A População Infinita da Dedenidade
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Ele sempre ficava surpreso com o quão simples era roubar dos desues.

O Bibliotecário era uma coisa semi-humana com uma túnica e com uma mão manchada de tinta no lugar da cabeça. Apesar de sua aparência frágil, o que quer que ela quisesse, a Biblioteca lhe dava: o que só tornava o fato de alguém ter roubado uma seção inteira da Biblioteca bem na frente dela ainda mais desconcertante.

Landen Eckhart girou sua caneta e bateu com a ponta no bloco de notas que estava rabiscando. "Cada livro daquela prateleira ali." Ele apontou com a cabeça para a estante recém-esvaziada ao lado dele. "E nada mais?"

A cabeça do Bibliotecário se inclinou para frente em resposta.

"Certo. Mas você não impediu ele porque-"

Ele bateu com a parte plana da cabeça-mão contra a prateleira, antes de começar a rabiscar na madeira com os dedos. À medida que ele batia contra a superfície, tinta jorrava dos poros abertos de sua pele e manchava o acabamento da prateleira. ATORES (ATÉ (EU (DETECTAR (CRIME))) (FORA (BIBLIOTECA))).

Landen não se considerava exatamente um especialista nas sutilezas da arquitetura da Biblitoeca, mas a estante era enorme, até mesmo para seus padrões. Só de olhar para cima para ela o dava vertigem, e a sigla 'ASCPAB' onipresente espalhada na lateral estava escrita em letras mais altas do que ele. "Mas.. como você não percebeu o roubo enquanto ele estava em andamento? Quero dizer, tem espaço para, o que, um milhão de livros naquela estante, o roubo não pode ter sido feito tão rapidamente."

A mão do Bibliotecário fechou em um punho em resposta e por um momento Landen pensou que ele iria socá-lo no rosto pelo que ele disse. Em vez disso, ele começou a rabiscar na prateleira com intensidade renovada. DURANTE (AMEAÇA DE CRIME (NUCLEAR)). ATENÇÃO NO (CRIME). APENAS DETECTOU (LADRÕES DURANTE (SAIR (BIBLIOTECA))). ATENÇÃO (COMBINADA NO (CRIME) DETECÇÃO (DIFÍCIL)) IMPLICA (INCAPAZ DE (DETECTAR (ATORES))).

"Certo." Landen transcreveu a reclamação em seu bloco de notas e o colocou de volta no bolso, incapaz de suprimir totalmente um suspiro de decepção. "Bem, nesse caso, eu não posso te culpar. Obrigado pelo seu tempo-" Ele olhou para o crachá vermelho e branco que alguém tinha colocado em seu manto em uma tentativa (malsucedida) de fazer ele parecer mais abordável. "-Ham."

Sua palma se abriu para revelar anéis de dentes e línguas que gargarejaram algo como 'sem problemas' para ele, antes de se virar e deixar Landen para limpar fios de cuspe fluorescente de seu terno.

Ele levou um momento para procurar seu parceiro duas vezes em meio às centenas de níveis da prateleiras, Eventualmente, Landen encontrou ele tirando fotos do nível trinta e pouco balançando um detector de aparência robusta sobre ele. Com um assobio rápido e um minuto de descida pela escada montada na prateleira, os dois se reuniram no andar térreo do edifício.

"Algo?" Perguntou Landen.

Ari Perkowitz mexeu na câmera por mais alguns instantes antes de entregá-la para ele com uma expressão de leve nojo no rosto. "Se havia alguma coisa, se foi agora. Todo mundo colocou as mãos na cena do crime muito antes de nós aparecermos e as impressões digitais estão um pesadelo, quanto mais besteira táumica. A única coisa promissora que encontrei, fotografei."

Landen olhou para a foto na tela; uma única peça de xadrez preta no canto de uma das fileiras da prateleira. Um rápido zoom na peça em questão revelava uma coroa ornamentada esculpida em sua cabeça. "Hhhhuh. Algum artista que você conheça com essa assinatura?"

