O Fim Não Tem Fim
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« Parada Automática ||


É bem difícil fazer curativo em uma ferida que está cuspindo chamas.

A tentativa de fazê-lo demonstra, de uma forma um tanto quanto espetacular, como a maioria dos materiais para bandagens é inflamável. Você começa com as bandagens oficiais do tipo jardim. Uma vez que elas todas são cinzas, você passa para opções mais exóticas. Fita adesiva? Isso parece apropriado. Pedaços de roupa? Você viu os filmes. Você sabe que tem que funcionar. Eles não iriam colocar isso nos filmes se não funcionasse, certo? Isso seria simplesmente imprudente.

Casey estava acabando de verificar se suas meias eram absorventes o suficiente quando Adam agarrou seu antebraço com a mão boa.

Adam fez uma carranca enquanto se empurrava mais ereto contra a lateral da varanda, sua camisa prendendo-se em várias lascas na madeira danificada. No final de seu braço flamejante, sua mão tremia, os dedos fechando e soltando em uma sucessão forçada. Ele chiou: "Torniquete."

Casey fez com a boca um agradecimento silencioso. Ele mexeu com outro pedaço de sua camisa, amarrou em volta do bíceps de Adam, e então apertou com uma caneta que Adam tirara de seu bolso. "Você pode segurar isso?"

Adam podia. Por fim, o fogo começou a se extinguir, substituído por um pavio de vela mais controlável. Casey assoprou para apagar a chama e Adam se estremeceu.

"Desculpe."

Adam pigarreou e apertou o braço cortado contra o peito. Ele murmurou, "Você cuidou da minha jaqueta?"

Casey piscou. "Ah, sim, totalmente. Uhm, como você chegou aqui?"

"Você acha que sou um espião?"

"Esses últimos dias não afirmaram minha disposição naturalmente confiante."

"Nos certificaremos de incluir isso no processo quando isso for concluído. Meritíssimo, esta conspiração assassina me deu problemas de confiança." Adam riu, então tossiu, e então continuou. "Fui pra casa do Erwan. O lugar tava vaziu, todo arrumado como a cena de um crime, todo bloqueado. Você não me disse o que fazer depois, então vim aqui."

"Sabia que tinha uma brecha."

"Mas você deixou ela mesmo assim. Meu pai me disse que você estava pegando minhas roupas emprestadas, então rastrear você foi fácil."

"E você diz que eu tenho problemas de confiança."

Adam riu, e então estremeceu. "Mas, quando eu cheguei perto, algo ficou estranho. A bomba explodiu. E eu perdi a direção. Verifiquei os destroços."

A nuvem ainda consumia a rua, mesmo agora. Fuligem suficiente foi soprada no ar para fazer o Prefeito espirrar. No céu, Casey viu o sol, nebuloso na poeira, ocluído por cacos de metal voando com uma brisa dolorosa.

Casey semicerrou os olhos, seguindo um fragmento de metal que pousou no concreto. Ele não era apenas destroços — era plano e com uma imagem gravada. Uma estrela de vinte e duas pontas - um eicosidiograma, com cada ponta marcada por símbolos irreconhecíveis.

Adam balançou a cabeça. "Assim que a bomba explodiu, parecia que havia mil de você — sobrecarga taumática total. Tive que improvisar depois disso, mas parece que cheguei lá na hora certa. E então tudo acabou bem, vivemos para simpre e nunca morremos."

"Não estrague isso para mim."

Tiros ecoaram em edifícios destruídos por destroços. Casey olhou pela borda da varanda. Os Spencers gêmeos ainda estavam brigando no que provavelmente era uma metáfora ou algo assim.

Casey suspirou. "Alguma ideia de como vamos sair daqui?"

Adam se moveu para se ajoelhar atrás de Casey. Ele estabilizou seu braço esquerdo aflito o melhor que pôde. "A polícia estava tentando te encontrar, depois que você se envolveu em algum tipo de luta corpo a corpo no meio da rua?"

"Você tinha que ter visto o outro cara."

"Onde está o outro cara?"

"Eu não sei, na verdade."

Adam agarrou o antebraço de Casey e içou-se para uma posição ereta. "De qualquer maneira, eles iam te encurralar até que alguém explodiu uma bomba. Agora suas prioridades mudaram. Contanto que evitemos o centro da cidade, estaremos bem."

Um bipe alto e emborrachado veio de trás deles. Casey se virou. Parada ali, no final da pista com uma moto e um casaco empoeirado, estava Vera Garcia.

"Finalmente," ela disse com um suspiro. "Vamos. Hora de ir."


