SCP-009-PT — A Lança de José Cípiro, um dos Três Altos Tesouros e Fim das Forças Invisíveis do Mundo Supralunar
por 22o9L
Aval Para a Postagem:
| Item n°: SCP-009-PT | Nível 1/009-PT |
| Classe de Objeto: Seguro | Irrestrito |
Procedimentos Especiais de Contenção: SCP-009-PT deve ser contido em um armário para armazenamento de artefatos arqueológicos no Sítio PT4. Um estudo fotográfico de SCP-009-PT deve ser mantido para fins de referência e registro.
O objeto não deve ser manuseado diretamente por humanos — sendo obrigatório o uso de equipamentos como robôs e outros autômatos para manipular o item, se necessário. Testes buscando descobrir os critérios necessários para utilizar SCP-009-PT estão atualmente suspensos, sem previsão de reabertura.
Descrição: SCP-009-PT é um objeto que pertence a um conjunto de artefatos mitologicamente associado à figura do feiticeiro José Cípiro.
A anomalia se trata de uma lança ornamentada feita de ouro maciço adornada com diamantes e outras pedras preciosas variadas, com seu cabo na forma de um querubim de caracterização fiel baseada em descrições bíblicas. SCP-009-PT se encontra em bom estado de conservação, e devido a sua imunidade a degradação, não necessita de manutenção.
Quando manipulado por um indivíduo que não preenche um conjunto de critérios, SCP-009-PT irá incinerar o sujeito independente de qualquer camada de proteção física, taumatúrgica, etc.1 Devido a dificuldade de aplicar a Lei da Simpatia para analisar os rastros deixados no objeto, a totalidade dos critérios não pode ser completamente determinada, já que a grande maioria das informações obtidas se trata do sofrimento deixado por sujeitos que falharam em manusear SCP-009-PT.
Teoriza-se que SCP-009-PT seja capaz da neutralização de entidades extra planares2 ordinariamente indestrutíveis ou de difícil neutralização. Esta propriedade, embora nunca testada, é amplamente sustentada pela bibliografia disponível, como o Manuscrito LQ-178, e outros documentos produzidos no local de recuperação da lança, juntamente com o contexto histórico associado. Atualmente, a total extensão das propriedades de SCP-009-PT em relação a narrativa mitológica são pouco entendidas.
SÍTIO PT20
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MANUSCRITO LQ-178
O Manuscrito LQ-178 se trata do décimo texto organizado em uma coletânea de manuscritos sequencias de literatura esotérica, atribuídos a José Cípiro. Segue a tradução integral do texto grego para o português brasileiro.
1. Em meio às preparações para a grande jornada, em introspecção me elevei e me lancei em espírito para o céu acima, como fumaça que sobe até desaparecer. Para mundo acima dos astros fui puxado, estava diante de uma presença como nunca antes tinha sido vista no mundo. A forma, que não podia ser colocada em medidas, se fez em imagem semelhante à minha — filho do homem — e veio a conversar comigo, carregando em suas mãos uma formosa caixa com adornos gloriosos.
2. Disse ele a mim — “Sou magnificente mensageiro de virtudes, sou o Homem-de-Feitos, sou aqui comitiva para a entrega do fabuloso e grande estandarte da glória divina em forma de arma.”
3. Disse eu — “Então, Homem-de-Feitos, evocado pelo meu feitiço, está consumado? Carrega consigo nesta caixa a miraculosa arma para a aniquilação das forças invisíveis?”
4. Disse ele a mim — “É o que te digo, sua missão futura será custosa e difícil. É como qualquer outro homem, e mesmo com preparativos irá enfrentar uma tormenta furiosa, mas se conseguir manipular o conteúdo presente na caixa, será vitorioso. O caminho pelo Inferno está dado em passos marcados na areia mágica de seu chão, deixada pela divindade que por ali já passou. Se os juízes lhe permitirem usar esta gloriosa arma, será vitorioso na sua longa viagem.”
