Visto e Não Visto
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Eu olho no espelho e confirmo que meus olhos são próximos demais.
Chego primeiro à essa conclusão por tato, depois por observação factual.
Olhando para fotos de modelos em revistas de dois mil e sete
e para cientistas que vêm conversar de vez em quando.

Ás quintas e sábados marcamos experimentos onde sou morto
e revivido com o apertar de um interruptor de luz.
Eu meio que não sinto dor, é como dormir sem ter sonho
em uma piscina densa, me desmanchando.

Eles me descrevem a partir de minhas mortes porque
a minha vida não parece ser fantástica o suficiente.
Eu vejo todas as setecentas cores
mas gosto de ter um segredo só meu.

Algumas me dão vertigem se eu olhar por muito tempo e
duas delas dão uma sensação abrasiva.
Quarenta e sete dão fome.
Casei com dez e
transei com três e
matei nove.

Eles me veem vendo o que eles não veem.
E perguntam e registram e analisam com eq‏uipamentos que ás vezes funcionam
e ás vezes param de funcionar.
E não é tanto minha culpa quanto erros de engenharia inadaptável
para situações delicadas como mortais imortais.

Se é que me entende.

Sinceramente,
prefiro nossas conversas efêmeras demais para catalogar.
As que me fazem sentir como se estivesse em um escritório de telemarketing
bebendo um pingado de café fervendo em um copinho de plástico
que me levam a pensar:
Não seria melhor se fossem copos de vidro.
Somos adultos e temos uma pia bem ali.

Sentamos na cadeira dobrável (você) e na cama (eu).


Por quê isso, pergunto.

Porque você não deveria ser.


Existe um fim, eu pergunto.

Às vezes.

Muitas delas sorte do acaso, estrelas se alinhando.

Imagino que o limbo seja assim.


Não, espíritos não existem, respondo.

Às vezes.


Já quebraram as regras, eu pergunto.

Segredo.


Qual a frequência, eu pergunto.

Segredo.


Devem apreciar mais a vida, eu espero.

Eu espero também.

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