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Conto sobre um garoto passando por ciclos.
Contém referências extremamente nichadas. Agradecimentos especiais a slashannemoo e
Kardama por lerem durante o processo de escrita.
O sol iluminava o semblante de um garoto, luzindo sobre seus cabelos loiros, conferindo-os uma aparência espectral. Deitado em um simples colchão de palha estendido no chão, Marcinek sonhava.
- Levanta, seu preguiçoso! - a voz da mãe ressoou, e um golpe no rosto o fez despertar de vez, agora com a face ardendo. - Vai logo, seu pai precisa de você na roça!
Marcinek havia aprendido a odiar a voz de sua mãe pela manhã, o tom rascante e agudo chegava próximo de machucar seus ouvidos, o fazendo começar todos os dias com um princípio de enxaqueca. Ele não demonstrou seu desconforto, sabendo que, caso o fizesse, seria uma justificativa para uma surra. Levantou-se rapidamente, grunhindo qualquer coisa apenas para que ela notasse que estava acordado e, ainda com a face ruborizada pela mão pesada de sua mãe, começou a pesarosamente enfiando os pés no par de botas surradas que havia deixado ao pé da cama na noite anterior.
Lentamente cambaleou em direção ao banheiro enquanto sua mãe esbraveja algo em polonês. O banheiro, um cubículo de madeira úmida no fundo da casa, cheirava a sabão barato e mofo. Marcinek lavava o rosto com a água fria que escorria da bica torta, como se isso pudesse apagar os últimos traços de sonolência de seu rosto. A água gelada fazia seus dentes rangerem, mas ele preferia isso ao calor sufocante que o esperava no campo. Subitamente teve a sensação de algum sonho esquecido no passado. Algo criando raízes em sua mente. Rapidamente descartou o pensamento alheio, havia mais o que fazer.
Enquanto mastigava um pedaço de pão duro com manteiga rançosa, o mesmo café da manhã havia meses, olhava pela janela da cozinha para o céu limpo. Nenhuma nuvem, nenhuma desculpa. O dia seria longo. Sua mãe, ainda murmurando sobre as responsabilidades do filho e a vergonha que ele era para os avós que cruzaram o Atlântico, fazia barulho suficiente com as panelas para acordar os mortos, mas Marcinek nem ouvia mais, tão acostumado a aquele escarcéu infernal.
Do lado de fora, seu pai já estava curvado sobre a terra, com o chapéu de palha cobrindo o rosto ressecado. Não havia espaço para conversa ou afeto entre eles, apenas a repetição do trabalho. De família de imigrantes poloneses, seu pai falava pouquíssimo português. A comunicação entre os dois era feita de gestos bruscos, olhares endurecidos e ordens grunhidas.
O garoto apanhou a enxada, pesada e áspera nas mãos, e se dirigiu à plantação. Cada passo parecia pesar mais do que o movimento feito. A terra, quente, seca e quebradiça, levantava poeira que se grudava ao suor e ficava depositada em sua pele antes mesmo de ele começar a revirá-la.
Ele odiava a terra. Odiava a roça, os calos que rasgavam suas mãos semana após semana, e a sensação constante de que sua juventude estava sendo enterrada junto das sementes que jogava no chão. Não havia tempo para estudar, pensar, fazer qualquer outra coisa que não fosse lavrar a terra. Sonhos já não apareciam mais para ele durante seu sono.
Estranhamente, nesse mesmo momento de trabalho, era onde ele conseguia fazer sua escapada desta rotina degradante. O trabalho monótono permitia que ele fantasiasse com outras possibilidades, e sua mente rapidamente o levava para um lugar distante, para qualquer lugar que não fosse ali.
Às vezes imaginava um trem passando ao longe, levando-o embora sem perguntar nada, sem exigir explicações. Outras vezes, via-se caminhando sozinho por uma estrada longa e vazia, onde ninguém gritava com ele, e o céu era sempre nublado, para que o sol não lhe queimasse o rosto e, o que ele mais gostava, a fantasia de quando descansava seu corpo ao pé de uma árvore grande, com seu tronco retorcido grande o suficiente para que sua sombra cobrisse todo seu corpo.
Recentemente, entretanto, ele estava começando a construir planos para que suas fantasias deixassem de ser ficção e se tornassem realidade, mas antes que pudesse prosseguir para algo mais concreto, uma voz áspera, a de seu pai, o arrancava dessas fantasias, e ele voltava à realidade com a mesma rapidez com que fora empurrado para fora do sonho pela bofetada da mãe.
Marcinek estalou os dedos já dormentes, sentindo a dor fina e pungente subir pelos pulsos enquanto deixava a enxada de lado. O sol já estava alto no céu, o suor escorria pelas costas e a terra, finalmente, parecia satisfeita com o que havia recebido. Seu pai, de olhar impassível, assentiu com a cabeça: o gesto mais próximo de um "bom trabalho" que o garoto receberia naquele dia.
Sem dizer uma palavra, Marcinek caminhou até a beirada do terreno e lavou as mãos num balde de água barrenta. A pele dos dedos estava rompida em pontos, os calos antigos, duros e secos se partindo para dar lugar a outros mais recentes. Respirou fundo, o peito arfando não só pelo cansaço físico, mas por algo mais urgente e invisível: a necessidade de ir embora, ainda que por algumas horas.
Correu de volta até casa, trocando rapidamente as roupas sujas por uma camisa fina e um calção puído. O pai o observou de longe, grunhindo alguma coisa em sua língua nativa que para Marcinek, soava rascante e feia. Ele o ignorou. Com o trabalho já finalizado, sabia que seu pai não o impediria.
Seguiu apressado pelas trilhas estreitas de terra batida que levavam ao centro do vilarejo. As casas, todas baixas e manchadas de poeira, desfilavam em silêncio à sua volta. Gritos infantis ecoavam de longe, um rádio velho tocava uma canção sertaneja arranhada numa varanda. O barulho do mundo parecia se afastar conforme ele se aproximava do seu destino.
Ali, no coração do vilarejo, cercado por uma pequena clareira e bancos gastos de madeira, repousava um lago. Suas águas eram paradas, refletindo o céu com uma nitidez quase sobrenatural. No centro dele, uma única árvore, alta, com o tronco grosso retorcido, com uma copa coberta de folhas densas, brotava como um monumento vivo, suas raízes mergulhadas na água, gerando sua própria “ilha” onde ela repousava.
Marcinek avistou seus amigos de longe. Dois deles, Janek e Tomek, já estavam deitados na grama, conversando baixo. Um terceiro, Filip, arremessava pedrinhas tentando atingir o tronco da árvore no meio da água. O garoto sorriu pela primeira vez naquele dia.
- Achei que teu velho ia te prender hoje - gritou Janek, o mais falante do grupo, enquanto Marcinek se aproximava.
- Quase. - respondeu ele, ofegante, jogando-se na relva ao lado deles.
Conversaram pouco. Nenhum deles era exatamente bom com palavras, e a tarde já começava a cair. Aos poucos, foram se silenciando, como se a presença um do outro bastasse. O ar ao redor do lago era fresco, úmido, e trazia o cheiro de barro e folhas. A sombra da árvore central se alongava, estendendo-se até a margem como um convite.