5. Disse ele a mim — “Este é um potente tesouro. Crava-o no coração de qualquer invisível e esse irá conhecer o fim. Não se importe se for um grande espírito, ou se for rei de centenas de milhares de legiões de outras forças naturais. Acerta o golpe e a criatura há de morrer. Esta morte é tão verdadeira e tão mortal que até aqueles que não conheciam o fim da vida antes sucumbirão diante da arma dourada.”
6. Abriu então diante de mim a caixa e a luz de tudo o que é belo banhou meus olhos. Em minhas vistas se colocou a manifestação da violência e perfeição do ofício do armeiro. Era tão maciça que não poderia quebrar. Sua ponta afiada venceria qualquer força sutil e penetraria qualquer força sólida. O projeto de sua criação era tão secreto e mágico que seria confuso até ao mais sábio.
7. Disse eu — “Homem-de-Feitos, inteligência arcana que invoco ao meu serviço, quem é o ferreiro responsável por tal arma?”
8. Disse ele a mim — “Pois veja, o pai do demiurgo — aquele que criou o arquiteto da criação. O senhor do verbo, das histórias e do fim das histórias, do começo e do fim das frases. E pelo poder do verbo Ele estende a essa arma os seus digníssimos poderes.”
9. Contemplando, peguei o utensílio. Passei em seu julgamento e agora portava a ferramenta que permitiria até um camponês descer ao Inferno e sair. Armado com isso fui imbuído com a glória divina de sua forma. Diante de mim cairia qualquer espírito ou força que não aceitasse sua submissão. E assim se foi o Homem-de-Feitos, essa manifestação chegou ao fim.
Tradução do Livreto X — De Homem-de-Feitos A José do Chipre, texto Sem Autor, feita por Professora Anabela Ramos Ramos, Ph.D, Diretora do Departamento de Letras do Sítio PT20.
DOCUMENTO ASSINADO DIGITALMENTE POR NATALICIO DE BORGES WILSON, PH.D. — DIR. RESP. DAASI DO SÍTIO PT20, DIR. ACERVO DO SÍTIO PT20.
SÍTIO PT4
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EXCERTO — UMA ABSTRAÇÃO SOBRE OS TRÊS ALTOS TESOUROS DE SÃO JOSÉ CÍPIRO
[…]
No atual momento, não se tem a exata ideia de como SCP-009-PT opera. A anomalia nunca pode ser utilizada pela Academia ou Fundação Lusófona, e mesmo muito antes de 1902 não existe qualquer fonte posterior ao abandono das ruínas que nos permita entender melhor o objeto. Os relatos disponíveis foram escritos em um contexto específico de um fenômeno esotérico particular que se desenvolvia na época.
Podemos sim assumir que SCP-009-PT possui propriedades anômalas que inspiraram de algum modo os autores. A anomalia pode muito bem ter sido usada, e provavelmente foi usada, e demonstrada extensivamente para esses. Mas mesmo assim nunca fomos capazes de testar a lança de forma apropriada, em um contexto científico-acadêmico.
A literatura encontrada pode sim fornecer grandes insights a respeito da taumaturgia envolvida, como muitas vezes é óbvio e evidente. Mas da mesma forma existem problemas em simplesmente assumir um texto destas peculiaridades como verdade. Diferente de outros casos, SCP-009-PT apenas foi descrito, mas nunca utilizado.
O que se entende, baseado nas fontes, é que SCP-009-PT funciona como um instrumento capaz de neutralizar certos tipos de seres sem dificuldades. Seus autores utilizam o termo “invisíveis”, no contexto da tradição específica deles, se referindo a entidades exteriores à materialidade criadas por Deus.
[…]
Mas agora vamos a um hipotético. SCP-009-PT foi descrito nos textos que aparece como uma arma excelente. Às vezes suas propriedades não são explicadas por extenso ou sequer ditas — mas no caso que são, quase sempre se resume a uma arma capaz de eliminar qualquer entidade extraplanar. Estou sendo anacrônico e usando um termo moderno, vale notar.
