Os Poucos Escolhidos
avaliação: 0+x

CENTRAL: Demônio da Velocidade


Eu não costumo ficar em Três Portlands, mas os botecos são inigualáveis e os bartenders não estão programados para fazer perguntas. Eu peço uma bomba-blit, e Hersh gira com um clique e começa a misturar um coquetel de produtos químicos brilhantes que seriam mais adequados para uma tigela de gelatina ou tanque de lixo tóxico. O pub já viu dias melhores: a pintura está deformada e rachada, o ar é como fondue derretido e todos aqui estão pronto para matar ursos. Mas as bebidas — as bebidas vão te matar. E é esse o meu tipo de cena.

Hersh me passa o coquetel. Ele parece lodo de Superfundo. Eu lanço a bomba-blit de volta, e ela me atinge como um trem de carga, lavando meus poros e fazendo minha pele soltar vapor. A euforia quente de minhas entranhas sendo derretidas e reconstruídas pelo motor do meu peito é melhor do que sexo.

Enquanto estou me recuperando do lixo tóxico ingerido, um mendigo com calça de moletom e blusão azuis se esgueira para o banquinho ao lado do meu e pede ao Hersh um tônico. Eu peço outra bomba-blit. Nós não olhamos um para o outro.

"Você é a bruxa?" ele diz com o canto da boca.

Eu levanto uma pequena caixa de aço em uma das mãos. Ele faz o mesmo com um pequeno dispositivo USB. Hersh estende dois copos: um cheio de tônico, o outro com uma mancha iridescente de arco-íris. Nós colocamos nossos produtos no balcão e, ao mesmo tempo, pegamos o outro da mesa e bebemos nossas bebidas.

Estou acendendo um cigarro quando o mendigo aponta uma pistola para mim.

"FBI! Levante as mãos! Você está presa por tráfico de substâncias controladas, homicídio, agressão e espancamento, posse ilegal de armas de fogo e para-armas, abrir Vias em espaços restritos, cruzar fronteiras estaduais na prática de um crime, enviar ameaças por correio, extorsão e assalto à mão armada."

Ele consegue dizer tudo de uma só vez. Nem consegui fechar meu isqueiro.

"Você esqueceu de atravessar fora da faixa. Atrás do agente, um homem com um moletom cinza com capuz feio curvado em uma cabine me dá uma piscadela. O homem encapuzado olha fixamente para um mago próximo — um hobgoblin de um homem que quase certamente tem uma inclinação para magia de fogo.

O agente me encara. "Mãos ao ar!"

O olhar do Capuz perfura o hobgoblin, que lentamente sai de seu assento com uma garrafa na mão.

"Você sabe o que tem em uma bomba-blit?" Eu pergunto ao agente. Eu fecho meu isqueiro e ele estremece ligeiramente. Perto dele, dois homens e uma mulher indefiníveis ficam tensos — eles devem ser seu suporte. "Você ao menos sabe o que vai acontecer se você atirar em mim?"

Todos os olhos estão focados inteiramente em mim.

"O quê?" o agente pergunta. Seu dedo se aperta no gatilho.

Eu dou uma piscadela. "Nada!"

O hobgoblin quebra sua garrafa na cabeça do agente e toma três raios nas costas pelo problema. Eu pego a caixa e me jogo sobre o balcão onde Hersh está escondido. Ele me encara acusadoramente enquanto raios de fogo e outras magias de sangue destroem sua seção de depressores exóticos.

"Ei, não olhe para mim," eu digo a ele. "Eu não comecei isso."

Eu paro um momento para pensar. Esses raios foram lançados pela UIU. Se eu não estou lidando apenas com alguns joes normais em cima de suas cabeças. Esta deve ser a EOOM: a Equipe de Operações Ocultas Móveis. A SWAT de feiticeiros.

Vai ser mais difícil do que pensei.

Hersh parece pronto para reativar sua programação de combate. Hora de fazer minha grande fuga. Do meu bolso esquerdo vem um par de punhos de ferro laranja brilhantes; da minha direita, um punhado de pílulas roxas que tendem a interagir explosivamente com bombas-blit. Eu tomo as pílulas e deslizo os punhos de ferro sobre os dedos.

Meu corpo inteiro começa a vibrar. Quando olho por cima da bancada, as vibrações se concentram em meus dedos. Eles começam a brilhar — um olhar de perto revelaria pequenas explosões saindo de meus dedos, bombardeando o ar ao redor com calor e força de concussão como ogivas termobáricas em miniatura.

Uma olhada rápida na sala revela três coisas: o cara do Capuz desapareceu: os agentes da EOOM conseguiram instigar uma briga de bar; e a sala não tem saídas. Eu tive que ser EmpurradaTM para dentro por um segurança — e, em retrospecto, é provavelmente por isso que a UIU queria se encontrar aqui. Sem saída.