Marcinek suspirou, ocasionalmente mudando de posição, apoiando a cabeça nos braços cruzados. Ao lado, seu amigo Tomek fez o mesmo. Os olhos de Marcinek se voltaram para o topo da árvore distante, suas folhas balançando suavemente, como se acenassem para ele.
Ali, na margem tranquila do lago, onde o mundo parecia suspenso no tempo, Marcinek enfim permitiu-se fechar os olhos. Os gritos da mãe, o silêncio do pai, o peso da enxada, tudo se dissipou, levado por uma brisa morna e compassiva. Os planos para o futuro acabaram ficando de lado, em nome de devaneios gerados por aquele momento de paz. Ao fundo, a sombra da árvore começava a cobrir seu corpo, da mesma forma que uma mãe cobre um filho querido em uma noite fria.
O pôr-do-sol iluminava o semblante de um garoto, luzindo seus cabelos loiros com um tom avermelhado. Deitado em um pedaço de relva batida, Marcinek sonhava.
O coração de Marcinek disparou antes mesmo de seus olhos se abrirem por completo. Ele acordou com um engasgo seco, o ar faltando nos pulmões como se tivesse sido arrancado à força. Por um instante, não soube onde estava. A imagem do sonho ainda o agarrava pelos pensamentos: a árvore no centro do lago parecia maior, o tronco se retorcendo lentamente, as raízes saindo da água como dedos longos e escuros. Ele lembrava da sensação de estar sendo puxado, não com violência, mas com uma insistência terrível, como mãos pacientes que sabiam que, cedo ou tarde, ele cederia. A água subia por suas pernas, fria, pesada, enquanto a sombra da copa o engolia por completo.
Marcinek sentou-se de supetão, arfando. O sonho se dissolveu rápido demais para que ele pudesse segurá-lo, restando apenas um mal-estar difuso no peito e a impressão persistente de um chamado que ainda ecoava em seus ouvidos.
O lago estava quieto demais.
A primeira coisa que notou foi a luz. O sol já não estava alto nem filtrado pelas folhas; agora, pendia baixo no céu, tingindo tudo de um laranja espesso, quase sufocante. A sombra da árvore se estendia longa e escura sobre a margem, muito além do que deveria àquela hora. Um arrepio percorreu-lhe a espinha.
- Merda… - murmurou, a voz rouca.
Virou a cabeça bruscamente para o lado. Onde antes Janek costumava estar, gesticulando e falando demais, havia apenas um trecho de grama amassada. Nenhuma mochila, nenhum sapato largado, nenhum sinal claro de que ele tinha se levantado há pouco. Apenas ausência.
- Janek? - chamou, mais alto do que pretendia.
Nenhuma resposta.
Marcinek se apoiou nos cotovelos e olhou em volta com mais atenção. Tomek e Filip ainda estavam ali, estendidos na relva, os rostos relaxados demais, os peitos subindo e descendo num ritmo lento e profundo. Dormiam como se nada no mundo pudesse alcançá-los. Isso não era normal. Nenhum deles costumava dormir tanto, muito menos daquele jeito pesado, quase artificial.
Nada. Nenhum resmungo, nenhum movimento além de um leve virar de cabeça, como se o toque não fosse suficiente para trazê-los de volta. Sentiu o coração acelerar e gotas de suor começarem a se formar na sua testa.
Marcinek voltou o olhar para o lago. A superfície da água permanecia lisa demais, refletindo o céu em tons de cobre e sangue. A árvore, imóvel, parecia observá-lo. Por um segundo absurdo, teve a certeza de que, se chamasse pelo nome de Janek outra vez, a resposta viria dali, do meio da água. Não chamou.
- Bu!
O grito estourou tão perto que Marcinek quase caiu para trás. O corpo reagiu antes do pensamento: ele se encolheu, o coração disparando em dor aguda no peito, e um grito abafado escapou-lhe da garganta.
Janek surgiu de trás de um amontoado de folhas secas, o rosto sujo de terra, os olhos arregalados de propósito, sustentando o susto por um segundo a mais do que o necessário. No instante seguinte, caiu na gargalhada.
- Você tinha que ver a sua cara! - disse, dobrando-se de rir.
Como se fosse um sinal, Tomek e Filip também despertaram, rindo sonolentos, ainda deitados na relva, cúmplices demais para alguém que supostamente dormia havia pouco.
- Seu idiota… - murmurou Tomek, esfregando os olhos. - Achei que você tinha ido embora.
O alívio que Marcinek sentiu durou pouco demais para ser chamado de alívio. A tensão não se dissolveu; virou outra coisa. Quente. Dura. Uma pressão atrás dos olhos.
- Vocês são uns imbecis! - explodiu, a voz mais alta do que pretendia.
Os risos cessaram aos poucos.
- O que foi agora? - Janek perguntou, ainda sorrindo, mas já recuando meio passo.
- Vocês me deixaram dormir até agora! - Marcinek apontou para eles, o dedo tremendo. - Eu acordei com o sol quase se pondo… - a frase morreu antes de terminar. - Vocês sabem o que vai acontecer comigo agora?
Ninguém respondeu. O lago parecia mais distante do que antes.
- Eu tô atrasado. Muito atrasado. - Ele passou a mão pelos cabelos, puxando-os com força. - Minha mãe vai me matar. Meu pai vai arrancar meu couro - fez um gesto vago, o rosto fechado.
- Calma, Marcinek, foi só uma brincadeira… - Janek tentou, erguendo as mãos, mas rapidamente foi interrompido por mais uma explosão de Marcinek.
- Brincadeira o caralho! - ele empurrou Janek pelo ombro com força suficiente para fazê-lo tropeçar. - Vocês não têm que lidar com isso. Eu tenho.
O silêncio que se seguiu foi pesado, constrangedor. Até os insetos pareciam ter diminuído o zumbido ao redor do lago. Marcinek respirou fundo, o peito ardendo. Não esperou desculpas. Virou-se e começou a correr.
Correu pelas trilhas de terra batida como se o chão pudesse engoli-lo se diminuísse o passo. As casas do vilarejo já estavam sendo engolidas pela penumbra, janelas se fechando, vozes chamando crianças pelo nome. O mundo seguia adiante sem ele. Cada passada martelava a mesma certeza: não importava o susto ter sido uma brincadeira. O atraso era real. A fúria que o aguardava em casa também.
Marcinek diminuiu o passo apenas quando avistou a casa. A luz fraca que escapava pela janela denunciava que já o esperavam ainda acordados. O portão de metal rangeu alto demais quando ele o empurrou, cortando o silêncio como um tiro em um ambiente fechado, soando como um juiz pronunciando uma sentença de morte.
- Onde você estava?
A voz da mãe veio antes mesmo que ele pudesse cruzar a soleira. Ela estava de pé no centro da cozinha, braços cruzados, o rosto duro como pedra. O pai permanecia sentado à mesa, a silhueta recortada pela lamparina, o chapéu ainda na cabeça, os olhos invisíveis sob a aba, a boca retorcida num esgar. Marcinek abriu a boca, mas nenhuma explicação parecia suficiente. Decidiu contar a verdade.