"Nenhum na minha lista de observação, não." Ari fez uma carranca para o chão e arranhou ele com o pé. "O detector também não encontrou nada de suspeito sobre ela. Não é um bomba nuclear e não é magia. Pelo que posso disse, ela é apenas uma escultura muito bonita."

"Podemos pedir a Noemi para dar uma olhada nisso?"

Ari começou a se afastar, levando Landen gentilmente pela mão até a Via para fora. "Você acha que alguém está operando um esquema Ponzi baseado em livros? Roubar Peter para pagar as taxas atrasadas do Paul?"

"Ela não é só uma mercanturga, Ari, Cristo." Landen habilmente se desviou do caminho de uma mulher feita de terracota que carregava uma bandeja gigantesca de gaiwans e outras parafernálias com tema de chá. "É que Thorne está ocupada, e ela é a próxima Azul disponível para quem poderíamos ligar para verificar o que você encontrou."

"Ponto."

Antes que Landen pudesse responder, Ari puxou ele para trás de uma tenda que fazia fronteira com a 'estrada' em que estavam e cuidadosamente abriu o ziper da parte de trás da tenda. "A saída está aqui."

Uma brisa forte do interior da Via suprou o cheiro de café queimado e leite estragado no rosto de Landen, fazendo-o ficar tentado a adicionar vômito à lista de cheiros vindos da passagem escura. "Ari, eu te amo, mas literalmente não confio no cheiro disso."

"Bem, que pena, porque ela é a única Via livre para Portlands em duas milhas." O agente mais velho tirou alguns guardanapos dos bolsos e os jogou com violência em Landen. "Enfie eles no nariz e comece a engatinhar, amante."

Lander engoliu em seco.


Depois de uma troca de roupas muito necessária e alguns telefonemas para a filial, Ari e Landen foram orientados a se encontrar com Noemi em um armazém na periferia de Três Portlands. Era um edifício de aparência pobre, com telhado de ferro corrugado e pequenas pernas de lagarta projetadas para deixá-lo rastejar conforme necessário. A casa estava no meio do processo de fazer isso quando eles chegaram, quando ela se congelou rapidamente no lugar e enfiou as pernas embaixo de si mesma.

Quando Landen bateu na porta, ele poderia jurar que sentiu o edifício tremer um pouco de medo. Antes que ele pudesse tentar rolar e se fingir de morto, a porta deslizou para o lado, revelando uma mulher de aparência atormentada em um roupão roxo com seu cabelo castanho em um coque picotado e um café ainda fumegante em uma das mãos.

Ela passou alguns segundos dando tapinhas na parede confortavelmente e sussurrando coisas calmantes no batente de madeira da porta, ao que o armazém respondeu com um ronronar contente. Ari interrompeu a exibição tossindo o mais indiscretamente possível e erguendo a sobrancelha sem marcas para ela. "Noemi. Não sabia que você morava aqui."

"Não moro," Noemi Simonides declarou categoricamente. "Minha namorada sim. O que você quer?"

Ari tirou um quadrado de papel do bolso e o desdobrou com um esforço notável. Seus cantos explodiram com um estalo alto para revelar um saco plástico de evidências bem colocado no centro da folha amassada, a rainha negra que eles haviam encontrado antes abrigada em suas profundezas de zip-lock. "Robin está ocupada com outro caso, e não vale a pena chamar a EOOM neste caso. Achamos que temos uma pista sobre um caso de roubo, mas, diabos se eu posso fazer alguma coisa com ela, sou um bruxo de merda: você se importa em dar uma olhada nela para nós?"

Se fosse possível, o olhar de Noemi ficou ainda mais perplexo. "Perkowitz, eu tenho a Receita Federal Infernal me perseguindo por causa do Banco Faust de novo em uma semana. Me diga por que eu deveria deixar os Skippers1, os Gockers2 e o Pentagrama putos por algum batedor de carteira com um fetiche por xadrez."

Landen pigarreou silenciosamente. "Na verdade, ele roubou todos os livros sobre inteligência artificial da Biblioteca do Passageiro. Se você acha que a economia imobiliária das Bermudas vai deixá-la em maus lençóis com o IRS, experimente 'a pesquisa de IA por trás da Máscara chega ao fim.'"

