Quando Linhas Paralelas Divergem

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25 de Julho, 2003

Em algum lugar no nordeste de Portland, Oregon, duas agentes do FBI bateram na porta de um apartamento isolado. Os raios do sol entravam pela janela, deixando o corredor abafado com o calor do verão. Após vários momentos de silêncio, as agentes bateram novamente.

A mais velha usava seus longos cabelos ruivos em um rabo de cavalo. Uma tatuagem coloide prateada, coberta em sua maior parte por sua jaqueta, aparecendo logo acima do pulso esquerdo. Ela franziu a testa quando veio um farfalhar de trás da porta. Ninguém respondeu.

Sua parceira era uma década ou duas mais nova. Seus cabelos castanhos estavam igualmente presos e contrastavam com a pele pálida. Sua expressão carecia da confiança de sua colega mais experiente. Enquanto o farfalhar atrás da porta continuava, ela sussurrou: "Devemos bater de novo, ou-"

"Olá?"

A porta se abriu. Uma mulher de pele morena e óculos grossos olhou para elas. A porta estava presa por não menos do que cinco correntes para impedir a entrada forçada. Os olhos da mulher se estreitaram quando ela notou as letras nas jaquetas das agentes.

"Anna Becker?" a agente mais velha perguntou.

A mulher hesitou. "Essa seria eu. O que você quer?"

"Eu sou a Agente Especial Florence Thorne." A agente mais velha gesticulou para si mesma e depois para sua parceira. Ela enfiou a mão no bolso da jaqueta para puxar um envelope. "Esta é a Agente Especial Sasha Grimmer. Nós temos um mandado de busca nas premissas seguindo sua implicação em uma investigação em andamento sobre tráfico de armas. Podemos entrar?"

Becker piscou e inclinou a cabeça para o lado, um sorriso confuso aparecendo em seu rosto.

"Calma lá, o que vocês acham que está aqui?" Becker riu. "Vocês acham que estou fazendo armas de fogo em um apartamento de um quarto? Em Portland?"

"Esperamos que não, senhora", Agente Grimmer respondeu. "E nós nunca dissemos que eram armas de fogo."

Becker fez uma pausa. Um canto de seu lábio tremia enquanto ela balançava a cabeça e suspirava.

"Certo." ela encolheu os ombros. "Calma ai, deixe-me tirar as correntes. Vai levar só um momento."

Becker fechou a porta suavemente. O corredor se encheu com os sons de meia dúzia de correntes lentamente sendo removidas de suas trilhas.

"Bem, isso foi fácil." Agente Grimmer se virou para Thorne com um sorriso divertido.

Ela também sorriu, apenas para sua sua expressão rapidamente mudar para uma carranca quando a tatuagem coloide em seu braço brilhou levemente com uma luz azul brilhante.

"Se abaixe!" Thorne gritou e jogou Grimmer no chão. A porta do apartamento voou das dobradiças como um tiro de um canhão. Ela bateu na parede oposta com um estalo retumbante. Vários raios a seguiram, transformando a madeira macia barata em uma pilha de lascas. O interior do apartamento estalou com uma pequena explosão de eletricidade e ficou em silêncio.

Puxando a arma lateral enquanto se levanta, a Agente Thorne olhou para dentro. Dentro da sala de estar, um pequeno portal se dissipava lentamente. Um pátio ferroviário era visível do outro lado.

"Merda!" Thorne gritou. Ela correu para Grimmer, ajudando sua parceira a se levantar. "Temos que ir, Grimmer, agora!"

"Thorne, calma ai, nós-"

Agente Grimmer não conseguiu terminar sua frase. Thorne já havia atravessado o portal se fechando e entrado no espaço industrial além.

"Puta merda", a jovem agente murmurou para si mesma, e então rapidamente falou por seu fone de ouvido. "O suspeito é uma anomalia confirmada e está tentando escapar pelo Pátio Ferroviário do Brooklyn. Grimmer e Thorne em perseguição."

"Só correr por um portal desconhecido," Grimmer disse baixinho enquanto ela também corria pelo portal. A pequena fenda no espaço-tempo desapareceu alguns segundos após ela pousar no cascalho do pátio ferroviário além. "Eu tenho certeza de que absolutamente nada de ruim aconteceu disso. Jamais!"

A jovem agente então correu para encontrar sua parceira.


8 de Março, 1993

"Três Portlands tem bem poucos crimes violentos e os golens lidam com as coisas insignificantes", explicou a Agente Especial Virginia Kartal. "A maior parte do que acabamos lidando é com o contrabando."

Florence Thorne sacudiu a cabeça. "Faz sentido. Esse lugar está cheio de Vias. Me dá dor de cabeça."

"Você se acostuma", disse Kartal. "Enquanto isso, se seus olhos de feiticeira virem uma Via que a gente não catalogou, tome nota. Acompanhar todas elas é como brincar de acerte a toupeira, mas ter outra Observadora aqui vai ajudar bastante."

Elas fizeram um desvio por um beco lateral para evitar a seção da Milha da Esmeralda que havia sido fechada devido à falha da gravidade local. Kartal acenou com a cabeça para o golem policial que se encarregara de direcionar o tráfego, e Florence obedientemente copiou o gesto. O golem disparou uma saudação nítida em resposta.

"Quantos feiticeiros vocês tem por aqui?"

Kartal fez uma pausa para deixar um auto-riquixá passar. "Não tantos quanto eu gostaria. Nós temos muitos irregulares por aqui, mas não muitos feiticeiros."