- Eu… fiquei no lago. Dormi demais.
A bofetada veio rápida, estalando no ar abafado da casa. O impacto fez sua cabeça virar de lado, o gosto metálico surgindo imediatamente na boca.
- Dormiu? - a mãe repetiu, a voz que já era aguda agora se tornava ainda mais alta pela raiva. - Dormiu enquanto a gente trabalha feito burro?
Ele tentou se recompor, levou a mão ao rosto, mas não a tempo. Enquanto sua atenção estava voltada para sua mãe e a bofetada que ela lhe deu, o pai se levantou em algum momento, sem dizer nada. Nunca dizia. Apenas aproximou-se e agarrou Marcinek pelo braço com força suficiente para fazê-lo engasgar de dor.
- Eu fiz o serviço… - tentou dizer, a voz embargada pelo choro. - A roça tá pronta.
Outra pancada, agora mais pesada. Não precisava entender as palavras, o tom bastava.
- Inútil. - o pai murmurou em sua língua, empurrando-o contra a parede.
Marcinek escorregou até o chão, os joelhos cedendo. A mãe continuava gritando - sobre vergonha, sobre ingratidão, sobre como os avós nunca teriam criado um filho assim - mas as palavras começaram a se misturar, virando um ruído distante.
Vieram mais golpes. Alguns ele tentou proteger, outros simplesmente aceitaram seu corpo cansado. A dor deixou de ser pontual e virou uma coisa difusa, espalhada, como se não houvesse mais um lugar específico para doer. Em algum momento, parou de reagir.
O teto de madeira parecia girar devagar acima dele. A lamparina tremeluzia, criando sombras que se alongavam demais nas paredes, como galhos de uma árvore tremendo ao vento. Eram as sombras que se mexiam, ou sua cabeça que se movimentava contra sua vontade?
Seu ouvido zumbiu. A voz da mãe tornou-se um eco distante. O peso no peito aumentou, o ar ficando ralo demais para puxar. A última coisa que sentiu foi o chão frio contra a bochecha e um líquido quente escorrendo pelo seu rosto.
E então, nada.
A luz de uma vela iluminava o semblante ferido de um garoto, luzindo sobre seus cabelos loiros, tornando-os quase ruivos sob sua luz alaranjada. Deitado em uma cama grande, Marcinek sonhava.
Acordou com um toque. Não o estalo seco, nem o puxão brusco, nem a dor súbita que costumava arrancá-lo do sono todas as manhãs. Era um movimento lento, quase hesitante, dedos passando com cuidado por seu rosto, desviando do olho inchado, do lábio cortado.
- Marcinek… - ouviu uma voz suave, baixa, quase irreconhecível.
Ele abriu os olhos devagar, o corpo inteiro se preparando para o impacto que não veio. A luz era suave, filtrada por cortinas grossas. O cheiro não era o de palha velha e poeira, mas de sabão limpo e madeira encerada. Sua mãe estava sentada à beira da cama.
Por um instante, ele não reconheceu a cena. Ela não estava rígida, nem com os braços cruzados. O rosto parecia cansado de um jeito diferente, menos agressivo, mais… humano. Não havia outra palavra para descrever aquilo. Os olhos estavam vermelhos, como se tivesse chorado.
- Me desculpa - disse ela, quase num sussurro. - A gente passou dos limites ontem.
Marcinek demorou a entender as palavras. Elas pareciam não se encaixar direito na cabeça ainda pesada. Por um segundo, considerou se beliscar para ver se ainda estava sonhando.
- Seu pai… - ela continuou, respirando fundo. - Ele foi longe demais. A roça não tá rendendo, as contas tão apertadas, e a gente acabou descontando em você. Não foi culpa sua. Nunca foi.
O silêncio que se seguiu era estranho. Não pesado - apenas vazio, como um espaço que ele não sabia como preencher. Só então percebeu onde estava.
O colchão sob seu corpo era macio, afundava levemente a cada movimento. O lençol era limpo, cheirava a sol. Aquela era a cama dos pais. A melhor cama da casa. Ele nunca havia dormido ali antes.
- Você precisava descansar. - a mãe disse, como se lesse seus pensamentos. - Não te acordei cedo hoje.
Marcinek sentou-se devagar, esperando que a dor viesse cobrar seu preço. Ela não veio. O corpo parecia… inteiro. Pesado, sim, mas não quebrado. Quando levou a mão ao rosto, sentiu o inchaço, o corte seco no lábio, marcas roxas surgindo nos braços ao mover as mangas da camisa que haviam lhe colocado.
Mas nada doía de verdade. Era como se aquelas marcas pertencessem a outro corpo.
- Vem comer. - a mãe disse, levantando-se.
Ele a seguiu até a cozinha quase em transe. O pai estava sentado à mesa, sem o chapéu. Não disse nada, mas levantou os olhos por um segundo e assentiu com a cabeça. Não havia dureza ali - apenas cansaço.
Sobre a mesa, havia mais do que o pão duro de sempre. Um ovo frito, ainda quente. Café passado na hora. Um pedaço de queijo embrulhado em pano. Pequenos gestos, mas que pareciam enormes demais para aquela casa.
- Come devagar - ela disse, puxando a cadeira para ele. - Se sentir qualquer coisa, me fala.
Marcinek obedeceu. O primeiro gole de café aqueceu o peito de um jeito estranho. A comida pela primeira vez em muito tempo tinha sabor e era algo a ser aproveitado, não a ser engolido o mais rápido possível como se fosse uma tarefa.
Enquanto comia, percebeu novamente as marcas nos braços, nas mãos, no pescoço refletidas no vidro escurecido da janela. Elas estavam lá. Inequívocas. Mas não vinham acompanhadas da dor surda que costumava morar nelas por dias. Dessa vez, o seu plano saiu da consideração e ele o executou: colocou uma das mão próxima ao umbigo e beliscou com toda força. A dor veio, e ele não acordou. Não era um sonho.
Se não fossem as marcas extremamente óbvias no seu corpo, ele acharia que a noite anterior não havia acontecido. Quando terminou, levantou-se sem pressa. O corpo respondia bem demais. Forte demais. Leve demais. Algo estava diferente. E, pela primeira vez em muito tempo, essa diferença não parecia cruel.
Marcinek permaneceu em silêncio.
Cada palavra parecia perigosa demais, como se falar alto pudesse quebrar o “transe”, rachar aquele momento frágil e fazer tudo voltar ao normal, o normal que ele tanto odiava. Respondeu à mãe apenas com pequenos meneios, fazendo os movimentos mais mínimos possíveis, calculados. Até o som da cadeira sendo empurrada lhe pareceu excessivo.
O pai continuava ali, quase imóvel. Comia devagar, os gestos contidos, como se qualquer movimento brusco fosse um erro. Em outros dias, aquele silêncio teria sido sufocante. Agora, era apenas… cauteloso. Quando Marcinek se levantou, o pai deslocou a cadeira para dar passagem, um gesto simples, quase imperceptível - e completamente novo.
- Vai sair depois? - a mãe perguntou, enquanto recolhia a louça.
