Um Debate Comedido
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██/██/195█

Saudações,

Me chamam de Abian. Não sei se por um acaso se recorda ou se esqueceu de mim, mas independente de qual for o caso, acho que o contato entre nós dois será frutífero. Nós nos conhecemos por ocasião de algumas convenções nas últimas duas décadas. Por ocasião de um desses encontros nós dormimos no mesmo quarto. Algum problema generalizado na hotelaria. Passamos a manhã discutindo os grandes pensadores considerados pela prática da magia atual - de membros de ordens herméticas a nômades do saara.

Conheço muito bem a fama de sua longa linhagem de demonologistas, e estou interessado em discutir alguns tópicos com sua pessoa. Sou eu mesmo um usuário constante de forças sobrenaturais e busco sempre conectar ao meu poder seres invisíveis cada vez mais poderosos. Essa busca me levou à suas publicações, especificamente A História da Necromancia Cristã e o seu manual de invocação Genealogia dos Anjos, Demonios, Jinn e Outros Invisíveis.

Eu e meus colegas somos um pouco distintos de magos e feiticeiros propriamente ditos. Entretanto, o seu entendimento me foi muito esclarecedor. Me preocupo, entretanto, que em seus escritos exista uma falta notória em alguns campos. Como muitos outros textos mágicos - sinto eu - parece preso ao tempo. Fsla de forma a tratar da magia tal qual fosse feita apenas por homens e mulheres em suas vestimentas sacrificiais com capuzes negros em meio a cantos reclusos. Sugeriria, fortemente, um empenho em acompanhar os desenvolvimentos mais modernos da magia desde o começo do nosso século, que muitas vezes buscam integrar os desenvolvimentos mais recentes da tecnologia e filosofia a magia.

Terminado meu preâmbulo, o que venho tratar com você é uma questão simples. Estive trabalhando em um sistema para a optimização dos meus rituais para a subjugação de forças invisíveis, e gostaria de debater com você formas eficientes de tornar esse sistema de escravizar entidades ainda melhor. Atualmente me empenho em desenvolver um sistema para a optimização de sacrifícios e feitiços necessários, levando em conta uma série de fatores que o computador calcula, como a fase da lua, humor, clima no geral, e outros fatores que podem vir a influenciar o processo mágico.

Uma vez que esse computador arcano que desenvolvo esteja finalizado, uma série de processos seriam possíveis. Meu objetivo final é utilizar a automação para drasticamente reduzir a necessidade em números de magos necessários, assim como maximizar a relação oferenda/magia com o resultado. Isso tornaria trivial a relação com seres invisíveis de poder menor, mas tornaria possível interagir com seres que normalmente se encontram além das capacidades de um arcanista. Seria assim possível fazer ritos mirando em utilizar seres de grande poder, como Metraton, Satã, Baal Hadad, O Diabo, O Senhor dos Diamantes e muitos outros!

Tudo isso graças a um princípio simples. Existem limitações aos fatores que podem ser calculados e desenvolvidos por um mago. Existe um claro limiar que nos deixa à mercê de fatores que não podem ser maximizados para o melhor resultado. Pense que, se magos extremamente capacitados, como John Dee, ou o seu distante parente Yussuf, tivessem a capacidade de milimetricamente averiguar as qualidades necessárias para os processos mágicos! Esse mundo seria maravilhoso e a magia poderia progredir de diversas formas.

Caso esteja interessado em contribuir com minhas invenções, seria maravilhoso. Você sempre me pareceu um bom sujeito. Ademais, nós dois possuímos sangue do oriente próximo, então creio que é mais um motivo para que nossos interesses possam se combinar. Seu trabalho me desperta grande e profunda admiração, mesmo que eu não seja capaz de concordar com todos os seus métodos e pressupostos teóricos.

Estarei ansiosamente esperando sua resposta.

