Item n°: SCP-7242
Classe do Objeto: Neutralizado
Procedimentos Especiais de Contenção: SCP-7242 não aparenta mais ser uma ameaça. Qualquer informação recuperada sobre SCP-7242 deve ser mantida no acervo para revisão. Esses arquivos devem ser atualizados se mais informações forem disponibilizadas. Além de manter registro, nenhum outro procedimento de contenção pode ser aplicado.
Caso os destroços de K-122 sejam encontrados, o mesmo deve ser imediatamente investigado por uma força-tarefa móvel em busca de quaisquer atividades anômalas. A implementação de procedimentos de contenção dependerá do encontrado.
Descrição: SCP-7242 foi um submarino Classe November construído em 1963 sob a designação K-122. Segundo fotos, documentação, bem como registros de manutenção e construção, não havia diferenças perceptíveis entre SCP-7242 e outros submarinos contemporâneos do mesmo modelo.
A natureza precisa da anomalia não é clara. Registros desconfidencializados da GRU-P oferecem algumas informações, bem como o testemunho do primeiro oficial Vasili Kestrov. É claro que esses relatos estão limitados ao que era do conhecimento de todos os envolvidos. Os seguintes detalhes foram extrapolados a partir dos relatos disponíveis.
- SCP-7242 aparenta estar conectado ao submarino K-122.
- SCP-7242 produzia um efeito memético que afetava as mentes de sua tripulação. Este geralmente resultava em alucinações visuais e auditivas. O efeito também podia alterar as memórias de uma pessoa e manipulá-las.
- SCP-7242 tinha, no máximo, um controle extremamente limitado sobre os sistemas do K-122. Todas as máquinas a bordo de K-122 aparentavam funcionar normalmente e podiam ser operadas independentemente da influência da anomalia.
- Embora não confirmado, é possível que os efeitos da anomalia só fossem desencadeados quando submerso.
No entanto, uma série de incidentes levou o K-122 a desenvolver a reputação de ser "amaldiçoado," embora informações sobre a extensão de sua natureza anômala tenham sido expurgadas dos Registros Soviéticos. Sabe-se que múltiplos funcionários ficaram feridos ou foram mortos durante a construção de K-122. Isto era frequentemente causado por acidentes repentinos, muitos dos quais eles insistiam que deveriam ter sido impossíveis. Alguns membros da força de trabalho relataram ouvir vozes ou ter alucinações.
Apesar das estranhas ocorrências, estas queixas foram inicialmente rejeitadas como superstição pela marinha soviética e a produção problemática foi encoberta. Durante o seu lançamento, uma garrafa de champanhe foi batida contra K-122 e não quebrou.
K-122 foi colocado sob o comando de Dmitri Teraskovich, um capitão soviético condecorado. Teraskovich então usou sua posição para recrutar um velho amigo, Vasili Kestrov, como seu primeiro oficial. K-122 zarpou pela primeira vez em 30 de junho de 1963 para uma patrulha de três meses no Atlântico.
Adendo: Diário de Kestrov
31 de Junho de 1963
Entramos em águas abertas. As instruções atuais são para prosseguir para o Atlântico Norte. É uma sensação estranha. Uma semana atrás, eu era só mais um soldado da infantaria naval, mas Teraskovich… Acho que ele queria alguém em que pudesse confiar. Ele mexeu alguns pauzinhos para me transferir para esta posição. Parece difícil de acreditar, mas acho que estou deixando minha família orgulhosa. Minha família tem uma longa tradição naval. Meu avô estava a bordo do Potemkin. Eu sempre soube que isso iria acontecer algum dia, mas realmente ver isso acontecer.
Teraskovich fez muito para me preparar para este momento. Todos esses anos navegando com ele para cima e para baixo no rio Moscou se mostraram muito úteis.
A parte difícil é o ambiente apertado. Ele é tão estreito e você está cercado por todos os lados. Admito que sinto falta do ar salgado da superfície, mas sabia no que me meti quando assumi esta posição. Ficar preso em uma lata com 105 homens pode ser difícil, mas estar debaixo d'água é, de certa forma, emocionante. Estamos tão fundo. Poucas pessoas podem dizer que estiveram onde nós estivemos.
É claro que seria um pouco mais emocionante se eu pudesse realmente ver um pouco do oceano ao meu redor. Se ao menos pudéssemos ter vigias. E é fácil esquecer o quão vasto é o oceano quando passamos os dias com mais de cem homens num tubo de metal.