Do lado de fora, a nuvem de poeira parecia uma grande hipérbole gorda, paredes cuvas tendendo assintoticamente para cima até um ponto atarracado muito acima da cidade. O cone quase eclipsava o sol do meio-dia.

Ele estava pairando no céu há muito tempo, o ar morto e sem vento para distorcê-lo. Uma massa de cinzas que as pessoas estariam varrendo de suas varandas por semanas.

Se elas se importassem com suas varandas, isso é. A maioria das pessoas sob a nuvem estava reunindo seus parentes e pertences e se dirigindo ou diretamente para longe ou diretamente na direção do local da explosão, em busca de segurança ou entretenimento, respectivamente.

Em qualquer dos casos, os pedestres espalhados estavam preocupados demais para notar os dois homens passando mancando. Mais à frente, uma motoqueira de terninho passava, esticando a cabeça para espiar pelas ruas laterais e becos e acenando de volta quando a barra estava limpa.

Casey não tinha certeza de onde ela arrumou a moto. Se ele tivesse que adivinhar, ela a roubou ou puxou da bolsa como Mary Poppins. Pelo que ele sabia sobre Vera, ambos eram igualmente prováveis.

"Então, os irmãos receberam uma bomba," disse Adam.

"Certo," respondeu Casey.

"E esse misterioso beneficiador também fez um Agente Spencer robô,"

"Presumivelmente."

"Para matar o cara na casa-"

"Cillian Erwan. Um investidor no comércio de Paratecnologia."

"Certo. E também matar um dos bombistas? Então foi uma traição?"

"Eu acho? Ou ele sabia que estava caindo?"

"Independentemente."

"Sim. Então, uma bomba explodiu, duas pessoas morreram, e um oficial do FBI em Três Ports é aparentemente o responsável." Casey contou os elementos em seus dedos.

"Soa como um escândalo. Mas e os bloqueadores na bomba? Por que se dar ao trabalho de fabricar milhares de flocos mágicos apenas na chance de um mago estar observando o local da explosão? Que diferença isso faria?"

Eles seguiram em frente. Não demoraria muito até que estivessem de volta às escadarias de Eustace.

"E se" Casey começou, "eles não estão tentando esconder isso de nós, mas de outra pessoa? E quanto ao Prefeito?"

"Isso sequer faz sentido? A cidade não é para o Prefeito, tipo, como um corpo é para um cérebro?"

"Se for visão remota, provavelmente funciona como vidência, certo? E coisas que bloqueiam vidência podem formar um ponto cego."

Adam refletiu por um momento. "E se o Prefeito não percebe que algo está acontecendo, e o FBI está lidando com as consequências de uma bomba e um monte de assassinatos falsos…"

"Todo mundo está distraído. É a abertura perfeita."

Eles pararam. A rua chegara a um fim; a fachada do edifício de Eustace pairava sobre eles.


Eles mal bateram e a porta abriu para dentro. Eustace estava parado no final do corredor, os braços cruzados. Suas mãos enrugadas acenaram com impaciência para que entrassem.

Adam deu um aceno fraco com a mão boa, mas Eustace apenas sacudiu a cabeça.

A porta se fechou, mergulhando o foyer de volta na penumbra. "Me faça um favor. Da próxima vez que vocês sairem desta casa, não façam nada que será noticiado antes de voltarem."

Casey e Vera piscaram algumas vezes, deixando seus olhos se ajustarem à luz. Adam tinha entrado na cozinha para se sentar na bancada de granito.

Casey tossiu. Ele pensou em como expressar isso.

"Eu acho que precisamos nos encontrar com o Prefeito."

Eustace balançava a cabeça. "Certo, certo. Ok. Bem, vou ficar de olhos nos obituários—"

"Ele é o alvo mais provável de — bem, seja lá o que for que vá acontecer," Adam interrompeu. "A bomba fez com que a a cidade inteira olhasse pro outro lado, e ninguém vai se incomodar em examinar as evidências por dias, pelo menos."

O velho suspirou. "Bem, isso é ótimo. E se isso for verdade, nós deveríamos estar deixando a cidade, não indo na direção da morte certa. A Prefeitura é feita como um cofre de banco com esteroides demoníacos."

Casey franziu a testa. "Não podemos ir embora. Nós todos temos gente aqui."

"Sinto muito, você tem amigos que você ainda não assassinou, amnesticizou ou arrastou para esta espiral da morte com você? Se sim, eles deveriam também estar deixando a cidade."

Adam pegou um retângulo branco de uma gaveta de carvalho. Com a mão boa, ele o pressionou contra o ferimento cerrando os dentes enquanto milhares de braços microscópicos se fixavam em sua laceração.