Não sabemos os limites de SCP-009-PT, mas o pouco que foi possível coletar utilizando da Lei da Simpatia, juntamente com a bibliografia disponível, recontam que é uma verdadeira arma mortal. O que não falta são relatos onde a Lança de José Magno é capaz de devastar diversos tipos de entidades. Sempre se afirma que a arma é invencível e infalível, é o que esta literatura diz.
[…]
Excerto do ensaio Uma Abstração Sobre os Três Altos Tesouros de José Cípiro, escrito por Jean Evangelista Cezar, Ph.D, especialista da Superintendência de Taumatologia e Taumaturgia.
DOCUMENTO ASSINADO DIGITALMENTE POR ALCEU CARVALHO DE AZEVEDO, PH.D. — DIR. RESP. DAASI DO SÍTIO PT4.
SCP-009-PT foi originalmente recuperado em 1902 por um time expedicionário da Academia, encabeçado pelo Doutor Ênio Augusto Bruning. Esta viagem foi uma de várias que compuseram um esforço da instituição para coletar e investigar diversos conjuntos de tradições mágicas ao longo da Europa, Ásia, África e América. Esses esforços eventualmente renderiam grandes contribuições ao que eventualmente se tornaria a Arcana Maior da Fundação Lusófona.
Uma segunda expedição foi feita ao mesmo local na década de 1950, novamente encabeçada por Dr. Bruning. Esta segunda, entretanto, não obteve o mesmo sucesso da primeira, rendendo apenas descobertas menores no contexto de SCP-009-PT. Em anexo, segue a documentação relevante produzida tanto pela Academia, quanto pela Fundação Lusófona em relação a ambas as expedições e à figura de José Cípiro.
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EXCERTO — PATRIARCAS, MATRIARCAS, SÁBIOS E SÁBIAS
O seguinte excerto discute a natureza da figura do feiticeiro histórico e mitológico José Cípiro, sua mobilização por linhagens de taumaturgos e uma versão condensada de sua narrativa folclórica conforme as fontes consultadas pelo autor.
[…] remontam a José Cípiro — também chamado de Yussuf do Chipre, José Magno ou alguma outra variação destes. Em relação a realidade dessa conexão, eu a considero uma discussão menor. Para a Família Cípiro é interessante se fixar a esta figura das tradições esotéricas cristãs. Durante sua existência milenar, a perspectiva no manuseio de demônios veio a mudar muito, já tendo sido aceita, recusada e perseguida em outros contextos. Por muitas vezes, as artes necromânticas3 foram entendidas como apenas uma dança feita entre o diabo e um mago que eventualmente levaria a alma do praticante ao inferno.
Perceba, então, como é vantajoso para uma tradição de magos fixarem-se a figura do José Magno. Ele era uma figura incorruptível, incólume, que dominou diversos espíritos, demônios, etc. e terminou sua vida sem ceder às forças do mal. É um mago de respeito com uma grande tradição de sucessos em suas histórias. Se compararmos, por exemplo, ao Salomão Rei de Israel, esse terminou sua vida em desgraça, Cípiro então seria uma espécie de Salomão que “deu certo”, que seguiu até as últimas consequências e obteve a maestria máxima.
Sob seu controle, em seu auge, José Magno possuía um grande conjunto de aprendizes, mas não só isso. Ele era uma figura que tinha sob seu controle dezenas e centenas de legiões infernais. Possuiria acesso a Baal, um grande conjunto de duques e príncipes infernais. A quantidade de demônios descritos em dicionários infernais explicados como com relação à figura é muito grande.
Na realidade, a queda de José Cípiro teria se dado por uma revolta de seus aprendizes. Para isso há uma série de lendas e narrativas que retratam o motivo. As mais notórias afirmam ou que o mago havia sido traído por um aprendiz que queria roubar os Três Altos Tesouros, outra que afirma sobre Deus vindo coletar sua alma diretamente para o céu e uma terceira insiste que, por um motivo ou outro, José Cípiro foi desmembrado por espíritos invisíveis, talvez num duelo com outro mago.
