TUDO QUE SOBE...
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Cabo Matos acordou com um susto. Ainda era final de tarde e ele ainda estava na traseira de um caminhão com seus 5 outros companheiros, além do motorista e do Sargento Souza. Ele já havia esquecido de sua missão, memória não era seu forte, mas ele sabia que era de extrema importância. É um longo caminho do Rio de Janeiro até Brasília, o vento seco do interior e as grandes montanhas das serras eram um desafio para aquele caminhão. Matos se lembra de sua missão: Tomar Brasília e garantir que o país se livre da ameaça comunista.

Matos não acreditava muito nisso na verdade, aos seus 28 anos e ele nunca tinha ouvido falar de Marx até então. Mas eram ordens superiores, o que mais ele iria fazer? Já faziam horas que eles estavam lá, o silêncio de seus companheiros era horrível. Até ouvir a voz do Sargento:

-Carlos! O caminho era pela BR-153. O que diabos estamos fazendo aqui? Essa estrada nem placas e nem asfalto tem! Se o caminhão parar aqui estamos mortos!

-Senhor com todo o respeito, eu segui a indicação do mapa. Nada mais, nada menos.

-Santo deus Carlos, se for para morrer eu quero ir acertando comunas, e não buscando comida em arbustos secos!

-Bom senhor, da próxima vez o senhor pode…

-Senhor! Contato desconhecido às três horas!- Interrompeu o Soldado Siqueira.

-Desconhecido? Mas o que diabos… Ha! Eu nunca vi esse símbolo antes. Isso só pode significar uma coisa homens! Os guerrilheiros comunistas já começaram a planejar um contra-ataque! Carlos! Siga esse caminhão, veremos onde esses vermelhos estão acampando, aproveitaremos a noite para ataca-los de surpresa! Iremos à Brasília gloriosos!

-Senhor, eu não acho que isso seja uma boa ideia, visto que pode ser um simples caminhão comercial e… - Retrucou Cabo Matos.

-Matos, temos em nossas mãos a chance de fazer algo! De lutar, Matos! Vocês querem ficar capinando e fazendo buracos para sempre, hein? Limpando armas e arrumando quartéis?

-Não senhor.

-Então o que dizem homens?

-Pela pátria!- Exclamaram todos, menos Matos.

A noite caía sobre os militares perdidos. O campo aberto era péssimo para uma perseguição, mas conseguiram seguir de uma distância considerável e esgueirando o caminhão por fora da estrada. Uma pequena formação rochosa pode dar cobertura ao caminhão e um ponto de vantagem para os soldados. Carlos ficou no transporte, armado de uma pistola M1911, para o caso das coisas darem errado.

Sargento Souza pegou seu binóculo para averiguar a situação. Um acampamento pequeno, mais para um posto avançado, o caminhão que eles perseguiram estava estacionado à direita do local, dois contêineres laranja serviam de alojamento, uma pequena tenda guardava suprimentos, no centro havia uma fogueira, ao redor dessa haviam dois homens armados, com uniformes brancos e o símbolo do caminhão estampado no braço. Em um dos contêineres tinha um homem descansando. Atrás do caminhão, outro homem fumando e na tenda arrumando suprimentos… uma mulher? Armada e uniformizada? Souza estranhou, mas logo se voltou aos soldados:

-Ok homens, temos cinco deles lá. Eles estão desatentos, podemos usar isso para nossa vantagem. O plano é o seguinte: Matos, Siqueira e João, vocês atacam pela esquerda. Arnaldo, Oliveira, Bolívia e eu vamos pela direita. Ao meu sinal, saímos na formação de trás dessa pedra, quando chegarem perto, ataquem com tudo. Sem prisioneiros. Pela pátria!

-Senhor eu ainda acho que… - Contestou Matos novamente.

-Matos, não podemos voltar agora. Estamos quase sem gasolina e eles também tem isso lá. Chega de reclamar. Prontos? Vamos.

