coisa que anda me incomodando bastante em relação a ela é o fato de que as primeiras perguntas sobre nossos pais já começaram. Eu sabia que isso iria eventualmente ocorrer, mas eu simplesmente não achava que a pressão me consumiria da forma que está fazendo. Por quanto tempo terei de continuar a mentir? Ela não desconfia no momento, mas certamente irá se questionar sobre isso e fará me confessar toda a verdade. Não consigo evitar de pensar nisso. Como minha irmãzinha vai reagir a um fato tão aterrador e repentino, ainda mais no cenário em que estamos? Não quero deixá-la pior do que está.

Com amor, Aigis


24/07/08

Algo horrível ocorreu conosco ontem, Miranda. Eu honestamente não sei mais o que fazer. Estava com minha irmãzinha em seu quarto quando repentinamente começamos a ouvir fortes batidas vindas da porta. Achei muito estranho e assustei-me. Como alguém poderia estar lá fora nessas condições? Imediatamente pensei que a pessoa estaria encerrando sua vida batendo sua cabeça em nossa porta, mas essa teoria foi rapidamente descartada quando começamos a ouvir chamados vindos de lá fora, especificamente pedidos de ajuda.

Ficamos muito assustadas. Pedi para minha irmãzinha ficar em silêncio e se esconder de baixo da cama. Vi através do olho mágico de nossa porta e deparei-me com um senhor utilizando roupas em estado precário. Sua feição era a de alguém cansado e desesperado. Como era possível, entretanto, alguém não ser afetado por aquela chuva? Ele parecia totalmente indiferente a ela.

Mesmo vendo-o naquele estado, não pude deixá-lo entrar. Era muito suspeito. E se ele nos fizesse algo de mau? Mesmo com um aperto no coração, ignorei-o e tranquei-me junto de minha irmã em nosso quarto. As batidas continuaram por mais alguns minutos, aproximadamente 15, cessando repentinamente. Permaneci no quarto com minha irmãzinha.

O restante do dia continuou como qualquer outro desde que essa chuva começou. Permanecemos juntas e tentamos nos distrair com o que tínhamos. Ainda preocupada, fiquei ao lado dela durante seu sono a fim de garantir sua segurança durante a madrugada. Não consegui dormir.

Aproximadamente às 01h, as batidas na porta retornaram ainda mais intensas. Acordei minha irmãzinha e nos escondemos de baixo de nossa cama. As batidas persistiram por mais uns 10 minutos, sendo sucedidas por um fortíssimo estrondo. Alguém havia arrombado a porta de nossa casa. Permanecemos assustadas e num completo silêncio. Pelos barulhos, o intruso parecia estar procurando alguma coisa. A porta do quarto onde estávamos foi subitamente derrubada em uma única batida. Dessa forma, pudemos ver a silhueta do intruso. Mesmo naquela escuridão, pude identificar que era o mesmo indivíduo que estara na frente de nossa casa mais cedo.

Ele permaneceu imóvel em nosso quarto por um tempo, até voltar a se mexer e dirigir-se para a cozinha, um cômodo visível de onde estávamos. Ele revistou todos os armários do local e pegou o máximo de suprimentos que podia. Pensei que ele fosse um ladrão, contudo ele jogou todos os suprimentos que pegara pela janela. Por que ele faria algo assim? Qual o propósito disso?

Em seguida, o pior ocorreu. Ele acelerou em direção ao nosso quarto e ergueu a cama em que nos escondíamos. Ao fazer isso, pude perceber um tênue sorriso em seu rosto. Nos desesperamos imediatamente e começamos a gritar. Ele avançou para cima de nós e pegou em minha irmãzinha, agarrando-a firmemente. Ele retirou uma faca de seu bolso e colocou próxima do pescoço dela.

Desesperei-me e pedi a ele para soltá-la. Disse que ofereceria o que ele quisesse, até mesmo oferecendo minha vida no lugar dela. Minha irmãzinha começou a chorar e gritar por socorro enquanto eu permanecia trêmula e em completo estado de choque. O intruso começou a falar comigo e disse que aquele era o único jeito de eu me livrar da praga. Eu simplesmente não sabia do que ele estava falando, então resolvi perguntar.

Ele disse-me estar nos vigiando há um certo tempo. Disse que percebera o apreço que eu tinha pela minha irmãzinha, alegando que minha vida atual girava totalmente ao redor de eu protegê-la, como se fosse meu único propósito para continuar. Prosseguiu dizendo que os únicos capazes de serem imunes à chuva são os que perdem o rumo de sua existência. Sendo assim, era o que ele faria comigo, tirando minha querida irmã de mim com o intuito de "fazer-me sobreviver ao que estava lá fora".

Eu discordei de cada uma das palavras que esse maníaco psicótico me disse. Mesmo assim, eu não sabia o que fazer. Como eu a tiraria daqueles braços e o expulsaria de nossa casa? Antes que eu pudesse fazer algo, ele silenciou-a, lentamente cortando sua garganta. Tentei aproximar-me para salvá-la, mas ele acelerou o ritmo do corte quando eu o fiz. Posteriormente a isso, ele jogou seu corpo em minha frente. Minha irmãzinha ainda chorava e desesperadamente buscava por oxigênio. Abracei-a fortemente e comecei a chorar, pedindo a Deus para que a trouxesse de volta. Aquele maldito desgraçado apenas ria sutilmente enquanto isso.

Ele lentamente aproximou-se de mim e colocou sua faca ensanguentada em minha frente. Disse-me para eu vingar minha irmã, colocando suas mãos em meu rosto coberto de lágrimas. Céus, naquele momento, eu me perdi por completo. Deus, por favor, me perdoe, mas eu não pude me segurar. Agarrei firmemente a faca e comecei a esfaqueá-lo continuamente. Não sei por quanto tempo fiquei fazendo isso.