Noemi abriu a boca, pensou melhor e então se virou para Ari. "Ele está falando sério, certo?"

Ari encolheu os ombros e deixou seu sorriso falar por si, ao que Noemi respondeu com um bufo resignado. "Entrem, então. Toquem em qualquer coisa-"

"Nós entendemos, Noemi." Landen baixou a cabeça obedientemente e seguiu atrás de Noemi, segurando a porta aberta para Ari enquanto o fazia.

À primeira vista, Landen poderia dizer o que a namorada de Noemi fazia para seu trabalho diurno. O apartamento estava cheio dos mesmos detritos artísticos que entulhavam a casa de Ari em Chicago, a maioria deles testes em vez de produtos finais fracassados - um tesserato de Rubik na mesa de centro de ferro batido, algumas bolas de estresse espalhadas pelo chão que explodiam e prontamente se reformavam quando Ari se aproximava demais. Possivelmente, a casa inteira parecia uma experiência de estilo, embora uma que funcionasse.

Noemi fez um gesto que para eles se sentassem em um sofá transparente que parecia ter sido esculpido em uma única lâmina de vidro, mas que parecia ser feito de algodão doce, e se dirigiu para uma das salas no andar de cima. Depois de alguns momentos olhando para os frágeis ventiladores de teto, ela voltou, agora devidamente vestida e segurando um frasco de comprimidos e uma coisa de plástico grossa que parecia a tia esquisita de um projetor.

Ela a deixou cair sem cerimônia no colo de Ari, ganhando um ganido dele enquanto ela limpava os detritos da mesa para revelar uma tomada em sua superfície. "Ligue," ela adicionou, destampando o frasco de comprimidos.

Quando a tomada foi conectada, Landen arriscou dizer algo: "Então, o que você-"

"Seguindo o dinheiro," Noemi disparou, engolindo duas das pequenas cápsulas e se jogando no sofá ao lado de Ari. "Aperte o botão, Perkowitz?"

Ari obedeceu e, na parede oposta ao sofá, uma projeção da Terra em forma de borboleta começou a se formar. O projetor emitiu um som de bipe alto como um modem discado e as pálpebras de Noemi se abriram, revelando olhos de prata sólida.

Noemi se virou para encará-lo com uma suavidade assustadora, e Ari não pôde deixar de se encolher um pouco ao se deparar com aqueles olhos que não piscavam. "Me passe o saco de evidências."

Ele o pressionou cuidadosamente na palma da mão dela. Ao fazer contato, quatro feixes de luz finos como agulhas dispararam da cabeça da rainha e começaram a convergir lentamente, cada um rastejando pelo mapa e ficando mais brilhante enquanto vagava inexoravelmente em direção à sua casa em algum lugar em-

"Novo México?" Landen murmurou baixinho.

Antes que eles pudessem se encontrar em um ponto, no entanto, Noemi soltou um grito estrangulado e fechou os olhos como se tivesse acabado de olhar para fora de uma janela e ficado cara a cara com o Sol: lágrimas metálicas começaram a rolar por seu rosto enquanto ela limpava um resplendor surpreendentemente grande de suor da testa.

Ari rapidamente se moveu para apoiá-la enquanto ela afundava no sofá, a projeção e tudo com ela desaparecendo à medida que ela o fazia "Você está bem?"

"Albuquerque," Noemi soltou, "Lado sul, armazém perto da Holly Avenue-"

"Não está bem. Não está bem, então. Landen, pegue o café para ela, ela precisa de energia."

"Não, droga, estou bem." Ela acenou para Landen enquanto ele estava no meio do caminho para trazer a caneca de café para seu rosto, e se ocupou em enxugar as lágrimas reflexivas dos olhos. Com as pálpebras se contraindo, ela voltou a se concentrar em algo neste plano de existência e grunhiu. "Loop de feedback."

"Espera, calma ai- feedback de quê? Landen perguntou.

