Punho do Trovão, Mão de Salomão
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21 de Dezembro, 1985
Timmins, Ontário

Eles encontraram Maximilian Bauer andando no Parque Hollinger.

"Isso apresenta um problema," disse Andersen, abaixando o rifle.

Os três — Florence, Westbrook e a Górgona — acamparam no topo de um edifício próximo do centro da cidade e estavam monitorando as ruas de seu poleiro elevado enquanto membros da equipe de ataque procuravam a pé. Outros estavam ocupando o edifício abaixo deles, esperando pelo sinal para se mover. Outra equipe estava de prontidão fora da cidade, pronta para se mobilizar como reforços.

"Certo, porque não podemos simplesmente assassiná-lo em plena luz do dia", disse Florence.

"Que? Isso é fácil", respondeu Andersen. "Não, porque significa que o ponto de encontro será na cidade propriamente dita. Matar um homem em um centro populacional é muito simples, matar vinte e um é significantemente mais difícil. Haverá um tiroteio, reféns em potencial, cobertura urbana."

"Então nós o matamos antes que eles façam a entrega", disse Westbrook. "Pelo que você disse, eles precisam de Bauer para usar a chave em todo o seu potencial, por isso, se o eliminarmos, neutralizamos a ameaça."

"Apenas temporariamente. Eles vão encontrar outro taumaturgo eventualmente. E talvez Bauer tenha um interruptor de homem morto que alertará a equipe com a Chave se ele for morto antes do encontro. Se isso acontecer, eles vão pro escuro, e nós talvez nunca consigamos a Chave de volta."

"Certo", Westbrook começou. "E se—"

Florence se desligou do argumento enquanto ela olhava para Bauer através de seus próprios binóculos. Ele usava um casacão grosso para se proteger do frio canadense — os nazistas aparentemente haviam aprendido os benefícios de equipamentos de inverno adequados, embora algumas décadas tarde demais. Havia uma protuberância em seu casaco que poderia esconder uma arma ou um rádio, embora fosse impossível dizer qual a essa distância. Quando ele passou por um grupo de patinadores, ela o viu enfiar a mão no casaco e começar a retirar alguma coisa.

"Ou", ela disse, interrompendo o argumento de Andersen e Westbrook. "Nós fomos enganados."

Isso chamou a atenção deles. "Que?"

Ela observava enquanto Bauer tirava uma corneta esculpida simples — a sexta Chave — e segurava ela nos lábios. Ele assoprou nela e, embora ela não pudesse ouvi-la, ela viu seu efeito imediato nos patinadores próximos. Todos eles pararam o que estavam fazendo no meio do movimento, embora vários deles continuassem a ir pra frente devido ao seu impulso. Dois deles bateram um no outro e caíram no gelo, ainda posando rigidamente.

Então Bauer se virou para encará-la diretamente. A quase meia milha de distância. E ele piscou.

Assim que Florence tropeçou para trás em surpresa, o ar foi dividido pelo som de um raio em um dia sem nuvens. Um projetor de plasma.

A OBSKURA estava lá.

Westbrook xingou. "Fomos pegos."

"Bauer tem a chave", disse Florence. "Ele sabe que estamos aqui."

"Temos que matar ele agora", disse Andersen.

"Tarde demais", disse Westbrook. "Eu não ligo para o quão boa seja a sua mira, Górgona, você não está atirando em um mago que sabe que você está aqui. Nós precisamos abortar e chamar o apoio aéreo."

Andersen olhou pela mira do rifle por um momento, e então o abaixou novamente. "Concordo. Diga ao seu pessoal para sair, eu vou chamar nossos bombardeiros."

"Não."

Os dois se viraram para olhar para Florence. A jovem taumaturga se afastou da beira do edifício e se levantou, de frente para a direção do parque. Os olhos dela estavam fechados em concentração.

"Nós não temos muitas opções, Firestarter", disse Westbrook. Teve um som de tiros abaixo, e então mais trovões de um projetor de plasma. A OBSKURA estava enfrentando os membros da força-tarefa dentro do edifício.

"Não", ela repetiu. "Eu cuido dele."

Então ela pulou do edifício.

O que ela estava prestes a fazer era algo que nunca teria considerado antes de entrar na Fundação. Ela sempre favoreceu o fogo para suas evocações — uma tendência nascida de afinidade natural e então encorajada pelos Fantasmas do Lago — mas eventos recentes a mostraram os perigos desse foco pequeno. Na últimas semanas de treinamento na academia de taumaturgia, ela passou bastante tempo praticando com força física direta. Ela não tinha o mesmo talento natural para ela que ela possuía para o fogo, mas ela era agora habilidosa o suficiente para tornar o que ela estava fazendo meramente estúpido, ao invés de suicidamente estúpido.