A pergunta o pegou desprevenido. Ele hesitou um segundo a mais do que deveria.
- Vou… - disse baixo. - Vou no lago.
Ela assentiu, sem repreensão, sem alerta.
- Não volta tarde.
Nenhum peso veio junto da frase. Nenhuma ameaça implícita. Marcinek sentiu um nó estranho no estômago, feito de algo próximo à culpa. O resto do dia passou lento e tranquilo demais para seus padrões. Ajudou em pequenas tarefas, carregou água, varreu o quintal. Tudo parecia… normal. Melhor que normal. O sol não queimava tanto, o corpo obedecia, a cabeça não doía. Ainda não conseguia acreditar que não era um sonho, parecia que alguma espécie de magia havia acontecido entre o dia anterior e hoje.
Quando decidiu sair, o céu já começava a declinar outra vez, mas ainda havia luz suficiente. Pegou a camisa no prego atrás da porta, calçou as botas e caminhou até a saída. Mas, no caminho para lá, notou algo muito pequeno, que quase escapou a sua percepção. Bem no canto da porta, uma rachadura começou a se formar.
Parou por um instante, seu olhar se fixou nela. Pensou em avisar seu pai, talvez fosse algo que deveria ser consertado para evitar danos futuros, mas, acabou decidindo que era melhor não falar nada. Talvez seu pai o desse isso como tarefa e ele queria sair. Desviou o olhar, empurrou a porta e saiu.
O caminho até o lago parecia mais curto naquele dia. A poeira não incomodava tanto, os sons do vilarejo eram mais suaves. Quando avistou a clareira, viu os amigos de longe. Estavam sentados próximos à margem, jogando pedrinhas na água, rindo baixo.
O peito apertou. Aproximou-se devagar, a coragem vindo em ondas pequenas.
- Ei… - chamou.
Janek foi o primeiro a virar. O sorriso dele diminuiu ao vê-lo.
- Marcinek.
- Eu… - ele pigarreou. - Desculpa por ontem. Eu perdi a cabeça.
Houve um breve silêncio. Tomek deu de ombros.
- Você tava certo em ficar bravo.
- É - Filip completou. - A gente exagerou.
Janek assentiu, sério por um momento raro.
- Não devia ter feito aquilo.
O peso que Marcinek nem sabia que carregava pareceu se deslocar um pouco dentro dele. Sentaram-se juntos, como de costume. O lago estava calmo, refletindo o céu com tons suaves. A árvore permanecia ali, imóvel, projetando sua sombra longa sobre a água. A tarde seguiu sem pressa.
Dessa vez, ninguém se deitou na relva. Ficaram sentados, pernas dobradas, jogando pedrinhas no lago e observando os círculos se desfazerem na superfície da água. A conversa começou trivial, como sempre, mas aos poucos ganhou outro peso. Marcinek falou mais do que estava acostumado. Coisas que nunca tinha colocado em voz alta escaparam-lhe sem esforço, como se sempre tivessem estado esperando por aquele momento. Não entrou em detalhes, não precisava. Bastava dizer, e os outros entendiam.
Para sua surpresa, eles também falaram. Janek deixou de fazer piada por alguns minutos inteiros. Tomek comentou coisas que normalmente guardava só para si. Filip, mais quieto, disse o suficiente para ser ouvido. Não houve risadas exageradas nem silêncio constrangedor. Apenas a sensação estranha e boa de ser visto.
Em algum momento, alguém sugeriu um jogo. Algo simples, velho, que todos conheciam. Correram, empurraram-se, riram alto demais. O lago permaneceu ali, testemunha muda, a árvore refletida na água como sempre.
Quando o sol começou a baixar de verdade, despediram-se sem drama. O caminho de volta parecia leve demais para alguém que, na noite anterior fora espancado.
Enquanto caminhava, um pensamento estranho se formou, quase alegre: se não fosse a surra, nada daquilo teria acontecido. A ideia o chocou por um instante, mas não o afastou. Era como se a violência tivesse sido uma espécie de corte necessário, algo terrível que, ainda assim, abrira espaço para o que vinha depois. Ele não gostava desse pensamento, mas também não conseguia rejeitá-lo por completo.
Chegou em casa com um sorriso contido, algo que não fazia havia muito tempo. A mãe o recebeu na porta.
- Já voltou? - perguntou, com um tom que soava… contente. - Entra, a comida já tá pronta.
O cheiro vinha da cozinha, quente e reconfortante. Marcinek largou as botas perto da parede e entrou. O pai estava à mesa, de costas, ajeitando alguma coisa no prato. Ao ouvir os passos do filho, pigarreou.
- Senta aí.
Marcinek obedeceu, o coração acelerando por um motivo novo. O pai demorou alguns segundos antes de falar, como se escolhesse as palavras com cuidado excessivo.
- Ontem… - começou, a voz baixa. Parou. Recomeçou. - Eu passei do limite.
O mundo pareceu inclinar levemente.
- Não devia ter feito aquilo. - Ele manteve os olhos fixos na mesa. - Não era culpa tua.
Marcinek sentiu a garganta fechar. Não encontrou resposta. Não havia ensaio possível para aquele momento. A mãe pousou a mão em seu ombro, um gesto breve, mas firme. Jantaram em silêncio, mas não era o silêncio de antes. Não havia tensão nele, apenas algo ainda se acomodando, como móveis sendo rearranjados dentro da casa. Quando terminaram, a mãe falou como se fosse a coisa mais natural do mundo:
- Você dorme lá no quarto hoje de novo. Precisa se recuperar direito.
Marcinek assentiu, ainda meio atordoado. Deitou-se mais uma vez na cama grande, macia demais, o corpo afundando com facilidade. A vela foi apagada, e a escuridão veio suave. As marcas ainda estavam ali, ele sabia, mas continuavam estranhamente silenciosas.
Fechou os olhos com um pensamento quase festivo, perigoso demais para ser dito em voz alta: será que as coisas finalmente iam começar a melhorar?
A luz da manhã iluminava o semblante de um garoto, espalhando-se suavemente por seus cabelos loiros, dourando-os com um brilho quase irreal. Deitado em uma cama macia demais para aquela casa, Marcinek sonhava.
Acordou com um carinho. Não apenas um toque, mas um cuidado contínuo, como se alguém tivesse tempo de sobra para acordá-lo do jeito certo. A mão de sua mãe repousava em seus cabelos, fazendo um movimento lento, repetido, quase ritualístico.
- Bom dia, meu filho - disse ela, sorrindo.
A palavra soou estranha. Não errada, mas estranha de tão perfeita. Marcinek abriu os olhos e precisou de um momento para se situar. A luz que entrava pela janela parecia mais clara, mais limpa. O quarto estava diferente. As paredes pareciam menos manchadas, o chão varrido, o ar sem o cheiro antigo de poeira e mofo. Até as cortinas, que ele jurava estarem rasgadas, pendiam inteiras, balançando levemente com a brisa.
Sobre a cama, uma bandeja. Pão fresco, ainda morno. Manteiga sem gosto rançoso. Uma xícara de café com leite, fumegante, e uma fruta cortada em pedaços iguais demais para alguém que normalmente não tinha paciência para isso.