Mas é impossível falar de José do Chipre sem mencionar uma das maiores partes da história de sua vida. O mito dos Três Altos Tesouros. Segundo a tradição, esses seriam artefatos mágicos de imenso poder que foram coletados/criados pelo feiticeiro ao longo de sua jornada nas artes arcanas. Existem múltiplas narrativas de origem para cada um destes itens, e em outras versões os três compartilham um ponto de origem comum.
Estes Três Altos Tesouros — nas duas versões mais populares na atualidade — entregues diretamente por um anjo ou pegos em uma visita ao trono de Deus, são de fato relíquias existentes. Muitos grupos já afirmaram possuir algum dos três, assim como versões fraudulentas dos objetos já foram feitas. Mas de fato existem artigos genuínos, sendo artefatos completamente impossíveis de replicar no mundo da taumaturgia. O Anel, o Chicote e a Lança.
O Anel seria capaz de invocar demônios extremamente poderosos, capazes de torcer e dobrar as forças naturais e sobrenaturais — a realidade. A Lança seria a arma definitiva que poderia ser utilizada por um mago, capaz de matar todo o tipo de espírito e outras criaturas. E ainda existe o Chicote, este que seria capaz de dissipar qualquer atributo mágico atrelado a outros artefatos. Isso considerando que a concepção da história é de fato a verdadeira.
Uma vez reunidos novamente, os Três Altos Tesouros […]
Excerto do capítulo Patriarcas, Matriarcas, Sábios e Sábias do livro Linhagens Taumatúrgicas da Europa, Mediterrâneo e Oriente Médio, escrito por Professor Alfredo Khan Filho, Ph.D, Diretor do Departamento de História Antiga do Sítio PT20.
DOCUMENTO ASSINADO DIGITALMENTE POR NATALICIO DE BORGES WILSON, PH.D. — DIR. RESP. DAASI DO SÍTIO PT20, DIR. ACERVO DO SÍTIO PT20.
A ACADEMIA — CAMPUS ATHENA
O seguinte é a primeira metade do parecer feito por Professor Doutor D. Henrique da Silveira, enviado ao Excelentíssimo e Venerável Reitor D. Teixeira do Telhado. Em seu relato, Doutor Silveira — como segundo em comando da expedição — relata a investigação que se decorreu e as conclusões obtidas pelo time.
Nota-se que o Professor Doutor Ênio Augusto Bruning ainda se encontra indisposto dados os eventos que se passaram no Chipre.
Passadas duas semanas do nosso desembarque, já tínhamos uma boa noção de onde deveríamos ir. Professor Bruning e Dra. Ramos foram a conversar com autoridades locais a respeito do místico e mágico. Enquanto isso, eu e o Dr. Dornelles ficamos encarregados de reconhecimento e preparação dos periféricos necessários para a escavação que viria.
O que era sabido para a nossa equipe sobre as ruínas era que, primeiro essas pertenceram a José Magno, e depois nunca foram de ninguém. Ao que contavam os habitantes, e também ao nosso conhecimento, foram uns mil e setecentos anos de abandono. Logicamente todo esse tempo havia atraído histórias terríveis.
De acordo com os feiticeiros do Chipre que foram consultados, as ruínas não eram desabitadas, mas que eles sabiam que ninguém entrava ou saía há séculos. O inquilino, diziam, era um homem franzino e bigodudo que só comia carnes. Ouvimos desde que ele era um taumaturgo milenar e até que era O Diabo, Baal ou outra coisa.
Considerando todas as lendas sobre a suposta Fortaleza de Cípiro, essa pareceu a mais razoável. Não só pela fonte serem praticantes do arcano e não populares, mas também porque era uma tese mais plausivel. Não é incomum que certos locais mantenham guardiões e ademais isso bateria com a narrativa lendária.
Também era uma indicação potencialmente preocupante, pelo menos para a Dra. Ramos. Ela apontou, e Bruning e Dornelles concordaram, que a presença de um guardião poderia indicar uma relevância maior no local. Talvez, especulamos, algum artefato taúmico de alta potência estivesse em meio às ruínas. Inicialmente se esperava só documentação, quem sabe múmias.
