A Fonte de Lamneth
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A Agente Kanako Yamada resmuga e afunda em seu banquinho no bar, os braços apoiando a cabeça para cima e impedindo-a de bater no copo de uísque na mesa. Ela ajusta o colete com irritação e lança um olhar furioso para o ciborgue próximo que está lhe dando um olhar estranho, antes de se virar para o barman.

"C'sabe, Hersh", ela supira, "você sabe qual é o problema com esse maldito lugar?"

O androide esquelético inclina sua cabeça metálica em sua direção, suas pálpebras de bronze vibrando em reconhecimento silencioso. Ao redor dele, clientes em vários estados de melhoria robótica e devoção a WAN conversam e trocam várias bebidas que são inevitavelmente tóxicas demais para o ser humano comum. Sua parte de trás zumbe e emite um sibilo suave antes de abrir uma garrafa ciano brilhante e derramar um copo de céu super saturado para um cliente próximo.

"Ele é a porra de um boteco. Nada de bom acontece em um maldito boteco." Kanaka dá um gole em sua bebida – uma cor âmbar quase banal em comparação. "Eu fui promovida em um boteco… levei um tiro em um boteco… atirei em alguém em um boteco…" Ela coloca o copo agora vazio na mesa. "Por que diabos estou mesmo aqui?"

Hersh encolhe os ombros e faz um barulho de clique ao fazê-lo, antes de pegar seu copo e fornecer-lhe um refill prestativo.

Kanako distraidamente checa o relógio, empurrando a mão pela mesa ao fazê-lo. A estrutura tridimensional cede facilmente sob seu toque pentadimensional e ela distraidamente brinca com a estrutura molecular da madeira prensada barata, parando assim que uma parte da tinta se liquefaz e cospe. "Dez e meia", ela conclui. "Normalmente eu bebo pelo menos doze drinques quando isso acontece."

O robô assobia e oferece o copo de uísque para ela, desta vez com mais força. Kanako ganhou o direito vitalicio a refills gratuitos depois de abusar de vários implantes de fígado do mercado negro para vencer Hersh em um jogo de beber – ela venceu não fazendo com que ele desmaiasse, mas sim por acordo mútuo de que todo o jogo havia durado longo demais.

"Tudo bem, Hersh." Kanako pega a bebida e dá um gole, antes de colocar o copo na mesa. "Você está feliz agor–"

Há um grito alto e o som de várias pessoas se levantando para ver o que diabos está acontecendo. Kanako se junto ao dito bando de levantamentos e sibila quando percebe o que está acontecendo.

É a síndrome de Cuchulainn no seu pior.

Enquanto o homem continua a cuspir e gritar, seu cérebro está atualmente tentando lidar com cerca de dezessete sinais conflitantes diferentes causados por pelo menos três agentes meméticos. Em uma admirável tentativa de compensar, ele agora está tentando satisfazer todas essas condições de uma vez, iluminando quase todo o cérebro – em termos mais brandos, uma convulsão tônica-clônica.

Kanako começa a empurrar pessoas para fora do caminho para chegar até o homem, e só se lembra que tem uma licença que a qualifica para tratar o homem enquanto ela está no meio da multidão de curiosos. Finalmente, tirando-a do bolso, ela rapidamente a mostra para os vários espectadores, afastando-os com o poder da autoridade legal e os codificadores de Stephenson, otimizados para as várias distros de Unix que os Maxwellistas bastardos executam.

"Com licença, estou passando, médico", ela grita, embora os gritos aterrorizados das pessoas infelizes que realmente viram sua licença tornem a questão menos reconfortante do que ela pretendia que fosse. "Continuem andando."

Depois de conseguir navegar pela horda, ela rapidamente se move até o homem em questão e aciona seus sentidos de hiperluz – vendo não em fótons de baixo grau, mas em informação pura, dados visualizados em sua forma mais pura. Caindo sobre um joelho e checando seu pulso, vários elementos de display começam a faiscar pra vida e ela faz uma nota mental rápida para consertá-los mais tarde.