Ele respirou fundo, estremecendo, e então exalou suavemente. "Seja lá quem está fazendo isso está se movendo rápido. Mesmo se o Conselho Municipal ouvisse, levaria semanas para eles fazerem qualquer coisa — precisamos agir agora."

Eustace semicerrou os olhos para o filho. "Em que ponto dei a impressão de estar de alguma forma apoiando seus planos absurdos? Por que eu não deveria expulsar vocês agora e deixar a polícia resolver tudo?"

Adam saltou do balcão, flexionando o braço enfaixado experimentalmente. "Porque se você não ajudar, eu farei isso de qualquer maneira. Eu vou atacar aquelas defesas sozinho. E eu vou morrer."

Eustace inclinou a cabeça. "Você está se mantendo como refém?"

"Sim. Você sabe que eu faria isso."

"Meu Deus, você faria, não é?" Havia um brilho opaco de orgulho na voz do velho.

Eustace olhou para Adam. Então para Casey. Então de volta para Adam.

"Certo," ele disse, enunciando cuidadosamente. "Me deixe pegar minhas coisas."


Eustace fechou as persianas da cozinha, arrastando os últimos raios de sol do início da tarde para fora da sala.

O velho se virou, olhando com cara de depravado para as três pessoas sentadas pacientemente em sua mesa de jantar ocre maçante. Depois de um momento, ele puxou sua própria cadeira e sentou-se com um baque empoeirado.

Ele pigarreou. "Quero começar informando a certas partes nesta reunião o quanto eu as desprezo."

Ele apontou para Casey. "Eu odeio sua atitude de força de vontade fraca e suscetibilidade a controle mental. Eu odeio que você dê ao meu filho desculpas para fazer merdas estúpidas."

Casey olhou para a mesa, os braços cruzados no colo. "Vamos ser honestos, ele não precisa de mim para isso."

Ele o ignorou. Ele mudou o dedo da culpa para Vera. "Eu odeio sua alegria branda e o fato de que você acha que pertence a este lugar."

Vera encolheu os ombros. "Culpada."

Adam falou. "Eu acho que é bom que alguém tenha um pouco de otimismo."

Eustace o olhou com raiva por um momento. Adam se recostou na cadeira mais uma vez, segurando o braço esquerdo em uma tipóia de tecido escuro. "Indo em frente-"

"Você não está se esquecendo de alguém?" Casey perguntou.

Eustace franziu a testa para ele. "Adam está fazendo o seu melhor. O que você está insinuando?"

Casey olhou para Adam, que apenas encolheu os ombros.

"Não é isso-" Casey recuou. "-o que eu quis dizer."

"De qualquer forma," Eustace retomou. "Aqui está o que eu sei."

Uma corrente de ar quente varreu a sala, e da mesa plana, pontinhos espectrais emergiram. Eles brilhavam como opalescentes, cada vértice brilhante arrastando outros junto com ele, formando um campo estelar poligonal.

Eustace girou os dedos e eles se arrumaram em uma forma. De baixo para cima, um modelo holográfico de um edifício foi formado. Ele tinha cerca de dois andares, fino e estreito, e cada lado continha uma amálgama de sacadas, peitoris de janelas e pilares, todos de origens arquitetônicas variadas. As janelas eram todas opacas e pretas, e nenhuma porta marcava uma entrada.

"Prefeitura," ditou Eustace, como se fosse óbvio. "Impenetrável. Até mesmo o conselho municipal não entra. Eles só teletransportam a papelada para dentro. Às vezes eles até conseguem alguma papelada de volta."

"O engraçado é que o lugar nem é um prédio. No final dos anos 90, a coisa todo só fez um bloop e se reformou naquela forma. Acontece a cada poucas décadas, eu acho. Mesma forma geral, mas acessórios mais modernos.

A forma explodiu para fora, a camada superior de poeira estelar girando para cima para revelar um vórtice retangular dentro, equilibrando-se em uma das pontas.

"Você olha para dentro, há duas barreiras concêntricas. Eu fiz meus próprios testes nela um longo tempo atrás, e parece que a primeira barreira é semipermeável. A programação taumática lá está indo a mil por hora para detectar e isolar matéria patogênica, no entanto."

Adam interrompeu. "Podemos distraí-la? Entrar despercebidos?"

Eustace tamborilou os dedos, e a constelação cintilante na mesa pulsou com a batida. "Você poderia projetar magicamente algumas ameaças menores nele, eu suponho. Mas você precisaria prever os pontos fracos muito mais rápido do que uma mente humana poderia lidar."

Casey interrompeu por sua vez. "Predição, tipo, aprendizado de máquina? O Agente da Insurgência, Troy, ele mencionou que eles tinham algo parecido."

Eustace suspirou. "A Insurgência do Caos não conheceria engenharia de qualidade nem que se ela os socasse em seus rostos adolescentes ousados. Eu verei o que posso fazer."

