Depravação Absoluta
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O Bazar Absoluto era um local muito clichê para um assassinato. Com sua névoa densa, edifícios de pedregulho e chamas espectrais que lembravam vagamente lâmpadas a gás, era fácil imaginar Jack o Estripador espreitando pelos becos.

O corpo ainda quente de uma prostituta recém-estripada completava o clichê.

Morose e Grindle, dois guardas do Bazar Absoluto, elevavam-se sobre o corpo. Suas máscaras inexpressivas tornavam impossível dizer se eles estavam enojadas ou absolutamente insensíveis à cena horrível.

"A garota é daqui, não é?" perguntou Grindle, sua voz transmitindo um eco metálico por sua máscara.

"Sim. Ela trabalhava no Door Bell'O Bordello. Parece que o desgraçado que a rasgou levou seu útero," disse Morose, ajoelhando-se para examinar as vísceras derramadas no chão sujo.

"Aí está o seu motivo. O ventre de uma prostituta terá um belo preço no [[an-arm-and-a-leg |Mercado da Carne]]]. É tudo sobre virgens e prostitutas com esses animais."

"Ótimo. Então, temos um viciado em Bloom desesperado o suficiente para matar à solta. Mas por que aqui? Não há nenhuma maneira de entrar ou sair do Bazar sem ser pelas Vias, todas as quais são vigiadas o tempo todo." Morose se levantou, sacudindo a cabeça. "Os porteiros juram que todos que saíram antes do fechamento passaram pelo Éterscópio?"

"Se alguém tivesse acabado de cometer um assassinato, ele teria ficado tão vermelho quanto um lago tártaro. Ou o assassino ainda está aqui, ou ele pode fazer suas próprias Vias."

"O Circo consegue fazer isso, mas não é assim que eles funcionam. Mesma coisa para a Micky D's. Ninguém capaz de entrar e sair daqui sem ser detectado cometeria um crime tão sem sentido."

"Então o que você quer fazer? Reunir todo mundo e passar geral sob o Éterscópio?"

"Não. Acho que tenho uma maneira de identificar os suspeitos. Vamos consultar um alquimista."


Menos de uma hora depois, o corpo que esfriava e enrijecia rapidamente estava deitado sobre uma laje no necrotério, com uma lona estendida sobre ele. Morose e Grindle mantinham vigilância sobre o corpo, esperando pelo convidado especial que poderia lhes fornecer a primeira pista.

A porta se abriu e entrou um alquimista idoso que todo o Bazar conhecia só de olhar. Ele era o Ed do Empório Alquimista de Ed & Al. Seu cabelo loiro grisalho estava preso em um rabo de cavalo, seu rosto adornado com um par de óculos e uma barba angular, e ele ainda usava seu pesado avental de couro por cima de suas roupas de trabalho.

"Alguém mandou pedir um optograma?" perguntou ele, colocando sua bolsa na maca.

"Obrigado por ter vindo a esta hora, Edward," disse Morose balançando a cabeça de forma solene. "Somos seguranças, não detetives, e precisamos identificar o lunático que fez isso quanto antes, ou outra pessoa pode se machucar.

"Bem, não posso garantir que a última coisa que ela viu foi o assassino, mas vale a pena tentar pelo menos."

Ed gentilmente puxou a lona para revelar o rosto sem sangue da garota, ainda congelado em estado de terror.

"Ahn… Eu, ah… ahn, meu Jesus amado."

"Você está bem aí, Ed?" perguntou Grindle.

"Sim, eu ficarei bem. Obrigado," disse ele, respirando fundo para se manter calmo. "Peço desculpas, eu não lido com cadáveres com tanta frequência, especialmente com vítimas jovens e inocentes de assassinato. O barqueiro foi pago pelo menos?"

"O pessoal dos Assuntos Espectrais já está fazendo arranjos em seu nome," concordou Morose.

"Bom. Bom. Se houver algum tipo de fundo, meu irmão e eu ficaríamos felizes… sinto muito. Este não é o momento nem o lugar. Vamos acabar com isso."

Ed abriu sua bolsa e retirou um dispositivo que parecia uma seringa grande com uma ventosa bizarra na ponta. Abrindo o olho esquerdo da garota com os dedos, ele posicionou cuidadosamente o aparelho sobre ele. Depois de conseguir uma boa vedação, ele puxou o êmbolo até o vácuo ficar forte o suficiente para puxar o olho direto da órbita com um som horrível de sucção.

"Pronto. Esta foi a pior parte." Removendo o olho cuidadosamente com as mãos enluvadas, ele o colocou sobre a mesa e o cortou ao meio. "Vamos guardar a metade da frente para o agente funerário. Com sorte, eles conseguem deixar o corpo apresentável."

Ele enfiou a mão na bolsa e tirou um pequeno pote.

"Este é um dos melhores philtros optográficos conhecidos pela Alquimia. É um segredo de família, é claro, mas ele vai consertar a rodopsina branqueada na retina do corpo e produzir um negativo cristalino claro da última coisa que ela viu."

Pegando a metade posterior do olho com uma pinça cirúrgica, ele a colocou de molho na solução.

"Em apenas alguns minutos teremos a imagem."

Morose respeitosamente puxou a lona sobre o corpo e eles esperaram em silêncio enquanto o optograma se revelava, o único som sendo o tique-taque do relógio de pêndulo na parede.

Depois do que pareceram horas, Ed enfiou a mão no pote e removeu a metade do olho. Pegando com a outra mão um monóculo de joalheiro, ele fez um exame cuidadoso da retina.

"Bem?" Morose perguntou impacientemente.

"É, vocês vão querer dar uma olhada," respondeu Ed. Entregando-lhes o monóculo enquanto mantinha a posso do olho, os dois guardas deram uma olhada na última coisa que a vítima tinha visto.

"Mas que diabos?"


O Bazar Absoluto era mais antigo do que a maioria de seus residentes atuais imaginava. Enterradas sob as ruas e edifícios centenários estavam catacumbas milenares. Quem as construíra? Ninguém sabia ao certo, nem mesmo o vil Aristocrata que agora as chamava de lar. Ele havia dado de cara na antiga Via por acaso durante sua fuga dos nojentos camponeses carcereiros que tentavam contê-lo.

As catacumbas eram uma morada perfeita para um nobre como ele; vastas, ostensivas, escuras e amplamente abastecidas com os restos preservados de camponeses dos quais se banquetear.

Ainda assim, havia ocasiões em que apenas carne fresca serviria, e o Bazar logo acima provava ser um amplo terreno de caça. Se ele estivesse preocupado com a praticidade, ele teria comido o corpo inteiro, ou talvez o teria usado como égua reprodutora e gerado sua própria dinastia.

Mas a praticidade era para os camponeses, para os seres inferiores forçados a contentar-se com o pouco que tinham. Ele era de origem nobre e herdeiro de uma vasta abundância grande demais para ser contada. Ele podia escolher o que quisesse e deixar o resto apodrecer.

O Aristocrata sabia que o ventre de uma prostituta venderia por um preço exorbitante no Mercado da Carne. Isso só tornava sua presença em seu prato ainda mais decadente.

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