Nosso debate seguiu, eventualmente provocou algumas tentativas infrutíferas, mas não muito longas, de tentar encontrar mais informações sobre o inquilino da Fortaleza. Nenhum popular local tinha se aventurado nas ruínas por tanto tempo que não havia um relato útil. Em sua maioria pequenas historietas sobre monstros vagos e coisas que diziam mais sobre o medo de um legado mágico maligno na ilha.
Uma coisa relevante de mencionar, acho, é que não encontramos o momento no folclore onde as ruínas se transformam em uma fonte de mal. Já se parte de um pressuposto de que aquele local é uma concentração de tudo de ruim. Não existe um momento de corrupção, muito menos algo que remonta a antes do castelo ser em ruínas.
A ACADEMIA — CAMPUS ATHENA
O seguinte é a segunda metade do parecer feito por Doutor D. Henrique da Silveira, enviado ao Excelentíssimo e Venerável Reitor D. Teixeira do Telhado. A seguir consta uma explicação detalhada da investigação do time sobre as ruínas nortenhas.
Partimos pela manhã para averiguar as ruínas. Dr. Bruning liderou-nos a dentro com toda a sua experiência aventureira. Dra. Ramos quase caiu em uma vala durante nossa busca inicial. Achamos o lugar bem destruído, cheio de ervas e plantinhas crescendo.
Estávamos atentos na procura do possível guardião, mas achamos primeiro os cômodos onde o sujeitinho vivia. Eram um espaço fora da materialidade das ruínas acessível por vários pontos. Consistia em uma cozinha, um armazém e um quarto.
Todos os cômodos estavam perfeitos. Não havia sequer um único grão de poeira e nem móveis ou objetos desajeitados. Nos deu a impressão de um sujeito humano, bem, um que fosse estritamente carnívoro, mas nenhum de nós era particularmente entendido em dietas. Até onde sei existem homens primitivos que se alimentam apenas de carne. Achamos livros, comida, decoração e demais mobília de uma casa.
O inquilino das ruínas apareceu após alguns momentos. Dra. Ramos, a mais sensível de nós, foi a primeira a notá-lo. Ele, como se fosse um anfitrião, nos cumprimentou e fez uma mesura, falou em um bom e claro português e conversamos. Se chamou pelo nome de “Yusuf” e não se apresentou direito. Falou que éramos bem-vindos e se precisássemos de alguma coisa era só necessário que pedíssemos.
Dornelles, demonstrando excelente iniciativa, tomou as rédeas da conversa e assim seguimos. Bruning, eu e Ramos nos juntamos e fomos descobrindo exatamente a situação em que estávamos. O sujeito à nossa frente era de fato um guardião, não sabíamos exatamente de que natureza, mas ele nos explicou as regras de seu joguete. Ficamos todos aliviados que Yusuf era do tipo de protetor de tesouros que não seria simplesmente violento sem razão ou motivo.
Para nós o homem franzino impôs três regras. Primeiro era que não deveríamos tocar na comida do próprio Yusuf, na carne que ele tanto adorava. Já a segunda instrução era que sob nenhuma hipótese deveríamos tentar alguma leitura simpática ou divinação de nenhuma maneira naquele local. E a terceira estipulação era que poderíamos pegar o que quiséssemos, mas com cuidado, já que alguns objetos eram ariscos ao toque.
Logicamente, nossa primeira pergunta — vendo que as instruções eram tão simples — foi perguntar como ninguém nunca se aventurou por aquelas ruínas abertas e com um vigia tão pacífico. Yusuf nos respondeu que no antigo castelo não deveria existir nada de interessante, essa foi a história que ele nos contou. E depois disso a série de eventos notáveis nas ruínas ia chegando ao fim.
Foram recuperados diversos textos, um total de doze pergaminhos e vinte livros, referentes ao assunto do místico. Todos os objetos foram pegos com muito cuidado e camadas de proteção, uma vez que estávamos cientes do risco de objetos taumatúrgicos que não tivessem uma assinatura à mostra. Um objeto táumico em questão chamou mais atenção, na realidade foi o único que encontramos.