Provando conclusivamente que ele está, de fato, ainda vivo, ela agora tem que fazer o trabalho de mantê-lo assim.

Ela amplia o poder de processamento de seu córtex perceptivo e observa o tempo se desacelerar para o rastejar de uma tartaruga paraplégica. Hiperluz não consegue realmente dizer nada a ela a esta distância, já que tudo que ela está recebendoo é apenas um vago borrão de luz – vago demais para realmente distinguir qualquer detalhe útil. Ela diminui a sensibilidade em três – não, quatro graus de magnitude e as contorções e retorções do que quer que seja que está perfurando o cérebro desse homem se tornam gradualmente mais aparentes

Isso está emitindo gritos de magenta sangrenta e agitando-se loucamente no cérebro do homem. Tão importante quanto, esse algo está ficando perigosamente perto de se prender à fina teia de informações que conecta os maxwellistas pela sala. Ela precisa lidar com a ameaça agora.

Respirando fundo, Kanako puxa a mão dela e a empurra pela cabeça dele. Não de verdade, é claro – na realidade, esse braço não existe e não existe há cerca de três anos, mas desde quando isso importa?

Seu braço pisca e acende com raiva até que a conexão seja estabelecida e ela imediatamente começa a despejar todos os agentes assassinos que ela pode enfiar no cérebro do homem, fazendo com o tentáculo se agite e se retire um pouco da cavidade do crânio do homem. Não é suficiente nem para machucá-lo e antes que o pensamento de que ela está perdendo a inciiativa passe por sua cabeça, o apêndice reage e dá um soco de volta.

sudo matartoda cognicao

Kanako grita (bem, ela não o faz, fazer movimentos corporais é difícil a um milhão de vezes a velocidade perceptual normal) e desesperadamente cria defesas em uma última tentativa de parar o fluxo de Unix entrando em seu cérebro e logo descobre para sua surpresa que o único comando que continua sendo repetido violentamente é:

cd ~/producao/peixenegro

junto com vários outros comandos abortados e uma solicitação para fazer torrent de um filme de algum tipo.

Ela não pode lidar com a ameaça sem informações e para obter informações ela precisa de tempo. Decidindo que dormência temporária seria uma coisa melhor do que morte cerebral permanente, ela começa a despejar sensações velhas meio lembradas – fragmentos de um solo de saxofone, cheiro de cloro em uma piscina – na concha oca de uma consciência do homem.

A criatura grita e se contorce descontroladamente, distraída por enquanto por suas memórias descartadas. Isso vai servir por cerca de cinco minutos antes que ela comece a ter de sacrificar a memória de curto prazo.

Kanako rapidamente abre outro display e começa a canalizar sua memória do recente ataque mental para o terminal. Em segundos subjetivos, ela tem um registro completo de suas ações – em um piscar de olhos, algum regex judicioso puxou o filme que essa coisa está tentando fazer torrent.

1080pDOCUMENTARIOPEIXENEGROrusssubsVAZADO.mp4

Peixenegro… Kanako pensa sobre isso por alguns segundos antes de decidir entrar em uma conexão de internet de um maxwellista próximo e pular para o próprio diretório.

Espere um se– maldição. De jeito nenhum que esse cara é tão estúpido–

Kanako tem que admirar a audácia desse idiota. Ele não só está vazando o filme em que está trabalhando, mas também configurou um pequeno servidor P2P agradável rodando no computador que está usando para editar a maldita coisa.

Isso sem nem apontar pro fato do que o arquivo em si está fervilhando de agentes meméticos e vermes Berryman-Langford, rastejando sobre a estrutura do arquivo como vermes sobre um cadáver em decomposição. Kanako recua instintivamente do campo mental de lixo tóxico, mas o principal pensamento em sua mente é o fato de que o Deus Ancião de Stallman ainda está se debatendo tentando obter esse diretório.