Adam franziu a testa. "Como você sabe tanto sobre as defesas do Prefeito?"

"Alguns anos atrás eu tive alguns problemas com licenças de construção. Brevemente pensei em matar o Prefeito e substituí-lo por alguém com menos fetiche por papelada."

A sala ficou em silêncio.

"…pai."

"Eu planejei para todos os resultados. Me processe. De qualquer maneira," ele continuou, "vocês ainda precisam entrar fisicamente no prédio."

Adam torceu a boca. "Talvez possamos nos enviar pelo correio? Como a papelada."

Eustace ficou olhando. "Certo. Você trabalha nisso. E outra pessoa pode trabalhar em como diabos vocês vão penetrar a segunda barreira. Eu não consigo nem descobrir o que está dentro desse núcleo, muito menos perfurá-lo."

"Se me permite intervir," Vera interveio, "tenho algo que pode ser útil." Ela enfiou a mão dentro da jaqueta e tirou o dispositivo atarracado parecido com uma pistola que havia sido usado no estacionamento. Ela o brandiu na frente dela, girando-o para os outros verem.

"Meu entendimento é que isso abriu uma porta para eu vir aqui. Talvez possa ser útil agora."

Eustace o arrancou das mãos dela. Ele o segurou de lado no nível do rosto. "Onde você arrumou isso?"

"Eu recebi isso com a minha refeição no Taco Bell."

Eustace colocou o dispositivo para baixo e, por um momento, refletiu sobre o que sua vida havia se tornado.

Finalmente, ele falou. "Isso é uma paratecnologia de primeira. Um abridor-de-Vias que pode ser usado até mesmo pelos mais mundanos entre nós." Ele olhou de soslaio para Vera. "Com um pouco de manipulação de julgamento, você poderia, talvez, perfurar parcialmente para fora de Portlands e então de volta, mas dentro de um lugar de sua escolha. Para o outro lado da barreira, porque você nunca passou pela barreira. Para finalmente conversar com o Prefeito."

"Então estamos prontos," disse Vera, sorrindo.

"Suponho que sim," ele resmungou.

Ele bateu palmas. A projeção iridescente dobrou-se sobre si mesma até que se tornasse apenas uma pequena picadela. E então a sala ficou escura.


As palavras "bruto" e "intricado" não são tipicamente usadas em sucessão para descrever o mesmo assunto. Essa combinação de adjetivos costuma ser prescrita apenas para a legislação tributária e filmes muito criticados, mas também se aplicava à grande montagem que Eustace Rowe montou em sua cozinha.

Com cuidado amoroso, Eustace havia tecido camadas de tendões em auradutos orgânicos. O tecido neural encolhido que formava o núcleo pulsante tinha sido selecionado com cuidado, fundido com precisão na forma do tamanho de um liquidificador diante dele. Cada volta de tubo muscular circulava por si mesma em uma garrafa Klein de encanamento pseudoelétrico, correndo ao longo da mesa até um capacete de metal simples cravejado de eletrodos.

Era um foco biomecânico perfeito para taumaturgia pesada. Os Laboratórios Prometheus teriam — e, de fato, muitas vezes tinham — literalmente matado por paratecnologia como esta. Os leigos a chamavam de uma abominação. Eustace, em sua cabeça, passou a chamá-la de Hevel.

Olhar para ela dava a Casey uma dor de cabeça. Se você pedisse a Casey para descrever a estética dela em duas palavras, ele educadamente recusaria a pergunta para evitar pensar mais na máquina.

Até a Vera não sabia o que dizer. "Ela é… legal?"

Eustace a silenciou. Com as mãos ossudas, ele pegou o capacete pelas bordas e o ergueu. Assim que o aço tocou o topo de sua cabeça, Hevel acordou pra vida com um estremecimento alarmante.

Ele fechou os olhos e a temperatura da sala subiu meio grau. Mesmo sem olhar, ele escarneceu na direção de Adam. "Não olhe pra mim. Continue com isso."

Adam pigarreou. Em uma das mãos, ele carregava um maço de papéis. Seu outro braço estava pressionado contra o abdômen em uma tipóia apertada, ainda se recuperando dos cortes autoinfligidos. "Certo. Então, eu entrei em contato com um especialista em documentos jurídicos. Ele me deve um favor."

Ele acenou com a cabeça para Casey e Vera. "Com alguns truques e a barreira enfraquecida, eu tenho quase certeza de que posso designar a vocês duas declarações de impostos particularmente volumosas. Nada deve parecer errado, pelo menos até-"

Vera se intrometeu. "Até que eu possa usar isso?" Ela ergueu a não-arma, adornada com algumas novas lâmpadas piscantes.