Parece que há mais homens a bordo do que quando partimos. Continuo vendo rostos que não reconheço, ouvindo nomes que não lembro de ter visto no manifesto. Às vezes parece que os membros da tripulação aparecem do além. Mas temos muitas pessoas neste barco. Será mais fácil acompanhar quando passarmos mais tempo juntos.
2 de Julho de 1963
Até o momento, o K-122 tem tido um desempenho admirável. Emergimos no Atlântico Norte nas coordenadas 75°00'28,0"N 24°42'48,4"E. Teraskovich disse estar orgulhoso da tripulação. No jantar, ele trouxe uma garrafa de champanhe para compartilhar com os oficiais. Ele fez um comentário brincalhão sobre como substituiria todas as provisões do K-122 por champanhe, se o Kruschev permitisse. Mas ele não queria negar à tripulação qualquer tipo de recompensa pelo seu trabalho árduo. Não podíamos levar álcool suficiente para dar a toda a tripulação, então Teraskovich teve uma ideia um pouco diferente.
Ele conseguiu trazer um toca-discos a bordo, embora eu não faça ideia de como. Ele o tratou como um presente para a tripulação desfrutar. Ele também fez algo a mais- ele forneceu múltiplos discos pra tripulação, em sua maior parte de compositores clássicos. Eles estão muito animados. O moral parece ter subido e acho que eles gostam de ouvir ao toca-discos enquanto trabalham.
4 de Julho de 1963
Teraskovich recebeu novas ordens do comando. Espera-se que mudemos o rume para as coordenadas 43°55'19,9"N 59°30'30,3"W. Verifiquei os mapas- isso nos coloca na costa da Nova Escócia. Isso fica do outro lado do Atlântico. Parece estranho nos pedirem para nos deslocarmos para lá, mas Teraskovich recusou-se a dizer por quê. Ele apenas disse que eram as ordens do Kremlin e que as informações eram confidenciais.
Detesto duvidar da pátria mãe, mas por que estamos indo em direção ao Canadá? Sei que não estamos nas melhores condições, mas não creio que eles representam uma ameaça significativa? Eles sequer têm mísseis nucleares? Houve aquele incidente com o avião, mas eles só foram pegos no fogo cruzado. Certamente o Kremlin não guarda rancor do Canadá por querer evitar a destruição mútua assegurada.
Algo nesta missão parece errado. Nada está batendo, mas o Teraskovich parece saber o que está fazendo. Com sorte, tudo isso fará sentido eventualmente.
5 de Julho de 1963
Melnik teve uma febre repentina. Dr. Sobol está fazendo o melhor que pode, mas não temos certeza do que aconteceu. Ele estava bem ontem, mas esta manhã ele desmaiou do nada. Ele afirma ver o lado de fora, ver a água. Isso não deveria ser possível. Não temos vigias. Ele de alguma forma conseguiu alucinar janelas? Não pretendo entender o que se passa em sua cabeça, mas isso o deixou preocupado.
Tentei falar com Teraskovich. Ele parecia indiferente, insistindo que a condição de Melnik não era um problema. Ele nos disse para mantê-lo isolado. É difícil imaginar que este é o mesmo homem que deu Vodka a todos alguns dias atrás.
6 de Julho de 1963
Apesar dos esforços de Sobal, a febre parece estar se espalhando. Agora o Petrov está doente. Os sintomas parecem ser os mesmos, mas o que acho mais perturbador é o que ele está dizendo. Ele também afirma ouvir vozes do lado de fora- como se alguém estivesse falando com ele do oceano. Isso é impossível, não é? Mas ele também afirmou ter visto vislumbres do exterior e supostamente ter visto corpos flutuando na água. Parece muito com as alucinações do Melnik.
Não consigo deixar de me sentir preocupado. Certamente deve haver uma explicação racional para tudo isso. Talvez o Petrov tenha ouvido Melnik e isso ficou gravado na sua mente. Eu sei que tem que haver uma explicação lógica, mas há uma pequena parte de mim, como uma voz no fundo da minha mente, que simplesmente não consegue afastar a ideia de que eles estão certos. E algo realmente está lá fora.
Teraskovich Parece estar sob muita pressão para terminar a missão. Ele gritou com o Sobal, exigindo que ele "fizesse seu trabalho" e curasse Melnik e Petrov. Conheço o Teraskovich há vinte anos, ele nunca gritou assim com ninguém. Seja o que for que o comando queira de nós, isso já está afetando ele.