– Abraão Abian


██/██/195█

Meus cumprimentos ao senhor,

Agradeço muito seus elogios. Na realidade, me lembro muito bem de quem é. Faz mais ou menos uma década desde que nós não nos encontramos mais. Fico lisonjeado que mesmo após este tempo todo se lembre de minha pessoa não só pelo meu trabalho. Ficará feliz de saber que eu também conheço seu trabalho, mesmo que por nome, já ouvi muito sobre suas realizações e feitos na área de invocação das forças invisíveis.

Com sua cortesia propriamente agradecida, agora irei tratar de seu convite. Com todo o respeito, mas se trata de uma ideia tola. Não posso senão negar sua proposta de que eu me filie a suas atividades. Creio seriamente, por razões que já irei expor, que esse projeto é na realidade insustentável, além de muito pouco prático e mal fundamentado. Mas agradeço sua consideração por minha pessoa como um grande arcanista, vinda de um sujeito como tu, significa para mim um símbolo de grande valor. Quer dizer para mim que estes arcanistas tecnocratas como você e seus colegas ainda reconhecem o bom arcanismo prático e ritualístico? Pois, isso é um bom sinal que o mundo ainda nãose perdeu.

Primeiro, por mais que não me ofenda, a mistura entre a tecnologia e o arcano me parece algo sem base. Sabe muito bem que os computadores existem desde o tempo de grandes taumaturgos antigos, como o grego Zenão, o Eremita. E mesmo assim nunca ocorreu tal mistura. Sempre foi do meu entendimento que isso nunca se tratou de uma separação dada por que nunca ocorreu a alguém, mas sim porque um arcanista já teve essa ideia e ela fracassou de forma humilhante. Caso contrário a história da magia, que é tão longa quanto a história humana, teria encontrado já na matemática e instrumentos de precisão uma solução para muitos problemas. Não concorda?

Explanando meu raciocínio, penso na magia como a mais pura forma de ciência, uma disciplina que permanece sempre acima das outras, como a filosofia e ciência. Zenão, por exemplo, muito implementou da sua filosofia em seus manuais de feitiçaria - assim como fez Hermes Trismegisto. Há aqueles também que misturaram a religião, como Dee ou meu distante parente José do Chipre - ou Yussuf, como o chamou. Houveram aqueles que utilizaram a ciência convencional a magia, como Kepler e Newton. Note que o constante é sempre a magia, nunca as suas disciplinas auxiliares.

Assim, penso eu, que anexar a computação não trará avanços. Vai apenas criar mais uma magia que utiliza outro campo. Mas isso é apenas temporário. A magia boa, que revoluciona a disciplina, depende apenas do arcanismo. Por que os mistérios do mundo respondem apenas à lente do mago, não do teólogo, nem do cientista, e muito menos do engenheiro. Caso queira verdadeiramente fazer um avanço para o mundo dos mágicos, trate de entender a pureza da feitiçaria. Esse é o principal ponto de diversos capítulos de meus textos, que sei bem que leu.

Por isso, não posso em boa consciência te auxiliar. Não seria capaz de dar a este projeto a seriedade que você pede de um parceiro ou colaborador.

– Sebastião Cípiro III


██/██/195█

Saudações,

Compreendo o que disse, e entendo que esta é uma visão muito popular. Muitos se preocupam e olham com desconfiança para a aplicação de magia às novas formas de tecnologia. E por isso digo, é sim diferente. Já houveram “computadores” no passado, mas desde os anos 30 tem se feito um progresso que mudou a realidade do globo. Assim como tantos outros avanços foram feitos no passado utilizando-se de diferentes doutrinas e campos alheios à magia pura.

O senhor, intelectual e respeitado como é, seriamente acredita que campos como a teologia, filosofia e a ciência não foram firmes em suas contribuições? A magia pode ser de fato uma nobre disciplina, grande e maravilhosa, entretanto… Seriamente pensa que os campos com que esta teve contato nada tiveram de ideias para adicionar? Cada grande pensador do arcano que entrou em contato com o diferente muito mais entendeu e muito mais se iluminou com sabedoria. Busca realmente dizer que não é o caso? A magia de seu antepassado Yussuf do Chipre, por exemplo, seria o mesmo sem as noções teológicas que este teve contato? Acha que Newton, sem a matemática, teria sido capaz de mapear o inferno como mapeou?