- Come devagar - disse a mãe, com a mesma suavidade do dia anterior, mas agora sem hesitação alguma. - Você merece.
Ele se sentou, ainda atordoado. O corpo parecia leve, descansado como nunca. As marcas da surra estavam lá, ele sabia, mas quando passou os dedos pelos braços, sentiu apenas pele morna, íntegra. Nenhuma dor. Nenhuma rigidez. Nada. Enquanto comia, o pai apareceu à porta do quarto. E sorriu. Não foi um sorriso largo, nem exagerado. Foi breve, contido, mas inegável.
- Dormiu bem? - perguntou.
Marcinek assentiu, incapaz de responder de imediato. A pergunta ecoava mais alto do que deveria. Quando deu por si, se pegou completamente boquiaberto, a mandíbula pendendo pesadamente da sua cabeça. O dia se desdobrou com uma facilidade quase ofensiva. Nada deu errado.
As tarefas da casa foram feitas rápido demais. A água do poço parecia mais fresca. O sol aquecia sem queimar. O tempo agia como se fosse dobrado pela sua vontade, abrindo espaços onde antes só havia cansaço. Até o rádio velho da vizinha tocava músicas boas, uma após a outra, sem chiados.
Quando saiu de casa, notou que a rachadura perto da porta parecia… menor. Como se a madeira tivesse se ajustado sozinha durante a noite. Ele franziu o cenho por um segundo, mas a sensação de bem-estar era grande demais para sustentar qualquer desconfiança.
No caminho para o lago, encontrou conhecidos que o cumprimentaram pelo nome. Pessoas que nunca haviam olhado para ele direito antes. Tudo se encaixava, como peças finalmente encontrando seu lugar. No lago, os amigos já o esperavam.
Riam alto, livres, e quando o viram, abriram espaço para ele sem que precisasse pedir. Jogaram, correram, falaram de futuro como se ele fosse uma certeza e não uma hipótese frágil. Nenhum conflito, nenhuma frustração. Apenas concordância.
A árvore no centro do lago projetava sua sombra perfeita sobre a água imóvel. Nenhuma folha fora do lugar. Nenhum galho seco. Sua imagem refletida parecia mais nítida do que nunca, como se o lago tivesse sido polido durante a madrugada.
Marcinek sentiu algo parecido com gratidão. Voltou para casa antes do pôr do sol, sem pressa, sem medo. A mãe o abraçou na porta. O pai bateu-lhe de leve no ombro, um gesto curto, mas carregado de aprovação.
- Orgulho de você - disse, quase inaudível. Esse havia sido, inegavelmente, o melhor dia da vida de Marcinek. Mas, parecia que tinha alguma coisa o incomodando ainda no fundo da sua mente, como um alerta silencioso, não um pensamento claro, mas uma pressão estranha atrás dos olhos, como se algo estivesse levemente fora de sincronia.
Tudo estava perfeito demais. Confortável demais. Quieto demais. Era exatamente como ele sonhou a vida toda e a mente dele, enquanto olhava a face sorridente da mãe, olhando com carinho para o pai, começou a refletir sobre a situação inteira, quando um pensamento silencioso penetrou sua mente quase como uma faca.
Ele se virou e olhou diretamente para a porta e seus olhos foram capturados pela única coisa que parecia fora do lugar desde os últimos acontecimentos: aquela maldita rachadura. Ela parecia ainda menor do que antes, quase discreta, mas, quanto mais ele pensava, mais seu olhar se fixava nela. Começou a sentir algo estranho, como um comichão dentro da própria cabeça. Seu foco se voltou completamente para aquele pequeno vão entre dois dos tijolos da parede, e ele começou a andar em sua direção.
Registrou vagamente a voz do seu pai atrás dele, perguntando onde ele ia, mas seu cérebro quase não processou seu chamado. Sua mente se focou completamente naquele único pequeno detalhe, o único defeito desse aparente paraíso que ele vivia. De forma quase obsessiva, ele começou a se mover em direção a porta. Não, não a porta, em direção a rachadura.
Deu um passo. Dois. Três. No quarto, sentia como se suas pernas fossem feitas de chumbo. Subitamente, seu corpo que até agora se sentia completamente recuperado dos ferimentos começou a deixá-lo ciente de que elas não haviam, de fato, se recuperado. Sentiu o inchaço do rosto, a dor nas pernas, sua respiração começou a doer toda vez que inspirava conforme tentava dar um quinto passo, suas juntas rangiam.
No sexto passo, ouviu a voz da mãe, cheia de doçura. Ela o perguntava o que ele estava fazendo. Por um segundo, sua determinação vacilou e ele quase olhou para trás. Mas, alguma coisa dizia pra ele que, se ele fizesse isso, jamais conseguiria voltar. Sua obstinação não tinha limites, essa pequena distração removeu seu foco da fenda por um mísero segundo, mas, quando ele o retomou, agora ele percebeu que ela era muito maior do que antes.
Já não parecia uma rachadura natural em um tijolo antigo. Aquilo era uma cicatriz profunda, retorcida, como se alguém tivesse enfiado um cinzel na parede e martelado repetidas vezes, sem cuidado, com pressa. Deu um sétimo passo. Apenas mais um e estaria a um braço de distância daquela marca nas paredes imaculadas da casa perfeita.
Parou. Respirou fundo. Sentiu o ar gelado ao seu redor, como se uma brisa passasse na sua nuca. A textura da parede estava mudando diante de seus olhos: o que antes eram tijolos agora parecia algo mais orgânico, rústico, lembrava fibras, veios, madeira viva.
Reconsiderou suas escolhas. Ele queria mesmo fazer aquilo? Não seria mais confortável viver naquele paraíso? Pensou no sorriso da mãe, na voz tranquila do pai, na leveza que sentira o dia inteiro. Bastava virar o rosto. Fingir que não tinha visto.
Foi então que percebeu: a luz ao seu redor havia desaparecido por completo. Tudo estava escuro, e ele mal conseguia distinguir a parede ou a abertura à sua frente.
Não virou a cabeça, mas sabia. Se olhasse para trás, não veria seus pais. Nem a cozinha, nem a mesa de jantar, nem o fogão quente. Não sabia exatamente o que encontraria, mas agora conseguia ouvir múltiplas respirações pesadas ao seu redor, próximas demais, irregulares, como se não pertencessem a corpos bem definidos.
Era tarde demais para parar. Deu mais um passo à frente, sentindo toda a dor antes amortecida atravessar seu corpo de uma só vez. Com esforço, estendeu o braço e tocou a abertura. Ela se esfarelou sob seus dedos. A estrutura daquele “tijolo”, que agora parecia uma casca amadeirada, estava completamente comprometida. Usando os dedos finos, ele puxou, e a fantasia inteira começou a se desfazer ao seu redor, com o som seco de madeira partindo e um cheiro úmido de terra fria invadindo o ar. Percebeu então onde realmente estava.
A luz era branca. Fraca demais para aquecer, forte demais para permitir sombras de verdade. Sob seu tom, os cabelos loiros de um garoto tomavam um tom quase fantasmagórico. Deitado em algo que não era chão, nem cama, Marcinek sonhava.