7 de Julho de 1963
Não consegui dormir ontem à noite. Pensei ter ouvido algo. Quase parecia uma voz sussurrando em meu ouvido, só que eu não conseguia entender nada do que ela dizia. Ela então desapareceu assim que ela apareceu. E então Dr. Sobal chegou à minha cabine e me disse que Melnik e Petrov haviam desaparecido da enfermaria. Tentei pedir ajuda à tripulação, mas o Teraskovich anulou minhas ordens. Todos a quem tentei pedir ajuda, ele dizia para voltarem às suas funções. Como se ele não se importasse com os tripulantes desaparecidos.
Encontramos o corpo do Petrov na sala de torpedos. Não sei como ele conseguiu, mas de alguma forma ele roubou uma pistola de um dos oficiais e se matou. Não conseguimos encontrar o Melnik em lugar nenhum. Como isso é possível? Ele não poderia ter pulado no mar. Em quantos lugares uma pessoa pode se esconder em um submarino submerso?
A menos que… não, isso não pode estar certo. Será que o Melnik se colocou em um tubo de torpedo?
Algo está errado aqui. Não sei o que está acontecendo, mas quanto mais seguimos adiante, mais começo a pensar que estamos no meio de algo.
8 de Julho de 1963
Teraskovich ordenou que aumentássemos a velocidade em 30 nós. Ele então me chamou aos seus aposentos. Encontrei ele sentado com uma garrafa de vodca, o copo já servido. Ele entregou a garrafa para mim. Ele revelou algo chocante, algo que não posso contar a ninguém. As ordens que ele recebeu- suspeitava que houvesse algo acontecendo, mas… não pensei que seria isso.
Finalmente aconteceu. Nós todos sabíamos que era uma possibilidade, mas secretamente esperávamos que isso nunca acontecesse. Aparentemente, a América lançou um míssil nuclear diretamente contra o Kremlin. Moscou agora é um deserto irradiado. Nossas ordens eram para lançar nossos mísseis contra os Estados Unidos.
Não consigo acreditar. Parece tão surreal, mas há outra parte que ainda me incomoda. Por que estamos nos movendo em direção ao Canadá. Teraskovich insiste que é o melhor ponto de lançamento, mas isso não faz sentido para mim. Não seria melhor se nos aproximássemos da costa americana?
Quaisquer que sejam suas razões, a situação piorou muito. Nunca pensei que viveria para ver esse dia.
10 de Julho de 1963
Nós atingimos algo. Tudo aconteceu tão de repente. Num momento, estava tudo bem. No outro, nos ouvir bater em algo. O submarino todo pareceu tremer sob nossos pés. Fui jogado no chão. Sobal teve que tratar múltiplos homens feridos. Parece que atingimos uma montanha.
Teraskovich ficou furioso. Ele me culpou por isso. Ele começou a me chamar de incompetente e me acusou de ser ingrato por ter me arrumado o cargo de primeiro oficial.
O único problema é que verifiquei nossos mapas. Pelo que sei, fizemos tudo certo. Não deveria ter uma montanha lá. Nas nossas coordenadas atuais não deveria haver nada mais do que mar aberto? Então, como nós acertamos uma montanha? Ou será que batemos em outra coisa? E se sim, no que?
Estamos todos nervosos. Eu esperava que tudo isso fosse fazer sentido, mas quanto mais entramos nessa confusão, mais confuso parece ficar. Teraskovich não queria que eu contasse aos homens que seus lares já podem ter sido destruídos. A esta altura talvez não reste mais nada da Rússia. Mas parece difícil de acreditar aqui.
Se a situação é tão má como diz Teraskovich, certamente já teríamos começado a sentir os seus efeitos a essa altura. Não houve um sinal de radiação fora do nosso reator. As correntes de água parecem perfeitamente normais. Talvez estejamos um pouco profundos demais, não sei.
11 de Julho de 1963
Felizmente, ainda estamos funcionais apesar dos danos. Conseguimos evitar uma ruptura no casco, mas não creio que devêssemos correr mais riscos. Perdemos o Tchaikovsky. Ele sofreu uma concussão quando atingimos a montanha. Ele sofreu uma concussão quando atingimos a montanha. Sobal declarou ele morto esta manhã. Mais três estão em estado crítico e os suprimentos médicos são limitados.
A tripulação está ficando inquieta. Muitos vieram até mim para expressão sua frustração em relação a Teraskovich. Temo de ter que escolher entre meu capitão ou minha tripulação. Mas parece que não resta muito de Teraskovich nele.