Mas estou acostumada a fazer as minhas próprias saídas.

Eu jogo a caixa sobre o balcão e pulo sobre ela, quase imediatamente levando um banco de bar na cara; por sorte, seu dono é mais álcool do que água a essa altura. Ela não oferece resistência quando eu o pego e arranco de suas mãos. O banco imediatamente começa a se desintegrar, mas permanece intacto por tempo suficiente para eu pegar uma faca com o banco e bater em seu portador com tanta força que seus olhos mecânicos saltam de suas órbitas.

Um par de bruxos furiosos se aproxima de mim. Eu me enfio sob Gandalf, o Cromo, e tiro suas pernas de debaixo dele. Seu amigo tenta saltar sobre ele, mas recebe um chute na virilha cibernética, então toma um gancho de direita que o envia em uma direção e sua mandíbula de metal em outra. Enquanto Cromo tenta se levantar, eu dou uma cotovelada em seu crânio e o coloco no chão com um CHOOM.

Eu pego a caixa do chão e um raio passa por cima da minha cabeça. Olhando para cima, eu vejo a equipe da EOOM vindo em minha direção. Eles tentaram me levar em silêncio — agora eles só me querem quieta. Enquanto a agente feminina lança raios contra mim, seu apoio mantém a ralé à distância. É tudo o que posso fazer para desviar entre os tiros sem perder meu equilíbro — o dedo gatilho dela é mais rápido do que os raios que ela está jogando.

Então eu caio em mim mesma — literalmente, tropeçando para trás em um banco de bar perdido. É exatamente o que eu preciso. Nenhum de nós estava esperando o tropeço, então seus próximos tiros vão longe. Eu consigo converter a queda em um rolo para trás e fico de joelhos. Então eu jogo a caixa nela.

Seus raios foram feitos para desativar sistemas nervosos, não objetos inanimados, então ela a atinge no rosto com força total. Enquanto ela cai, eu ataco seus capangas. Eles reagem uma fração de segundo muito lentamente. Eu estendo as mãos, pego eles pelos colarinhos e bato suas cabeças uma na outra. Soa como garrafas quebrando.

Com minhas redondezas imediatas livre de idiotas, eu pego a caixa e continuo procurando por uma saída. Então meu olhar se encontra com o do hobgoblin. Ele se recuperou de seu choque improvisado — o homem é mais forte do que parece — e posso dizer que ele me culpa por isso.

O hobgoblin quebra uma garrafa contra uma mesa adjacente e grita um encantamento, transformando a bebida derramada em uma coluna de fogo. Ele envolve as duas mãos em torno de sua espada de anjo bêbado e se lança contra mim, confiante em seu golpe mortal. E ele deveria estar. Eu já vi esse tipo de fogo mágico antes: não há uma substância na Terra que possa pará-lo, e se eu tentar bloqueá-lo, serei dividida ao meio como manteiga.

Então eu não bloqueio. Eu dou um passo para dentro para encontrá-lo, torcendo ligeiramente para ficar entre seus braços e então agarro a mão da garrafa e puxo para cima. Ele involuntariamente solta a espada. Enquanto ela voa no ar, eu acotovelo o hobgoblin no rosto para o chão. Então eu bato a caixa em seu rosto — uma, duas, três vez. Não o suficiente para matá-lo — isso quebraria o encanto e me deixaria coberta de bebida — mas o suficiente para mantê-lo abatido.

Eu me levanto e pego a garrafa pelo gargalo, depois olho para as paredes. É impossível socá-las até quebrar — elas são apenas para atravessar por EmpurrãoTM. Mas eu tenho uma espada de anjo bêbado. E não há uma substância em qualquer Terra que possa pará-la.

Eu nem terminei o pensamento antes de cravar a lâmina na parede, esculpindo um anel de fogo em forma de Rookie grande o suficiente para eu passar.


É quase noite, ou seja lá como eles chamam isso em Três Portlands, quando eu derrubo os golens policiais da cidade e volto para o hotel. Quando eu entro no quarto, o Inside Man está sentado em sua cama, ainda usando aquele moletom cinza feio, mastigando algumas batatas fritas e assistindo a um filme de ação idiota. Eu não faço ideia de por que ele gosta dessas coisas.

"Por que você ainda está com essa coisa?" ele pergunta ao ver a caixa em minha mão. "Eu disse que podia deixá-la para trás. Ela está vazia, não é?"

Eu encolho os ombros. "Eu me apeguei."

O Inside Man revira os olhos. "Tanto faz. Bom trabalho com a UIU — eu me certifiquei de que alguém transmitisse você chutando a bunda deles," ele cantarola. "Esse tipo de infâmia certamente nos colocará no topo da disputa pelo nome de 'Espírito de Chicago'."

"Nos colocar?" Eu digo, olhando para ele com um sorriso incrédulo. "Você me abandonou no momento em que aqueles caras começaram a lançar raios por ai."