"Por que não? Tem duas faculdades de ocultismo inteiras aqui, deve ter mais feiticeiros nessa cidade do que… eu não sei, que lugar tem muitos feiticeiros?"

Kartal riu. "A Faculdade dos Cervos está cheia de anarquistas e a CIETU é parte da coalizão. Não é a melhor para recrutamento."

"Acho que não."

Parando de repente, Kartal agarrou o ombro de Florence e a puxou para o lado da estrada. "Olhe, Florence, você tem certeza de que é isso que você quer fazer? Eu sei o que os skippers fizeram com você e eu entenderia se você não quiser fazer parte de uma organização de normalidade novamente. Além disso, você tem uma criança para cuidar agora."

Florence lhe ofereceu um sorriso sarcástico. "Não é atoa que vocês estão com poucos feiticeiros, se é assim que você faz seu recrutamento."

Kartal franziu a testa. "Eu estou falando sério. Não sinta que você tem que fazer isso porque você me deve algo. Eu não quero manipular você como eles fizeram."

Florence jogou seus braços ao redor da agente e a abraçou. "V, você salvou minha vida, e eu nunca vou poder te pagar por isso. Mas eu não estou fazendo isso por você. Eu estou fazendo isso por mim." Ela se afastou depois de alguns segundos, e, quando ela olhou para Kartal, havia fogo em seus olhos. "Eu preciso provar que eu posso ser mais do que apenas o cão de ataque da Fundação."

Kartal a estudou por um momento, e então balançou a cabeça. "Tudo bem. Contanto que você tenha certeza." Ela enfiou a mão na jaqueta e tirou um estojo de couro, que ela entregou a Florence.

Sabendo o que estava dentro, Florence abriu com cuidado, revelando um distintivo recém-cunhado do FBI. Próximo a ele, enfiado em um suporte transparente, havia um cartão de identificação de plástico com o nome e a foto dela. Agente Especial Florence Thorne, Unidade de Incidentes Incomuns.

Florence olhou para cima e viu a agente sênior sorrindo para ela. "Bem-vinda à Unidade, Agente Thorne."


25 de Julho, 2003

As agentes Thorne e Grimmer espiaram por trás das portas de um vagão. A algumas dezenas de metros, Becker estava escondida dentro de uma pequena cabana de manutenção. Durante o êxodo de seu apartamento, ela pegara um rifle de parafuso. Ao invés de balas, ele disparava raios.

"Ela sabe que não pode esperar lá para sempre", Grimmer sussurrou. "Então por que ela-"

Uma série de estalos ensurdecedores enchia o ar conforme raio após raio disparava da janela da cabana, atingindo três vagões diferentes pelo pátio.

"Oh", disse Grimmer. Isso respondeu à sua pergunta. "É, temos que ir, Flo. Antes que ela tenha sorte e nos eletrocute. Suponho que você não tenha um coelho para tirar de uma cartola aqui ou algo assim?"

"Eu odeio que você a chama assim", Agente Thorne respondeu e arregaçou a manga esquerda, expondo completamente a tatuagem abaixo. As marcações arcanas brilhavam com uma leve luz azul mais uma vez. "Mas sim, eu tenho uma ideia. Quando eu falar vá, eu vou bater uma pedra em um dos outros vagões. Isso deve distraí-la. Vou manter isso por um tempo e fazê-la pensar que ela nos atingiu. Quando ela sair para escapar, agarre-a."

Thorne sorriu para sua jovem colega.

"Maluco o suficiente para funcionar, né?"

"Digo, é uma ideia maluca, isso com certeza", respondeu Grimmer.

"Ei, se você tem um plano melhor, eu sou toda ouvidos, mas é melhor você formular rápido."

"Eu acho-" Grimmer começou.

O pátio ferroviário se encheu com os sons de raios atingindo os vagões mais uma vez, Um dos contêineres adjacentes a elas tremia enquanto era atingido.

"Eu amo ele", continuou Grimmer. "Vamos nessa!"

Thorne sorriu e apertou o punho, sua tatuagem emitindo um brilho vibrante. Um baque surdo pôde ser ouvido quando uma pedra bateu em um contêiner distante. Assim como Thorne previra, Becker mordeu a isca. Outra rajada de raios saiu da cabana de manutenção enquanto sua atenção estava desviada.

Grimmer não perdeu tempo e imediatamente saiu de seu esconderijo. Ela fez o possível para ficar fora de vista enquanto circundava o pátio, rapidamente posicionando-se entre a cabana de manutenção e a saída mais próxima do pátio ferroviário. Em instantes, a distração de Thorne, assim como os raios, pararam. Eles foram rapidamente substituídos pelo som de alguém correndo pelo cascalho. Grimmer respirou fundo. Ela preparou a arma, e saiu da cobertura.

"FBI! Para-" gritou Grimmer. Suas palavras ficando presas na garganta quando ela encontrou Becker esperando, rifle apontado na cabeça. As duas ficaram em silêncio. Segundos com a duração de horas passando.

"Acabou, Srta. Becker." Grimmer eventualmente quebrou o silêncio. "Você não tem para onde correr. Nossas unidades têm esse lugar cercado a essa altura."

"Você pode imaginar o que isso faria com alguém de perto?" Becker respondeu. "Afaste-se e deixe-me passar. Você tem até três."

"Você não conseguirá puxar o gatilho rápido o suficiente."

"Me provoque." Becker riu. "Um."