Eu gostaria de encontrar uma maneira de acabar com isso sem derramar sangue, mas isso está começando a parecer impossível.
12 de Julho de 1963
Eu estava na ponte quando Orlov me abordou. Ele perguntou se eu poderia conversar em particular. Me encontrei com ele em meus aposentos, ele me disse que a tripulação tem estado com medo. Todos sentem que vão morrer e o Teraskovich se recusa a ouvir. Ele mencionou ter medo do que aconteceria e uma sensação de que havia algo muito errado. Ele alegou sentir como se houvesse algo lá fora, nos observando. Depois dos últimos dias, não parece difícil de acreditar.
Ele eventualmente admitiu que a tripulação tem falado sobre tentar… dispensar Teraskovich de seu comando. Por mais que eu odiasse admitir, ele estava perdido. Esta missão estava custando muito.
Não vou afirmar que gosto, mas é hora de agir. Vamos enfrentar Teraskovich. Duvido que ele entenda, mas talvez possamos contê-lo até que possamos voltar para a pátria. Talvez o que quer que tenha entrado em sua mente perca o controle e ele eventualmente nos agradeça.
13 de Julho de 1963
Estou escrevendo isso no escuro, à luz de uma lanterna. Parece que vamos morrer aqui. Estamos afundando. Se o pior acontecer, pretendo colocar este diário num recipiente à prova d'água e lançá-lo no oceano. Dessa forma, posso pelo menos garantir que haja um registro do que aconteceu aqui, presumindo que ainda haja alguém para lê-lo.
Orlov abordou Teraskovich, explicando os sentimentos da tripulação e sua decisão de dispensá-lo do comando. Teraskovich atirou nele na hora. Quando dou por mim, o resto da tripulação estava se amotinando. Teraskovich atirou em pelo menos mais cinco homens antes de se virar para mim. Ele me chamou de traidor e apontou a arma para minha cabeça.
Eu apenas fiquei lá. Toda a minha vida eu conheci esse homem. Nunca pensei que ele se voltaria contra mim desse jeito. Antes que ele pudesse atirar, as luzes se apagaram. Eu corri. Eu não me importei para onde, só precisava fugir de Teraskovich. Tentei sentir as anteparas ao meu redor, procurando as portas. Eventualmente encontrei o Zima, que me deu uma lanterna.
Foi então que comecei a perceber o que havia acontecido. Não estava só escuro, estava silencioso. Encontrei mais alguns homens, todos assustados e confusos. Parecia que todos os sistemas do submarino estavam mortos.
Encontrei Kovalchuck na sala de máquinas. Eu esperava que ele soubesse consertar os motores, mas foi aí que as coisas ficaram ainda piores. Ele me disse que tem verificado tudo, mas não conseguiu encontrar nada de errado. Eu o ajudei a inspecionar o reator- ele estava em perfeitas condições. Nem mesmo uma rachadura.
Nada parecia estar quebrado, todos os sistemas a bordo haviam desligado ao mesmo tempo.
Quando finalmente tive coragem de voltar para a ponte, encontrei Teraskovich olhando pelo periscópio. Não sei o que ele esperava ver naquela profundida, mas ele parecia estar fixado em algo.
Eu só queria deixar minha família orgulhosa. Eu queria ter sido o filho que você queria.
14 de Julho de 1968
As luzes ainda estão apagadas. Estamos presos na escuridão e nossas opções parecem inúteis. Não conseguimos nem fazer o banheiro funcionar, mas ninguém consegue encontrar nenhuma falha mecânica. Talvez possamos racionar alimentos, mas duvido que nosso ar dure muito mais tempo se não conseguirmos fazer a filtragem funcionar. O ar está ficando envelhecido. Já vi alguns homens de cama e alguns já morreram. Não podemos fazer nada com os corpos deles, então agora tem o fedor também.
Mas há algo sobre essa escuridão que não parece natural. Não é só que não temos luz. Ela, de alguma forma, é capaz de absorver a luz das nossas lanternas. Não consigo iluminar mais do que bem na minha frente.
Tenho notado também que navegar está se tornando mais difícil. Muitos de nós estamos nos perdendo tentando nos movimentar. As portas não estão indo aonde deveriam. Tentei chegar à sala de máquinas e me vi na cozinha. Quando voltei de onde vim, estava na sala de torpedos.
Não consegui encontrar Teraskovich. Ele estava na ponte quando as luzes se apagaram, mas não consigo chegar lá. Tentei múltiplas vezes, mas cada tentativa de entrar me levava para uma sala diferente. É como se algo estivesse mudando o layout para nos redirecionar. Como isso é possível?