Deu a si subitamente, como se houvesse levado um susto, o corpo inteiro reagiu a algo que não existia, mas que trouxe de volta sua consciência. Abriu os olhos, mas parecia que tinha algo obstruindo sua visão. Então, começou a notar o que estava sentindo.
Seu corpo estava estendido sobre uma superfície irregular, dura e ao mesmo tempo viva. Algo pulsava sob suas costas, um ritmo lento, quase imperceptível, como o bater de um coração grande demais para pertencer a qualquer coisa humana. Acima dele, a luz filtrava-se por veios retorcidos, abrindo caminho entre fibras espessas, curvas impossíveis, como se estivesse dentro do tronco de uma árvore imensa, não apenas grande, mas colossal, maior do que qualquer coisa que ele soubesse nomear. Um interior que não deveria existir.
O ar era pesado, úmido, carregado de um cheiro doce e apodrecido ao mesmo tempo. Madeira antiga. Terra molhada. Algo mais… algo orgânico demais.
Ele tentou se mexer. Foi quando sentiu. Braços? Não, raízes, enroladas ao redor do seu rosto, do torso, das pernas, do pescoço. Grossas, nodosas, quentes ao toque, pressionando seu corpo com uma força paciente, possessiva. Algumas se enroscavam por baixo de suas axilas, outras passavam pelas coxas, outras ainda se insinuavam pela curva da nuca, como dedos que soubessem exatamente onde se encaixar.
O pânico veio rápido demais para virar grito. Marcinek estava acordado. Inspirou bruscamente, o ar rasgando os pulmões, e se debateu com uma força que não sabia que ainda tinha. As raízes reagiram, apertando por um instante, não com violência, mas com insistência, como se não compreendessem a recusa. Ele se torceu, empurrou, arranhou a superfície áspera com as unhas, sentindo lascas entrarem na pele. Uma delas cedeu. Depois outra. Com um último esforço desesperado, ele se soltou e caiu de lado, rolando para longe daquele abraço vivo.
Ficou de joelhos, ofegante, o coração batendo tão alto que parecia ecoar pelo espaço inteiro, os ouvidos zumbindo. Foi então que ouviu novamente. O mesmo som que havia ouvido em sua ilusão. Respiração.
Não a sua. Muitas. Lentas. Irregulares. Algumas profundas, outras quase inexistentes, como se os corpos que as produziam estivessem esquecendo, aos poucos, como inspirar. Ergueu a cabeça. A luz branca revelava o suficiente.
Havia pessoas ao redor dele. Ou o que restava delas.
Corpos humanos emergiam da madeira como lembranças mal preservadas. Alguns estavam deitados como ele estivera, meio engolidos por raízes grossas que atravessavam torsos, se entrelaçavam em pernas, desapareciam dentro de bocas abertas em êxtase silencioso. Outros permaneciam sentados, ou ajoelhados, as costas arqueadas de maneira errada, fundidas ao tronco em ângulos impossíveis. Braços desapareciam dentro da casca. Costelas estavam visíveis, a pele esticada demais sobre ossos finos, quebrados, tortos.
Todos pareciam vivos. Ou algo perigosamente próximo disso. Os rostos eram a pior parte. Expressões serenas demais. Sorrisos suaves congelados em lábios rachados. Testas sem expressão, como se estivessem imersos em sonhos profundos, confortáveis, perfeitos. Alguns murmuravam palavras incompreensíveis entre uma respiração e outra. Outros choravam em silêncio, lágrimas secas marcando trilhas antigas no rosto encardido.
Marcinek sentiu o estômago revirar. Aquelas respirações… eram eles. Cada som que ouvira no falso paraíso, cada inspiração pesada que sentira às suas costas, vinha desses corpos presos, quebrados, sustentados pela árvore como frutos podres que ainda não haviam caído. Eles sonhavam, assim como ele sonhara.
Uma raiz próxima se moveu lentamente, deslizando pelo chão vivo, como se procurasse algo. Ou alguém. Marcinek recuou, o corpo inteiro tremendo. Ele entendeu, com uma clareza cruel, que aquilo não era um castigo. Era um prêmio.
Marcinek começou a caminhar. Cada passo exigia cuidado. O chão não era terra, nem madeira de verdade, era algo entre os dois, macio demais sob seus pés emaciados, cedendo levemente, como carne que está começando a apodrecer. Raízes grossas se cruzavam como vigas, sustentando arcos naturais que lembravam corredores, ruas improvisadas dentro daquele local impossível.
Havia mais deles. Muito mais. Corpos surgiam em fileiras irregulares, presos às paredes vivas, deitados em nichos formados naturalmente pelo crescimento sobrenatural dessa estrutura. Alguns estavam tão profundamente integrados que já não se distinguia onde terminava a pele e começava a casca. Outros pareciam mais recentes, ainda reconhecíveis como pessoas, ainda respirando com esforço.
Ele passou por um homem que murmurava a mesma frase, sem variação, a cada expiração:
- Tá tudo bem… agora tá tudo bem…
Uma mulher mais adiante chorava baixinho, mas sorria, o rosto relaxado, como alguém embalada por uma lembrança feliz demais para ser questionada. Um garoto, não muito mais novo que Marcinek, mexia os dedos no ar, como se estivesse contando algo invisível, repetindo números que nunca chegavam ao fim.
- Só mais um dia… só mais um… - sussurrava alguém, em algum lugar, impossível dizer de onde.
As respirações se sobrepunham, criando um som contínuo, quase um vento interno, um fôlego coletivo que fazia a estrutura inteira vibrar de leve. Como se essas pessoas fossem os brônquios de um ser muito maior. Conforme avançava, algo começou a se alinhar em sua mente, peça por peça.
Aquele arco, aquela abertura ovalada, reforçada por raízes mais espessas… ele conhecia aquele formato. Parou, o coração acelerando, e olhou com mais atenção. Era uma porta. Ou o que restava dela.
As raízes haviam engolido o batente, atravessado o espaço onde antes existia uma parede, mas o desenho ainda estava lá. Mais à frente, uma estrutura mais alta se erguia, as fibras se organizando em colunas tortas, convergindo para cima. Entre elas, algo que lembrava um sino, não mais feito de metal, mas de madeira branca, esticada, rachada, suspensa por raízes como tendões.
Era a igreja onde via a missa com seus pais aos domingos. Ele ainda estava no vilarejo.
Casas se revelavam aos poucos, não como construções isoladas, mas como memórias fossilizadas. Janelas abertas que agora eram cavidades profundas. Escadas que terminavam em nada, levadas pela expansão viva da madeira. O traçado das ruas ainda existia, curvado, deformado, mas reconhecível, como ossos sob a pele de algo.
Marcinek sentiu um frio percorrer a espinha. Não havia refúgio. Nunca houvera. O caminho se abriu, lentamente, para um espaço mais amplo. A luz branca se intensificou, refletindo em algo liso à frente. Ele avançou, o som das respirações ficando mais distante, até que o ar mudou.