Suor escorria pela testa de Grimmer.

"Dois."

O dedo da agente se contraiu.

"Trê-"

O rifle de Becker voou para o céu. Uma força invisível a jogou colidindo contra a parede próxima com um baque surdo. Pelo canto do olho, Grimmer podia ver Thorne emergindo entre dois vagões. A luz que emanava da tatuagem em seu braço esquerdo desapareceu lentamente quando ela abriu a mão.


30 de Setembro, 1993

"Não fui eu o que fez isso", protestou Jordan Raybon. O homem que eles chamavam de "Submarine" estava algemado ao braço de um golem policial.

Florence revirou os olhos. "Claro, Jordan, claro. Eu tenho certeza de que há uma razão perfeitamente legítima para você ter brotado de uma Via não registrada carregando—" Ela se virou para Kartal. "O que era mesmo?"

"Quinze bobinas supercondutoras carregadas projetadas para alimentar um projetor de plasma soviético, dois litros de ectoplasma bruto, três passaportes forjados, e uma fita Betamax contendo algumas das pornografias mais obscenas que alguém já viu."

Florence se virou para Raybon. "Eu tenho certeza de que tem uma razão perfeitamente legítima pela qual você estava carregando isso tudo em seus bolsos impossivelmente espaçosos quando te pegamos."

Raybon balançou a cabeça. "Sim, sim, tem uma! Eu peguei esse casaco emprestado do meu amigo, veja. Como eu deveria saber o que havia na porra dos bolsos?"

"O casaco tem seu maldito nome da etiqueta", Kartal murmurou.

Raybon se virou para olhá-la. "O que foi isso, amor? Você tem que falar mais alto, eu tenho tinnitus, sabe."

Florence estalou os dedos na frente do rosto dele para recuperar sua atenção. "Então você pegou emprestado o casaco do seu amigo que tem o mesmo nome que você e, por acaso, estava cheio de contrabando."

Ele balançou a cabeça. "É esse o problema."

"E quando Agente Kartal tentou apreender você, você não estava resistindo à prisão. Você deve ter tropeçado e acidentalmente socado ela no olho."

Ele balançou a cabeça de novo. "Exatamente!"

Florence suspirou. "Meu deus, você é incorrigível." Ela balançou a mão para o golem policial. "Leve-o para o prédio federal. Estaremos lá para lidar com ele em breve."

O golem fez uma saudação e saiu pesadamente, arrastando o infeliz contrabandista, apesar de seus contínuos protestos.

"Eu não sei por que você brinca com ele assim", disse Kartal.

"É divertido", respondeu Florence. "Além disso, Submarine é inofensivo."

"Ele me deu um olho roxo!"

"Quase inofensivo", Florence se corrigiu. "Eu tenho quase certeza de que ele te dar um soco realmente foi um acidente. Eu congelei as poças na rua para tentar fazer ele tropeçar, e ele perdeu o equilíbrio assim que você saiu para cortá-lo." Ela encolheu os ombros. "Foi mal."

Kartal sacudiu a cabeça. "Nah, não se preocupe com isso. Foi uma jogada inteligente. Não é o que eu teria esperado de você, no entanto."

Florence levantou uma sobrancelha para sua parceira. "Agora, o que isso quer dizer?"

"Bem, coisas tem uma tendência a pegar fogo quando você está por perto. Gelo é uma coisa nova para você."

"Não é culpa minha se edifícios são inflamáveis", disse Florence. "De qualquer forma, não vá comemorando ainda—eu acho que posso ter pego um cano de água com o feitiço."

Realmente, um filete de água começou a infiltrar-se nas pedras do pavimento sob seus pés. Enquanto elas assistiam, o fluxo já estava aumentando em volume.

"Retiro o que disse", disse Kartal. "É culpa sua."

Florence suspirou. "Vamos lá, precisamos ir pra prefeitura antes que todo o distrito inunde."


28 de Julho, 2003

Florence Thorne e Sasha Grimmer olhavam pela janela do segundo andar do escritório de campo do FBI em Portland. A primeira suspirou, sua expressão de alguém chegando no trabalho para ver outra pessoa estacionada na sua vaga designada. A última fez uma carranca, uma raiva quente borbulhando abaixo da superfície. Do poleiro, elas podiam ver uma van branca saindo do estacionamento. A logo de uma "Spicy Crust Pizza" estava impressa na lateral.

"Quatro meses", Grimmer sibilou. "Quatro malditos meses trabalhando nesse caso. E os Skippers tomam posse e a pegam em dois dias!"

Florence não respondia. Seus olhos seguiam a van até que ela desapareceu de vista. Nesse momento, ela se virou e saiu andando.

"Thorne?" Grimmer seguiu atrás. "Ei, Thorne! Por que você não está mais puta com isso? Você trabalhou nesse caso por mais tempo do que eu!"

Thorne encolheu os ombros.

"Oh, estou lívida", disse ela. "Mas eu já estou aqui há tempo o suficiente para saber que, se entregamos Becker à Fundação, algo grande aconteceu. Isso ou os Skippers tinham uma cenoura muito tentadora. De qualquer maneira, eu tenho certeza de que o motivo está além de nosso nível salarial."

"Você sabia?" Grimmer perguntou.

Thorne permaneceu calada. As sobrancelhas de Grimmer estavam cheias de raiva.

"Thorne", repetiu Grimmer. "Você sabia?"

"Tinha uma vaga suspeita." Thorne suspirou. "Especialmente depois que vimos aquele rifle no pátio ferroviário."