"Ei, eu arrumei o hobgoblin pra você, não foi? Seu trabalho é ser fodona. O meu é deixar você ser fodona."

Ele enfia um punhado de batatas fritas na boca. "Eu sabia que você ia dar o fora de lá inteira. Você tem que acreditar em si mesma. Como eu."

Eu reviro meus olhos, então jogo a maleta na minha cama e me junto a ele na dele. "Sério, o que diabos estamos fazendo aqui? Você só me disse que era reconhecimento — para quê?" Eu pergunto, pegando as batatas fritas.

O Inside Man se anima. "Você se lembra do Farhan?"

Eu balanço a cabeça.

"Isso é porque eu estava tentando entrar no mercado negro de melhorias, certo?" ele diz, passando as batatas fritas. "Mas fiquei entediado com isso e nunca fizemos nada. Bem, fiquei viciado nesse videogame alguns dias atrás — ele se chama EVE Online, um jogo multijogador online onde você pode iniciar empresas e roubar pessoas e planejar assaltos e — o que quero dizer é que estou viciado. Então quero tentar o negócio do mercado negro de novo, de verdade."

Ele se inclina para trás. "Três Ports é excelente para esse tipo de coisa. O lugar está cheio de maxwellistas e a única corporação de melhorias de verdade na cidade é a Anderson — e eles cobram uma fortuna. As pessoas estão ansiosas por melhorias baratas, e é ai que entramos. Faremos uma matança. Mas antes de fazer qualquer coisa, eu queria ver os policiais. Ver o que eles têm."

"Então, o que eles têm?"

"Nada que eu não possa resolver com uma boa rede. Dê qualquer forma, isso é tudo que eu precisava de você. Vou conferir com os outros eus, ver se eles têm alguma sugestão, conversar com algumas pessoas pela cidade. Você pode descolar se quiser. Tem planos para o resto da semana?"

"Acho que vou ficar por aqui", eu respondo. "Ir às compras, talvez. Há alguns quadrinhos indie que eles vendem por aqui que eu quero dar uma olhada. Talvez um novo almofariz e pilão. O que mais tem?"

"Legal," disse ele, apertando o controle remoto. A TV começa a exibir Quatro Amigas e um Jeans Viajante — não julgue, é um ótimo filme. Nós assistimos ao filme em um silêncio amigável por uma hora, apenas quebrando o diálogo extravagante e alegre na tela com o estalar de batatas fritas e o gorgolejar incessante do meu estômago. O Inside Man sai por trinta minutos, voltando com um par de pizzas grandes e um pacote de seis cervejas que foi encantado para ter o dobro do ABV. Eu devoro tudo — a coisa dentro do meu peito está com fome o suficiente para que nada saia mais do outro lado. A cerveja — e aquela façanha que fiz antes com a bomba-blit — me colocou em coma antes que o filme acabasse.

Eu não durmo bem aquela noite.

Eu me encontro sentada em volta de uma mesa de jantar. Ela está na lua. Minha ex-namorada, Natasha, está lá. Ela está gritando comigo, mas nenhum som sai de sua boca. Eu olho para a mesa. Na minha frente, um coração humano pulsa em um prato.

Eu pego meu garfo e começo a comê-lo. Natasha grita mais alto, silenciosamente. Eu paro de comer o coração e me levanto da mesa. Então caio em um toboágua, bem alto no céu. Salsicha e Scooby-Doo estão lá, falando tâmil e usando turbantes laranjas. Estou em um penhasco alto com vista para um pôr do sol laranja — então algo me empurra e eu caio no chão.

Eu caio em um sofá. Então ele é um vaso. Natasha afunda minha cabeça nele. Eu não consigo respirar, e então respiro a água e estou bem. Estou deitada na cama com Natasha. Eu toco seu ombro e ela rola. Ela não tem rosto.

Estou presa em um bunker com uma família com quem não falo há anos. Tem monstros lá fora. Tem um elfo na sala. Eu o esfaqueio. Os monstros entram. Eu me escondo embaixo de uma mesa. Ele me encontra. Ele tem o rosto da Natasha. Eu não consigo respirar.

Há uma figura sombria em cima de mim, joelhos plantados firmemente no meu diafragma de uma forma que faz meus pulmões gritarem. Eu não consigo respirar e não consigo me mexer, e então a coisa enfia a mão no meu peito. Meu peito dói e a coisa paira sobre mim com meu coração em suas garras. A luz de seu pulso infernal ilumina seu rosto. É a Natasha.

Mas isso não é um sonho.

Estou acordada, e Natasha está em cima de mim com meu coração nas mãos.

A última vez que a vi, eu a deixei com o coração partido na porra de um universo diferente.

Agora ela está aqui para retribuir o favor.


PRÓXIMO: Máquina de Morfina


Salvo indicação em contrário, o conteúdo desta página é licenciado sob Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License