Honestamente, agora o que disse me enche de preocupação. Me pergunto se este pensamento veio como uma resposta a ver o que a magia tem se tornado após o grande progresso e prosperidade que foi a Revolução Industrial. Parece que desenha um limite abstrato para essa disciplina que conhece todos os segredos do mundo e nenhum dos limites que existem no globo. Qual o motivo de tal purismo? Acha que existe um risco da magia se perder de algum modo? Crê em alguma forma de desencantamento da magia por seu uso em sistemas mecânicos e eletrônicos?

Em total sinceridade, não entendo seu raciocínio. Me é estranho que queira alienar a mais bela das artes de uma parte do mundo. A eletrônica está se desenvolvendo, é inevitável que a magia se integre a esse campo do mundo. E desta forma, logicamente que o que pretendo é possível. É sim uma contribuição para a magia.

– Abraão Abian


██/██/195█

Meus cumprimentos,

As bases do meu raciocínio são simples. Na verdade é apenas uma: a realidade. O que tu menciona de forma alguma se sustenta quando levamos em consideração a prática. O que tu tem em mãos se trata apenas de uma teoria que não se sustenta de maneira alguma. Em uma demonstração prática, é evidente que a magia em sua forma ritualística e secreta original seria capaz de em muito superar qualquer maquinação que pudesse ser concebida por um indivíduo com o auxilio de tecnologias modernas.

Tão forte é essa realidade que as cerimônias e invocação de divindades e grandes invisíveis sempre se deram na antiguidade. Se voltarmos até os tempos do auge do Império Português ainda veremos magos invocando os poderes das divindades romanas, como Marte, Júpiter e Vênus. A magia grande se faz com conhecimentos sigilosos, mantidos por gerações e círculos secretos de taumaturgos. Um mago hermético propriamente treinado nos segredos de seu secto, sempre teria sucesso em grau maior a um mago tecnocrata utilizando sofisticados sistemas de medição. Isso porque o que é mágico e fantástico é regido por segredos e mistérios, a experiência do conjurador é chave.

Resta alguma dúvida? Se sim, ficarei muito feliz em clarificar o que mais for necessário.

– Sebastião Cípiro III


██/██/195█

Saudações,

Já que insiste, Sr. Cípiro, que suas práticas são sempre fundamentadas pela realidade, e uma demonstração prática para exaurir qualquer dúvida - proponho então que testamos seu argumento, com o perdão da redundância, de forma prática. Assim vamos combinar que nos encontremos na minha ou na sua residência, ajustamos uma demonstração amigável, com testemunhas, para que determinemos essa questão tão pendente para o arcanismo.

A magia é realmente uma coisa pura e sem misturas significantes, mantida por segredos geracionais, ou é um campo mole e maleável, tão diversa e alterável quanto o humano que a porta - onde a inovação é significativa para a evolução. Nossa questão, deste modo, parece ser se a magia tira sua validade se é antiga e constante ou se é renovável e sempre ameaçada por expansões.

O que pensa a respeito dessa modalidade para resolver nosso debate?

– Abraão Abian


██/██/195█

Meus cumprimentos,

Me parece bom. Como um duelo formal, haveremos de o firmar por um pacto costumeiro. Quanto às circunstâncias do duelo, peço que venha até minha propriedade na cidade de Lago Velho - no estado baiano. Nos encontremos ao finalizar nossos preparativos.

Como sei que o senhor é um homem de palavra, sei que já começa seus preparativos para o nosso encontro. E assim eu também irei iniciar minhas buscas e estratégias. Quando estivermos propriamente preparados, então nos reunimos para selar o pacto e então o confronto.

– Sebastião Cípiro III

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