Grimmer franziu a testa, fechando seus olhos antes de dar um aceno curto com a cabeça.

"É isso então." A jovem agente se virou para ir embora. Antes de ir longe demais, ela olhou por cima do ombro. "Você está voltando para o Escritório em Três Portlands?"

"Eu já tenho um novo caso lá, sim." Thorne balançou a cabeça. "Provavelmente de vez."

Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Thorne.

"Foi divertido trabalhar com você novamente, Grimmer", ela adicionou. "Me avise da próxima vez que você estiver por perto."


4 de Outubro, 1994

Florence observava o beco atrás da biblioteca pacientemente. Eles sabiam que Raybon estava abastecendo uma facção militante da Mão da Serpente, mas a Unidade estava observando todas as Vias entre Três Portlands e a Biblioteca do Passageiro. Isso significava que ele devia estar passando por uma das Portlands do universo principal. Eles haviam combinado para que Raybon fosse libertado sob fiança, sabendo que ele a quebraria. Ele tinha de saber que eles sabiam disso, e por isso é quase certo que ele encontrou e se livrou do rastreador que eles colocaram em seu casaco.

Por isso, ele não esperaria que eles vigiassem todas as bibliotecas em todas as três Portlands.

Ela viu um movimento rápido do outro lado da rua, mas examinação adicional revelou nada. Provavelmente apenas um gato de rua.

Após mais alguns minutos, a lixeira atrás da biblioteca se abriu e Jordan Raybon saiu dela.

Ela piscou. Aquela era uma nova, até para ela. Apenas Submarine teria encontrado, muito menos usado, uma Via dentro de uma lixeira. Ele era um péssimo mentiroso, mas um encontrador de Vias profissional. Esta era uma das razões pelas quais eles não haviam tacado ele na Paramax ainda—ele continuava levando eles para Vias novas.

Raybon olhou em volta com cuidado enquanto limpava o casaco. Depois de ter certeza de que estava sozinho, assobiou duas vezes. A seu sinal, a porta dos fundos da biblioteca se abriu e um membro da Mão da Serpente saiu.

Te peguei. Ela se jogou sobre a borda do telhado da biblioteca e caiu no chão, diminuindo a velocidade de sua descida com uma evocação que já era bem praticada a essa altura. Assim que os dois paracriminosos se viraram para ela em surpresa, ela levantou o braço esquerdo e conjurou uma chama na mão.

"FBI! Não se movam!" Ela gritou.

Exatamente na mesma hora em que isso estava acontecendo, a Força-Tarefa Móvel que estava esperando do outro lado da rua tentou fazer sua emboscada.

"Fundação! Não se movam!" O líder da força-tarefa gritou, levantou seu rifle e apontando ele, não para Raybon ou para o membro da Mão, mas para Florence. Sem saber que ela era uma agente da UIU, ele havia corretamente a identificado como sendo a pessoa mais perigosa de lá, e assim fez o erro drástico de ameaçá-la com uma arma.

As coisas teriam sido muito melhores para ele se ele tivesse atirado nela imediatamente.

A lança de fogo que Florence direcionou em sua direção mal tinha um milímetro de diâmetro, um raio preciso de fogo infernal que cortou seu rifle bem no meio, levando dois dedos dele com ele. Ele mal teve tempo para registrar a perda de seus dígitos antes de uma parede de força bruta colidir com ele com toda a inércia de uma locomotiva em alta velocidade, lançando-o no ar e em seus homens. Pegos completamente desprevenidos, os membros da força-tarefa tombaram como pinos de boliche.

Se aproveitando da confusão momentânea, Raybon agarrou o membro da Mão e o jogou na lixeira, e então mergulhou atrás dele. A explosão de radiação de aspecto que se seguiu foi tudo o que Florence precisava para saber que eles haviam escapado.

Florence se virou para a força-tarefa atordoada. "Porra, seus skips1 desgraçados, vocês foderam nossa operação!" Ela viu um deles tentando pegar uma arma que havia sido derrubada no chão. Balançando com a mão casualmente, ela conjurou outra bola de fogo e reduziu a arma a escória. "Eu juro por deus, se vocês idiotas continuarem tentando atirar em mim, eu vou tacar vocês todos na Paramax e desconceptualizar a chave."

"Merda, você é da federal?" um deles perguntou.

Ela enfiou a mão na jaqueta e tirou o distintivo. "Agente Especial Florence Thorne, Unidade de Incidentes Incomuns. Mais uma vez, vocês arruinaram uma investigação federal com suas besteiras de conspiração. Eu espero que vocês estejam felizes, skippers, porque certamente não estou."

Ela passou por eles em direção ao final do beco, onde havia outra Via de volta para Três Portlands. "Faça disso rápido", ela disse para o ar, estalando os dedos enquanto fazia isso. A Via se abriu em resposta. Sem outra palavra, ela passou pela Via e se foi.

Os membros machucados e agredidos da Força-Tarefa Móvel Beta-8 ("Antes Tarde2 Do Que Nunca") olhavam para o local onde ela desapareceu.

"Acabamos de ser espancados por um federal?"


4 de Março, 2004

A Agente Grimmer estava sentada sozinha com um romance de bolso em uma pequena cafeteria no noroeste de Portland. Ela aproveitava a tarde para acompanhar algumas leituras leves. Enquanto ela pausava para tomar um gole de café de uma caneca grande, ela notou uma mulher de pele bronzeada com cabelos escuros curtos se aproximando e gesticulando para o assento ao lado dela na mesa.