Adam balançou a cabeça. "Sim, você deve ser capaz de fazer isso. Eu acho?" Ele se virou para Eustace, que agora estava oscilando ligeiramente no lugar, perdido em um pensamento projetado de outra época.

Adam deu um passo à frente e deu a Casey um abraço de um braço só. "Agora ou nunca."

Casey retribuiu o abraço, o mais cuidadosamente que pôde. Seu coração batia forte.

"Bem," disse Adam, "vamos enfiar vocês numa caixa."


Em um corredor empoeirado no centro do Plaza de Três Portlands, uma grande caixa de papelão se materializou, suspensa a quase seis pés de altura no ar.

Um momento depois, ela parou de ser suspensa e caiu no chão acarpetado com um baque doloroso e dois gritos. Um punho abriu caminho através de uma emenda. Vera Garcia ficou de joelhos. Ela respirou fundo, mas encheu a boca de poeira e começou a engasgar com o ar.

A cabeça de Casey emergia em seguida. Seus olhos olhando ao redor.

Eles estavam em algum tipo de corredor. A estética estava datada, não apenas pelos padrões jazzísticos no tapete e no papel de parede azul, mas também pela camada de poeira de uma polegada de espessura cobrindo absolutamente tudo.

Bem, não tudo. Espalhados pelo corredor estavam papéis, livretos e envelopes, espalhados sobre o mar de poeira. Eles provavelmente entraram da mesma maneira que Vera e Casey, embora a probabilidade de que uma pessoa estivesse dentro de um fosse muito menor.

O lugar estava em silêncio absoluto. Nem uma corrente de ar, nem um rangido, nem um passo. Vazio.

Vera pigarreou e se levantou com dificuldade. Ela ofereceu a mão a Casey e o puxou para cima.

"Aqui estamos nós," disse ela.

Casey se virou no lugar. O corredor seguia em duas direções, cada uma ligeiramente curvada para formar o que poderia ser um círculo. "Quer tentar a esquerda ou a direita?"

Vera tirou o pó de sua não-arma. "A esquerda parece sortuda." Ela saiu, perturbando uma trilha de particulas, e Casey a seguiu.

O corredor continuava curvando, então poderia ser um loop — mas Casey também notou uma inclinação. Uma espiral? A maior parte do caminho estava deserta, apenas cartas e polegadas sobre polegadas de pó. Fazendo a curva, algo mais era visível: uma janela e um painel antiquados, girados noventa graus e para baixo contra a borda do tapete. Ela estava voltada para o interior do círculo, ostensivamente mais para dentro do edifício, e exibia apenas preto puro.

"Aquilo ali não é para onde janelas vão," Vera observou. Ela se ajoelhou ao lado dela e pressionou um dedo no vidro. Ele era escaldante ao toque e, quando ela recuou, uma onda de um azul profundo se espalhou pela superfície.

"Ela rastreia, eu suponho." Ela se levantou. "Deveríamos chutá-la para dentro?"

"Uh. Nós deveríamos andar um pouco mais antes de tentarmos danos à propriedade.

Ela encolheu os ombros. "Cinzas para cinzas. Todas as soluções convergem para danos à propriedade ao longo prazo."

"Isso é bastante filosófico."

"Mais uma marca de experiência." Ela se levantou novamente e continuou andando, sem se intimidar.

Eles continuaram por mais um momento, e algo estranho chamou a atenção de Casey depois da curva. Algo marrom e amarrotado.

"Isso é uma caixa?" ele perguntou.

Vera semicerrou os olhos, diminuindo o passo para um passo lento. "É."

Eles se aproximaram. Ela estava amassada e rasgada como se uma pessoa ou duas tivessem saído dela e descido o corredor, conforme indicado por uma trilha atrapalhada de poeira agitada.

Casey inclinou a cabeça. "Ela é nossa caixa?"

Vera ajoelhou-se ao lado dela. Ela cutucou as dobras de papelão com o dedo indicador.

"Hmm," disse ela. "Não faço ideia de como diferenciar caixas."

Casey se mexia para frente e para trás em seus pés. "A gente tem subido, certo? Nós não poderíamos ter andado em um círculo."

"Talvez o Prefeito seja um fã de M.C. Escher."

"Isso faria muito sentido, na verdade." Casey andava em um pequeno círculo. "Então, ou o prédio está fazendo coisas estranhas topologicamente, ou tem outra pessoa aqui."

"Esses não são mutuamente exclusivos."

"Bom ponto."

Havia uma trilha de passos emanando do papelão perfurado, procedendo na mesma direção que eles estavam indo.

"Nenhum lugar para ir a não ser para cima," Vera murmurou.