Ela bateu na peça de xadrez através da bolsa. "O dono de sua pista. Eu assumo que você saiba como funciona a cristalocação, sim?"

Ari falou. "A parte afeta o todo. Se algo esteve em contato com você ou é importante o suficiente para que seja metaforicamente parte de você, Noemi pode usar isso para encontrá-lo."

"Redutivo, mas preciso o suficiente." Noemi começou a massagear a testa, afundando de volta no sofá. "Quanto mais de 'você' alguma coisa contém, mais fácil é encontrar você com ela. Isso-" Ela apontou para a bolsa. "-tem tanto de seu dono nele que era quase impossível não saber onde ele estava. Eu sou boa, mas você sabe como é difícil obter precisão no nível de cidades através de dimensões?"

"Bem então, isso torna tudo mundo fácil, não é?" Ari disse ironicamente.

"Infelizmente não." Noemi fez uma carranca. "Essa é apenas uma explicação para o porquê do sinal ser tão forte: a mais provável é que isso seja um chamariz."

"Eggos mágicos?" Landen perguntou, um traço de esperança em sua voz.

"Eu gostaria. Não, é algo que magicamente finge ser você, tira um mago de seu 'cheiro' real. Como correr em uma fábrica de colônias para se livrar de cães farejadores."

"Claro. A única pista que temos e é um duplo-cego." Ari fez uma carranca, cruzando os braços sobre o peito e mastigando resignadamente o lábio.

"Essa é a possibilidade mais provável no momento. De alguma forma, acho que seu culpado seria um pouco mais cuidadoso do que deixar algo tão condenatório como isso na cena de um crime, não?" Noemi franziu os lábios em pensamento e passou alguns momentos contemplando uma seção da parede, antes de olhar para Landen e dar um tapinha no ombro dele. "É realmente hora de brincar com o seu telefone?"

"A pista pode ter sido um duplo-cego, mas ainda pode valer alguma coisa." Landen enfiou o telefone de volta no bolso e gesticulou para que eles saíssem, o rosto contraído e os lábios em uma linha sombria. "Precisamos voltar para a filial- os Skippers tem uma situação em Ohio."


Cinco minutos antes, no remanso infernal de Sandusky, Ohio, alguém acabara de profanar um túmulo.

O processo foi tão sujo quanto você poderia imaginar, sabendo que o local de descanso final em questão era uma sala nas entranhas de um sítio da Fundação. Quando a ladra em questão finalmente abriu o caixão de aço inoxidável, seus braços estavam completamente regados com uma mistura de sangue e líquido cefalorraquidiano até o cotovelo. Apenas cerca de metade dele era seu — bem, ela reciclou um pouco de suas vítimas anteriores para compensar o ferimento de bala ocasional que sofria, mas naquele ponto isso não era importante.

Ela grunhiu enquanto ela erguia a tampa recém-separada do caixão e a jogava com força para o lado, a tampa de metal se chocando contra a parede da sala fria com um barulho pesado. Depois de uma rápida olhada na entrada da sala para se certificar de que ninguém estava em condições de fazer nada a respeito do barulho, ela espiou dentro do caixão com olhar crítico e examinou o corpo.

O corpo do Guerreiro parecia que havia sido congelado no momento da morte, o único sinal de que o tempo havia passado para ele era o fato de que sua bochecha havia deixado de ser plasma e passou a ser matéria sólida mais uma vez. Ela balançou a cabeça em silêncio enquanto seus olhos percorriam seu comprimento, confirmando mais uma vez que todas as partes necessárias ainda estavam intactas e no lugar — quando todos os pontos em sua lista de verificação mental foram satisfeitos, ela largou a bolsa de ferramentas pendurada em seu ombro e pegou uma serra cruel ao longo de seu braço.

Marcando o corte que ela precisava com o sangue que havia coagulado em seu dedo, ela respirou fundo e começou o processo de desmontar a divindade.

Todo mundo sabia como era simples roubar dos deuses.

O que a Fundação não sabia era como era simples roubar o próprio deus.

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