"Esse lugar está ocupado?" a mulher perguntou.

Grimmer levantou uma sobrancelha e olhou em volta. Além do barista e de um senhor idoso lendo um jornal do outro lado da sala, todas as outras cadeiras estavam disponíveis.

"Eu te conheço?" perguntou Grimmer.

"Eu duvido", a mulher respondeu e passou a Grimmer um cartão branco. "Mas eu te conheço, Agente Grimmer. Eu sou a Agente Marin. Digamos que estamos em uma linha de trabalho semelhante."

O símbolo familiar de um círculo com três setas apontando para dentro dominava o cartão. Grimmer suspirou e largou o livro. Pegando sua bolsa, ela pegou um bloco de notas e papel.

"Certo", disse Grimmer. "Que bugiganga vocês não podem se dar ao trabalho de pegar vocês mesmos?"

Marin riu e sacudiu a cabeça.

"Este não é esse tipo de reunião", ela respondeu e se sentou. "Um conhecido nosso em comum me informou de como você estava arrasada com o caso Becker. Eu e um superior meu examinamos os registros que a UIU forneceu na investigação. Nós sentimos que você pelo menos tinha ganho o privilégio de saber por que precisamos tanto dela."

Grimmer gesticulou para Marin continuar.

"Como você provavelmente descobriu quando pegou ela, Becker era bastante hábil em combinar magia e armas em pacotes bastante simples. Digamos que alguns de seus produtos anteriores cairam nas mãos de, bem, eu vou chamá-los de um grupo terrorista. Eu achou que você pode imaginar o tipo de dano que essas pessoas poderiam fazer com a habilidade de disparar raios, liquefazer ossos, ou remover todo o oxigênio do concreto. Nós precisávamos dela para que pudéssemos criar contramedidas."

"Eu diria que vocês saíram ganhando e muito nessa troca", respondeu Grimmer.

"Apreciando a atitude." Marin revirou os olhos. "Antes que você considere isso uma perda, saiba que, em troca, entregamos meia dúzia de pessoas de interesse que sua unidade estava procurando."

"Que generoso." Grimmer então encolheu os ombros. "Por que você está me contando isso tudo, assumindo que seja verdade?"

"Vire o cartão."

Grimmer fez como lhe foi dito e franziu a testa. Onde antes havia cartolina em branco, agora um número de telefone havia aparecido."

"Você faz um bom trabalho, Grimmer." Marin deu um pequeno sorriso enquanto falava. "E se você continuar com a UIU eu não tenho duvida de que você continuará a fazer um bom trabalho. Mas eu te conheço. Diabos, em um ponto no tempo eu era você. Você quer fazer uma diferença. Em vez de apagar incêndios com uma pistola de água, você quer pegar a mangueira. É por isso que você se sentiu tão cansada depois que pegamos Becker. Você sentiu que realmente fez uma diferença desta vez."

"Quem diabos você acha que você é?" Grimmer perdeu a cabeça. "Você não sabe de nada sobre mim, ou como eu penso."

"Eu não tenho tanta certeza disso." Marin encolheu os ombros. "Escute, só pense sobre isso. Se você estiver interessada, ligue para o número. Você ainda terá vários pontos de retorno além desse, então não é como se fosse obrigatório ou coisa assim. Caso contrário, ignore o cartão por três dias. Você se esquecerá que toda essa conversa aconteceu."

Marin se levantou, e deu a Grimmer um aceno amigável com a cabeça.

"Espero te ver no futuro."

"Você sabe que solicitar um agente federal é crime, certo?" Grimmer perguntou, seu dedo batendo no cartão.

"É?" Marin riu. "O que posso dizer? Às vezes, você precisa quebrar alguns ovos quando você está fazendo seu omelete de conspiração internacional ilegal."

Grimmer observou Marin sair da cafeteria e afundou de volta em sua cadeira. Ela bateu no cartão mais algumas vezes, e então suspirou e o colocou no bolso.


4 de Novembro, 1994

"Você cortou os dedos dele?"

"Ele estava apontando uma arma pra mim!" disse Florence. "Eu não tive tempo para magia suti—sut—para não cortar os dedos dele."

Era uma noite de sexta-feira e elas estavam sentadas na sala de estar de Kartal. Florence estava de mau humor desde a falha na operação, e Kartal—depois de providenciar um babá para Robin e auxiliada por alguns espíritos que seriam ilegais em qualquer outro lugar que não fosse Três Portlands—finalmente conseguira fazê-la desabafar sobre isso. Florence falava mais quando ela estava bêbada, bebia mais conforme ela ficava irritada, e ficava mais irritada quanto mais falava sobre a Fundação. Ela estava agora em seu terceiro copo de Licor Fantasma, e isso estava começando a se tornar evidente.

Kartal bufou. "Desde quando você é sutil?"

"Eu pareço Gandalf pra você?"

Kartal tomou um gole cuidadoso de sua bebida e estremeceu ao ouvir os gritos das almas fermentadas que haviam sido usadas para fazê-la. Ela ainda estava em seu primeiro copo. "Você parece alguém que deveria tentar evitar atrair a atenção da Fundação."

Florence balançou a mão com desdém. "Eles não tão procurando por mim. Eles acham que eu tô morta. Afogada num lago."

"E queremos que continue assim. Se você começar a incinerar as forças-tarefa deles, eles vão descobrir quem você é bem rápido. Não é como se houvesse muitos feiticeiros do seu calibre por ai."