Eles continuaram andando ao redor da espiral por outra meia volta. Os passos à frente deles continuavam, emoldurados por quantidades crescentes de correspondências fechadas.

Vera pegou um maço de cartas. "Uma licença de construção. Notícias de uma regulamentação da quarta dimensão. Um mandado de prisão de alguém acusado de "limonagem"? Você sabe o que é isso?"

"Eu só ouvi rumores."

Vera girou, examinando o papel de parede descascado e desatualizado. Ela fez outra curva e a textura frágil foi suplantada por uma moldura de madeira.

"Oh," ela comentou. "Isso é algo."

Era uma porta, na superfície interna do corredor. Ela era de madeira, incrustada com padrões retangulares simples. Vera balançou a maçaneta e então apoio o ombro contra a porta.

Casey olhou para ela. "O que você tá fazendo?"

"Quebrando a porta."

"Seria uma barreira impenetrável bem ruim se fosse fraca contra ombros."

"Justo." Ela deu um passo para trás e pegou o abridor-de-vias volumoso de dentro de sua jaqueta. "Acho que este é o alvo, então."

Casey balançou a cabeça, principalmente para si mesmo. "Sim." Ele estendeu a mão. "Eu posso tentar abrir ela e você pode entrar."

Vera sacudiu a cabeça. "Eu não acho que eu possa, Casey."

Casey empalideceu. "Você não pode estar falando sério. Certo?"

Vera suspirou. "Eu fiz muito hoje. Eu sobrevivi a uma bomba, persegui algumas pessoas, lutei contra dois caras. Acho que roubei a moto de alguém, também."

"Ele, uh. Ele provavelmente não precisava dela?"

"Esse não é o ponto. Isso tudo ainda é território estrangeiro. E eu posso lidar com isso, mas eu não posso entrar lá e agir como se eu falasse pela cidade. Por mais que eu queira conhecer este lugar, eu não quero. Não ainda."

Casey abaixou a mão. "Mas o que eu poderia fazer?"

Vera refletiu por um momento. "Por que você começou isso, em primeiro lugar? Troy te ofereceu uma saída da cidade, e não é como se você devesse nada a Eustace. Por que não apenas esperar que isso tudo acabasse e limpar seu nome então?"

Casey olhou para a porta e depois para o chão. "Eu não quero ir embora. Eu não quero que a cidade seja um lugar de onde eu tenha que fugir. Em todos os outros lugares em que estive, eu não sou bem-vindo, indesejável, apenas um nada. Três Portlands me aceitou. Não importa o quão hostil ela possa ser, ela é o meu lar. Se algo está acontecendo, eu quero estar aqui para isso. Mas eu não sei se posso lidar com isso."

Vera sorriu. "Você está indo muito bem. Depois disso, vamos sair para beber." Ela apontou o abridor-de-vias para a porta, fechou um olho e apertou o gatilho.

A porta se distorceu e, dos vincos de cada lado, uma forma escura cresceu para cobrir a superfície.

Ela deu uma piscadela. "Entre. Eu estarei aqui."


Casey caiu de cara no chão. Ele tentou abrir os olhos, e então percebeu que eles já estavam abertos. Escuridão total.

Suas mãos estavam espalhadas pelo chão. O ar estava frio e o chão era curvo, sutilmente em forma de tigela. Os dedos de Casey roçaram em algo macio que se soltou sobre ele e ele recuou.

E então houve sirenes em seus ouvidos. Tudo se tornou brilhante, abrasadoramente branco, e o estouro em seus tímpanos fez com que suas mãos corressem para proteger a cabeça. O som era como uma sirene de nevoeiro, tão alta que o ar estava fervendo e a mente de Casey foi forçosamente limpa de tudo, exceto o pensamento de escapar e — ela parou.

Casey suspirou, como se tivesse perdido o fôlego.

Ele ouviu uma voz baixa e áspera. "Patógeno. Identifique-se."

Ele se esforçou para olhar para cima. A sala ainda era um branco puro infinito, mas à frente e acima dele havia uma esfera violeta. Como olhar para um único olho enorme que consumia sua visão.

Casey ficou de pé, cambaleando no chão curvo.

"Eu sou Casey Malik. Eu preciso falar com você."

Tentáculos lisos cor de lavanda se enlaçavam ao redor de seus tornozelos e pulsos. Ele foi puxado no ar. O orbe pairava na frente dele e pulsava com cada palavra. "O que você fez é proporcional a precisar falar da mesma maneira que cirurgia cerebral é proporcional a dizer olá."

Casey se contorceu. "Sinto muito, mas está ruim lá fora. Pessoas estão morrendo e só está piorando."