O lago ainda existia. Perfeitamente imóvel, escuro e claro ao mesmo tempo, como um espelho polido demais para ser natural. A água circundava uma ilha formada inteiramente por raízes entrelaçadas, grossas como troncos, elevando-se em direção ao centro.
E ali estava ela. A árvore. Não como ele lembrava. O tronco era retorcido em espirais impossíveis, torcendo-se sobre si mesmo como se tivesse crescido de forma dolorosa. Veios brancos percorriam sua superfície, pulsando com a mesma luz fria que iluminava tudo ao redor, como cicatrizes vivas ou nervos expostos. A cada pulsar, a árvore parecia inspirar lentamente e o lago respondia com pequenas ondulações, suaves demais para serem apenas a brisa que ele se lembrava de ter visto tantas vezes.
Ao redor da ilha, presos às raízes que se estendiam até a água, havia mais corpos. Muitos. Alguns submersos até o peito, sustentados por filamentos que impediam que afundassem. Outros completamente fora da água, abraçados às raízes como crianças cansadas.
O tronco central estava coberto de rostos. Não esculpidos. Fundidos. Faces humanas emergiam da madeira com expressões de paz absoluta. Olhos fechados. Sorrisos leves. Testas relaxadas. Algumas bocas se moviam, presas em sonhos eternos, murmurando promessas que nunca se cumpririam.
Entre eles, Marcinek reconheceu traços familiares. O padeiro. A mulher da mercearia. O velho que sempre se sentava perto do cais. Janek. E, em algum lugar mais acima, quase imperceptível entre os veios brancos pulsantes, ele teve a terrível certeza de que também havia rostos que ele não conseguia enxergar.
Marcinek ergueu o olhar ainda mais, tomando nota do que estava além da árvore e só então percebeu. Não havia horizonte.
Acima dele, muito acima, uma luz branca e difusa se espalhava de todos os lados, sem fonte definida, como um céu que existia apenas como ideia. Não era o sol. Não havia calor. Não havia sombras projetadas por ela. A claridade simplesmente estava ali, pressionando tudo de cima para baixo, filtrando-se pelos veios da árvore colossal, escorrendo pelas fibras como leite derramado.
Ele tentou acompanhar aquela luz com os olhos, mas o tronco se perdia em alturas impossíveis, retorcendo-se até desaparecer naquele brilho inalcançável. Onde deveria haver nuvens, havia apenas mais madeira. Mais raízes. Mais veios pulsantes. Um teto vivo, fechado demais para ser o mundo.
O ar lhe faltou. O vilarejo não estava apenas tomado. Estava cercado. O pânico veio rápido, sem cerimônia. Um aperto súbito no peito, como se algo invisível tivesse fechado a mão ao redor de seu coração. O pensamento se fragmentou.
Seus pais. Onde eles estavam? A imagem da mãe, do sorriso impossível do terceiro dia, surgiu em sua mente como um choque elétrico. Estariam ali também? Presos em algum lugar daquela estrutura, sonhando com mesas arrumadas demais, com cafés da manhã perfeitos demais? Ou, pior ainda, estariam acordados, conscientes, em algum ponto daquele labirinto vivo?
Ele girou sobre os próprios calcanhares, o olhar correndo desesperado pelas formas ao redor, com as cenas que já havia visto voltando a sua mente. A igreja deformada. As casas engolidas. As ruas curvas, irreconhecíveis. Tentar voltar para casa parecia, de repente, uma ideia absurda.
E se o caminho tivesse mudado? E se, ao virar uma esquina errada, algo o puxasse de novo para o sono? As raízes ainda se moviam, ele tinha certeza disso. Não rápido. Não de forma óbvia. Mas se ajustavam, como músculos em repouso.
Um ruído úmido ecoou em algum lugar próximo, seguido por um murmúrio coletivo mais intenso. Por um instante, Marcinek teve a impressão de que a árvore havia percebido seu despertar.
- Não… - sussurrou, a voz falhando. Ficar parado não era opção.
Voltar para casa significava atravessar tudo aquilo outra vez, passando por corpos, por sonhos alheios, por ruas que já não obedeciam à memória. Procurar seus pais sem saber onde estavam era tatear dentro de uma escuridão orgânica desconhecida.
Mas havia outra possibilidade. A saída do vilarejo. O caminho de terra que levava para fora, passando entre os campos, em direção ao vilarejo vizinho. Se ainda existisse um “fora”. Se ainda houvesse campos. Se houvesse alguém que pudesse ajudar.
A ideia era frágil, mas o trouxe esperança, parecia ser a única que não terminava com ele preso ali. Marcinek desviou o olhar da árvore, forçando-se a não encarar os rostos fundidos no tronco por mais tempo. Cada segundo a mais parecia puxá-lo para dentro daquela paz falsa, daquela quietude que prometia descanso eterno.
Respirou fundo, ignorando o tremor nas pernas. E começou a andar, seguindo o traçado torto do que um dia fora a rua principal, em busca de um limite, uma borda, qualquer coisa que ainda pudesse ser chamada de saída.
O chão sob os pés de Marcinek protestava a cada passada, um som úmido e esponjoso que o enojava, mas o medo era um combustível infinitamente mais potente que a repulsa. Ele começou a correr. O ar pesado e adocicado queimava seus pulmões, enquanto seus olhos varriam o labirinto de madeira e carne em busca de uma ruptura.
À medida que avançava em direção ao que deveria ser a fronteira do vilarejo, as ruas deixavam de existir completamente. O espaço se tornava um estreitamento orgânico, sustentado por arcos de raízes que mais pareciam costelas de um leviatã. Ele passou por mais deles. Dezenas de rostos conhecidos e desconhecidos, fundidos à casca das árvores, enterrados em raízes no chão, sorrindo em seu sono eterno e murmurando promessas vazias. Alguns estavam tão consumidos que apenas os contornos de seus rostos marcavam a madeira, como baixos-relevos macabros. Marcinek não parou para olhar. O murmúrio coletivo das respirações parecia se agitar à sua passagem, as raízes menores se mexendo nas paredes como um sistema imunológico que, lentamente, começava a notar o antígeno correndo por suas veias.
Foi então que a luz difusa e onipresente pareceu enfraquecer. Adiante, o emaranhado colossal de troncos e fibras formava um gargalo, uma rachadura gigantesca na muralha daquela abóbada viva. E através dessa fenda, Marcinek viu algo que fez seu coração falhar uma batida.
Prata. Um feixe de luz prateada, fina e trêmula, rasgando a textura tétrica do ambiente. Atrás dela, o azul-marinho profundo de um céu noturno de verdade, salpicado por pontos minúsculos de luz estelar. A lua.
Um soluço seco escapou de sua garganta. A esperança, súbita e violenta, devolveu a força às suas pernas castigadas. Ele disparou em direção à fenda.
A entrada deste "portal", no entanto, não estava desprotegida. Dezenas dos veios brancos e espessos que ele vira no tronco central cruzavam a abertura como uma teia grotesca e latejante. A luz fria que eles emitiam pulsava em um ritmo frenético, hostil. Marcinek não diminuiu o passo. Usando os antebraços para proteger o rosto, ele se jogou contra a fenda, rasgando a pele nos veios ásperos e quentes, empurrando a madeira viva com a força do desespero absoluto.