Florence bebeu o resto do copo como uma rodada grande demais. "E daí? E o que eles vão fazer, me assist—assassinar? Aqui é Portsland. Portlands. Três delas." Um fantasma saiu de sua boca enquanto ela soluçava.

Kartal fez um carranca e gentilmente arrancou o copo da mão de Florence. "Eu acho que já basta pra você."

"Tudo bem. É assombrado de qualquer jeito." Florence franziu a testa, e então murmurou algo em latim. Levaram algumas tentativas para acertas as palavras. Quando ela conseguiu, ela começou a espirrar repetidamente. Mais fantasmas saíram. "Droga V, você encheu minha bebida de fantasmas?"

"Não, ela veio assim. Você acabou de se tornar sóbria por magia?"

Florence sacudiu a cabeça. "Exorcismo. Embora eu ache que seja a mesma coisa para álcool fantasma. Onde diabos você arrumou isso?"

"Confisquei do Raybon. Não lhe disse que era legal aqui."

Isso fez ela rir. "Conhecendo ele, provavelmente era roubada ou coisa assim."

"Provavelmente."

Florence suspirou. "Você está certa, a propósito."

"Hmm?"

"Sobre a Fundação", ela esclareceu. "Eu deveria ter mais cuidado. Pelo bem de Robin, se não pelo meu próprio bem. Eu só—eles me irritam tanto. Pensei que pudesse fugir deles, mas acontece que eles ainda estão encontrando maneiras de estragar tudo pra mim."

Kartal balançou a cabeça com simpatia. "Apenas fique feliz que os skippers não podem fazer nada aqui."

Florence estremeceu. "Meu Deus, você pode imaginar, skippers a solta em Três Ports?"

"Eles fariam uma bagunça verdadeira, eu posso te dizer isso."

O pager de Kartal tocou. Ela olhou para ele, e então suspirou. "É o escritório." Ela pegou seu telefone e apertou 0, conectando ela diretamente ao prédio federal por uma linha segura. "Kartal aqui." Ela ouvia enquanto alguém do outro lado falava. "Não, senhor, ela está aqui comigo."

Florence franziu a testa, e então se lembrou que seu próprio pager havia sido transformado em uma pilha de vermes por uma reação infeliz no início da semana.

"Eu não acho que seja uma boa ideia, senhor." Kartal pausou. "Ambos." Outra pausa. "Certo, eu vou falar com ela." E outra. "Pra você também, senhor. Boa noite."

Ela desligou o telefone e olhou para Florence. "Eu odeio dizer 'eu te disse', especialmente porque você acabou de concordar comigo, mas tem algum agente da Fundação que tem tentado entrar em contato com você. Alguém chamado Edgar Holman? Disse que ele precisa se encontrar com você sobre algumas informações importantes relacionadas à operação de Raybon."

"Merda." Florence sacudiu a cabeça. "Você acha que eles sabem?"

Kartal franziu a testa. "Talvez. Eu não sei. Se for uma armadilha, no entanto, não é uma muito boa. Se eles tentarem algo, será óbvio que foram eles, e até a Fundação não é estúpida o suficiente para irritar o Tio Sam."

"Acha que eu deveria me encontrar com ele?"

Kartal mordeu o lábio. "Admito que estou mais do que um pouco curiosa."

"Eu também." Ela suspirou. "Que diabos, não é como se eles pudessem me emboscar se eu estiver esperando por isso. Talvez eles saibam para onde Raybon fugiu e querem oferecer isso como um pedido de desculpas."


14 de Setembro, 2005

"Que bagunça…" Agente Grimmer murmurava para si enquanto olhava os arredores dos restos de um apartamento no sudeste de Portland. Vários de seus colegas agentes da UIU estavam presentes, passando pelos movimentos de coleta e processamento de evidências. Embora, dado que todos os suspeitos estivessem mortos no momento, era provável que fosse um caso bastante fácil. A atenção de Grimmer foi trazida de volta a um par de agentes da Fundação SCP no centro da sala.

"Então, deixe-me ver se entendi", o primeiro Skipper3 disse. "Vocês rastrearam um círculo de narcóticos até sua base em Três Portlands e invadiram o lugar. No tiroteio, um de seus feiticeiros perdeu controle de uma evocação, e a reação taumatológica colapsou uma Via. O outro lado dessa Via estava aqui, e como resultado desse colapso, que vocês todos causaram, vocês deram a todo um complexo de apartamentos de civis a dose equivalente de 100 tomografias computadorizadas em radiação ionizante. Isso resume tudo, mais ou menos?"

"Mais ou menos", respondeu Grimmer. "Você acha que sua equipe conseguirá nos ajudar a esconder isso?"

"Não é como se tivéssemos uma escolha, não é?" Agora, com a boa chance de todo esse prédio ser um estudo de caso epidemiológico algum dia." O segundo Skipper sacudiu a cabeça. "Mas, sim. Gamma-5 e Pi-1 devem ser capazes de esconder isso. Acho que não poderíamos ter uma palavra com o taumatologista que causou tudo isso?"

"Temo que não", disse Grimmer.

"Fantástico." O primeiro Skipper suspirou. "Manteremos contato."

Grimmer assistiu os Skippers se despedirem. Depois que eles foram para o corredor externo, ela sussurrou para um de seus colegas agentes.

"Por favor me diga que isso não foi a Thorne", disse ela.

"Gostaria de poder, Grimmer", respondeu seu colega. "Mas então eu seria uma mentirosa."