A sala se aqueceu um grau ou dois. "A morte," a voz emanou, "está ao nosso redor. Suas células estão morrendo agora. Em sete anos, cada parte de seu corpo que está viva agora estará morte e substituída por nova vida. A morte de uma célula não implica o ferimento do todo."

Ele apertou os olhos, indignado. "Você vai simplesmente nos ignorar assim?"

"Não é sua culpa que você não entenda. Você era simplesmente uma célula. E agora você é um patógeno."

"Tem problemas maiores do que eu lá fora. Eu só sou um secretário. Houve uma bomba lá fora e eu- eu acho que isso foi apenas uma distração."

"Uma distração para quem? Posso ver que você não está totalmente alheio. Você tem um passageiro." Tentáculos adicionais se estendiam da orbe, passando ao longo da bochecha e têmporas de Casey. Ele tentou recuar, mas foi forçado a ficar parado.

"Ela só está esperando lá fora. Ela é uma amiga."

"Não isso. Um passageiro. Dentro de sua cabeça."

"Isso é, bem- eu fui exposto a um portador. Ele me fez fazer algo. Ele é- ele é memético." Casey recapitulou os passos em sua cabeça. "Uma infecção nas células ameaça o corpo."

O Prefeito balbuciou de maneira contemplativa. "Sim," ele disse. "Pode."

"O que é preciso para te ameaçar?"

"Muito mais do que você tem."

"O Prefeito se aproximou e cravou seus tentáculos na cabeça de Casey e ele gritou-


No começo, Casey estava com medo. Ele acabara de nascer, e suas extensões de terra estavam estéreis-

Espera ai, volte um segundo. Casey não tinha extensões de terra. Ele, o Casey correto desta vez, deu um passo para trás. O Prefeito estava dentro de sua cabeça, mas a cognição mútua é uma via de mão dupla, não é?

O som de tiros trouxe Casey de volta para o outro lugar. Bombas sacudiram o vasto corpo dele, e ele não tinha para onde ir. Grandes cordas o amarravam a uma âncora invisível, três arpões enterrados em sua carne.

Ele sentiu passos sobre ele e ouviu vozes. Soldados, buscando refúgio de uma guerra distante, lutavam com armas e fantasmas e fogo.

Três Portlands os saudaram de braços abertos.

Anos se passaram. A guerra acabou com grande alarde, e as torres de vigia e fortificações e comboios de Portlands se tornaram casas e padarias e bicicletas.

O Prefeito celebrou também. Ele construiu uma casa para si.

A população se multiplicou; o povo se tornou indistinto. O Prefeito não via rostos, não mais; tudo que ele via eram culturas — desejos. Poder acumulado na cidade.

O Prefeito tomou conhecimento de entidades como ele. "América". "Reino Unido". "Fundação". O Prefeito construiu muros mais fortes.

Três Portlands floresceu, e o Prefeito economizou apenas uma fração dessa energia. Seu corpo se expandiu rapidamente para fora, estendendo-se ao éter. Grandes membros e veias de pedra e aço cheios de dezenas de milhares de células-

Casey se tocou de novo. Ele era uma pessoa novamente, sentado em uma cadeira de madeira em um café.

Ele olhou pela grande janela para ver milhas e milhas de espaço em branco, e a totalidade de Três Portlands virada como uma grande roda.

O café estava vazio, exceto por uma pessoa sentada à mesa.

"Casey, amor," Adam arrulhou. "Conte-me sobre a bomba."

"Adam, você-" Casey começou. "Você não deveria se parecer com ele."

Não Adam riu. Ele soava exatamente como ele. "Agora que estive dentro de sua cabeça, eu acho que podemos ficar confortáveis um com o outro. Não consigo ver dentro da explosão, Casey. Me diga o que aconteceu." O café parecia voar em direção à cidade virada lateralmente, onde o grande cone de poeira rapidamente ser tornou visível.

"Cillian Erwan e Sidney Way estavam lá. O alvo e o bombista. Uma duplicata do Agente Spencer matou os dois."

"Mm," Não Adam cantarolou, como se estivesse saboreando um pedaço de alguma coisa. "Quem escapou?"

"Eu. E Adam, e Vera. E o outro bombista. Timothy."

"Timothy," Não Adam repetiu. O café se aproximou da beira da nuvem opaca, para uma rua lateral onde um homem com shorts de basquete emergia da poeira. Lágrimas lamacentas escorriam por seu rosto. Ele começou a correr.

A janela o seguiu enquanto ele desaparecia em uma linha de cidadãos fugindo da explosão. Ele ficou com eles até que pudesse virar para uma rua secundária e entrar correndo no apartamento. A janela do café se transformou em uma vista de cima para baixo.