Vou preparar o recipiente para este diário. Se não obtivermos resultados nas próximas 24 horas, vou lançá-lo no oceano.
15 de Julho de 1968
Se milagres existem, acho que acabamos de ver um. Não sei como, mas tudo voltou a funcionar. As luzes se acenderam de repente e os motores começaram a funcionar. Tudo parece estar funcionando novamente, como se o apagão que passamos nos últimos dois dias nunca tivesse acontecido. O alívio parece ter tornando tudo um pouco mais calmo, mas temo que seja apenas uma calmaria temporária entre tempestades.
Estou aliviado por termos uma chance de escapar deste pesadelo, mas o Teraskovich ordenou que continuássemos em frente. Eu queria voltar à superfície. Não sei quanto mais o K-122 consegue aguentar. A essa altura me pergunto se não seria melhor nos arriscarmos no deserto radioativo que o mundo pode ter se tornado. Mas ele não quis ouvir. Em vez disso, ele me disse que eu estava dispensado do comando e ordenou que eu ficasse confinando aos meus aposentos.
Ninguém manteve essa ordem, mas tenho a sensação de que é apenas uma questão de tempo até que se revoltem novamente.
16 de Julho de 1968
Finalmente aconteceu. Tudo deu errado. Não posso afirmar que estou orgulhoso do que fiz, mas alguém tinha que fazer algo. Alguém tinha que acabar com a loucura. Capitão Teraskovich está morto. O homem que eu admirava, que me ensinou a navegar- o sangue dele está em minhas mãos. Mas ainda não consigo evitar a sensação de que ele já estava morto. O homem que vi naqueles momentos finais não foi o homem que me levou para navegar no rio Moscou.
Detectamos um destroier americano na superfície. Mas percebi algo estranho. Mapeamos seus movimentos. Ele parecia estar em uma rota regular de patrulha, como se nada estivesse acontecendo na superfície. Agora estou diante de uma conclusão chocante. Teraskovich mentiu. Não há guerra acontecendo acima de nós. Mas por que ele faria isso?
Os homens estavam ficando desesperados. Aquele era o primeiro sinal de alguém que poderia nos ajudar. Eles não se importavam se aqueles eram nossos inimigos. Zima implorou a Teraskovich que se rendesse a eles. Ele chamou Zima de covarde e traidor da pátria. Tentei intervir, mas ele simplesmente me empurrou para o lado e me disse que um traidor precisava ser punido adequadamente. Consegui agarrá-lo e tirar a arma de sua mão. Foi tempo suficiente para Zima correr.
Mas ainda não tinha acabado. Não muito depois, Teraskovich chamou todos à sala de torpedos. Quando cheguei, o vi segurando Zima. Aparentemente, num ato de desespero, Zima tentou contato com o navio americano e foi pego em flagrante. Teraskovich alegou que ele era um espião revelando segredos importantes aos americanos. Mas não esquecerei o que o vi fazer.
Ele alegou estar fazendo de Zima um exemplo. Ele ordenou que observássemos enquanto ele abria o tubo de torpedo e jogava o pobre garoto para dentro e então o selava. Ele então iniciou a sequência de lançamento.
Naquele momento, algo mudou. Eu sabia que tinha que fazer algo. Alguém tinha que parar a loucura. Vi uma chave-inglesa e de repente uma sensação de raiva tomou conta de mim. Esperei até que o capitão virasse as costas e me aproximei dele. Bati a chave-inglesa com uma força que não sabia que tinha, bem na cabeça dele.
Foi só quando vi o corpo dele que percebi completamente o que tinha feito. Eu não queria matá-lo, mas de que outra forma eu poderia acabar com esse pesadelo? Sem Teraskovich, eu estava agora no comando e podia ordenar à tripulação para subirmos à superfície.
Fui até a ponte e comecei a dar as ordens. Colocamos tudo o que tínhamos em movimento de subida. A equipe trabalhou mais duro do que eu já tinha visto desde que partimos.
17 de Julho de 1963
Finalmente, algum silêncio. Estamos na superfície há um dia. Não quero correr nenhum risco debaixo d'água, mas tudo parece estar funcionando bem. Talvez uma inspeção na doca seca revele mais sobre o que tem acontecido conosco. Por enquanto, estamos felizes por estarmos vivos. Estou escrevendo isso no convés, com uma brisa fresca e ar puro. Achei que não vivenciaria nada disso novamente quando a energia caiu.