Isso sugere bastante sobre de onde o cacodemônio Unix veio e o que ele está tentando fazer.

Ela volta o foco para a consciência do homem e descobre que – alegria das alegrias – seu cérebro agora foi tomado por uma fossa fervilhante de agentes meméticos, a… maioria dos quais ela nunca colocou em sua cabeça em primeiro lugar.

Os agentes meméticos em questão? Pilhas fervilhantes e esmagadoras de… vermes verdes brilhantes. Essa coisa tem deixado uma pegada conceitual tóxica que é aproximadamente equivalente a um derramamento de óleo mental, escolha qualquer um.

Então agora ela sabe onde essa coisa esteve e para onde ela está tentando voltar. Se Kanako tem alguma chance de dar ao homem uma chance de algo que não seja a morte cerebral total, ela tem que fazer o que essa coisa quer. Ela tem que enviar ela de volta.

Reunindo todas as suas capacidades mentais, ela rapidamente capta a consciência do homem e simplifica a besta do inferno, reduzindo-a de toda uma camada de abstração e cortando-a de um todo maior ao qual ela ainda não pode prestar atenção. A coisa grita e cospe mais arquivos compactados nela, mas ela consegue resistir ao esfolamento mental sem perder muita memória.

Com menos dados, vem uma densidade informacional mais baixa – o suficiente para permitir que ela faça o upload da coisa pelo telefone do homem, que também foi coberto por vermes informacionais brilhantes. Ela mal tem tempo de fazer uma nota sobre como ele pegou o tentáculo mental Unix antes da coisa se contorcer e ameaçar se reunir com o todo conceitual maior.

Respirando fundo (sem o fazer), Kanako retira sua presença conceitual, antes de se abstrair – aumentando sua presença conceitual generalizando-a, adicionando peso de processamento aos terabytes enquanto o faz – e os dois colidem:

É $\aleph_{1}$ contra $\aleph_{0}$ e o peso ontológico de Kanako esmaga o tentáculo recentemente desenergizado no telefone, tacando a (surpreendentemente bem compactada) enésima dimensão de banco de dados através da conexão e de volta para o computador.

A inércia informacional do golpe a esmaga contra a estrutura do arquivo com um baque e ela é jogada para longe do tentáculo, que agora está começando a se desdobrar e se regeneralizar com um ruído como facas contra vidro, a teia iridescente de lambdas se desdobrando contra o austero verde e preto do miolo.

Enquanto ele começa a se reintegrar na pasta de néon brilhante se contorcendo Kanako rapidamente se simplifica para o menor tamanho de arquivo possível e chuta de volta para a consciência do homem, alijando furiosamente memória e sensação em uma tentativa de escapar do rápido florescimento do inferno ontológico que está correndo cada vez mais rápido em sua direção.

Finalmente, ela consegue acertar a consciência do homem e cortar a conexão remotamente, fragmentando o tentáculo em milhões de comandos meio concluídos que se dispersam inofensivamente no ar. Por reflexo, ela salta para fora dos limites mentais e cai em sua própria consciência, espalhando memórias fora do tempo e enviando explosões sinestésicas de som cortador de pele através de seu cérebro.

O acelerador perceptivo é empurrado para frente mais um milhão de vezes e estala, retornando Kanako à velocidade normal com uma explosão estonteante de cor e som enquanto seu cérebro lida com o tremendo acúmulo de qualia.

Seu braço pisca fora da hiperluz, seus sensores colidem e ela tomba, o coração batendo forte dentro e fora do ritmo e tirando todo o seu senso de equilíbrio. Na frente dela, os olhos do homem se abrem fracamente.

A última coisa de que ela se lembra antes de seu coração falhar é o som de uma palavra confusa ("Frank?") e a sombra de pés se afastando casualmente.

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