Só mais um dia em Bangu
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Era apenas mais um dia normal em Bangu, Rio de Janeiro.

Eu acordei para mais um dia como outro qualquer. Eram 6:30 da manhã, o sol nascendo no horizonte e o silêncio mortal de Bangu no ar. Os dias mudaram, Bangu já não era tão movimentado quanto costumava ser, mas será que alguém se lembra disto? Será que eu me lembrarei disto?

As folhas caem de uma árvore morta no meu jardim e os pernilongos faziam a festa com o meu marido dorminhoco. A cada dia que se passa Bangu se esquece mais e mais de um pouco de tudo, mas será que alguém se lembra disto?

A Fundação certamente se lembra, mas o que eles podem fazer? Seus aparelhos de memória estranhos só conseguem tratar tantas pessoas de uma só vez, e apenas tantos conceitos de uma só vez.

Eu tomei um banho de água quente, muito quente, pelando. O vapor d'água subindo e saindo pela pequenina janela de meu banheiro. Eu sai do chuveiro e vesti minhas roupas para mais um dia de trabalho no Shopping de Bangu. Eu ainda me lembro de que eu recentemente aluguei uma das lojas do Shopping de Bangu e abri um pequeno negócio lá.

É uma pena que o Shopping já não é mais tão movimentado quanto costumava ser.

Eu preparei um café da manhã com direito a pão e um café rápidos, eu tenho que sair em meia hora para me encontrar com minha amiga para mais um dia de trabalho no Shopping.

Fechando a porta atrás de mim, eu sai de casa e contemplei o mundo externo por um momento. Pombos voando da casa de meu vizinho Mauricio, o velho homem não se cansa de ver as aves. As plantas antes verdejantes de meu jardim agora perdiam sua beleza e seu verde, e uma tempestade se formava a oeste de minha casa com o vento empurrando a tempestade emergente para a direção oposta a que fica minha casa.

Eu finalmente respirei fundo e bati o portão de minha casa, com uma máscara cobrindo a maior parte de meu rosto e o vento forte batendo em minhas costas. Eu olhei para a esquerda e vi um carro com a logo deles estacionado em frente a casa de meu vizinho Luiz, aparentemente o pobre velho teve um encontro com o esquecimento.

Eu olhei para a direita, e então voltei a olhar para a esquerda para a casa de Luiz. Nenhum carro. Nenhum Pedestre. Apenas o carro deles com a logo deles estacionado lá, mas será que eu sequer deveria ser capaz de me lembrar deles a esta altura?

Eu andei por algumas ruas vazias, e mais vazias, e ainda mais vazias, até que cheguei na Avenida Santa Cruz, que estava tão vazia quanto as demais ruas, sendo as únicas exceções os ocasionais ônibus e caminhões e escassos carros. Praticamente todos estavam em suas casas, trancados.

Eu andei até o ponto de ônibus, com cuidado para não tropeçar em uma das pedras no chão de pó e pedras soltas, eu não gostaria de ter outro acidente como da última vez, gostaria?

Eu ainda me lembro de quando eu era criança e tropecei em uma dessas calçadas fajutas. O sangue pingando de meu joelho e de minhas mãos. Sim, eu me lembro, mas por quanto tempo?

Eu olhei para o relógio. 7:23. O ônibus parou na estação e embarquei, rumo ao Shopping de Bangu para me encontrar com minha amiga.

Eu olhava pelas janelas do ônibus, contemplando o vazio das ruas que antes eram lotadas de pessoas. Lotadas de carros. O trajeto que normalmente demoraria mais de 10 minutos para o ônibus percorrer agora poderia ser percorrido em menos de 5.

Eu olhei para a Casa&Vídeo fechada ao lado do Shopping. Minha loja era uma das poucas que ainda abria dentro do Shopping e em todo o bairro de Bangu. Mas será que alguém se lembra de Bangu? Será que alguém se lembra do mundo?

Por que abrir minha loja? Eu me perguntava, já sabendo da resposta.

Todos estão em suas casas, as ruas vazias, as lojas estão com suas prateleiras vazias. O pânico tomou conta de Bangu, apenas para então silenciar o bairro inteiro. Silenciar a cidade inteira.

Bangu, não, a cidade maravilhosa inteira estava em silêncio. Um silêncio desconfortante. Já não haviam mais confrontos entre a polícia e as quadrilhas nos morros, já não haviam mais festas, apenas silêncio. Todos se esqueceram, e todos estão tentando se lembrar, mas não conseguem.