Ele sentiu o cheiro mudar. O odor de terra podre e seiva foi cortado pela lufada cortante do ar noturno, frio e limpo. Seu tronco passou pela fenda. Ele viu a poeira da estrada de terra debaixo da luz do luar. No horizonte, viu uma estrela brilhar mais do que as outras, como se olhasse diretamente para ele, sua luz reluzindo de forma desconfortável em seus olhos.
O primeiro passo fora da estrutura sequer chegou a tocar o chão.
Um impacto surdo o atingiu em cheio na lateral do pescoço. Não foi uma raiz esticando-se para puxá-lo de volta, nem o chão cedendo sob seus pés. Foi um golpe contundente, físico e absurdamente rápido. A dor explodiu na base de seu crânio em uma estrela branca de agonia, cortando sua respiração instantaneamente e paralisando seus músculos.
A visão do céu estrelado girou de forma caótica. As pernas de Marcinek perderam as forças, transformando-se em chumbo, e a escuridão engoliu as estrelas antes mesmo que seu corpo atingisse a terra fria.
E então, nada.
O vento da madrugada no interior paulista carregava um cheiro doce, enjoativo e pesado de seiva velha, um odor que os filtros das máscaras mal conseguiam dissipar. Do ponto de observação elevado, a cerca de dois quilômetros da fronteira do município, o Sargento André Assis observava a anomalia através de binóculos de visão termal.
Onde antes havia uma cidade pacata, agora erguia-se um domo colossal e retorcido de matéria vegetal. Raízes pálidas e espessas como cabos de aço entrelaçavam-se, engolindo casas, postes e ruas, formando uma carapaça impenetrável que pulsava com um calor sutil, quase imperceptível a olho nu.
André abaixou os binóculos, os olhos semicerrados ajustando-se ao brilho das telas de monitoramento dentro da tenda de comando improvisada. O acampamento da equipe da Divisão α - "Dedos Brilhantes" era minimalista e silencioso. Eram apenas cinco operativos, mas a quantidade de dados que estavam colhendo nas últimas horas era suficiente para preencher dezenas de relatórios para o Comando de Operações Especiais.
- O crescimento estacionou, Sargento - informou o Especialista Barros, os dedos voando sobre o teclado do console enquanto ajustava a frequência de varredura do drone de reconhecimento aéreo. - As raízes principais atingiram o marco do quilômetro três e pararam de expandir há cerca de quarenta minutos. É como se a anomalia estivesse… satisfeita? Pelo menos por enquanto.
- Ou apenas em período de digestão - murmurou o Cabo Ferraz, encarregado das comunicações, com os braços cruzados sobre o pelete tático. - A questão agora é quem a gente chama para limpar essa bagunça. O relatório preliminar já está pronto para envio, Assis. Minha sugestão é acionar logo a PT2. Isso é claramente um perigo biológico de alta expansão. Eles têm o equipamento e aqueles defoliantes anômalos para derreter essa estrutura antes que ela resolva voltar a crescer e chegue na rodovia.
André debruçou-se sobre a mesa digital, analisando o mapa topográfico sobreposto com as leituras infravermelhas. Ele traçou a linha do perímetro de contenção com o dedo enluvado.
- A PT2 é a escolha óbvia para contenção e extermínio, Ferraz. O problema não é a estrutura vegetal em si. É o que está dentro dela. - André apontou para a tela de Barros. - Especialista, mostre a leitura termal interna.
Barros assentiu, digitando um comando. A tela principal piscou, substituindo a visão externa do domo por uma varredura de penetração profunda. Onde deveria haver um bloco sólido de madeira e raízes, pequenos pontos vermelhos e laranjas acenderam, formando um padrão assustadoramente regular e espalhado por toda a estrutura. Centenas deles.
- Assinaturas de calor - disse o Soldado Cardoso, que montava guarda na entrada da tenda, a voz grave saindo abafada pelo capacete. Ele deu um passo à frente, encarando a tela. - Padrões rítmicos. Temperaturas variando entre trinta e cinco e trinta e sete graus Celsius.
- São as pessoas - constatou André, o tom profissional e frio, mas com a mandíbula travada. - Acredito que deve ser a população inteira do vilarejo. As leituras de pulso infravermelho indicam que eles estão vivos. Ou, no mínimo, a anomalia os está mantendo em um estado de estase metabólica.
- Se jogarmos a PT2 lá dentro com os agentes biológicos, nós vamos fritar os civis junto com as raízes - Ferraz argumentou, passando a mão pelo capacete de forma frustrada. - Mas se solicitarmos a PT9 para uma operação de busca e resgate, podemos estar mandando os caras direto para uma armadilha. Não sabemos se esses civis ainda podem ser salvos, ou se essa coisa já os assimilou e os está usando como "bateria".
- É exatamente para isso que estamos aqui. Avaliar a viabilidade e fornecer a inteligência tática - retrucou André, endireitando a postura. - Solicite a PT2 para contenção perimetral imediata e prevenção de expansão. Mas coloque a PT9 de sobreaviso. Diga ao Comando que temos centenas de possíveis reféns fundidos à anomalia e que precisamos de uma equipe de extração preparada para cenários de contaminação de alto risco. Ninguém entra até termos certeza se a extração é possível.
Antes que Ferraz pudesse confirmar, a voz de Dias estalou no rádio. - Contato visual. A anomalia abriu uma fenda. O alvo está rompendo a membrana da estrutura.
Todos na tenda olharam para o monitor térmico. Um pequeno ponto vermelho havia chegado à periferia do mapa da cidade.
- Identifique, Dias. - Civil. Homem, jovem. Caucasiano, cabelos loiros. Parece exausto, escoriações múltiplas. Ele está abrindo um buraco na parte externa da estrutura.
- Confirmação de contaminação biológica ou cognitiva? - perguntou André, os olhos estreitos na tela. - Impossível determinar a essa distância, Sargento. Mas a fisiologia parece alterada. Ele está quase fora do domo.
André não hesitou. O protocolo para instâncias desconhecidas emergindo de anomalias ativas não abria espaço para a hesitação, nem para a empatia. - Derrube-o. Não podemos arriscar um vetor de propagação.
Na tela, o ponto vermelho deu apenas um passo trôpego e cheio de esperança para longe do pesadelo de madeira. Pelo rádio, o som oco e suprimido de um disparo rasgou a noite.
- Alvo atingido. - relatou Dias, a voz monótona de quem cumpre uma diretriz burocrática. - Ameaça neutralizada. O alvo não apresenta mais movimento.
Sargento André Assis pegou seu capacete sobre a mesa, travando-o no lugar com um clique seco. - Excelente trabalho. Cardoso, Barros, peguem os kits de isolamento de risco biológico e a maca de contenção hermética. Vamos embalar nosso convidado e descobrir o que infernos está acontecendo lá dentro.
A luz era pálida, porém natural e, de certa forma, reconfortante. Sob a lua, os cabelos loiros de um garoto, sujos e embaraçados, tomavam um tom quase invisível. Inerte no solo, Marcinek jazia.