Colocamos os corpos de nossa tripulação abatida para descansar. Eles receberam um enterro de marinheiro. Não pude assistir quando eles colocaram Teraskovich na água. Ainda não consigo acreditar que ele se foi.
Enviamos um pedido de socorro e nossos suprimentos restantes devem durar até sermos resgatados. Por enquanto, acho que a tripulação ganhou essa folga. Não lhes pedi mais nada.
Eu sei que haverá dúvidas sobre o que aconteceu com Teraskovich. Farei o meu melhor para respondê-las. Duvido que alguém acredite em mim, mas o que mais posso falar? Por enquanto, gostaria apenas de aproveitar as ondas calmas. Mas eu não me importaria de tomar um banho quando voltarmos.
Não sei pelo que passamos lá em baixo. Provavelmente nunca saberei com certeza. Minha imaginação corre solta com especulações. Eu me pego imaginando monstros marinhos de lendas antigas, talvez tenha sido nisso que batemos. Seja o que for, já não parece estar nos afetando, mas deve estar por aí em algum lugar.
Adendo: Arquivo da GRU-P
Depois que a tripulação restante foi resgatada, Kestrov assumiu a responsabilidade pela morte de Teraskovich. Este ato resultou brevemente em uma investigação pela KGB, durante a qual Kestrov tentou contar o seu relato dos acontecimentos. A descrição de Kestrov de ocorrências anômalas foi inicialmente rejeitada pela KGB, que estava preparada para acusá-lo de atividade antissoviética pelo assassinato de um oficial condecorado. No entanto, Kestrov foi discretamente exonerado depois que seu relato chegou ao oficial da GRU-P Sergei Veronin.
A seguir está uma parte do relatório oficial da GRU-P que foi desconfidencializado em 1991.
OSI: K-122
Aprovado: 16-VII-1963
Assinado………….S
Funcionário Responsável: Sergei Veronin
Chefe de Departamento: Capitão Boris Medved
Detalhes: K-122 é a designação de um submarino da classe November enviado para uma patrulha de três meses em 30 de junho de 1963. Em 14 de julho de 1963, K-122 foi encontrado à deriva no mar, com vários de seus tripulantes, incluindo o capitão Dmitri Teraskovich, mortos. Primeiro oficial Vasili Kestrov descreveu múltiplas ocorrências estranhas a bordo do K-122. Entrevistas com membros de sua tripulação apresentaram relatos semelhantes. Consulte o diário em anexo.
O incidente envolvendo K-122 resultou na culpa recaindo sobre o primeiro oficial Kestrov. No entanto, depois de analisar as evidências disponíveis, observei que alguns detalhes de seu relato não coincidiam. Nada no registro de Kestrov fornece qualquer motivo lógico para matar Teraskovich. Na verdade, parece que ele tinha todos os motivos para não matá-lo.
Falei com Kestrov e coletei seu testemunho. O seu relato está conforme o que foi descrito e ignorado pelos relatórios da KGB, mas percebi algumas peculiaridades. Ele afirma que Teraskovich recebeu ordens para disparar mísseis da costa da Nova Escócia. No entanto, a minha investigação descobriu que o capitão Teraskovich recebeu ordens explícitas de manter silêncio de rádio durante a viagem, e não encontrei nenhum registro que indique que esta regra tenha sido violada de alguma forma.
Gostaria de investigar este assunto mais a fundo. É possível que Kestrov tenha descoberto uma anomalia aquática ou que haja algo de anômalo no submarino. Se isto for verdade, ele poderia representa um perigo ainda maior para a nossa frota. Precisamos identificar essa anomalia.
Procedimento recomendado: o K-122 não deve ser reenviado para uso naval até que suas propriedades anômalas, se houver, tenham sido devidamente compreendidas. Recomendar que K-122 seja levado para uma instalação segura sob o pretexto de ter sido desativado devido a danos sofridos. Os tripulantes sobreviventes podem ser liberados após interrogatórios adicionais. Encorajá-los a espalhar boatos sobre uma "maldição" que afeta o submarino.
Registros oficiais indicam que K-122 foi desativado devido a danos sofridos em sua viagem inicial.
Na verdade, a GRU-P o levou para uma doca seca não revelada para pesquisa adicional. Os resultados da pesquisa da GRU-P aparentam ter sido expurgados de todos os registros conhecidos. A localização e o destino finais de K-122 permanecem desconhecidos.