Uma lança muito bem ornamentada — que julgo ser ou feita de uma liga de ouro ou banhada pelo dourado. Ênio coletou o objeto com muito cuidado e depois disso começou a passar mal. Provavelmente sua natureza idiossincrática não dialoga bem com a lança. Não foi muito grave.
Atualmente, o chamado Homem Imortal se encontra indisposto justamente pelo seu encontro com o artefato. Depois conseguimos verificar que não era um efeito da lança, mas sim uma aversão do nosso capitão ao objeto. Ele, então, rapidamente nos instruiu para que tomássemos cuidado especial com aquele artefato e assim foi feito.
Dra. Ramos está atualmente empenhada, como uma boa filóloga, na tradução de todos os documentos recuperados. Dr. Dornelles está atualmente preocupado com a recuperação de seu mentor, Bruning, e está acompanhando o tratamento junto à equipe médica do Campus Athena.
Como capitão interino da expedição ao Chipre de 1902, assino este documento e segue em anexo o inventário de material recuperado, juntamente com registros de equipe e diários de campo produzidos pelos integrantes do time. Agradeço ao Excelentíssimo e Venerável Reitor, Dom Teixeira do Telhado e a devida comissão.
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EXCERTO — A SOMBRA DE YUSSUF DO CHIPRE: UMA NOVA PERSPECTIVA HISTORIOGRÁFICA SOBRE A EXPEDIÇÃO DE 1902
Em 15 de Janeiro de 1895, Dom Teixeira do Telhado se reuniu com demais cabeças de colégios e reitorias da Academia, juntamente com representantes da nobreza, para iniciar um projeto, hoje muito conhecido, de toda a estrutura da Fundação Lusófona. Se iniciou naquele momento as primeiras tramitações para a formação da hoje Teoria da Arcana Maior.
Dentre os locais de interesse elegidos pela Comissão de Expedições, haviam lugares do distante Extremo Oriente, Oriente-Próximo, América, Magreb… e chegou ao ponto de que a Universidade estava se mobilizando ao redor de todo o mundo para tratar do assunto. Alvos comuns eram bibliotecas antigas, ruínas mágicas e místicos enigmáticos — e, voltando aos centros da academia, os teóricos só faltavam morrer de falta de sono.
Meu time era composto pelo finado Jorge Luís Ubirajara Dornelles, Henrique da Silveira e o atual diretor do Sítio PT20, Dr. Ênio Augusto Bruning. Fomos designados para partir por alguns meses até uma ruína nortenha do Chipre. Uma imponente antiga fortaleza, que coloca medo no coração de todos. O explorador Charles K. Thompson, por exemplo, nos conta o seguinte relato:
[…]
[os locais] Falam sobre as ruínas como se fosse o covil de Satã. Um gigantesco ponto negro de onde emanam contos sobre canibalismo, incesto, relações sexuais com seres de outro mundo — e sem fim. Ninguém soube me dizer o que deu origem ao maligno na cidadela, só que era um local onde o mal não só habitava, mas estava impregnado nos poros dos tijolos usados na construção.
Nunca vi menção de José Magno em meio às falas, parece que sua história foi esquecida pelos populares em troca de um folclore terrível. Não posso dizer que me convenci, mas não quero arriscar um encontro com forças mágicas […]
Ao que se sabe Thompson então seguiu para o norte da África e desceu pelo Magreb, onde continuaria suas “aventuras” e escreveria mais livros. É complicado bater o martelo, entretanto, e dizer que todas as mulheres e homens ao longo de ~1700 anos fizeram como o inglês e evitaram as ruínas. Na realidade é muito mais que provável — eu diria certo — que muitos passaram pelas ruínas.
O que é certo é que quando o time encabeçado por Dr. Bruning chegou à ilha, o que não faltou foram relatos e histórias semelhantes às que o nosso colega explorador inglês parece ter sido informado sobre. Realmente havia, e existe ainda, uma mitologia acerca do local como uma fonte de maldade e antagonistas no folclore e histórias da população local.