Ao passar pela borda do edifício, ela soltou o poder que reunira em uma explosão de força cinética, lançando-se no ar em uma trajetória balística. A reação perturbava ao seu redor, assoprando semáforos e derretendo uma parte dos asfalto. Alguém na rua abaixo gritou, e ela tentava não pensar na quantidade de amnésticos que seriam necessários para as consequências. Salve o mundo primeiro, faça as testemunhas esquecerem disso mais tarde.

Ela caía em direção ao parque, usando outra explosão de força para ajustar sua trajetória para alvejar Bauer mais precisamente. Conforme o chão corria para encontrá-la, ela reuniu sua vontade novamente. Hora de ver se isso terminaria em suicídio ou homicídio.

Essa próxima evocação era algo para o qual ela nunca havia praticado nem preparado. Embora este fosse um forte testemunho de sua sanidade mental, teria sido melhor se ela não tivesse que planejar a operação no meio do ar. Com apenas alguns segundos para acertar, ela decidiu empregar um feitiço antigo que ela uma vez usara para desviar balas. Em vez de desviar um projétil, no entanto, ela iria se desviar.

Florence se prepara para socar Maximilian Bauer na cara.

Os olhos de Bauer se arregalaram em surpresa quando a sombra dela caiu sobre o rosto dele, que foi o momento exato em que ela escolheu soltar seu feitiço.

Ela sentiu a curiosa e nauseante sensação de parar sem qualquer desaceleração quando a evocação repentinamente sugou seu impulso e o aproveitou para sua vontade. Enquanto ela pousava gentilmente no chão diante de Bauer, seu punho girava para frente para conectar com a mandíbula dele, liberando a energia cinética que ele havia roubado de sua queda.

Uma lança de força pura percorreu seu braço e sua mão enquanto ela socava o feiticeiro nazista na cara com toda força de uma locomotiva em alta velocidade.

Qualquer outra pessoa teria morrido instantânea e horrivelmente. No entanto, Bauer usou os últimos nanossegundos antes de seu ataque para preparar um contra-feitiço. Ele salvou sua vida. Ao invés de sua cabeça explodir em uma nuvém de névoa fina, ele foi simplesmente jogado para trás, aterrisando a vários metros de distância em um banco de neve.

As reações dos feitiços conflitantes foi horrível.

Toda a neve num raio de cinco pés de onde Bauer estivera instantaneamente derreteu e virou vapor. Uma árvore próxima repentinamente se viu verde com um crescimento fora de estação antes de florescer, murchar e morrer dentro de cinco segundos — então, para completar, ela pegou fogo. O parque foi preenchido por grasnamentos infernais quando um bando de gansos canadenses materializou no ar, confusos e zangados por estar no Canadá. Uma segunda onda de reações pegou um dos gansos e o virou de dentro para fora, o que aparentemente só o deixou mais irritado.

Bauer se levantou e saiu do banco de neve. Seu nariz estava quebrado e sangrando, e pelo menos uma de suas costelas deveria ter sido quebrada pela explosão, mas, fora isso, ele estava ileso. A Chave foi arrancada de suas mãos e caiu na neve entre os dois.

Ele cuspiu em desafio. "Um bom esforço, garota, mas você não é o Golem. Mesmo o Judenriese não conseguiria parar o Punho do Trovão agora."

Haviam muitas observações contundentes que Florence poderia ter feito sobre Bauer se referir a si mesmo na terceira pessoa, mas, em vez disso, ela soltou um raio de fogo em sua direção e se jogou na direção da Chave.

Ele esperava por isso, e estava esperando e pronto. Ele estendeu a mão e pegou o feitiço do ar, girando no lugar para redirecioná-lo. Enquanto ele girava, ele torceu o raio ardente em uma lança de raio, que ele enviou de volta para Florence com um grito de raiva.

Ela tentou se proteger do feitiço, mas todas as suas proteções de combate foram projetadas para impedir ataques físicos, A lança de energia crepitante cortou seu contra-feitiço e a atingiu bem no peito.

A dor era insuportável e, por um momento, o mundo inteiro ficou preto. Quando ela voltou a si, ela se viu caída no chão, de bruços na neve. Ela se esforçou para levantar a cabeça, bem a tempo de ver Bauer pegar a chave.

Ele sorriu para ela. "Você perdeu, garota."

Ele então levantou a corneta para sua boca e tocou.

Florence não ouviu nada. A GOC havia inoculado todos eles contra as frequências da corneta antes da missão. Mas, agindo por algum instinto reflexivo, ela congelou como se a buzina tivesse funcionado.