"Porra." Grimmer se esvaziou. "O que diabos eles estavam traficando?"

"Heroína."

Grimmer pausou. Ela levantou uma sobrancelha enquanto ela esperava o agente elaborar, mas recebeu apenas silêncio.

"Tipo, heroína mágica, ou…?" ela perguntou.

"Não. Só heroína."

Grimmer suspirou e olhou ao redor da sala. Seus colegas estavam prestes a sair.

"Pelo menos será um caso fácil", interrompeu seu colega. "Tem um lado bom."

Grimmer lentamente balançou a cabeça.

"Vá equipe", ela murmurou e se dirigiu para a porta.

No corredor, ela notou que os Skippers ainda estavam por perto. Os dois agentes conversavam entre si perto do elevador do apartamento. Eles brevemente olharam para Grimmer e lhe deram um aceno amigável com a cabeça.


2 de Janeiro, 1995

O agente da Fundação estava esperando por ela em um banco perto da costa.

Ele pigarreou quando ela se sentou no outro lado do banco. "Agente Thorne, obrigado por ter vindo."

"Agente Holman", disse Florence, mantendo o olhar fixo no rio. "O que é essa maldita informação tão sensível que vocês não podem compartilhá-la por telefone?"

"Um de nossos analistas encontrou algo que acredito ser de seu interesse pessoal." Enquanto ele falava, ele retirou uma pasta de papel pardo da jaqueta e a entregou a ela.

Ela abriu a pasta para encontrar um par de fotos dentro. Pelo layout familiar dos metadados sobrepostos, ela as reconheceu como sendo parte de um gravador HUD de FTM. Mais do que isso, ela reconheceu as cenas retratadas.

A primeira foi marcada com a data 1987-12-18. Ela havia sido tirada à noite, mas mesmo através dos tons verdes de um filtro de visão noturna, ela mostrava claramente uma vista do exterior da Estação de Geração Nuclear de Nine Mile Point. Vários membros de força-tarefa podiam ser vistos correndo pela cena, mas a imagem estava focada em uma única mulher agachada perto do centro do complexo. Seu rosto estava virado para longe da câmera, olhando para algo fora de quadro. Seu braço esquerdo estava coberto por uma tatuagem elaborada, que brilhava intensamente.

A segunda foto estava marcada com 1994-10-04. Ela havia sido tirada logo após o membro da Mão ter escapado, e mostrava claramente Florence enquanto ela repreendia a força-tarefa. Uma tatuagem idêntica cobria seu braço esquerdo. Ela estava circulada em tinta vermelha.

"Então", disse Holman. "Eu estava certo, Agente Elsinger?"

Florence ficou rígida. "Você deveria saber que vocês não vão me levar sem uma briga."

"Relaxe, somos só nós. Eu vim aqui para conversar."

"Conversar, ou ameaçar?"

"Conversar", ele repetiu. "Corwin queria fazer isso, mas eu o convenci de que você poderia reagir negativamente se o visse."

"Queimá-lo vivo conta como negativo?" Ela sacudiu a cabeça. "Deveria ter sabido que o velho desgraçado não teria caído com a Delta-3."

Holman sorriu sombriamente. "Ele conseguiu uma promoção lateral para o 64. Deixou o Westbrook para—"

"Não." Um dos cantos da pasta começou a fumar, e sua tatuagem estava emitindo um brilho muito fraco. "Não fale sobre ele."

"Certo." Ele esperou a pasta parar de fumar antes de falar novamente. "Corwin queria que eu lhe dissesse que acabou. No que diz respeito à Fundação, Florence Elsinger morreu no Lago Superior."

"Me deixe adivinhar, ele também disse algo do tipo, 'seria uma pena se isso não fosse verdade.' Eu não mexo com vocês e vocês não mexem comigo?"

Ele balançou a cabeça. "Algo assim."

"Tarde demais, tarde demais." Ela fechou a pasta e a jogou em direção ao rio como um frisbee. Ela explodiu em chamas no meio do vôo e, quando atingiu a água, já era cinzas. "A Fundação passou a maior parte da minha vida adulta mexendo comigo das maneiras mais fodidas que se pode imaginar. Você não pode oferecer uma trégua agora."

"Você está certa, é claro", ele disse lentamente. "O que foi feito a você foi inaceitável. Foi um lapso assustador em nossa ética institucional e foi contra tudo o que a Fundação defende."

Florence se levantou e se virou para encará-lo. "Não se atreva a tentar se desculpar. Não se você valoriza sua vida, Edgar Holman. A Delta-3 é exatamente o que a Fundação representa e representa tudo de errado com toda a sua conspiração fascista."

"Agente Elsinger—"

"Florence Elsinger está morta. Você mesmo disse." Ela deu um passo mais perto e abaixou a voz. "Você quer uma trégua, skipper? Fique longe de mim e nós não teremos problemas. Entre no meu caminho, e você não terá mais problemas, nunca mais. Esses são meus termos, é pegar ou largar."

Ela se virou e foi embora. Holman a observou ir até ela desaparecer em uma Via atrás de uma árvore próxima.

Ele se virou para olhar para o Rio Willamette.

"Nós realmente fodemos ela, não é?"

O rio não respondeu. Ele não era um dos culpados.


20 de Outubro, 2005

"O que você está pensando, Sasha?" Agente Grimmer suspirou.