Quando chegou nossa vez de ir ao local, encontramos um guardião das ruínas — que discutiremos mais tarde — e o Objeto Anômalo de Número 009, juntamente com numerosos volumes e documentos, a maioria que eu mesma traduzi. Mas, fazendo uma pequena comparação, posso dizer que é necessária mais pesquisa sobre estas ruínas.
É desconhecido quando a associação do local com o mal começa, mas existem algumas indicações. E para isso eu levanto algumas hipóteses, que concedo serem baseadas em muito no material bibliográfico produzido pela minha própria equipe e depois no retorno feito na década de 50. Infelizmente, nossas informações são muito escassas.
A primeira possibilidade é que a associação de José Cípiro como um grande domador de demônios acabou se traduzindo em um entendimento do local como diabólico. As visões a respeito do uso de demônios e outras forças pela magia não são necessariamente positivas. É notório que vários grupos de descendentes de José Magno, como os Cípiro em Portugal e Brasil, se esforçam muito para preservar certa imagem de sujeitos bons e justos.
Não existem registros à disposição de como esse fenômeno se comportou no Chipre e muito menos especificamente na região nortenha onde as ruínas se localizavam. Mas os registros mais antigos localizados pelo time expedicionário são já do século V e.C., com a menção mais antiga se referindo as “ruínas dos espíritos malignos”.
SCP-009-PT não é desconhecido para os acervos disponíveis. Os materiais recuperados de dentro das ruínas são ricos em comentários ocasionais, e alguns mais longos, sobre este artefato e outros. No que trata os fenômenos literários que circulavam na região, as menções são mais escassas. Existem citações mais genéricas de uma “arma dourada” e também “lança do Senhor”, mas nada certo ou necessariamente profundo.
[…]
Excerto do artigo A Sombra de Yussuf do Chipre: Uma Nova Perspectiva Historiográfica Sobre A Expedição de 1902, escrito por Professora Anabela Ramos Ramos, Ph.D, Diretora do Departamento de Letras do Sítio PT20.
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EXCERTO — A SOMBRA DE YUSSUF DO CHIPRE: UMA NOVA PERSPECTIVA HISTORIOGRÁFICA SOBRE A EXPEDIÇÃO DE 1902
[…]
Agora, vamos retornar aos eventos da expedição. O time encabeçado por Professor Doutor Ênio Augusto Bruning encontrou um guardião das ruínas, um homem que se chamava de Yusef. Yusef não estava mais nas ruínas quando o retorno foi feito na década de 50 para uma escavação arqueológica mais atualizada e própria.
Os cômodos que um dia ele usou de quarto não existiam mais. O sujeito não foi achado em nenhum lugar da região e não existe notícia. É possível que ele de fato fosse um guardião taumatúrgico que cumpriu seu propósito e por isso se demanifestou. A passagem “e será colocado um cão de guarda à imagem do homem” do Pergaminho LQ-135, localizado no sítio em 1902, parece fornecer algum subsídio a essa hipótese.
Passados 50 anos, o folclore local se sustentava como em 1902 — as histórias mudaram, mas as ideias ainda existiam, mesmo que novas noções tenham sido introduzidas. Já o castelo em si quase não existia mais. Atualmente, a estrutura não está mais conosco de nenhuma forma. Foi completamente tomada pela natureza e soterrada. Se hoje a Fundação Lusófona desejasse fazer um segundo retorno, seria necessário um grande e complexo processo de escavação.
Nesta segunda expedição, após muita deliberação foi feita uma leitura usando a Lei da Simpatia. O finado Dr. Sarafaguinho Pereira foi o responsável pela tentativa, e com isso sofreu suas consequências. O Dr. Bruning, que encabeçou a segunda expedição também, assumiu toda a culpa pelo incidente e o episódio o perseguiu pelas décadas seguintes.
Falta material concreto para determinar exatamente o que existe de danoso nos rastros de taumaturgia deixados no castelo. Os efeitos ocorridos em Dr. Pereira não foram o suficiente para determinar nada, assim como análises posteriores. O time expedicionário retornou mais cedo para o Campus Athena após o incidente e pouco material significante foi coletado.