"Você tem espírito, garota, eu reconheço isso", ele disse. "Poder, também. Mas eu estive lutando contra feiticeiros mais fortes que você a minha vida toda. Você nunca teve chance."

Ela reunia seu poder enquanto ele andava em direção a ela, tomando cuidado para não deixar nada vazar para sua aura onde ele talvez note. Isso exigia uma concentração agonizante de vontade, mas ela focou completamente no feitiço. Ela só teria mais uma chance, e precisava fazê-la valer a pena.

Bauer se agachou em frente a ela, o rosto estampado com um sorriso feio. "Estava preocupado que o choque te matasse, mas você é mais forte do que parece. Você será uma excelente arma nas guerras que virão."

Ele estendeu a mão para acariciar o rosto dela. Antes que seu dedo pudesse tocá-la, ela detonou.

A explosão fez a tempestade de fogo que ela criou em Minneapolis parecer um isqueiro. Chamas, brancas em sua intensidade, irromperam de todos os poros de seu corpo — e, em vez de irradiarem para fora em todas as direções, elas avançaram em direção a Bauer com uma fome feroz. Ele gritou quando o inferno procurou consumi-lo. Ele conjurou um escudo, mas não antes que o fogo já tivesse derretido a pele de sua mão.

Enquanto Bauer tropeçava para trás por trás de seu escudo, Florence se levantava e empurrava os braços na direção dele, canalizando todo o seu ser para as energias ardentes que ela invocara. O universo estremeceu sob a força de seu duelo, e ela estava distantemente ciente das reações que os cercava enquanto a realidade começava a simplesmente desistir. Ela ignorou, concentrando-se inteiramente na destruição de Bauer.

Eles ficaram assim por vários segundos completos, o que é uma eternidade em um duelo de feiticeiros. Florence podia sentir a energia sendo drenada de sua alma conforme ela ultrapassava seus limites, nenhuma preocupação dada à possibilidade de morrer de exaustão taumica. Se ela não matasse Bauer agora, ele iria matar ela. Era simples assim.

Seus esforços foram recompensados quando ela sentiu seu escudo começar a vacilar. Seu duelo era brutal em sua simplicidade, poder bruto contra poder bruto. E ela tinha mais dele.

Bauer deu um passo para trás. E então outro. Florence pressionou o ataque, procurando brechas no escudo.

"Pare!" Bauer clamou, uma pitada de pânico em sua voz. "Pare, ou eu os mato."

Florence não parou, mas ela hesitou, provocando uma quebra nas chamas que Bauer aproveitou para fortificar seu escudo.

"Isso mesmo", Bauer disse. "Eu sei o que você está pensando: quantas dezenas eu tenho sob meu controle? Centenas? Milhares? A cidade inteira? Com uma palavra, eu posso matar todos eles."

Florence ciava enquanto ela continuava o ataque. Mas ele já estava enfraquecendo, sua vontade dividida pelo medo que Bauer plantou em sua mente.

"Cesse seu ataque, garota, e se retire do campo, ou as mortes deles estarão em suas mãos."

As chamas apagaram-se enquanto ela caía de joelhos com um grito de ódio. Bauer ficou em frente a ela, tremendo de esforço. A carne em sua mão direta havia sido queimada em cinzas, expondo os músculos e ossos subjacentes. Sua cara estava empolada e queimada pelo calor de seu ataque, e seus olhos ardiam de ódio. Ele parecia uma visão da própria morte, mas a Chave ainda estava firmemente segura em sua mão restante.

"Patético", ele soltou. "A paz te deixou fraca."

"Maldito seja", ela ofegou. "Seu desgraçado."

"Você deveria ter me matado", disse ele. "Você não aprendeu nada com Chamberlain, garota? As ovelhas não podem fazer as pazes com os lobos."

Ela não disse nada. Ela não podia. Ela gastou toda sua energia em seu último ataque fútil. Ela só tinha o suficiente para olhá-lo nos olhos enquanto ele se preparava para matá-la.

Ele levantou sua mão direita arruinada e apontou para ela. "Agora, morra em agonia."

O peito dele explodiu.

CRACK. O som de um rifle ecoou pela cidade.

Do seu poleiro na cobertura, a Górgona sorriu sombriamente.

Bauer olhou para o ferimento de bala no seu esterno. A consciência de sua morte iminente apareceu em seus olhos, e ele rosnou.

"MORRAM!"

Ele caiu ao chão, morto.

Um momento depois, se juntaram a ele todos os civis no parque, cujos corações pararam de bater.

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