Ela se sentava sozinha em seu pequeno estúdio. Na mesa da cozinha estava o cartão que a Agente Marin havia lhe dado. Grimmer imaginava a perna da mesa se curvando sob seu peso. Pelo menos era isso que parecia em seu bolso nos últimos anos. Talvez ele devesse fazer isso. Talvez fosse memético ou algo assim. Grimmer esfregou as têmporas.

"Você quer fazer uma diferença. Em vez de apagar incêndios com uma pistola de água, você quer pegar a mangueira."

Grimmer fechou os olhos e sacudiu a cabeça.

"Saia dos meus pensamentos, Skipper", Grimmer murmurou. Ela olhou para o cartão novamente, seus dedos batendo rapidamente no tampo da mesa. Eventualmente, ela pegou seu telefone celular. "Foda-se."

Após três toques passarem, a voz de um homem veio do outro lado.

"Que bom que você decidiu nos ligar, Agente Grimmer", disse ele.

"Você já sabia meu número?" perguntou Grimmer. "Isso não é mau presságio de maneira nenhuma."

"Digamos que não há muitas pessoas para quem damos esse número", ele riu. "Meu nome é Edgar Holman. Você está pronta para dar o próximo passo?"

"Eu tenho escolha?" perguntou ela.

"Claro, você tem", ele respondeu. "Você sempre tem escolha. Sinta-se à vontade para finalizar a chamada a qualquer momento. Mas eu devo avisá-la, você se esquecerá dessa conversa."

"Bacana." Grimmer suspirou. "Certo então. Vamos ver aonde isso vai."


5 de Junho, 1997

"Vou sentir sua falta, V."

Kartal sorriu para ela. "Eu estou me aposentando, Flo, não indo pra proteção de testemunhas. Eu ainda estarei por perto para ser uma babá pra você."

Florence sacudiu a cabeça. "Você sabe o que eu quero dizer. Não vai ser a mesma coisa sem você."

Kartal encolheu os ombros. "Você se acostuma."

Ela balançou a cabeça e tomou outro gole do champanhe barato que o governo havia providenciado para a festa de aposentadoria de Kartal. "Eles estão me dando seu trabalho, sabe."

"Sério?" Kartal não parecia tão surpresa. "E o MOOT?"

"Eles teriam que arrancá-lo das minhas mãos frias e mortas", disse Florence. "Não, eu continuarei realizando o MOOT, mas eles estarão colocando todo mundo em Três Ports agora. Mais oportunidades de recrutamento aqui, e mais Vias para usar. Eu quero tentar levar a equipe a uma força onde eles possam bater de frente com aqueles tanques ambulantes da Coalizão."

Kartal assobiou. "Essa não é uma luta que eu gostaria de estar perto."

"Sim, bem, não é uma luta que eu espero que algum dia tenhamos. Mas há outras coisas tão desagradáveis quanto um UHEC e não tão amigáveis quanto."

Kartal estava em silêncio por um momento. "Você não pode lutar uma guerra contra a Fundação."

"Eu sei disso." Ela drenou o resto do champanhe do copo. "Mas eu quero que eles pensem que podemos. Fazer eles pensarem duas vezes quando considerarem mexer conosco."

"Eu te diria para tomar cuidado, mas sei que você não ouviria", disse Kartal. "Só se lembre de que ser percebido como fraco pode ter suas próprias vantagens. Se você começar a usar o MOOT para fazer barulho de sabre, isso poderá atrair mais a atenção da Fundação."

Florence encolheu os ombros. "Não estou com medo deles. Não mais. Eu só odeio eles."

Kartal riu e sacudiu a cabeça. "Você sabe que você terá que lidar com eles muito mais quando tiver meu trabalho."

"Sim." Ela respirou fundo. "Não estou ansiosa por isso."

Kartal colocou a mão no ombro dela. "Não deixe os skippers te derrubarem. Eles não valem a pena."


18 de Janeiro, 2006

Sasha Grimmer cantarolava para si mesma enquanto limpava sua mesa no Escritório de Campo de Portland. Sua resignação fora apresenta, e agora era hora de fechar um capítulo e seguir para o próximo. Ela limpou a poeira que restava, e então colocou a tampa em cima de uma caixa de objetos pessoais e se virou para sair.

De pé na porta estava a Agente Florence Thorne.

"Eles foram até você, huh?" Thorne perguntou.

"Você precisará ser mais específica", respondeu Grimmer. "Inclusive, prazer em vê-la também. Como está o outro lado?"

"Os Skippers", Thorne esclareceu. "Eles te pegaram. Por que mais uma agente nova apresentaria sua resignação? Especialmente depois do caso Becker."

"Esta é a parte em que você diz que está decepcionada comigo, mãe?" Grimmer repreendeu. "Minhas razões para sair são minhas. Isso simplesmente não estava funcionando para mim. Hora de mudar para algo melhor."

"Você não vai", Thorne respondeu categoricamente. "Você não foi designada para nada em Três Ports ainda, mas se você o tivesse, saberia que erro horrível está cometendo. Prometo que eles vão te desgastar."

"É isso que aconteceu com você?" perguntou Grimmer.

Thorne ficou em silêncio. Ela e Grimmer travaram olhares por vários momentos.

"É o seu funeral", Thorne disse e saiu do caminho.

Grimmer continuou a sair. Ao cruzar o limiar, ela olhou por cima do ombro.

"Te vejo por ai, Thorne."

"Você também, Skipper. Eu te desejaria sorte, mas você vai precisar de muito mais do que sorte para onde você está indo."

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