De alguma forma, ele ainda conseguia falar. Ele ainda teve forças pra se levantar e dizer-me que, a partir daquele ponto, seu corpo e o de minha irmã seriam minha fontes de alimento. Caiu abruptamente no chão depois disso.

… Eu não sei o que fazer.


Eu estou com muita fome. Não sei quanto tempo exatamente se passou. Talvez algumas semanas. Eu apenas estou com muita fome. Deus, por favor, não me obrigue a fazer isso. Eu não quero fazer isso. Eu estou bem. Não estou com fome. Certo, Miranda? Eu não estou com fome. Eu não preciso de comida. Eu estou perfeitamente bem. O dia está lindo e isso me alegra. Papai e mamãe já vão chegar e almoçaremos todos juntos. Por que você não vem também, Miranda? Vai ser aconchegante, como nos velhos tempos.

… Deus, o que estou dizendo? Eu me perdi completamente. Depois que eu firmemente agarrei aquela faca, minha humanidade, bem como o controle de minha vida, se esvaíram por completo. Senhor, não há o que fazer. Não dormi desde que aquilo aconteceu e estou começando a sofrer de fortíssimos delírios. O corpo de minha irmãzinha ainda está aqui, gélido, imóvel e pálido. Eu não toquei-o desde aquele dia. Eu não sou capaz de fazer algo com ele. A coragem em meu ser simplesmente some quando eu o olho, com meus olhos prontamente enchendo-se de lágrimas. Quanto ao corpo daquele maníaco, deixei-o trancado em um quarto separado. Também não consigo olhar pra ele. Quando eu o fiz, lembrei-me do quão ensanguentadas ficaram minhas mãos após eu atacá-lo.

O que devo fazer? Eu já não sei mais o que se seguirá daqui pra frente. A chuva roxa paira sobre minha mente. Os gritos de socorro de minha irmãzinha, bem como as palavras daquele maníaco, ainda ecoam em minha casa. Leve-me, Deus. Eu imploro por misericórdia. Tenha piedade de minha miserável existência e permita-me novamente ver minha irmãzinha e seu belo sorriso. Deixe-me abraçar meus pais de novo. Deixe-me voltar a ser um humano. Por favor, faça-me sumir.


Deus, eu estou com tanta fome. Não mande-me ao inferno caso eu faço algo imprudente, contudo eu não quero morrer de fome. Meu estômago dói muito. Eu preciso me alimentar de algo. Não, não. Eu não posso fazer isso. Eu não quero que o sangue manche minhas mãos novamente. Eu simplesmente não posso. Céus, eu comeria até mesmo um rato caso houvesse um nesta casa. Mas, não. Apenas os corpos deles… Não. Eu não posso fazer isso. Tenho de dar um jeito de livrar-me deles.

Mesmo com grande receio e um forte aperto em meu coração, carreguei ambos os corpos até a porta de minha casa. Abri-a e contemplei uma terrífica visão. Uma série de pilhas contendo inúmeros corpos amontoados, com suas fisionomias completamente desfiguradas. Enojei-me e comecei a vomitar. Rapidamente joguei os corpos para fora de minha casa. Após isso, corri para o banheiro, onde continuei a vomitar. Durante esse processo, comecei a soluçar e chorar, quase sufocando-me acidentalmente ao engasgar.

Em seguida, sofri do que acredito ser o mais forte de meus delírios. Os corpos que eu jogara para fora abruptamente surgiram em minha frente após eu deixar o banheiro. Pude sentir um fortíssimo odor pútrido vindo deles, como se estivessem em um estado avançado de decomposição. Eles, mesmo sem vida, começaram a rastejar rapidamente em minha direção. Gritei desesperadamente e implorei por misericórdia, fechando meus olhos. Quando abri-os novamente, os corpos haviam sumido.


… Deus, me perdoe. Eu clamo por misericórdia. Eu não pude resistir. Eu tive de ir até eles. Mesmo mortos, eles gritavam durante toda a noite para que eu os devorasse. Eu tive de silenciá-los. Eu não aguentava mais os gritos. Eu não aguentava mais a fome. Eu estava tão fraca. Eu precisava daquilo, mesmo que eu tivesse de novamente ter os sangue de meus semelhantes em minhas mãos.

Eu rapidamente movi-me para fora, sem pensar nas consequências, e avancei para cima dos corpos, que estavam da mesma maneira que eu havia os deixado. Comecei a mordê-los usufruindo das últimas forças em meu ser, engolindo-o seus membros da forma mais rápida que eu o podia. O sangue deles escorria pela minha boca e manchava meu corpo, mas pouco importava. Eu precisava de suas carnes.

Alimentei-me de tal forma que seus rostos ficaram completamente desfigurados, praticamente irreconhecíveis. Não sei por quanto tempo fiquei alimentando-me, contudo, quando eu percebi, estava completamente coberta de sangue. Minha camiseta, outrora branca, havia adquirido tons vermelhos. Descontrolei-me e comecei a chorar, gritando para o nada. Minha voz melancólica ecoava por todo o local. Mas nenhuma resposta podia ser ouvida.

E, então, nesse momento, foi que eu percebi. A chuva púrpura banhava meu corpo ensanguentado, mas não afetava-me. Eu permaneci imóvel olhando para os céus, sentindo cada pingo roxo que escorria pelo meu ser. Naquela imensidão de corpo, senti-me tão insignificante quanto minhas lágrimas na chuva púrpura.

… E então sorri.





















































































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