Eu desci do ônibus e me encontrei com minha amiga. Mas ela já não se lembrava… não se lembrava de algo. Ela não sabia pois ela o esquecera. Algo relacionado a olhar para cima… A pobre coitada foi vitima do bicho do esquecimento.


Os agentes preparavam o aparelho minési- misné- essa aparelho de memória ai para tratar minha amiga no lado de fora do Shopping com alguns dos poucos pedestres parando para olhar.

Enquanto eles faziam essa punção de sei lá das quantas para introduzir as memórias na minha amiga eu me lembrava, lembrava das vezes em que eu assistia a minha própria filha passando por isso.

"Um buraca na cabeça." Ela dizia sentir quando isto acontecia, mas isto não se compara, segundo a safada, à dor que é ter um destes dispositivos de memória introduzidos na sua coluna vertebral ou seja lá onde eles enfiam essa porcaria, mas que funciona, funciona.

Eu entrei no Shopping, passando pelo quiosque do McDonald's eu decidi comprar um sorvete de baunilha, meu favorito.

A jovem funcionária do quiosque me atendeu com uma expressão vazia de sentimento, em nenhum momento fazendo contato visual. Assim como qualquer um o faria em tempos como esses.

Como se em uma dança das cadeiras eterna as pessoas dançam para a música a ser tocada e a música nada mais é hoje do que a mais triste das músicas, mas ninguém se lembra da música, e ninguém logo se lembrará de quem é, e ninguém estará lá para assistir à dança das cadeiras eterna quando esta finalmente tiver um vencedor, se é que vai ter um vencedor, pois ninguém vencerá a dança das cadeiras eterna.

Eu passei pelos corredores do Shopping como se em uma dança melancólica onde o espectador é ninguém, com os corredores do Shopping praticamente vazios, salvo o ocasional vendedor indo abrir sua loja ou o ocasional cliente que explora o vazio do Shopping.

Eu estava ficando velha, isso é evidente. Minha memória não é das melhores, e definitivamente não ajudaria se esse bicho devorador de memórias interferisse. Eu estava apenas contemplando o vazio do Shopping, sentada, antes de abrir minha loja.

O único lugar do Shopping inteiro que não estava tão vazio quanto o restante de Bangu era o quiosque montado por eles. Pessoas faziam filas para pedir ajuda a eles, os efeitos do esquecimento pioravam a cada dia e expandiam listas com milhares de nomes de pessoas vitimas de 3848.

Eu cheguei em minha loja fechada, e abri-a. Em minha loja eu me sentia por um momento, mesmo que breve, desconexa do mundo externo, desconexa do que resta do mundo externo.

Gotas caem no chão da minha loja, uma goteira na minha loja vazava, mas esta goteira não estava nas paredes, ou no teto, mas no meu rosto. Eu chorava no balcão de minha loja enquanto me preparava para abri-la para mais um dia de negócios com talvez mais um ou, com sorte, três clientes.

Para que abrir a loja? Para que buscar refúgio aqui? Eu me perguntava isto todos os dias. Buscar refúgio em uma loja não é muito diferente de se esconder em minha casa até que todos se esqueçam de tudo e ninguém mais se lembre de nada.

Eu me sentava em minha loja para assistir ao mundo lentamente se esquecer de tudo e todos. Eu me senta em minha loja como uma espectadora participativa no fim do mundo.

Mas então, eu comecei a me sentir engraçada… Um buraco se formando em minha cabeça e minha cabeça se partindo em duas, minha cabeça era como uma hidra sendo cortada ao meio para logo virar duas, exceto que eu não viro duas. Um buraco crescente e crescente se formava em minha cabeça, uma sensação muito estranha que parecia não ter fim, meus olhos doíam tanto que eu queria arranca-los para reduzir a dor que eu sentia.

A hidra de minha cabeça acabara de cuspir fogo em meu crânio, que ardia como se em chamas, eu podia ver essa chama na forma de uma luz branca em minha cabeça. Eu sentia isto, eu sentia minhas memórias sobre algo simplesmente desaparecendo de minha cabeça, sobre o que eu não sei, eu não me lembro. Mas logo eu lembrarei, a ajuda está chegando.

Minha cabeça dói de tentar lembrar disto.

Eu cai ao chão, eu estava tonta da dor, eu estava perdendo os sentidos. O bicho papão das memórias chegou em minha loja e agora queria uma lembrancinha antes de sair.

Mas o que eu poderia fazer para evitar isto? Eu estava no chão, enquanto os agentes me atendiam, começando a fazer perguntas confusas ao meu ouvido.

Mas este era apenas mais um dia em Bangu, Rio de Janeiro.

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