Os soldados se esgueiraram pelo mato seco, até chegar na altura da estrada de terra. Siqueira olhou para o Sargento Souza do outro lado, Souza fez um sinal com a mão, e logo se levantou gritando -Atacar!- o mais alto que pode. Todos ficaram de pé e correram para o acampamento. Os dois da fogueira já tinham seus fuzis em mãos, rápidos e silenciosos atiraram de volta com rajadas certeiras, que atingiram João no peito. João caiu sem vida. Siqueira contra-atacou rápido e acertou o primeiro, o segundo atirou de volta, acertando Siqueira na perna. Matos cobriu seu companheiro e acertou o segundo homem na cabeça.

A mulher da tenda estava na cobertura dos suprimentos. Seus tiros logo acertaram Siqueira, que estava com sua mobilidade afetada. Siqueira caiu sem vida. Matos buscou cobertura numa caixa de metal perto da fogueira. Ele olhou para o outro lado do local para ver os outros. Arnaldo já havia caído sem vida. Na hora que Matos olhou, Oliveira levou três tiros no estômago do homem que estava atrás do veículo. Oliveira caiu sem vida. Bolívia pode acertar o homem atrás do caminhão, mas logo foi atingido pelo homem no contêiner. -¡Ayúdenme aquí!- Bolívia gritou antes de cair sem vida.

Matos estava desesperado. Eles estavam perdendo, claramente. Voltou sua atenção à mulher atrás das caixas. Ele atirou algumas vezes, mas não houve nenhuma reação. Ele não pode resistir e procurou Sargento Souza com seus olhos. Souza estava saindo do contêiner, vitorioso. Matos ficou aliviado, mas ainda tremia com seu fuzil empunhado. Souza se aproximou e estendeu a mão para levantar Matos. Antes deste segurar de volta, alguém veio por trás de Souza e cortou sua garganta bem na frente de Matos. Sargento Souza caiu sem vida. Matos fechou seus olhos e descarregou seu pente furiosamente à frente. As balas acabaram. Ele acertou a mulher que matou o Sargento.

Ofegante, Matos largou seu fuzil e se levantou trêmulo. Ele olhou cada centímetro da chacina no meio do nada que eles provocaram. Para quê? Ele se perguntou. Matos voltou pensativo ao caminhão para se encontrar com Carlos. Ao contornar as rochas ele viu, mas não quis acreditar. Carlos já estava sem vida. Ele havia sido esfaqueado, a mulher contornou o combate. Matos estava só e perdido. Ele voltou ao acampamento.

Matos pensava, mas não via nada mais a fazer. Seu caminhão sem gasolina, ele pegaria o veículo dos inimigos. Buscou antes suprimentos na tenda. Ficou surpreso ao ver que não havia muito, a maioria das caixas estavam cheias de fotos e documentos estranhos. Felizmente havia gasolina e comida também. Encheu o tanque do caminhão com o símbolo estranho pintado, pegou as chaves no contêiner e carregou o veículo com as caixas da tenda. Mas antes ele abriu uma, e começou a ver os documentos. A Fundação. Nunca ouviu falar disso antes. Eram relatos de monstros, testes, acidentes e mortes. Para Matos, aquilo não queria dizer nada, mas talvez valesse algo para o novo governo. Fechou a traseira e subiu no caminhão. Deu a partida e foi embora.

Horas depois, com a ajuda de um mapa mal feito, conseguiu chegar à capital. Estacionou o caminhão dentro de uma garagem. Foi diretamente levado ao Marechal Castelo Branco, o novo presidente do país. Teve que explicar algumas vezes, mas os documentos recuperados foram o suficiente para convencer o Marechal. Foi levado para o quartel provisório de Brasília. Deitou em sua pequena cama no canto do lugar. Só queria uma coisa: que aquelas mortes não fossem em vão. Mal sabia Matos que aquele era só o início do conflito.

Mais tarde foi criada a Superintendência Brasileira do Paranormal. A Fundação teria um grande empecilho em seu caminho por um bom tempo. Quanto a Matos, foi convocado para ser parte do braço militar da Superintendência. Matos morreu um ano depois da mudança num acidente com transporte de material para a SBP, foi amassado por uma caixa com armas. Logo foi esquecido pelo mundo. Como todos os soldados são.

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