[…]
Excerto do artigo A Sombra de Yussuf do Chipre: Uma Nova Perspectiva Historiográfica Sobre A Expedição de 1902, escrito por Professora Anabela Ramos Ramos, Ph.D, Diretora do Departamento de Línguas e Filologia do Sítio PT20.
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EXCERTO — A SOMBRA DE YUSSUF DO CHIPRE: UMA NOVA PERSPECTIVA HISTORIOGRÁFICA SOBRE A EXPEDIÇÃO DE 1902
[…]
Textos recuperados durante a primeira expedição são registros e escritos de seguidores de José Magno. É bem possível, segundo a literatura, que o castelo tenha sido de fato pertencente ao mago. Entretanto, também existem pelo menos outras três ruínas que podem ter sido a residência nominal da figura. Mas o que está certo é que o sítio em questão era um centro dos seguidores da tradição esotérica relacionada ao Cípiro.
Estes seguidores produziram manuais de invocação e manifestação a respeito de demônios, anjos, fantasmas e jinn, além de textos com raízes no conceito alquímico de transmutação, calendários astrológicos, descrições de viagens planares e experiências místicas, juntamente com registro da produção de feitiços. Uma coletânea de textos atribuídos diretamente a José do Chipre foram encontrados.
Estes documentos são versões de que diferem de outras versões localizadas anteriormente, talvez versões mais antigas, como uma analise gramatical sugere. A exceção sendo o Pergaminho LQ-135 e o Manuscrito LQ-178. Esse primeiro sendo um conjunto de instruções para um feitiço que criaria um “familiar à imagem do homem” para “guardar o Excelente Tesouro” e este segundo sendo uma conversa entre duas dramatis personæ, José Magno e o Homem-de-Feitos, que descreve uma história de como José Cípiro teria obtido a Lança, um de seus Altos Tesouros, mantendo ambíguo como este teria recebido os outros.
[…]
A figura de José Magno continua intrigante e misteriosa. Sua presença é cada vez mais relevante conforme os diferentes ramos de seus descendentes, os Cípiros no mundo lusófono e seus parentes Chypir no mundo anglófono e os Chypre na França. Sem contar com os ramos germânicos, espanhóis e outros. Mas para eles, José do Chipre é meramente um recurso retórico.
Quanto à figura histórica, a bibliografia disponível é escassa. O que se tem de fixado é a imagem de um mago (e às vezes guerreiro) que era reconhecido por seus feitos ao redor dos locais onde passava. Mas sua presença de facto nas ruínas visitadas é difícil de determinar, e se aconteceu não é sabido por quanto tempo ocorreu.
Notoriamente, a presença de SCP-009-PT, atribuído como um dos Três Altos Tesouros, por si só indica muito pouco. As fontes são rasas ao explicarem sobre os motivos do item ser guardado naquele local ou em que circunstância fora deixado. Os manuscritos são muito mais preocupados em preservar a história de origem do objeto que circulava naquele meio. E devemos frisar que mesmo sendo a mais antiga fonte não é a única, e não necessariamente é a original ou a que bate com os fatos da realidade.
O que é seguro determinar é que José Cípiro é o centro de um fenômeno esotérico da cristandade maronita que se expandirá para a Europa e Ásia, assim chegando em outras cristandades, e outras religiões abraâmicas — escola de pensamento essa que busca validar a manipulação de forças tradicionalmente malignas ou dignas de desconfiança mediante justificativas teológicas pautadas na soberania de Deus e seu controle absoluto sobre o mundo.
O papel de SCP-009-PT como artefato nesse sistema, assim como os outros Altos Tesouros, é misterioso, mas é fácil de entender sua importância. Seus vários propósitos e habilidades atribuídas todas buscam validar este sistema cosmológico que busca subjugar as forças do mal para que estas sirvam os taumaturgos benignos.
Acerto do artigo A Sombra de Yussuf do Chipre: Uma Nova Perspectiva Historiográfica Sobre A Expedição de 1902, escrito por Professora Anabela Ramos Ramos, Ph.D, Diretora do Departamento de Letras do Sítio PT20.
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