Timothy subiu correndo as escadas e pegou um chaveiro no bolso de sua jaqueta gessada. Ele irrompeu em um apartamento apertado e sujo, bateu a porta e começou a tossir. Um momento se passou e ele recuperou o fôlego.

Ele olhou para cima e um pacote imaculado do tamanho de uma caixa de pão chamou sua atenção.

Ele se ajoelhou ao lado dele, examinando-o para qualquer marca de origem. Encontrando nada, ele cravou os dedos nas emendas e o rasgou, retirando um objeto que parecia uma pistola e-

Parecia exatamente com o abridor-de-vias de Vera.

O rosto do Não Adam endureceu. "Não, não." Ele olhou para Casey. "Deixe-me ver de novo."

Casey não conseguia tirar os olhos de Timothy, que ainda estava segurando o objeto. "O que?"

"O vírus na sua cabeça. Eu preciso vê-lo novamente." A cena do lado de fora da janela explodiu em faíscas e depois voltou a se transformar em névoa cinza. Não Adam agarrou Casey pelos ombros e o ergueu sem esforço no ar. Sua voz estava frenética. "Eu preciso saber o que ele faz. Eu preciso ver quem o enviou. Não podemos ter muito tempo."

Não Adam enterrou os dedos no pescoço de Casey, mas ele mal sentiu a dor. Os olhos da aparição ficaram em branco enquanto ela recebia a informação. "Sim, sim, ele é- eu posso ver, eu consigo ver ele."

E então ela congelou, e ela e o café desapareceram da existência. Casey caiu no chão. Ele estava na sala branca mais uma vez.

Quando ele se levantou, ele viu outra pessoa.

"Finalmente," disse Timothy Way. Ele parecia exatamente como da janela. "Demorou tempo demais."

Casey tentou atacá-lo, mas foi forçado a recuar por uma corrente de ar invisível. A orbe no centro do espaço estava piscando, vibrando mais rápido do que qualquer um conseguia dizer e ela estava radiando força para fora.

"Honestamente," Timothy continuou, "não sei como eles conseguiram. Como você projeta um risco cognitivo para algo tão abstrato, quanto mais aninhá-lo em outro risco?" Ele encolheu os ombros, e Casey podia ver o abridor-de-vias em sua mão. "Acho que não importa agora."

Em torno de Casey, o espaço em branco escureceu com estática. A corrente de vento acelerou. Rajadas de vento giravam dentro da esfera.

Timothy se firmou contra a lateral da câmara, ergueu seu dispositivo no orbe congelado e puxou o gatilho.

A esfera se distorceu — como arrastar uma agulha através de tinta sobre a água, um cone recortado saindo da superfície plácida. Um instante depois, ela reverberou de volta; ela ondulou pelo ar e pelas paredes e pelo corpo e mente de Casey.

Houve agora uma atração definitiva na sala, uma gravitação para o orbe que ondulava com amplitude cada vez maior, envolvendo ao redor de uma Via para sabe se lá onde.

Casey se apoio nos cotovelos. Ele tentou gritar por cima do barulho, sua voz rouca e densa. "O que você tá fazendo? Por quê?"

Timothy largou o abridor-de-vias. O abridor voou para o vórtice crescente e desapareceu. "Vocês nos mostraram como chegar aqui. Derrubaram as defesas dele e abriram a porta."

O homem tossiu, deslocando seu peso contra a parede. "Eles não entendem. Eles acham que este é um bom plano. Mas Três Portlands precisa passar pelo fogo para tirá-los. Todos os policiais e os espiões e os-" ele começou a tossir. "Renascidos no fogo. Como deveria ser."

Casey puxou os joelhos até o estômago. O Prefeito estava sumindo agora, ficando cada vez menor conforme os ventos e a gravidade aumentavam. Ele falou e as palavras foram levadas pelo vento. "Eu não quero sair da cidade."

"Não se preocupe," disse Timothy, fechando os olhos. "Vai ser como se você nunca tivesse saído."

Casey fechou os olhos. O chão se abriu embaixo dele e ele caiu em braços que o esperavam.


Todos os cães em Três Portlands acordaram do sono e começaram a latir.

Os passageiros que esperavam na Estação Central de Três Portlands observavam enquanto cada Via foi sequencialmente marcada como "FECHADA".

Qualquer pessoa no lado de fora ouviu uma grande badalada; acima deles, as estrelas se apagaram uma a uma.

Todos que estavam sonhando estremeceram e agarraram suas cobertas com um pouco mais de força.

Isso aconteceu em toda a cidade, de uma vez. Por que, daquele momento em diante, Três Portlands não era uma cidade.

Daquele momento em diante, Três Portlands era um cadáver.


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